Está na hora do “valor para o accionista” deixar de liderar

[Novidades de gestão: I]

A gestão viveu durante trinta anos dominada por uma ideia: os executivos – os profissionais do management – devem dirigir as empresas com um objectivo principal, o de maximizar o valor para o accionista. Tornou-se corrente no discurso de gestão ouvir-se a expressão em inglês, repetida sem cessar, de «shareholder value» como religião oficial.

O canadiano Roger Martin, reitor da Rotman School of Management da Universidade de Toronto, no Canadá, acha que este paradigma deve acabar. A grave crise financeira e a derrocada do pensamento económico ligado à “financeirização” já abalaram o terreno da teoria macroeconómica. Agora, diz Martin, deveria ser a vez da doutrina do management refrescar as ideias.

Captura da gestão pelo financismo

O canadiano diz que tem de se substituir o “capitalismo do valor para o accionista” pelo “capitalismo do valor para o cliente”, regressando a Peter Drucker, que, sempre, sublinhou que as empresas são criadas para ter “como propósito primordial adquirir, satisfazer e manter clientes”. O resto (lucros, dividendos para os accionistas, remunerações adicionais dos gestores de topo pelo seu desempenho) é um derivado.

Os últimos trinta anos de revolução financeira acabaram por “capturar” a própria gestão. A lógica “financista” transformou a actividade dos executivos desde os anos 1970. Um artigo publicado em 1976 numa revista académica, Journal of Financial Economics, com um título comprido (“A teoria da firma: comportamento de gestão, custos de agência e estrutura de propriedade”), escrito por Michael C. Jensen e William H. Meckling, acabaria por lançar uma expressão que ficaria, praticamente sem contestação durante estas últimas décadas: os executivos devem gerir as empresas no sentido de maximizar o valor para os seus accionistas. O único “objectivo funcional” da firma deve ser esse, disseram aqueles autores. Os próprios interesses dos gestores teriam de “alinhar-se” por este desígnio.

Gestores de expectativas

Martin explica que este paradigma implicou um conjunto de práticas de gestão que acabaram por ficar prisioneiras dos resultados de curto-prazo, dos ziguezagues das cotações em bolsa e da dependência dos negócios puramente financeiros que acabaram por dominar as próprias contas das empresas da economia real.

Os accionistas, em vez de olharem para a sustentabilidade e longevidade do negócio, passaram a estar viciados no curto-prazo e os gestores dedicaram-se a gerir estas expectativas em muitos casos inclusive completamente irrealistas. Muitos dos executivos de topo em vez de gestores do negócio passaram a gestores de expectativas e de imagem, acusa Martin. Criou-se um ecossistema que viveu fechado num círculo vicioso alimentado por “uma premissa trágica”.

Ainda por cima, diz Martin, os resultados financeiros não parecem ter sido historicamente entusiasmantes: os accionistas do índice S&P 500 ganharam um retorno real composto anual de 7,6% entre 1933 e 1976 e de 5,9% entre 1977 e 2008. Ou seja, a máxima de Jensen e Meckling, tornada famosa por “práticos” como Roberto Goizueta (Coca Cola) e Jack Welch (GE), rendeu, em média, menos aos destinatários.

Truques da financeirização a nu

Com a crise financeira actual muitos destes truques financistas ficaram a nu – os tão incensados centros de geração de rendas financeiras, que outrora engordavam as contas de empresas de sucesso, agora passaram a ser responsáveis por prejuízos gigantes e empurraram a capitalização das empresas cotadas para valores historicamente muito baixos. Pelo caminho, as empresas haviam descurado o seu próprio negócio e os seus clientes.

Em suma, Martin quer uma nova era na gestão (ver as 4 eras, no final deste artigo). Num artigo publicado na revista americana Harvard Business Review (“The Age of Customer Capitalism”, HBR, Janeiro-Fevereiro 2010)  fala sobretudo de duas grandes épocas até à data – a da revolução da gestão (de que emergiu o gestor, o profissional da gestão, divorciado da propriedade das empresas) desde os anos 1930 e, depois, a da maximização do valor para o accionista, desde os anos 1970.

Voo rápido sobre as 4 eras da gestão

. Fundação. A reorganização do Exército americano por Elihu Root em 1901 é tida como a primeira aplicação sistemática dos conceitos de gestão. O Primeiro Congresso sobre gestão decorreu em Praga em 1922. O primeiro pensador de gestão foi o francês Henri Fayol, que reorganizou o Deutsche Bank. A ele se deve o conceito de que gerir é “prever e planear, organizar, comandar, coordenar e controlar”.

. A Revolução da gestão. A “managerial revolution” nasceu nos anos da Grande Depressão. Em 1932, Adolf Berle e Gardiner C. Means em “A Empresa moderna e a propriedade privada” (The Modern Corporation and Private Property) lançam a ideia básica de que a gestão deveria ser separada da propriedade. A profissão de gestor ganhava autonomia face aos capitães de indústria e às famílias de investidores e viria a dominar o mundo das empresas. Em 1938, Chester Barnard escreveria “As Funções do ‘Executivo’” e Peter Drucker sistematizaria, em 1954, a nova disciplina em “A Prática da Gestão”.

. O triunfo do financismo. Em 1976, Michael C. Jensen e William H. Meckling publicam “A teoria da firma” (“Theory of the Firm: Managerial Behavior, Agency Costs and Ownership Structure”) no Journal of Financial Economics (vol.3, nº4, 1976), que tornaria o objectivo da “maximização do valor para o accionista” como a regra número um de gestão. Tornou-se o artigo mais citado de sempre na área da gestão.

. Cliente em primeiro lugar. Face ao descrédito do financismo, com a Grande Recessão destes últimos anos, Roger Martin afirma que é preciso regressar à máxima número um de Drucker: as empresas existem para criar valor para os clientes.

One Response to “Está na hora do “valor para o accionista” deixar de liderar”

  1. Gostei imenso de ter acedido a sua Sala de Conhecimentos.
    Sobre o seu artigoa: Está na Hora do Valor do Accionista deixar de liderar, penso que as empresas socialmente responsáveis defendem que a “Responsabilidade Social Corporativa é um modelo de gestão, de solidário universalismo, direccionado a práticas de governança corporativa, associando o lucro ao desenvolvimento sustentável.” (in Semanário Económico Português, n.º 962, Dinheiro & Management, pág.15 de 17/23.06.2005, e in Pessoal, APG, n.º43,Março.06, pág.82-83).

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