Entrevista com Raghuram Rajan: “Não basta arrancar as maçãs podres”

INTROITO
É um economista politicamente incorreto. O episódio mais conhecido na sua carreira no seio do mundo da finança mundial ocorreu na seleta Conferência da Reserva Federal americana em Jackson Hole, em agosto de 2005. Foi a última em que participou Alan Greenspan como seu presidente, e Raghuram Rajan destoou. O académico indiano escreveu, um mês depois, um artigo em que resumia o que dissera a tal distinta audiência e onde colocava uma interrogação: “Será que o desenvolvimento financeiro tornou o mundo mais arriscado?”

Rajan foi dos poucos de “dentro” que alertou que um grande terramoto estava a caminho. Os donos do mundo financeiro acharam-no tonto, para mais vindo de alguém que era nem mais nem menos do que o economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), essa catedral do pensamento “certinho”. Etiquetaram-no de “Cassandra” (ver caixa). Mas a heresia não era nova. Um ano antes desta conferência, Rajan escrevera um livro incómodo intitulado sugestivamente “Salvando o capitalismo dos capitalistas”.

Em janeiro de 2007, “desalentado” – nas suas próprias palavras – pelo facto de o FMI ter “conseguido tão poucos resultados” , Rajan largou a instituição e regressou ao mundo académico, à escola onde começara a dar aulas, a Booth School of Business da Universidade de Chicago, depois de se doutorar em economia no Massachusetts Institute of Technology em 1991.
Três anos depois dessa saída do FMI voltaria à escrita com “Fault Lines” (agora traduzido em Portugal pela Verbo/Babel, com o título “Linhas de Fractura”). Rajan é professor de Finanças na Universidade de Chicago e nasceu há 48 anos em Bhopal, a cidade que ficaria tragicamente famosa com o acidente na Union Carbide em 1984. Ao currículo académico americano junta o facto de ser consultor do primeiro ministro indiano Manmohar Singh, o “pai” das reformas económicas naquele “BRIC”, e de presidir o comité indiano de regulação do sector financeiro.

O mundo da economia e da geopolítica acabaria por o reconhecer. Em 2010, a revista americana “Foreign Policy” inclui Rajan em 26º lugar no TOP 100 de pensadores globais, exatamente a par do Nobel Paul Krugman, que, ironia do destino, classificou os pontos de vista de Rajan como “uma estrutura assente em fundações na areia”. Vingança da opinião pública, uma sondagem de início deste ano da revista inglesa “The Economist” colocou o economista indiano em número um como o pensador mais importante depois da crise.

«Sem dúvida, que havia uma multidão pedindo a cabeça dos banqueiros e dos brokers. Mas se só nos focamos numas quantas maçãs podres, falhamos o ponto central de que se tratou de uma crise sistémica. O problema não está só no sistema financeiro»
Raghuram Rajan

ENTREVISTA by Jorge Nascimento Rodrigues @2011

P: Que sugestão dá aos negociadores portugueses em relação à troika da União Europeia/Banco Central Europeu/Fundo Monetário Internacional?
R: A questão central é saber como Portugal pode manter o seu crescimento a um nível razoável. Certamente que isto implica concordar com reformas que tornem o país mais competitivo. Mas, se Portugal sente que o serviço de dívida se vai tornar impossível de cumprir – atenção que não estou a dizer que isso irá acontecer pois creio que o vosso país tem uma hipótese séria de sair desta crise sem uma bancarrota…

P: Se achar que não consegue cumprir os encargos de um resgate, o que deve Portugal fazer?
R: Como estava a dizer, se sentir que o fardo é demasiado pesado e que exigirá sacrificar seriamente o crescimento, então, talvez, seja preferível negociar a dívida atual antes de qualquer acordo. Claro que Bruxelas, o FMI e o BCE ficarão muito felizes se Portugal concordar, calmamente, cumprir o serviço de dívida em troca dos fundos, pois isso evitaria confusão da grossa na Europa. É uma decisão que cabe aos líderes portugueses tomar, tendo em conta todos os interesses em presença.

