Entrevistas sobre o futuro: I: “Necessitamos de uma nova revolução tecnológica” (Peter Cohan)

Ainda estamos à espera que surja uma nova tecnologia que dê corpo a um novo tecido empresarial que revolucione a economia mundial, apanhada atualmente na armadilha da recessão. Peter Cohan, em entrevista, é, por isso, pessimista em relação aos exageros que se pintam em relação a alguns setores tecnológicos que têm entrado na moda, mas recomenda que se sigam com atenção três tendências (e uma quarta, que considera, ironicamente, apenas, meia tendência, apesar de ser uma das mais sexy). Tem debaixo de olho algumas jovens empresas nascidas nestas últimas vagas relacionadas com as redes sociais potenciadas pela Internet e pela Web, com a computação na “nuvem” (designada por cloud computing) e com o cruzamento das tecnologias de informação com a medicina.

Cohan é um dos analistas e consultores financeiros e de gestão americanos ligados à tecnologia, que, desde cedo, acompanhou a ‘bolha’ das novas tecnologias no começo dos anos 1990 e os movimentos de capital na área da alta tecnologia. Autor de vários livros sobre gestão e tecnologia, iniciou-se com ‘The Technology Leaders: How America’s Most Profitable High Tech Companies Innovate Their Way to Success’, em 1997, que a revista Executive Digest considerou como a melhor obra da altura. Recentemente publicou ‘Capital Rising: How Capital Flows Are Changing Business Systems All Over the World’, em co-autoria com U. Srinivasa Rangan, um livro que olha a globalização pelo lado dos fluxos de capital, e que sugere um novo índice, o de recetividade ao capital (Capital Receptivity Index, CRI), uma forma de avaliar a vontade de um dado país atrair fluxos de capital e de “descobrir” mercados emergentes. É colunista diário no blogue DailyFinance.

Em dois séculos e trinta anos, as “novas tecnologias” mudaram a face do Planeta. Primeiro a Revolução Industrial iniciada em Inglaterra ainda no século XVIII que permitiu o take off de uma nova sociedade, depois a revolução nas comunicações gerando a sociedade consumista e do automóvel liderada pelos Estados Unidos e que superou duas guerras mundiais e a maior recessão de todos os tempos no capitalismo industrial, até à revolução das tecnologias de informação depois da estagflação dos anos 1970, também liderada pelos americanos.

Os olhos estão virados, agora, para o que mudará a economia nas próximas décadas.

P: Apesar do risco de recaída na recessão nos Estados Unidos em 2012 e de um período de declínio no Nasdaq, a bolsa das tecnológicas em Times Square, que ainda não conseguiu alcançar os 3000 pontos, o investimento nas empresas baseadas nas novas tecnologias vai reanimar-se ou não?
R: Esse tipo de investimento deveria disparar para que a economia americana saísse do marasmo. Contudo, devo confessar, que não vejo, ainda, evidência disso. Um tal crescimento rápido introduziria uma nova tecnologia que encorajaria o investimento em capital por parte das organizações de modo a fazer crescer a produtividade, que tem declinado. Tivemos esse tipo de períodos nos anos 1960 com os computadores de grande porte, depois nos anos 1970 com os minicomputadores, nos anos 1980 com os computadores pessoais e nos anos 1990 com a Internet.

P: Parece pessimista…
R: Infelizmente, a inovação necessária para fazer disparar outra expansão ainda não emergiu. Contudo, se tal tecnologia surgir, aparecerá capital para a financiar – isso é certo.

Os setores tradicionais da alta tecnologia estão maduros

P: Os setores “tradicionais” da revolução tecnológica dos últimos trinta anos, mesmo os mais jovens como a biotecnologia e os setores nascidos originalmente a partir da Internet e da Web, como os motores de pesquisa, deixaram de ser atraentes?
R: Esses setores ainda continuam por aí. A biotecnologia ainda gera alguma atração, porque, por alguma razão bem louca, há gente que investe mesmo em empresas a perder dinheiro que prometem um futuro radioso que, em regra, nunca é concretizado. Mas, na verdade, esse tipo de indústrias está já numa situação madura.

P: O que é, então, necessário?
R: O surgimento de um novo cluster de alta tecnologia que motive um salto no investimento das empresas.

P: E qual?
R: É difícil, ainda, esse prognóstico. Muitos capitalistas de risco falam muito da computação “em nuvem”. Tenho ouvido falar disso com muita excitação há algum tempo, mas parece que a promessa não se materializa.

P: Mas há tendências promissoras?
R: Ainda, recentemente, falei com Michael Greeley, da Flybridge, uma empresa de capital de risco, aqui do Massachusetts, e ele disse-me que estava de olho em três tendências e meia para os próximos cinco anos. As três tendências são: o que se designa por redes sociais, sobretudo serviços e aparelhos baseados em localização e a forma como o marketing as use para aceder aos consumidores; a computação “em nuvem” e os serviços de base Internet e Web que se estão a desenvolver para responder a esse movimento de outsourcing de funções informáticas por parte das empresas; e a convergência entre as tecnologias de informação e a medicina, sobretudo no desenvolvimento da medicina pessoal e de uma resposta mais rápida da medicina.

P: E qual é a “meia” tendência?
R: A das tecnologias “limpas”. Tem havido muito frenesim em torno dela. Mas Greeley disse-me que não estava muito excitado com o cleantech [designação em inglês do novo setor] e que não aprecia a ideia do capital de risco investir em energias alternativas. O capital de risco deve evitar esse setor. Isso é uma área mais indicada para grandes empresas em bolsa.

