ENSAIOS SOBRE A CRISE – IV: Comércio mundial caiu em 2009 como não acontecia há 70 anos

Tudo indica que um dos “colaterais” mais pesados desta Grande Recessão – como a baptizou o Nobel Paul Krugman – vai ser o trambolhão nas trocas mundiais no ano passado. Ficará na história como a 5ª ou 6ª maior quebra do comércio internacional desde o início do século XX.

A última vez que uma contracção semelhante no comércio mundial ocorreu foi no ano que ficou baptizado como o da “recaída” na Grande Depressão (double-dip, no economês anglo-saxónico).

Então, as trocas mundiais, em volume, encolheram 12% e no ano passado terão emagrecido entre 11%, segundo os dados mais recentes da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE), ou 12,2%, segundo a Organização Mundial do Comércio (OMC), ou 11,3%, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI). “Isto foi mesmo grande”, comentou, coloquialmente, Patrick Low, economista-chefe da OMC, numa conferência de imprensa.

Mas ao contrário de 1938, agora, em 2009, o produto interno bruto mundial quebrou um pouco mais – há 70 anos, apenas, 0,1%, mas no ano passado 0,8%, segundo o FMI, ou 0,9%, segundo a OCDE.

Casos “anómalos”

É intrigante esta constatação de um efeito brutal no comércio mundial que é um múltiplo significativo da recessão na produção de bens e serviços.

O caso de 1938 e agora o de 2009 são “anómalos” em períodos de recessão, se compararmos com as contracções do comércio internacional nas primeiras três décadas do século XX, mesmo durante o período oficial da Grande Depressão mundial entre finais de 1929 e 1933, quando o PIB mundial quebrou acima de 5%, um recorde excepcional em tempo de paz.

No período mais negro de derrocada do comércio internacional, com quebras entre os 20 e mais de 30%, durante o período oficial da Grande Depressão e do crescimento do proteccionismo e do militarismo pré-guerra, o múltiplo havia variado entre 3,5 e 4,8. Em 1938 e 2009 disparou.

Em relação a 1938, se recuarmos na história, sentimos que a “culpa” do ocorrido deve ter sido do clima de guerra mundial iminente e da desintegração acelerada do comércio internacional em virtude do fechamento em blocos comerciais liderados pelas grandes potências de então, que acabariam por se envolver na 2ª Guerra Mundial logo no ano seguinte.

Alguns desses blocos, como os ligados ao nazismo e ao imperialismo japonês, viviam praticamente em autarcia ou contavam com o contrabando que, depois, não vem nas estatísticas. Por seu lado, as potências ocidentais guerreavam económica e financeiramente entre si no campo do proteccionismo, das dívidas da guerra mundial anterior e das taxas de câmbio.

A confluência de toda esta acumulação de energias negativas acabaria por apanhar o “buraco negro” de 1938.

É, por isso, que quando se fala da recaída de 1938 convém não olhar, apenas, para a quebra da produção (que foi ligeira), mas sobretudo para o efeito dramático no comércio mundial. É claro que a derrocada comercial tinha a mão da geopolítica, e não, apenas, de factores “económicos”.

O contexto geopolítico é, aliás, “crucial na determinação da extensão do comércio internacional”, diz o professor irlandês Kevin O’Rourke, autor de ‘Power and Plenty: Trade, War, and the World Economy in the Second Millennium’, um volumoso trabalho de investigação sobre o comércio mundial nos últimos mil anos que o economista do Trinity College dublinense concluiu com Ronald Findlay, da Universidade de Columbia, nos EUA.

Como a situação geopolítica actual não é similar à dos anos 1930, os economistas debatem hoje o porquê de uma recessão mundial inferior a 1% ter provocado um desgaste nas trocas mundiais 12 a 15 vezes superior.

Efeito de ampliação

A OCDE adianta que, mais do que as centenas de decisões proteccionistas tomadas desde a cimeira do G20 de Novembro de 2008, foi uma conjugação de quatro factores que ajudou a avolumar a quebra da procura mundial – uma espécie de mecanismos de transmissão ampliada.

