Guerra de divisas pode dominar G20 de 15 e 16 de fevereiro 2013

O tema da guerra de divisas lançado pelo ministro brasileiro das Finanças Guido Mantega em setembro de 2010 está de volta. O mais recente sinal sobre esse risco foi dado pelo presidente francês François Hollande na sua intervenção, na terça-feira (5 de fevereiro), no Parlamento Europeu em Estrasburgo. Hollande lastimou que “se deixe a nossa moeda [o euro] flutuar ao sabor dos humores dos mercados”.

‘Guerra de divisas’ significa que uma decisão de desvalorização competitiva de uma dada divisa, importante à escala mundial, desencadeia respostas de outras divisas.

As afirmações do presidente francês foram feitas na semana em que ocorreu a reunião mensal de governadores do Banco Central Europeu (BCE) e em que começa mais uma cimeira europeia. Mas, as palavras do presidente francês, podem inserir-se numa dimensão mais global, que vai para além da pressão sobre o BCE e o Eurogrupo (reunião dos 17 ministros da zona euro). São ditas em função da reunião de ministros das Finanças e de banqueiros centrais do G20 em Moscovo, já na próxima semana, a 15 e 16 de fevereiro.

Política de taxa de câmbio de médio prazo na zona euro?

Ainda que não referindo a expressão maldita “guerra de divisas” usada por Mantega, um genovês naturalizado brasileiro, Hollande referiu que a trajetória de apreciação do euro prejudicará as possibilidades de retoma económica na zona euro, e defendeu que “uma zona monetária tem de ter uma política de taxa de câmbio de médio prazo”. Não empurrando esse ónus para a política monetária do BCE – cujo mandato não lhe permite seguir esse objetivo -, o presidente francês colocou nas mãos dos “chefes de estado e de governo” a tomada de uma decisão.

Um estudo da Morgan Stanley estimava que, se não houvesse euro, seriam precisos 1,23 dólares para comprar um franco francês e 1,53 dólares para comprar um marco alemão. Com o câmbio do euro no patamar de 1,3, compreende-se que o euro esteja sobrevalorizado para os franceses e depreciado para os alemães. Acrescente-se, como curiosidade, que o Orçamento de Estado francês para 2013 pressupõe uma taxa média de câmbio de 1,24 dólares por euro…

Jean-Claude Juncker, o ex-presidente do Eurogrupo, já alertara, recentemente, que o euro está “perigosamente alto”, mas Mário Draghi, o presidente do BCE, afirmou na conferência de imprensa desta semana que “a taxa de câmbio não é um objetivo de política monetária”. No entanto, o presidente do BCE reconheceu que esse indicador “é importante para o crescimento e a estabilidade dos preços”, pelo que o banco central acompanhará o assunto para averiguar se “a a apreciação do euro é sustentável, e se altera a nossa avaliação dos riscos para a estabilidade dos preços”. Os analistas notaram que, pela primeira vez, o tema é introduzido como um dos “riscos de deterioração” (downside risks, na linguagem do banco)recentes no documento saído da reunião do BCE.

Draghi não aceita “incorporar” no mandato do BCE tal objetivo, mas ficará “vigilante”. Os mercados de câmbios reagiram, de imediato, com uma baixa do euro. O que Hollande não conseguiu com palavras duras, Draghi obteve com subtilezas. Depois de um pico de 1 euro valer 1,3711 dólares a 1 de fevereiro, o câmbio baixou.

O vice-presidente do Banco central da Rússia, Alexei Ulyukayev, também avisou que se está na porta de entrada para “guerras de divisas muito sérias”. A Coreia do Sul já pediu formalmente ao G20 que analise o problema e tome uma posição clara contra a desvalorização competitiva das moedas. Para fechar o ramalhete, Yi Gang, chefe do organismo chinês de Gestão Cambial, pediu, também, ao próximo G20 que trave a escalada.

Mário Draghi, na já referida conferência de imprensa, sublinhou que não considera que se tratem de políticas “deliberadas” de desvalorização, mas apenas resultados de opções macroeconómicas. Recordou que há um “consenso” obtido no G20 para impedir guerras de divisas, e que se tal acordo está a ser rompido, então, o assunto tem de ser discutido.

A valorização do euro tem coincidido com o pico dos ajustamentos orçamentais e políticas de austeridade simultâneas em diversos membros do euro, que, com essas medidas ditas de desvalorização interna, pretendem melhorar a sua competitividade, no meio de situações de recessão prolongada. “Estamos a insistir em países que estão a fazer esforços para ser competitivos que depois são destruídos pelo aumento do valor do euro”, resumiu François Hollande. A reação dos liberais alemães, através de Philipp Roesler, o ministro da Economia do governo de coligação da chanceler Merkel, foi imediata: “O objetivo deve ser melhorar a competitividade e não enfraquecer a moeda”.

No entanto, nos Estados Unidos, o poderoso lóbi do sector automóvel norte-americano, American Automotive Policy Council, presidido pelo Republicano Matt Blunt, urgiu o presidente Obama a “avisar o Japão” e a ameaçar Tóquio “com reciprocidade de medidas”, ou seja retaliação.