P: Mas o setor automóvel, na área da mobilidade urbana com energia “limpa”, não é uma boa oportunidade?
R: Carros de cidade são, sem dúvida, uma boa oportunidade. Essa tendência vai tornar-se mais generalizada. E espero, também, que a indústria resolva problemas de segurança no que respeita às comunicações quando uma pessoa está a conduzir e que adapte melhor o ambiente de entretenimento no habitáculo do veículo.

De olho na China e na Índia

P: E na construção, essas tecnologias não poderão ter um bom mercado?
R: Sem dúvida, que as tecnologias “limpas” podem ter um impacto no mercado da construção, com edifícios mais eficientes. Mas eu falaria mais numa transição gradual, neste caso. Estaria, no entanto, de olho ao que se passa na China – como é que esse país está a tirar partido do cleantech no imobiliário.

P: Além de não se vislumbrar um novo setor tecnológico “disruptivo”, como os especialistas dizem, não se está a agravar irremediavelmente o fosso entre os que têm acesso às novidades tecnológicas, os que gastam dinheiro na última moda, numa verdadeira loucura, e os que para poder ter um aparelho desses teriam de dispor de parte substancial do seu ordenado mensal, admitindo que estão empregados? Esse fosso não é hoje quase obsceno?
R: Sem dúvida que há uma procura potencial entre os que não podem adquirir essas tecnologias a um preço muito mais baixo.

P: O exemplo da Índia apostando em tecnologias que criem produtos e serviços baratos, acessíveis à massa, deveria ser seguido?
R: Vejo essa abordagem indiana como uma forma muito viável de resolver esse problema da procura que referi.

P: É de esperar um movimento forte de fusões e aquisições no setor da alta tecnologia, tal como está a acontecer noutras áreas?
R: Vão continuara a haver, como nas últimas décadas. Mas não estou a ver uma onda. Vejo uma consolidação contínua, serena, através da aquisição de empresas de média dimensão por parte dos grandes, como a Oracle e a IBM. Mas não vejo razões para um grande impulso.

P: O movimento de externalização inclusive de uma grande parte da própria Investigação & Desenvolvimento (I&D) vai continuar? Ou essa tendência vai inverter-se? O outsourcing está ameaçado, como alguns dizem?
R: No caso das farmacêuticas, vê-se que essas empresas estão a tentar tirar a produtividade máxima da sua I&D. Para o conseguirem, estão a transferir os aspetos mais mundanos do processo de I&D para locais mais baratos. Isso pode emagrecer os custos, mas não creio que ajude em nada a lançar produtos ganhadores. Se as empresas verificarem que podem juntar as duas coisas – investigação barata com produtos ganhadores -, então, vamos assistir a um disparo nesta área. Mas não creio que o outsourcing resolva o problema.

P: A China vai emergir como uma superpotência tecnológica? De fábrica do mundo de produtos transacionáveis de baixo valor vai transformar-se num rival sério para os Estados Unidos e o Japão, os outros dois que mais investem em I&D?
R: Não sei se a China conseguirá lançar tecnologias inovadoras. Mas é, sem dúvida, muito boa a adaptar tecnologias alheias e já conseguiu lançar algumas empresas tecnológicas de sucesso, como Baidu e Ten Cent Holdings, por exemplo.

A emergência dos “anjos” do investimento

P: Como é que os empreendedores na área das tecnologias podem hoje arranjar capital, face à situação moderada no Nasdaq e às muitas dúvidas do capital de risco sobre as tendências que valham a pena?
R: A tendência mais forte na obtenção de capital é recorrer aos chamados investidores “anjos”, a que alguns chamam de business angels. Trata-se de gente muito rica – que, por vezes, inclusive se junta em grupo – que quer investir em pequenos e novos negócios, sem toda essa intrusão dos homens do capital de risco.

P: Que recomendação daria aos empreendedores europeus, sobretudo em países pequenos?
R: Que olhem para o exemplo de Israel. É um país com excelente I&D e que cria cadeias globais de valor na produção e no marketing, de forma que consegue vender à volta do mundo produtos de alta tecnologia que desenvolve. Essa estratégia ajuda um pequeno país, ainda por cima com os problemas conhecidos que tem, a tornar-se grande quando o mercado doméstico é pequeno.

P: Há alguma empresa europeia de alta tecnologia que tenha debaixo de olho?
R: A Qype, criada em Hamburgo, na Alemanha, em 2005, na área das redes sociais. Opera, atualmente, em 9 países europeus (em Espanha, por exemplo) e no Brasil, onde o lema é “encontre, opine e recomende”.

Três tendências e meia a seguir
– Redes sociais, e particularmente serviços localizados e publicidade nesses meios
– Computação na “nuvem” (cloud computing, na designação técnica em inglês)
– Convergência das tecnologias de informação com a medicina
– Tecnologias “limpas” (cleantech, na designação em inglês)

Empresas de alta tecnologia em que Peter Cohan está de olho
. Qype.com, Hamburgo (serviços localizados usando as redes sociais, 17 milhões de visitantes únicos só na Europa)
. Foursquare.com, Nova Iorque (serviços localizados usando as redes sociais, 3 milhões de utilizadores)
. Predictive Biosciences, Lexington, Massachusetts (teste de diagnóstico não intrusivo de cancro na bexiga)
. 10 GEN, Nova Iorque (gestão de bases de dados na “nuvem”)

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