Keynes contra o fantasma de uma guerra de divisas

A Grande Recessão do começo do século XXI não para de surpreender – provavelmente tanto como nos anos 1930. Depois de a depressão económica e da quebra do comércio internacional se ter invertido, estoirou a crise da dívida soberana dentro da fortaleza do euro e aumentaram as dúvidas e suspeitas sobre a saúde estrutural das contas públicas dos Estados Unidos, do Reino Unido e do Japão. Mais recentemente, apesar do discurso insistente do G20 – o novo grupo que discute os caminhos da economia mundial, substituindo o obsoleto G7 ou G8 – contra o protecionismo, dispararam, sem pedir licença, os fumos de guerra de divisas entre as grandes potências económicas.

Uma vez mais, John Maynard Keynes renasceu das cinzas espalhadas na sua casa de Tilton, em Inglaterra. Agora não é a política de intervenção face à recessão e à depressão que recomendara aos ingleses e americanos na época da Grande Depressão, mas a sua visão sobre a necessidade de uma nova ordem monetária internacional nos anos 1930 e 1940, sobretudo o plano original que desenhara para ser aprovado na cimeira de Bretton Woods no verão de 1944 (ver abaixo).

Uma divisa sui generis

O plano foi derrotado pelos americanos, mas as questões de fundo que o fundamentavam permanecem e, ciclicamente, voltam à tona. Não admira, por isso, que em abril o próprio Fundo Monetário Internacional (FMI), um organismo nascido de Bretton Woods, tenha iniciado uma discussão sobre a questão dos desequilíbrios mundiais, num documento preparado pelo seu Departamento de Estratégia e Políticas.

Sob o subtítulo “Uma divisa global sui generis”, o documento do FMI concluía que “se o bancor [a divisa inventada por Keynes] circulasse como uma divisa paralela, mas com um papel dominante em vez do dólar americano, então, tal como no sistema baseado em direitos especiais de saque [DES, as unidades de conta do FMI], os desequilíbrios que refletem a situação atual – nomeadamente, países com excedentes indexados ao bancor e países com défices flutuando contra ele – poderiam ajustar-se mais simetricamente, e talvez até mais automaticamente do que na situação atual, ou mesmo num sistema de DES, já que as divisas com défices se poderiam depreciar face ao bancor”.

O biógrafo de Keynes, Robert Skidelsky, um lorde inglês, conclui mesmo que “ se passos decisivos não forem tomados para re-equilibrar globalmente a situação, estaremos a caminhar para nova crise”. A doença deste sistema monetário internacional, imposto pelos americanos como uma das pernas da sua projeção geopolítica no século XX, continua lá. As décadas correram, mas a intuição de Keynes sobre os seus malefícios revelou-se premonitória.

Por isso, o professor americano Paul Davidson, que era um adolescente quando Keynes morreu, e que é tido como “um dos verdadeiros keynesianos” ainda vivos, não se admira com o facto do próprio FMI andar a estudar o assunto. Este editor da revista científica Journal of Post Keynesian Economics acredita que o sistema imposto pela Administração Nixon nos anos 1970, e que substituiu o acordo de Bretton Woods, “só tem aumentado, desde então, o grau de incerteza – no sentido keynesiano – da economia mundial”, continuando a alimentar a “ilusão doutrinária” de que o sistema monetário internacional se ajustará “automaticamente”.

Amaciar Keynes

Davidson refere em entrevista à Exame que a proposta de Keynes – que ele analisa em detalhe num dos capítulos da sua obra ‘John Maynard Keynes’ publicada em 2007 e traduzida, agora, pela editora Actual – para poder ser politicamente atraente, hoje em dia, terá de ser um pouco “amaciada”. É o que Davidson faz no seu livro mais recente ‘A solução de Keynes’, publicado no final do ano passado.

“O princípio por detrás do plano de Keynes – ou seja que o fardo de corrigir os desequilíbrios no sistema internacional de pagamentos deve repousar, primeiro do que tudo, no país credor, e não no devedor – é a base para a solução dos problemas atuais”, sublinha-nos. Mas logo explica o senão: “Infelizmente, o plano de então de Keynes, no limite, estava baseado na formação de um banco central supranacional. Ora o Banco Central Europeu mostrou-nos que um banco central supranacional – sem uma autoridade orçamental supranacional – pode gerar problemas, nomeadamente a possibilidade de defaults da dívida soberana. A meu ver, a solução correta requer mais algo como uma união internacional de compensações – mas deixando a cada país gerir o seu próprio sistema monetário e orçamental”.