Em primeiro lugar, a composição dos produtos que mais “desapareceram” das trocas mundiais – os bens de investimento (maquinaria industrial, equipamentos informáticos, por exemplo), os produtos de consumo duráveis (vide os automóveis) e consumos intermédios (como o ferro e o aço). Paradoxalmente, estas categorias de bens ocupam uma fatia desproporcionadamente mais elevada no comércio internacional do que na produção mundial. Entre o 4º trimestre de 2008 e o 3º trimestre de 2009 foram as três categorias que maiores quedas trimestrais tiveram, segundo estimativas da Organização Mundial do Comércio.

Depois, o tipo de novas cadeias de fornecimento globais que existem no mundo desde os anos 1980, fruto da “morcelização” da produção em diversas operações e estádios, com o disparo do recurso à subcontratação sem fronteiras, tendo em conta considerações de optimização de custos. Nestas cadeias globais, os bens cruzam as fronteiras várias vezes durante o processo produtivo e de finalização. A fragmentação do processo produtivo provocou o maior disparo na história económica do comércio de “componentes”, um termo que, aliás, entrou no léxico comum.

Por isso, as estatísticas contam o mesmo “conteúdo” diversas vezes nos fluxos que são percorridos. Resultado: as exportações cresceram muito mais do que a produção. Este rácio aumentou sistematicamente desde 1985 e disparou, inclusive, entre 2000 e 2008, até ao eclodir do pânico financeiro.

A consequência da crise que irrompeu só poderia ser o reverso desta medalha: os fluxos comerciais mundiais caíram mais abruptamente do que a produção. As novas cadeias mundiais de fornecimentos potenciam os dois fenómenos: ampliam positiva e negativamente.

Também surgiu um terceiro constrangimento depois do pânico financeiro: a súbita “secagem” do crédito às exportações e às importações e a redução do crédito à aquisição de bens de investimento e de consumo duráveis.

Finalmente, o facto do declínio do comércio ter ocorrido sincronizadamente no globo. As cadeias de fornecimento já referidas acima e a velocidade actual da informação permitem uma capacidade de resposta quase instantânea por parte dos agentes económicos em qualquer ponto do mundo. O que é excelente em tempos de bonança, permitindo rapidamente a resposta a oportunidades, transforma-se num dominó de decisões negativas em tempo de recessão. A OCDE acha que foi o que aconteceu agora.

Uma nova clivagem

Apesar desta sincronia, houve assimetria nas quedas no comércio mundial em 2009. Tendo em conta que as exportações mundiais de bens e serviços emagreceram 12,2% durante o ano passado, o Japão foi o país que viu estes fluxos caírem mais (24,9%), logo seguido da União Europeia (14,8%) e dos Estados Unidos (13,9%). O Japão foi vítima justamente da sua inserção profunda nas cadeias mundiais de componentes, adiantou a OMC.

O país, entre os grandes, que melhor resistiu foi a China (as exportações caíram 10,5%, abaixo da média mundial). Sinal de mais uma mudança geoeconómico importante, a China assumiu em 2009 a liderança entre os países exportadores (9,6% destes fluxos), seguida da Alemanha (9%) e Estados Unidos (8,5%), e a maior distância pelo Japão (4,7%), Holanda (4%), França (3,8%) e Itália (3,2%).

Segundo alguns analistas, como o futurista francês André-Yves Portnoff, iremos assistir cada vez mais a uma clivagem entre países “financeiros” e países “produtivos”. “As tensões acumulam-se entre os mestres da financeirização mundial e os campeões da economia real”, afirma Portnoff, professor na Haute École de Gestion, de Friburgo, e director do Observatório da Revolução da Inteligência na revista francesa Futuribles.
Kevin O’Rourke, por seu lado, insiste na importância de dar a máxima atenção ao andamento da geopolítica, como sublinha na entrevista à EXAME [ver no final do artigo]. No livro referido, ele analisa dois casos simbólicos dos últimos 60 anos.