Euro no fogo cruzado

“Estamos, de facto, no meio de uma guerra de divisas clássica, cobrindo o iene, a libra esterlina e o dólar através das políticas ‘ativistas’ dos governos e dos bancos centrais dos seus países, com o euro, apanhado no fogo cruzado, em virtude da incapacidade de atuar dos seus decisores”, diz-nos Constantin Gurdgiev, bloguer russo muito ativo na Irlanda. O economista duvida da eficácia simultânea das políticas de desvalorização competitiva dos países do G7 no sentido de conservarem ou tentarem readquirir excedentes externos: “Tais expetativas são quimeras, pois, mesmo a geração de modestos excedentes nas economias avançadas, significará profundos défices nas economias emergentes e de rendimento médio”.

No entanto, para o analista norte-americano Marc Chandler, as guerras de divisas não conduzem necessariamente a guerras comerciais e ao disparo do protecionismo, pois há ainda mecanismos internacionais para resolução de tais conflitos. “O mercado de câmbios sempre foi uma arena onde os conflitos entre nações se expressam. Mas a metáfora militar muitas vezes confunde palavras com ações. Ainda não há evidência de que uma guerra de divisas se esteja a transformar em tensões comerciais crescentes”, sublinha-nos. Contudo, para muitos economistas, a guerra de divisas não é mais do que uma guerra comercial por outros meios, mais ‘suaves’.

Por seu lado, David Kotok, presidente da Cumberland Advisors, a tentação pela desvalorização das moedas é grande. “Assistimos a uma mudança de política em um dos grandes do G4 das divisas [EUA, Zona Euro, Japão e Reino Unido], no Japão. Ainda não é uma guerra. Mas pode muito bem transformar-se numa, num mundo em que os bancos centrais do G4 já estão com taxas de juro de referência muito baixas [entre 0% e 0,75%]. Neste contexto, as taxas de câmbio tornam-se a válvula de escape”, diz-nos o responsável por investimentos da firma de gestão de fundos da Florida.

Mapas de calor dão euro como a principal vítima

O euro tem-se mantido numa trajetória de valorização em relação ao dólar desde julho de 2012. Fechou o ano de 2012 valendo 1,3194 dólares e terminou janeiro de 2013 em 1,355 dólares. Contudo está longe dos 1,597 dólares que valia em abril de 2008. O euro valorizou-se, também, em relação ao iene, à libra e ao yuan chinês. Segundo a Bloomberg, o euro atingiu, este mês, um máximo de 14 meses em relação ao dólar e um máximo de três anos em relação ao iene. Valorizou-se 11% em relação a um cabaz de divisas desde que Mário Draghi pronunciou a já célebre conferência em Londres em 26 de julho de 2012 pre-anunciando o programa OMT (de compra ilimitada de dívida no mercado secundário).

A evolução global do mercado de câmbios pode ser observada nos “mapas de calor” (Complete World Currency War Heatmap) publicados pelo blogue norte-americano Zero Hedge, tomando em linha de conta uma evolução anual. Esses mapas apontam para uma divisa que lidera a depreciação, o iene, e um perdedor principal, o euro, seguido de um outro, o yuan chinês.

O debate sobre a desvalorização competitiva de divisas reabriu-se, este ano, com a vitória eleitoral de Shinzo Abe no Japão, que começou a colocar em prática os pontos principais da sua política designada por “abenomics” que envolve a depreciação ainda maior do iene e uma cooperação estreita entre as políticas orçamental e monetária (ou seja, impondo ao Banco Central do Japão uma “cooperação” formal com o governo, o que é considerado, por muitos, como perda do estatuto de independência do banco central). O Banco do Japão reúne na próxima quinta-feira (14 de fevereiro).

Há, contudo, um problema-chave: uma depreciação simultânea massiva das principais divisas do mundo, e por contágio de todas as moedas das economias exportadoras que queiram usar a desvalorização competitiva como arma, é impossível, “matematicamente impossível”, sublinha o analista norte-americano Mike Shedlock, do blogue Global Economic Analysis. Pelo que o risco geopolítico cresce, como aconteceu nos anos 1930.

No entanto, Bill Witherell, da Cumberland Advisors, acha “que não estamos a replicar os anos 1930″. E explica: “Até certo ponto sempre tivemos países que procuram afetar, por vários meios, a apreciação das suas divisas. As declarações e as posições do governo japonês aproximaram-se de uma situação de guerra de divisas. Isto afetou, sobretudo, a Coreia do Sul e Taiwan, e os governos destes países irão certamente reagir. Creio, contudo, que a depreciação do iene já foi substancial e que o governo japonês provavelmente não procurará mais depreciação da sua moeda”.

Muitos analistas esperam, por isso, um período de volatilidade no mercado de câmbios, maior ainda do que nas yields no mercado secundário da dívida, refere Niels Jensen, da Absolute Return Letter. Jensen aponta a continuação da tendência de depreciação do iene, pois o Japão apostará nessa via de ajustamento para manter a sua alavancagem exportadora (e conservar o seu estatuto de segundo país com maiores reservas cambiais, depois da China) e a recusa de recurso ao financiamento estrangeiro da sua dívida soberana e dos seus défices. Considera, ainda, que a depreciação do dólar será moderada, dado o seu “estatuto político” como divisa mundial.

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