Por seu lado, Bill Witherell, economista-chefe da Cumberland Advisors e ex-presidente da Mesa Redonda Internacional da National Association for Business Economics americana, refere-nos que “a ideia do bancor é atraente em diversos aspetos, mas acho que é pouco provável ser aceite e implementada. Tenho dificuldade em imaginar conseguir-se o acordo indispensável de todos os países-chave”.

Monopólio natural

Para Rolf J. Langhammer, vice-presidente do Kiel Institute for the World Economy, um dos institutos de análise alemães mais reputados, a proposta de Keynes “é uma visão, e provavelmente continuará como tal”. E explica-nos porque razão acha que não tem pernas para andar como alternativa: “Não penso que o bancor venha a ter a reputação ou o suporte de uma economia muito forte, como os EUA deram ao dólar durante muitos anos. Não devemos esquecer que o papel internacional do dólar tem sido devido à dinâmica, abertura e capacidade de absorção da economia americana, bem como, naturalmente, ao seu segundo papel internacional, o de ´produtor’ de segurança política e estabilidade”.

Recorde-se, de facto, que o dólar representa 86% das transações mundiais em moeda estrangeira, 65% das notas existentes fora dos Estados Unidos e das reservas internacionais, 59% dos depósitos bancários e 52% dos empréstimos bancários interfronteiriços e 46% dos títulos de dívida. Este domínio avassalador acompanhou, naturalmente, o fato dos EUA serem, ainda, a superpotência no plano geopolítico, como Langhammer sublinha. Como diz o FMI, na cena mundial, a divisa que manda “tende a ser um monopólio natural”.

Baseados neste “monopólio natural”, os americanos têm lançado mais achas para a fogueira do risco de guerras de divisas, através da política de “quantitative easing” (QE) seguida pela Reserva Federal (FED), o seu banco central. Esta política monetária implica a inundação da economia com extra liquidez de dólares, a par de uma desvalorização do dólar face a divisas como o euro e o iene japonês. Este mês, Ben Bernanke, o presidente da FED, anunciou um segundo programa de QE até final de Junho de 2011 que injetará mais de 600 mil milhões de dólares, através da compra de títulos do Tesouro americanos com maturidades de 2,5 a 10 anos. Desde 2008, a FED já injetou 1,75 biliões de dólares (cerca de 12% do PIB anual dos EUA) através desta política.

Esta política americana alimenta ainda mais o sobreaquecimento de economias emergentes como a China e o Brasil e impõe uma valorização perigosa do euro e do iene, provocando a deterioração ainda maior da competitividade externa da zona euro e do Japão. O euro continuava, este mês, uma tendência de valorização acima de 1,4 dólares. O resultado, alertam os analistas, só pode ser um incentivo à guerra de divisas e a uma vaga de protecionismo retaliador de uns contra outros, como sublinhava, recentemente, Mohamed El-Erian, CEO da Pimco, numa coluna no Financial Times.

O dilema da China

No entanto, a geopolítica pode dar reviravoltas, de surpresa. Por isso, alguns analistas têm acompanhado a evolução da relação entre o dólar e a moeda chinesa, o yuan ou renminbi. Os chineses decidiram em 1995 indexar a sua moeda ao dólar como suporte de uma estratégia internacional de projeção comercial, sublinha-nos Langhammer. “A China prosseguiu políticas não muito diferentes das que seguiram a Alemanha e o Japão no período do pós-guerra”, acrescenta. “Apesar dos americanos o irem negar até ao fim, houve, desde os anos 1990, o que podemos considerar um acordo de facto” entre os EUA e a China a respeito dessa indexação, diz o especialista alemão.

Essa estratégia levou a China a deter 24,3% das reservas globais, ultrapassando o próprio Japão, que detém 13,4%. Segundo projeções do já referido estudo do FMI, as reservas globais poderão dar um salto absolutamente “insano” até 2035. “As extrapolações sugerem que a procura de reservas atingirá, no médio e longo prazo, níveis insuportáveis para os emissores de reservas”, diz-se no relatório. Em termos de comparação, refira-se que hoje as reservas globais equivalem a 13% do PIB da maior economia do mundo, os EUA, mas em 2035 poderão representar 700%, com a China representando mais de metade desse oceano de reservas, se as políticas não forem alteradas.

