Ladislau Dowbor sem papas na língua:«E quem disse que há um fundo do poço?»

Pode não haver um fundo do poço se nos limitarmos a querer curar a crise dentro das suas paredes, ficando prisioneiros do sistema financeiro mundial actual. Temos de olhar para fora do poço, parafraseando a célebre recomendação de «pensar fora da caixa».

“Ninguém perderia nada se se fechassem os grandes sistemas de especulação”, diz-nos Ladislau Dowbor, de 68 anos, um brasileiro de ascendência polaca que nasceu em França junto aos Pirinéus nos anos da guerra e que veio para o Brasil ainda miudo de calções. Dowbor trabalha hoje nas áreas do desenvolvimento local e regional sustentável, sendo um reconhecido perito internacional em planeamento.

Pelo seu activismo e pensamento a contracorrente, Ladislau é hoje considerado uma espécie de «três em um», na apresentação que o economista português Mário Murteira faz deste professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo: mistura uma posição independente como a do falecido economista brasileiro Celso Furtado, com o activismo contra a exclusão social típica do Nobel de Economia Amartya Sen e com a inovação social característica do Nobel da Paz Muhammad Yunus.

Ladislau formou-se em Economia Politica na Universidade suíça de Lausanne nos anos 1960 e doutorou-se na Escola Central de Planeamento e Estatística de Varsóvia nos anos 1970. Leccionou finanças públicas na Universidade de Coimbra entre 1975 e 1977. Ele publica um artigo na revista ‘Economia Global e Gestão‘ (editada pelo INDEG, em Portugal), nº3, de 2008, intitulado “A crise financeira sem mistérios”.

Dowbor reclama que é necessária uma «governança planetária», que vá para além do G20 e dos equilíbrios entre os BRIC e o G7.

ENTREVISTA

P: Um director do GIC, um fundo soberano de Singapura, revelou, recentemente, num slide para um público restrito que esperava que o montante a abater às contas no sector financeiro possa chegar aos 3,8 biliões de dólares (2900 mil milhões de euros, 3,9 trilhões ou triliões na designação no Brasil e anglo-saxónica) em 2013, e que, por ora, o que foi contabilizado soma apenas 30%. Como repete o financeiro Soros, o pior ainda está para vir?

R: A moeda representa direitos sobre produtos comerciais. São papéis, e mais recentemente puros sinais magnéticos nos computadores. É fácil de produzir. Quanto aos bens da economia real, estes têm de ser, de facto, produzidos com esforço, matérias-primas, factores de produção. O desequilíbrio é fácil, por isso, de se gerar. A Lehman Brothers tinha emitido “direitos”, sob forma de créditos, equivalentes a 31 vezes o que dispunha em caixa (as poupanças reais de quem produziu bens e serviços, cuja contrapartida gerou a possibilidade de poupar). Ao emitir no vazio, o banco americano cobrava assim juros e tarifas sobre um dinheiro que não tinha, e que não correspondia a nenhum aumento de produto disponível.

P: A quanto monta essa «alavancagem» feita nas últimas décadas?

R: O processo é simples. Multiplique-se esse processo [do Lehman Brothers] centenas de vezes nas mais variadas instituições, e chegamos aos tais 680 biliões de dólares (520.000 mil milhões de euros, 680 trilhões ou triliões) emitidos no mercado de derivados, sob várias formas. Ora, o PIB mundial é da ordem, apenas, de 60 biliões de dólares (60 trilhões ou triliões).

DOWBOR EM DISCURSO DIRECTO: «Quem disse que se a economia está a descer, necessariamente daqui a pouco vai subir? Ela não é como o mar – são estruturas cristalizadas de interesses que nos manterão na crise enquanto não houver reformulações mais profundas.»

P: Ou seja, o edifício dos famosos «veículos financeiros» inovadores é dez vezes mais que a economia real mundial. Como vamos sair de um mar de «lixo» tão avassalador?

R: Você tem diante de si um mundo de gente segurando papéis que julgavam valer algo. Vai ter de ser restabelecido o equilíbrio entre os bens e serviços realmente existentes, e o volume de “vales” emitidos. Ninguém sabe ao certo quantos “vales” foram emitidos ao todo, qual o volume de papéis «podres» no planeta, e portanto qual o tamanho do ajustamento em baixa necessário. Na minha convicção, não apenas o pior está por vir, mas não há necessariamente um “fundo do poço”.

P: Mas se não há um fundo do poço, como vamos sair dele?