Depois do dinheiro fácil, chegou o dia do juízo final

P: Como é que foi possível chegar-se a este ponto de crise da dívida na zona euro?
R: O dinheiro fácil. O dinheiro fácil permite aos países gastar para além das suas possibilidades. A União Europeia permitiu a certos países pedir emprestado a taxas baixas, expandir a procura interna, e adiar a necessidades de serem competitivos. É claro que exportadores como a Alemanha beneficiaram, enquanto importadores como a Grécia – através de dívida pública – e Espanha – através de dívida privada – puderam adiar o dia do juízo final. Agora, esse dia chegou.

P: Por exemplo, no caso de Espanha e da Irlanda como é que isso aconteceu?
R: A União monetária, bem como a sensação de que a dívida pública de todos os países membros da zona euro tinha uma espécie de garantia implícita, facilitou esse dinheiro fácil, como em Espanha. Se Espanha tivesse controlo independente sobre a sua política monetária, certamente teria apertado o crédito bastante mais cedo.

As três linhas de fratura, duas delas nos Estados Unidos

P: A situação económica mundial é mais vasta do que o problema da crise da dívida em alguns países da zona euro. O seu livro que foi, agora, lançado em Lisboa analisa “linhas de fratura” na economia mundial. De que falhas sísmicas fala?
R: No livro sublinho as minhas preocupações em três níveis. O primeiro são os próprios Estados Unidos. Em virtude da falta de uma rede de segurança social, a Administração americana tende a responder aos períodos de recessão com estímulos excessivos para evitar a destruição de muitos postos de trabalho. Esta não é, aliás, a primeira retoma sem criação de emprego a que estamos a assistir. Já é a terceira do género, e de seguida. Contudo, continuamos a responder com as mesmas políticas que falharam. Esta política de estímulos cria o terreno para os excessos financeiros seguintes.

P: E qual é a segunda linha de fratura?
R: A própria questão global. A estratégia de crescimento baseado na exportação por parte de economias que têm crescido enormemente – como a China, a Alemanha e mesmo o Japão – tornou o mundo muito dependente de um número muito pequeno de países consumidores, como os Estados Unidos, que se tornaram os “consumidores de primeiro recurso” (e não de último recurso).

P: E em terceiro lugar?
R: Estou muito preocupado com o sector financeiro americano. Ele é o elo – crítico, mas muito instável – entre uma sobre-estimulada América e um resto do mundo sub-consumidor. Quanto mais tarde “concertarmos” estes três problemas, mais difícil fica resolvê-los.

Uma possibilidade da grande crise ainda estar para vir

P: Há a probabilidade de não ficarmos, nos tempos mais próximos, por esta crise, de assistirmos a um “filme” similar ao que ocorreu entre 1890 e 1929, em que pânicos como o de 1890-1893 ou de 1907-1908 não foram senão a antecâmara de uma crise maior?
R: Possivelmente. É, por isso, que julgo que temos de concertar as linhas de fratura a que me referi.

P: Mas há esperança fora do núcleo duro dos países desenvolvidos? Recentemente foi anunciado o BRICS – o grupo formado pelo Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. O que podemos esperar dele?
R: Cada país membro desse grupo ganhará, certamente, mais poder à medida que se tornar economicamente mais importante. Contudo, quero sublinhar, que não encaro esse grupo como tendo interesses muito coerentes, pelo menos por ora, como tinha, por exemplo, o G7 [das 7 economias mais desenvolvidas do mundo, formado pelos Estados Unidos, Japão, Alemanha, Inglaterra, França, Itália e Canadá].

P: Os BRICS poderão mudar o FMI, o Banco Mundial e a Organização Mundial do Comércio, na medida em que são os pilares da parte “emergente” do G20?
R: Não os estou a ver muito pró-activos em definir a agenda dessas instituições multilaterais. A influência dos BRICS como grupo vai levar tempo a construir, se levar.