O que isso gerará só poderá ser um tsunami. Mas o especialista alemão acha que “o acordo de facto entre os EUA e a China terá uma vida ainda muito prolongada. O renminbi terá ainda muito caminho para palmilhar até adquirir sequer uma das funções do dólar, quanto mais todas elas”. Os próprios chineses são cuidadosos, refere, por seu lado, Witherell: “Eles provavelmente deixarão o FMI desenvolver ainda mais a ideia do ‘bancor’”, antes de se pronunciarem explicitamente sobre o tema. Tanto mais, diz Langhammer, que “eles serão as principais vítimas se ocorrer uma quebra desse acordo de facto – eles sabem isso e querem evitar esses custos”. Os chineses vivem um dilema estratégico: “Eles duvidam da sustentabilidade do atual sistema monetário, mas, entretanto, apoiam-no, segurando o dólar”.

Haverá, então algum caminho intermédio, é a interrogação final. Alguns analistas falam de aumentar o papel dos direitos especiais de saque (DES) do FMI. Paul Davidson acha que não é solução – desvia-se do essencial levantado por Keynes. Rolf Langhammer, por seu lado, sublinha que os DES não são “separáveis” do dólar, que domina em 44% o cabaz de divisas que os suporta. Mas diversos analistas apontam a oportunidade de “mexer” nesse cabaz na próxima revisão quinquenal que irá ocorrer até final deste ano, sugerindo o ingresso da moeda chinesa (ainda não totalmente convertível, apesar de passos já dados pela China, nomeadamente através de Hong Kong e de Singapura). Outros propõem inclusive adicionar ao cabaz o ouro, que tem vivido um boom do preço da onça – que mais do que quintuplicou desde 1999 -, sendo olhado em muitas partes do mundo, sobretudo na Ásia, como valor de refúgio em tempos de incerteza económica e geopolítica.

ESTÓRIA DA ÉPOCA

Bretton Woods deu cabo dos nervos de Keynes

John Maynard Keynes foi no começo dos anos 1940 um passageiro frequente transatlântico, em condições de guerra mundial, recorde-se. O economista inglês fez seis viagens aos Estados Unidos entre maio de 1941 e março de 1946, sempre com a sua inseparável bailarina Lydia Lopokova, sua mulher, que lhe vigiava a saúde e lhe abrilhantava a vida social nos meios artísticos e intelectuais americanos. A primeira viagem, curiosamente, teria um stop over em Lisboa de onde o casal voou para Nova Iorque depois de uma estadia no Estoril.

Keynes não era um turista acidental inglês deslumbrado com a Big Apple – desempenhou, nesses anos, um papel difícil como enviado especial do Chanceler do Tesouro (equivalente a ministro das Finanças) do governo de Winston Churchill para as duras negociações financeiras com os americanos, que eram fornecedores vitais do esforço de guerra inglês contra o Eixo e credores de primeira linha, e que manifestamente procuravam aproveitar geopoliticamente o desgaste da superpotência em declínio, a outrora senhora do Rule Britannia.
No decurso dessas viagens, Keynes elaborou pelo menos quatro rascunhos de uma ideia que amadurecera ao longo de uma década: a necessidade de um novo sistema monetário internacional no pós-guerra que evitasse os erros cometidos no Tratado de Versalhes, no final da 1ª Guerra Mundial, e que ajudasse a resolver os enormes desequilíbrios que se avolumaram durante a 2ª Guerra Mundial com um fosso entre potências com excedentes comerciais persistentes e outras potências com défices externos crónicos e com níveis de endividamento público elevado, como era o caso, então, do Reino Unido (com 250% do PIB).

Antes da guerra contra o nazismo, em 1933, Keynes havia desenhado uma proposta para uma conferência económica internacional a organizar pelo Reino Unido, no sentido da criação de uma autoridade monetária internacional. Mas, na altura, o economista inglês pensava em assentar esse novo quadro de pagamentos internacionais em notas baseadas nas reservas de ouro. O projeto ficou na gaveta.

O papel central dos credores

Havia uma ideia central que o economista amadurecera e que parecerá, à primeira vista, exótica: o papel pró-ativo na resolução dos desequilíbrios comerciais e de pagamentos internacionais deve ser desempenhado pelas nações com excedentes comerciais e credoras de modo a incentivar a descolagem das economias dos endividados e deficitários. Keynes condenava tanto “a ilusão doutrinária” de que os re-equilíbrios seriam alcançados a prazo “automaticamente”, como a ideia “castigadora” de empurrar os devedores para o que ele considerava uma dinâmica “de Sísifo”.

