Europa lidera aquisições mundiais desde 2000

A União Europeia (UE) foi o espaço económico que mais ganhou em termos de fusões e aquisições (F&A) internacionais nos últimos nove anos em contraste com o espaço anglo-saxónico, que encabeçou as perdas. Esta tendência, com implicações na geografia do poder económico das multinacionais, foi revelada por um estudo de todas as operações internacionais de F&A iguais ou superiores a mil milhões de euros realizadas entre 2000 e 2008 registadas na base de dados da Bloomberg.

No grupo dos 10 países que apresentaram saldos positivos nas operações internacionais de F&A superiores a mil milhões de dólares, metade são membros da UE e da Zona Euro, com destaque para a França (o campeão), Espanha (2º lugar), Bélgica (3º lugar), Alemanha (5º lugar) e Luxemburgo (8º lugar). A Suíça, que não faz parte de nenhum dos dois clubes europeus, posicionou-se em quarto lugar. Fora da Europa, encontramos os Emirados Árabes Unidos (6º), o Japão (7º), Austrália (9º) e a fechar a China (10º).

Portugal encontra-se entre os países da Zona Euro com um saldo positivo de 1,9 mil milhões de dólares, situando-se em 27º lugar no clube dos ganhadores nos últimos nove anos. Ou seja, o nosso país foi maior “comprador” lá fora do que os estrangeiros adquiriram cá dentro em termos de valores envolvidos nestes fluxos.

Os cinco maiores perdedores foram os EUA (à cabeça), Reino Unido, Canadá, Holanda e Turquia. No entanto, a Holanda é uma excepção no seio da Zona Euro por razões pontuais, segundo um dos coordenadores do estudo, Ken Smith, que considera que a tendência de declínio é clara no caso do triângulo Estados Unidos (o maior “perdedor”), Reino Unido e Canadá, mas não da Holanda.

A investigação foi levada a cabo pelo grupo de consultoria estratégica canadiano Secor que apurou os saldos líquidos entre estes movimentos de investimento directo estrangeiro num dado país e de empresas deste país noutros pontos do globo nos casos em que houve aquisição, compra de posição maioritária, privatização por decisão governamental ou operação de buy out. Este indicador pode ser encarado como uma aproximação às deslocações de sedes de multinacionais, em que o país “ganhador” atrai o centro de decisão estratégica de um dado grupo.

Pólo de atracção

O facto de a Europa surgir como o principal pólo de atracção no mundo está a ser estudado pela consultora e os resultados dessa investigação deverão ser divulgados, em breve, na edição alemã da revista americana Harvard Business Review. Uma das consequências potenciais do declínio do eixo anglo-saxónico poderá ser a diminuição da importância central do cluster de serviços financeiros que é essencial para Nova Iorque e Londres, adianta Smith, que está radicado em Nova Iorque, onde a consultora canadiana tem uma das suas bases.

Smith considera que é de esperar que a China “suba na lista dos ganhadores líquidos” nos próximos anos em virtude da estratégia “go global” definida por Beijing.

A crise actual tem um efeito duplo, admite o consultor. Por um lado, torna alvos fáceis as multinacionais mais vulneráveis ao apetite de quem disponha de liquidez e, por isso, abre a janela de oportunidade a um movimento de F&A em “pechinchas”; por outro, a contracção de crédito à economia real no sistema financeiro tolhe esses movimentos.

Ken Smith teme, ainda, que em reacção a essa deslocação de poder das multinacionais iniciada nos anos 2000 se possa assistir a um recrudescimento do proteccionismo de um modo implícito ou explícito. O controlo de multinacionais – particularmente em sectores considerados “estratégicos” em termos de recursos, de talento ou de risco de segurança nacional – continuará a ser vital no jogo de competição empresarial como na luta entre potências.

QUADROS

Os 10 principais ganhadores
Saldo líquido positivo em mil milhões de dólares em aquisições e fusões
(2000-2008)

França – 234; Espanha – 101; Bélgica – 79; Suíça – 67; Alemanha – 53; Emirados Árabes Unidos – 37; Japão – 33; Luxemburgo – 30; Austrália – 20; China – 15

Os 10 principais perdedores
Saldo líquido negativo em mil milhões de dólares em aquisições e fusões
(2000-2008)

Estados Unidos – 220; Reino Unido – 187; Canadá – 158; Holanda – 111; Turquia – 24; Chile – 13; República Checa – 11; Hong Kong – 9; Indonésia – 8; Ucrânia – 8

Fonte: Secor group, 2009

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