Comparação da China com a Índia

P: Como conselheiro do primeiro-ministro da Índia e presidente da comissão de reforma do sistema financeiro indiano, como é que avalia o processo de reformas desde 1991 no seu país natal?
R: Mais vagaroso do que o desejável. Mas, talvez, o mais rápido possível tanto quanto uma democracia com muitos pobres permite.

P: E como compara as reformas na Índia e na China?
R: A China avançou muito mais rápido nas reformas. Quando a China decide fazer algo, realiza-o rapidamente. Contudo, está a atingir um estádio de desenvolvimento em que o fator criatividade se torna mais importante do que o cimento. A minha opinião é que a criatividade floresce melhor em situações de democracia. Creio que o grande desafio da China é conseguir gerir essa transição para a democracia de um modo “suave”.

P: Qual é o desafio para a Índia?
R: A Índia tem um regime democrático, vibrante e ruidoso. O principal desafio é executar as principais reformas que fomentem o crescimento – por exemplo, a meu ver, avançar no campo das infraestruturas e do ensino.

A redescoberta do Brasil

P: Em virtude da sua ligação também ao Brasil, que avaliação faz da emergência desta economia?
R: Deixe-me começar por referir que o Brasil tem gestores de muito alto nível, empresas de classe mundial e excelentes recursos naturais. O anterior presidente Lula focou-se numa das fraquezas do país – o alto nível de desigualdade e o facto de muitos no Brasil terem baixa formação. A alta popularidade com que deixou o cargo é uma boa indicação da sua habilidade em balancear os problemas do crescimento e da distribuição.

P: Mas tornou-se uma grande potência ou continua adiada?
R: O mundo, de facto, parece ter redescoberto o Brasil. Isso era de esperar já há muito – mas é, também, em certa medida problemático. A divisa brasileira valorizou-se muito o que tornou as exportações mais caras. Contudo, se o Brasil conseguir gerir os problemas de sobreaquecimento da sua economia, tem, certamente, um futuro muito atrativo.

P: Por que razão escreveu este livro “Linhas de Fratura”?
R: A crise financeira que se iniciou em 2008 foi um alerta que tinha de ser analisado com urgência – daí o livro. Sem dúvida, que havia uma multidão pedindo a cabeça dos banqueiros e dos brokers. Mas se só nos focamos numas quantas maçãs podres, falhamos o ponto central de que se tratou de uma crise sistémica. O problema não está só no sistema financeiro. Como referi atrás, os Estados Unidos têm problemas de fundo que vão para além do sistema financeiro, tal como acontece com outros países do mundo.

Esta não é uma crise “normal” do ciclo económico

P: Tinha alguém em especial na mira?
R: As pessoas que trataram esta crise simplesmente como uma crise tradicional do ciclo económico, algo que pode ser concertado com estímulos. Essas pessoas estão cometendo um grande erro.

P: Mas escreveu o livro a pensar nos que não lhe deram ouvidos, e o alcunharam de Cassandra, antes do eclodir da crise?
R: Há sempre gente a avisar para as desgraças. A questão essencial é saber quem é que podemos levar a sério, e quem não devemos. Num boom, é claro, que há pouco incentivo para levar a sério os pessimistas. Eles avisaram algumas vezes e estavam errados – até que acertaram.

P: O falecido economista Hyman Minsky tinha razão quando nos anos 1990 falava que o capitalismo financeiro tem inscrito no ADN os ciclos de euforia e de estoiro?
R: Ele tinha analisado corretamente a anatomia das crises. Contudo, era suposto os países industrializados terem criado processos de verificação e re-equilíbrio contra os excessos financistas.

P: Qual foi a reação mais surpreendente a este seu livro?
R: Eu julguei que a extrema-esquerda na América seria mais recetiva ao livro. Contudo, reagiu julgando que eu condenava a vítima, quando apontei que a desigualdade nos Estados Unidos advinha de muita gente não ter as competências de que necessita para uma economia moderna. A extrema-esquerda preferirá aumentar os impostos sobre os ricos, em vez de se concentrar em criar programas que ajudem os pobres a melhorar sustentadamente a sua vida. Esta posição perturba-me. No fundo, perpetua um estado de dependência por parte dos pobres, o que é extremamente pernicioso.