R: Quem garante que depois da descida há uma subida? Se houver mudanças estruturais, sim. Mas através dos mecanismos oligopolizados de finanças internacionais existentes, e que chamamos por alguma confusão mental de “mercados”, seguramente que não. Recorde-se que a crise de 1929 encontrou paliativos, não soluções. Acabou com a tragédia planetária da IIª Guerra Mundial. Quem disse que se a economia está a descer, necessariamente daqui a pouco vai subir? Ela não é como o mar – são estruturas cristalizadas de interesses que nos manterão na crise enquanto não houver reformulações mais profundas.

P: O voluntarismo do Tesouro e da Reserva Federal americanas, ao não deixar cair os demasiado grandes para falir, na realidade é para capitalizar os bancos zombies (como já chamam a alguns dos grandes bancos na América) e deitar dinheiro para os seus accionistas principais e quadros principais, ou é mesmo para injectar liquidez na economia real, como se diz?

R: Todo o sistema especulativo na fase de expansão estava apoiado num aumento real da produção, ancorado por sua vez nos grandes avanços de produtividade que as novas tecnologias permitiram. A repartição da riqueza produzida deu-se numa aliança de fato entre os CEO das corporações (tipicamente com salários de dezenas de milhões de dólares) e os grandes accionistas e investidores institucionais (os grandes fundos de especulação). Não se trata de uma conspiração: trata-se de uma festa bastante alegre (“festa com chapéu dos outros”, dizemos no Brasil), onde quem tinha assento à mesa achava óptimo colaborar.

P: Mas para que servem, então, os reguladores?

R: Quanto aos organismos reguladores, Joseph Stiglitz já mostrou como são as mesmas pessoas que ora estão no Tesouro, ora no FMI, ora na Wall Street, ora na Reserva Federal. Em vez de prestarem serviços financeiros, essencialmente se serviam, e ninguém gosta de estragar festas, sobretudo quando participa.

DOWBOR EM DISCURSO DIRECTO: «Os governos que deveriam regular o sistema financeiro, são constituídos por pessoas eleitas com o dinheiro das corporações. Como pode existir um sistema de regulação e controlo quando os reguladores são, de alto a baixo do sistema, pagos por quem devem regular?»

P: Uma consultora americana, Catherine Austin Fitts, denunciou na América que o que se assistiu desde os anos 1990 com a revogação de peças centrais da regulação e com a gestão das bolhas por Alan Greenspan foi um verdadeiro «golpe de estado financeiro». Uma «criatura» na sombra surgiu de facto dessa vaga de «inovações financeiras»?

R: Como mencionei acima, não se precisa de teoria conspiratória, quando todos estão de acordo em se servir sem pensar muito no futuro ou na sociedade. As instituições de avaliação de risco eram (e são) pagas por quem avaliavam, ainda que um AAA custasse caro – até a Lehman tinha. As empresas de auditoria, com todos os seus códigos de ética, eram consultoras de quem controlavam, uma mão lavando a outra, como no caso da Artur Andersen. Os governos que deveriam regular o sistema financeiro, são constituídos por pessoas eleitas com o dinheiro das corporações. Como pode existir um sistema de regulação e controlo quando os reguladores são, de alto a baixo do sistema, pagos por quem devem regular? O Greenspan é simpático, pois confessa as maldades, inclusive as razões da guerra com o Iraque. Só que confessa, lamentavelmente, depois. No Tesouro entrou um executivo da Goldman & Sachs. Tutti buona gente. Mas sem dúvida que a revogação do sistema de regulação financeira nos Estados Unidos, no final dos anos 1990, foi rigorosamente um ataque organizado contra a economia real, batalhado pelos grandes especuladores, e vale a pena ver como se deu a votação.

P: E esse «monstro» acabou por engolir os seus próprios pais? Greenspan teve azar – esperava gerir uma aterragem suave e acabou deixando o maior presente envenenado desde a Grande Depressão?

R: No excelente documentário ‘The Corporation’, Michael Moore comenta esta estranha propensão das corporações, que são capazes de nos vender uma corda para alguém que queira enforcá-los, conquanto possam ganhar um dólar na venda. Neste sistema, se não houver controlo externo, político, sobre como são manejados os nossos recursos, simplesmente continuaremos a nos matar de trabalho para produzir um mundo de coisas idiotas, em vez de reduzir a jornada de trabalho, evoluir para um consumo menos denso em Barbies e mais denso em cultura, com maior presença dos bens gratuitos (família, passeios, festas, eventos culturais). O drama central está no facto de que estamos contaminando o planeta, destruindo a água, liquidando a vida nos mares, gerando um aquecimento global catastrófico, provocando a morte de dez milhões de crianças por ano por falta de acesso à água e à comida (isto não é crise?), vendendo armas em quantidades industriais em todo o foco de conflito – e dizíamos que a economia ia bem? O PIB estava crescendo? O Greenspan não tem grande importância, simplesmente dizia sim senhor aos mais fortes, e cruzava os dedos. Os seus grandes óculos davam a impressão de uma grande profundidade de reflexão. Mas o homem não viu o detalhe dos 680 biliões de dólares de derivados para um PIB mundial de 60 biliões, nem o dramático endividamento do governo e dos cidadãos americanos?