Os efeitos radicais da alteração de correlação de forças entre grandes potências, de criação de novos blocos mundiais e de uma paixão pela substituição de importações em largas partes do mundo, depois do final da 2ª Guerra Mundial, provocaram uma profunda reorganização do comércio internacional que se sentiu nos anos 1950 com algumas contracções. Na realidade, como sublinha O´Rourke, os níveis de “abertura” no comércio internacional que existiam antes da 1ª Guerra Mundial só foram recuperados em 1973 em algumas partes do mundo e em 1992 noutras.

Outro caso foi o efeito do choque petrolífero, um resultado, inesperado, de um sobressalto geopolítico, o da emergência dos países produtores de petróleo e o uso por estes da “torneira” do crude como arma política no Médio Oriente. O comércio internacional quebrou em 1975. A própria dinâmica de crescimento do comércio mundial abrandou: de 7,8% entre 1945 e 1973 (apesar da Guerra Fria e da “saída” dos circuitos do comércio mundial de muitas ex-colónias e de muitos países apostados na substituição de importações) para 4,5% entre 1973 e 2000.

Uma aceleração do crescimento das trocas começa a ser observada a partir de 1990. O ritmo entre 1990 e 2000 foi de 6%, abaixo do verificado no pós-guerra, mas significativamente o dobro do ocorrido após o choque petrolífero. O que influenciou esta alteração? Sem dúvida, uma vez mais, a geopolítica: a queda do Muro de Berlim, o salto em frente da revolução económica chinesa e da sua projecção global muito rápida, a reforma na Índia, a mudança de política económica e a afirmação global do Brasil, entre outros casos.

Geopolítica molesta

Lição da história: o comércio internacional pode contrair-se mesmo sem uma recessão. Mudanças geopolíticas podem desintegrá-lo.

Para o professor irlandês, “a principal condição para a continuação das tendências actuais anteriores à crise, é conseguir evitar um conflito de grandes proporções que divida o mundo, de novo, em campos concorrentes”.

O FMI, nas suas contas, no início do ano, estimava que a recuperação da quebra ocorrida em 2009 no comércio de bens e serviços levará dois anos, 2010 e 2011 na íntegra. A OMC pensa o mesmo e um dos seus especialistas, respondendo a jornalistas numa conferência de imprensa, deixou cair que “até poderá demorar mais, no caso das economias desenvolvidas”. A OCDE é mais optimista – acha que isso se consegue praticamente em 2010. Só o futuro dirá quem tem razão. Neste caso, uma vez mais, prognósticos, só mesmo no final do jogo.

ENTREVISTA com KEVIN O’ROURKE por Jorge Nascimento Rodrigues ©

“Se a geopolítica se deteriorar, o impacto no comércio mundial será de longo prazo”

O economista e historiador irlandês fala-nos dos riscos potenciais nesta última fase da Grande Recessão. Adverte para a tentação do proteccionismo por parte dos governos. Teme que a desvalorização do euro seja excessiva e desencadeie uma guerra de desvalorizações competitivas, passado o apetite dos especuladores pela paridade euro/dólar. E aconselha a estarmos atentos à geopolítica. Se o clima político no mundo se deteriorar – e não faltam focos incendiários em várias partes do globo – o comércio internacional sofrerá irremediavelmente.

P: Parece um paradoxo. A recessão de 2009 foi inferior a 1%, mas teve um efeito “multiplicador” muito ampliado no comércio internacional naquele ano, com uma quebra de 11%, segundo a OCDE, ou mais de 12%, segundo o FMI. A 12ª maior queda anual do PIB mundial desde 1876 gerou a 5ª maior contracção no comércio global. Como foi isto possível?