O Clube das Cassandras

Raghuram Rajan foi durante a “bolha” das décadas de 1990 e 2000 considerado uma das “Cassandras” da desgraça. Os americanos criaram inclusive a alcunha de “permabears” (diminutivo de permanent bears) para este tipo de economistas – ou seja, os ‘ursos’ (designação para os investidores que mantêm uma atitude negativa sobre a direção futura dos mercados e das economias) permanentes.

Rajan tornou-se um economista politicamente incorreto num lugar de topo, pois foi de 2003 até janeiro de 2007 o economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), a catedral do “consenso de Washington”, repleta de técnicos tidos como apolíticos e bem comportados em matéria de macroeconomia.

Com Nouriel Roubini – o mediático professor e consultor nova-iorquino alcunhado pelos media de Dr.Doom (um vilão da banda desenhada) que vem às Conferências do Estoril esta semana -, William White, então chefe do departamento económico e monetário do Banco de Pagamentos Internacionais (BIS, no acrónimo em inglês) em Basileia, na Suíça, Niall Ferguson, o historiador inglês, e os académicos americanos Kenneth Rogoff – que com Carmen Reinhart historiou as grandes crises financeiras e as vagas de default cíclicas – e Robert Shiller – que falou de “exuberância irracional” num best-seller em 2000 –, formavam um clube de ‘tremendistas’ avisando que uma crise financeira de grandes proporções poderia estar a caminho no meio de tanta euforia.

Há muito que outros académicos – menos conhecidos dos media – vinham analisando, desde o final dos anos 1980, a possibilidade de rebentar uma grande crise como a de 1929. Este nicho de cientistas baseava-se nas chamadas “vagas longas” – ou ciclos longos, como lhes chamou Schumpeter – descobertas por um economista russo, Nikolai Kondratieff, assassinado no goulag estaliniano em 1938. Publicavam complicados gráficos que os políticos e os jornalistas não entendiam, nem se esforçavam por compreender, e desde o final da década de 1980 que andavam literalmente à procura de sinais do “grande dia”.

O suporte teórico para compreender o que ocorria com o sistema financeiro fora dado por um outro economista de Chicago relativamente desconhecido do público: Hyman Minsky, falecido em 1996. Desde 1986 que Minsky dizia cruamente que o sistema financeiro é intrinsecamente instável, frágil e que tinha como padrão uma sucessão de euforias, que acabavam numa fase do que poderíamos chamar de “esquema Dª Branca”, e de derrocadas. Muitos colegas passaram a chamar ao ponto em que a situação muda da euforia para o estoiro como “momento Minsky” – descobriríamos um em meados de 2007.

Do outro lado, estavam os “surdos” de um ecossistema financista “que não tinha grandes incentivos para os ouvir”, diz Rajan. Gente poderosa – banqueiros centrais, alta finança e governos entusiasmados por “galoparem” aqueles longos anos de euforia, primeiro com a expansão das multinacionais no mundo, depois com a queda do Muro de Berlim e a derrocada do sistema socialista, a que se seguiu a revolução tecnológica da Internet e, finalmente, a “bolha” imobiliária e de inovação financeira.

One Response to “Entrevista com Raghuram Rajan: “Não basta arrancar as maçãs podres””

  1. Estava analisando a entrevista e os comentarios em tornos da China… Acho que a China se tornara potencia hegemonica nos anos 2030…Porque falta abertura na sua politica monetaria, a reducao do intervencionismo do estado, a fixacao da sua taxa de cambio face ao dolar….
    Outro aspecto importante, e a Paridade poder de compra que esta ainda muito abaixo do japao… Do indice de desenvolvimento humano que esta abaixo do JApao… Portanto, nao percamos a cabeca com o crescimento nominal do seu PIB

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