DOWBOR EM DISCURSO DIRECTO: «O dinheiro injectado nos bancos não está servindo para lhes devolver liquidez para que voltem a emprestar e a dinamizar a economia. Os bancos estão comprando activos baratos, consolidando ainda mais o seu oligopólio, ou simplesmente sentando em cima do dinheiro para reduzir a alavancagem.»

P: Mas se o problema do combate à crise estava na injecção de liquidez no sistema financeiro, como os governantes alegavam, por que razão esse dinheiro não chega mais à economia real?

R: Michel Chossudovsky, economista canadiano, estima que o dinheiro injectado nos bancos não está servindo para lhes devolver liquidez para que voltem a emprestar e a dinamizar a economia. Os bancos estão comprando activos baratos, consolidando ainda mais o seu oligopólio, ou simplesmente sentando em cima do dinheiro para reduzir a alavancagem. No caso do Brasil, Amir Khair mostrou que os cerca de 100 mil milhões de reais (33 mil milhões de euros) de apoio aos bancos os levou a aplicar o dinheiro em títulos públicos, lucrando com a elevada taxa básica do país (a SELIC, hoje em 11,25%), e com risco zero. Assim, além de lhes adiantar dinheiro público, a população paga através dos impostos a renda sobre o próprio dinheiro. Isto se chama “arquitectura financeira”. Transformar dinheiro em investimento, identificando empresas promissoras, fazendo o seguimento dos potenciais económicos reais, é muito mais trabalhoso do que vender pacotes de papéis, os simpaticamente chamados «Structured Investment Vehicles», ou investir em outros papéis. O sistema financeiro simplesmente se desgarrou da economia real, esqueceu que constitui uma autorização pública para trabalhar com dinheiro do público dentro de parâmetros fixados por lei, e teoricamente sob controlo de um banco central. Ninguém estava (ou está) regulando mais nada.

P: A solução em vez de injectar liquidez pode ser nacionalizar como defendem algumas personagens eminentes na América e na Europa? Ou isso não é mais do que socializar os prejuízos à custa do dinheiro dos contribuintes e com repercussões futuras na dívida e na gestão orçamental?

R: Os crimes já estão sendo socializados. Perdem os poupadores, os idosos que não terão a poupança esperada, produtores que viram o seu dinheiro de caixa reduzido porque tinham aplicado em papéis mais rentáveis e assim por diante. Os biliões que saem dos governos para os bancos saem dos nossos impostos, logo dos nossos bolsos. Como não há milagre na economia real, o governo só pode gastar o que arrecada, e vai arrecadar menos por causa da crise. Portanto será obrigado a cortar em outras áreas, em geral saúde, educação e semelhantes. Alguém tem de pagar, e de preferência os usuários de serviços públicos, porque são mais pobres, e a capacidade de reclamar é proporcional ao rendimento. No que não for possível de cortar nos serviços, haverá aumento da dívida pública, que renderá juros aos que compram títulos da dívida, sendo evidentemente que estes juros serão pagos com os nossos impostos. O sistema é muito sofisticado e inteligente, como se vê.

P: Porque simplesmente não se deixa falir o que não presta e não se abre terreno à criação de novos bancos?

R: Essa é a proposta elaborada por David Korten, no seu recentíssimo trabalho «Agenda for a New Economy». Ninguém perderia nada em se fechando os grandes sistemas de especulação. Eles não ajudam na fluidez da moeda e na agilidade de financiamentos. Pelo contrário, são tantos intermediários, tantas complexidades burocráticas (em nome da solidez do sistema e da confiabilidade da casa) que tornam tudo mais pesado. O que precisamos não é mais “controlo”, mas sim libertar os fluxos de recursos, desintermediando os financiamentos.

P: Mas isso não é um pouco irrealista?