Para esse efeito, deveria ser constituída uma União Internacional de Divisas, depois rebatizada para União Internacional de Compensações, onde funcionariam “contas de compensação” com saldos expresso numa nova unidade de conta, uma nova divisa independente de qualquer país a que Keynes deu o nome de “bancor”. Um banco de compensações facilitaria o financiamento aos países com problemas de pagamentos. Keynes não facilitava, no entanto, e referia a necessidade de impor uma disciplina aos devedores.
Em maio de 1942, o governo de Sua Majestade aceitou o plano de Keynes e mandatou-o para o negociar com os americanos. Contudo, estes, tinham um outro plano. A América entrara na guerra apenas em finais de 1941 e tinha uma visão do pós-guerra consentânea com a sua estratégia de projeção global que passava por não aceitar a secundarização do dólar como divisa internacional e por uma forte resistência a serem os “bombeiros” dos endividados.

O secretário do Tesouro americano mandatou, na altura, o seu secretário-adjunto Harry Dexter White para a batalha da negociação com Keynes. White, que também era economista e especialista em mercados monetários, contrapôs a ideia de um fundo de estabilização financeira e tinha a visão clara da necessidade de rejeitar qualquer tipo de divisa “independente”.

Uma correria quase fatal

O confronto dos dois economistas acabaria por ter como cenário o Hotel Mount Washington, em Bretton Woods, no estado do New Hampshire, durante três semanas em julho de 1944. Os Estados Unidos, a nova superpotência, acabariam por convencer os 736 delegados de 44 países aliados e Keynes perdeu em todas as frentes. O novo quadro geopolítico derrotara-o. O stresse também faria das suas – Keynes, numa correria para uma reunião a que não queria chegar atrasado, subiu à pressa umas escadas no hotel e teve um ataque de coração, moderado. O Fundo Monetário Internacional (FMI) nascia com White como diretor-executivo e Keynes nomeado Governador por parte de Inglaterra.

O economista inglês ainda negociou a questão da dívida britânica aos americanos (cujo serviço de dívida só terminou em 2006), mas o declínio da sua saúde era evidente. Assistiria, com a sua bailarina, em março de 1946, às cerimónias inaugurais do FMI e do Banco Mundial depois de uma última viagem para Nova Iorque a bordo do Queen Mary e, de seguida, de comboio para Washington, onde ficaram sedeadas as instituições, contra a sua vontade. O desencanto com a inflexibilidade americana quase o matou no regresso de comboio para a Big Apple. Mas conseguiu regressar a Inglaterra. Morreu com um novo ataque cardíaco fulminante em abril de 1946, na sua casa de Tilton, de que fora feito Lorde.

Curiosamente, White também acabaria por adoecer e demitir-se do FMI em 1947. As peripécias da caça às bruxas nos Estados Unidos tocaram em White que foi acusado, sem provas, de ser espião soviético. Morreu um ano depois. O homem que fora o instrumento fundamental da geopolítica americana em Bretton Woods acabava a vida enxovalhado e vitimado, também, por um ataque cardíaco.

Uma meia vitória póstuma
Keynes conseguiu, no entanto, averbar, mais tarde uma meia vitória, já as suas cinzas tinham sido espalhadas em Tilton.

Ele havia estimado em 1944 que seriam necessários uns 10 mil milhões de dólares para apoiar o ajustamento dos desequilíbrios e propusera que os Estados Unidos avançassem com 6 mil milhões. Os americanos recusaram e limitaram-se a autorizar apenas 3,75 mil milhões para o FMI que, no conjunto dos seus participantes, arrancou com 8 mil milhões em caixa.

Mas face à ameaça iminente da projeção da União Soviética na Europa, os EUA viram-se obrigados a concretizar a ideia estratégica de Keynes. Como nação credora tinham de liderar o ajustamento, particularmente no continente europeu devastado pela guerra, avançando com o que ficaria conhecido com Plano Marshall que acabou por envolver 13 mil milhões de dólares entre 1947 e 1951.
Não foram os argumentos de Keynes, mas a geopolítica que deu este triunfo póstumo ao sábio de Cambridge.

Leave a Reply

You can use these XHTML tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <blockquote cite=""> <code> <em> <strong>