R: Primeiro, eu não descreveria esta recessão como menor, por ter sido inferior, globalmente, a 1%. O choque inicial foi tão profundo como o da Grande Depressão dos anos 1930. Mas uma reacção coordenada, sem precedentes, ao nível dos estímulos orçamentais e monetários conseguiu travar a queda brutal a pique inicial. Quanto ao efeito no comércio mundial, penso que a razão fundamental tem a ver com a mudança na sua composição.

P: Em que sentido?

R: Hoje em dia, em relação aos anos 1930, há uma maior proporção de bens manufacturados no comércio mundial, e sobretudo de bens de consumo duráveis particularmente mais caros, cuja aquisição pode ser facilmente adiada quando os rendimentos caem e o crédito começa a escassear. O mecanismo do outsourcing, por outro lado, assegura, rapidamente, que este choque negativo se espalha logo através de muitos países.

P: Apesar das 500 medidas proteccionistas colocadas em prática desde a cimeira do G20 em Novembro de 2008, parece que não assistimos, ainda, a uma vaga global, como entre as duas guerras mundiais, como refere no seu livro ‘Power and Plenty’. Os governos estão mais conscientes dos efeitos negativos do proteccionismo? Ou as “guerras comerciais” ainda estão para vir?

R: Depende do que os decisores façam. Se os governos à escala mundial – mesmo os que não têm necessidade de modo algum de o fazer – embarcarem em políticas contraccionistas orçamentais, empurrando o mundo para uma recaída na recessão, essa situação aumentará, sem dúvida, a pressão sobre os políticos. Se todos começarem a desejar “exportar” o seu desemprego através de depreciações competitivas, isso será particularmente perigoso para a manutenção da abertura dos mercados.

P: Aliás referiu, recentemente, que isso poderia ser um risco com a actual desvalorização abrupta do euro…

R: Uma política monetária “frouxa” e uma moeda fraca podem ajudar na questão das exportações por parte da Europa, mas estaremos para ver se o Banco Central Europeu será capaz de “anular” o impacto do recuo orçamental em curso por parte dos governos. Além do mais, se isso acontecer, isso pode levar a uma retaliação por parte dos Estados Unidos e da Ásia contra o que verão como uma política de prejudicar o vizinho do lado. Isso exporá a economia mundial a riscos muito perigosos.

P: No seu livro refere que há três riscos potenciais que poderão redesenhar a actual dinâmica do comércio internacional: o efeito do pico do petróleo e da economia do carbono na diminuição dos fluxos; o risco do proteccionismo se tornar moda política, apesar do discurso oficial contra por parte do G20; e o impacto social da desindustrialização nos países ricos. Qual deles terá mais impacto negativo na globalização?

R: Todos eles são igualmente importantes quanto a mim.

P: Muita gente julga que os problemas do comércio mundial são basicamente “económicos” e não liga à geopolítica. Como é que o contexto da política internacional pode ser determinante nos padrões do comércio?

R: A globalização mais recente floresceu no contexto de um ambiente geopolítico favorável – o fim da Guerra Fria e a abertura da Índia e da China ao comércio mundial. Se o clima geopolítico se deteriorar, isso terá implicações de longo prazo na economia mundial. Por isso convém estar atento.

PERFIL

Kevin O’Rourke é professor do Trinity College em Dublin, considerado um dos especialistas internacionais em comércio internacional, globalização e história económica. Doutorado pela Universidade de Harvard, leccionou em diversas universidades americanas e também em Paris. É presidente da Sociedade Europeia de História Económica e membro do conselho editorial da revista World Politics. Uma das suas obras marcantes foi ‘Globalization and History: The evolution of a Nineteenth-Century Atlantic Economy’ (Massachusetts Institute of Technology), premiada em 1999, em co-autoria com Jeffrey G. Williamson. Mais, recentemente, publicou com Ronald Findlay o volumoso estudo ‘Power and Plenty: Trade, War and the World Economy in the Second Millenium’ (Princeton University Press). É um dos animadores do blogue Irish Economy.ie.

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