R: Há hoje milhares de exemplos, desde o sítio na web Prosper que permite contacto directo entre poupadores e tomadores de empréstimos, até Organizações Não Governamentais (ONG) de intermediação financeira que trabalham na base da confiança nas comunidades onde conhecem efectivamente as pessoas e as oportunidades. O Placements Éthiques na França apresenta ONG de intermediação financeira que emprestam, que têm activos de grande porte, sem uma pirâmide de intermediários em cima. O sistema precisa de ser liberalizado, retirado das mãos dos atravessadores [intermediários] e dos especuladores, de forma a que o dinheiro volte a servir ao desenvolvimento.

P: Fala-se muito do exemplo japonês desde os anos 1990 – que teria experimentado todas as técnicas anticrise, desde os juros a zero ao famoso quantitative easing, sem grandes resultados. O Japão foi o ensaio em pequeno do que se está a passar agora? Ou agora o problema é mais complexo?

R: Há um pano de fundo em todo o processo, é que o sistema capitalista exige uma permanente dinâmica de expansão para não cair. É um sistema parecido com a bicicleta, só que gigantesco. Hoje com 60 biliões de dólares de bens e serviços produzidos anualmente, para 6800 milhões de pessoas, estamos produzindo cerca de 8 mil dólares por pessoa e por ano. Isto significa quase três mil dólares por mês por família de quatro pessoas. Ou seja, com o que produzimos hoje, todos poderiam viver de maneira digna e confortável no planeta. O problema é que o sistema produz, mas não sabe distribuir. Daí a necessidade funcional de um outro equilíbrio entre o Estado, as empresas e a sociedade civil organizada. O planeta está implodindo com os absurdos consumistas de um lado, com os dramas sociais de outro. O Japão está saturado, o japonês poupa mais, porque também já não sabe onde colocar mais uma televisão, mais uma bicicleta ergonómica.

DOWBOR EM DISCURSO DIRECTO: «Faz todo o sentido um exemplo coreano: acabam de colocar 36 mil milhões de dólares no programa de redução de emissões, financiando com dinheiro público a expansão de transporte colectivo e de alternativas energéticas, o que reduz as pressões sobre o clima. O programa, ainda por cima, gera 960 mil empregos, o que reduz, também, as tensões sociais.»

P: Mas qual é a saída então?

R: Há um grande horizonte de expansão, que é a inclusão produtiva dos 4.000 milhões de pessoas, que segundo o Banco Mundial estão “fora dos benefícios da globalização”. Promovendo, é claro, um consumo inteligente, porque generalizar a produção de carros para expandir a General Motors não faz muito sentido. Faz todo o sentido um exemplo coreano: acabam de colocar 36 mil milhões de dólares no programa de redução de emissões, financiando com dinheiro público a expansão de transporte colectivo e de alternativas energéticas, o que reduz as pressões sobre o clima. O programa, ainda por cima, gera 960 mil empregos, o que reduz, também, as tensões sociais. E ao promover a produção de bens ambientalmente sustentáveis e ao gerar mais empregos, promove a redinamização da economia. Esta convergência de visões de uma forma de financiamento (público e direccionado não aos bancos, mas às próprias actividades económicas), de um planeamento ambiental, de promoção do bem-estar social e de uma redução dos impactos da crise (uma verdadeira dinâmica anti-cíclica), aponta rumos claros e necessários. Basta o Japão olhar para o vizinho.

P: Para terminarmos, a crise vai dar cabo dos BRIC, ou o grupo dos quatro inventado pela Goldman Sachs vai sair ainda mais reforçado?

R: O problema é bem mais amplo. Temos uma economia mundializada, enquanto os instrumentos políticos são nacionais. Isto gera um imenso vazio de governança planetária, que permite não só a malandragem dos grandes grupos financeiros (inclusive com os seus criminosos paraísos fiscais), mas também os excessos das corporações do petróleo, das grandes empresas de intermediação de grãos ou de produção de gado que pressionam a desflorestação da Amazónia e de outras regiões, do oligopólio farmacêutico que se esqueceu completamente de servir a saúde das populações e assim por diante. De SIDA, já morreram 25 milhões de pessoas. De malária, morrem 2 milhões ao ano. Os oceanos estão tornando-se desertos, quando se trata da principal base de vida do planeta. Tudo isto não é crise? Temos 192 países membros da ONU, e cinco têm assento permanente no Conselho de Segurança, porque ganharam a guerra há 63 anos…Temos um novo equilíbrio planetário a reconstituir. Não se trata só dos BRIC, trata-se da imensa massa de pobres, dois terços da humanidade que não tem voz no que acontece. Trata-se das futuras gerações que não têm voz e que encontrarão devastações irreversíveis. E trata-se da natureza, que sangra silenciosamente. É tempo de ampliarmos a visão.

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