O BRIC eslavo que caiu no “clube” dos mais frágeis

O movimento geoestratégico de Moscovo anexando a Crimeia e mergulhando a sua zona de fronteira europeia, do Mar Negro ao Báltico, numa nuvem de incerteza sobre os próximos passos, é olhado como o renascimento de uma grande potência, marcando o fim do ciclo negativo originado pela desintegração da União Soviética. O sucesso geopolítico de Putin durante estas semanas de março varreu literalmente para debaixo do tapete a situação estrutural da sua economia, que, por ser a sexta ou sétima do mundo, é “sistémica”.

Jorge Nascimento Rodrigues (c) JNR, março 2014

Paradoxalmente, a crise da Crimeia veio acentuar uma tendência que se observava desde o início do ano: a entrada da Rússia, um dos famosos BRIC, para o “clube” dos “mais frágeis” de 2014. Essa fragilidade tem sido apontada na base do desastre que tem ocorrido no mercado bolsista e no rublo e com a fuga massiva de capitais.

As atenções concentraram-se no afundamento do rublo face ao euro em mais de 26,6% desde o início do ano e face ao dólar em mais de 18%. Depois do peso argentino e da lira turca, o rublo é a divisa que mais se desvalorizou face ao euro. Os analistas sublinharam, também, o crash monumental de 22% da bolsa de Moscovo desde o início do ano.

Hemorragia de capitais

O triângulo vermelho financeiro fica completo com os fluxos de saída de capitais, segundo os dados divulgados pela OCDE em fevereiro. Em 2012, as saídas tinham descido para pouco mais de 28 mil milhões de dólares, um mínimo desde o início da crise financeira global, e eram inferiores às entradas de mais de 39 mil milhões. Mas em 2013, as saídas totalizaram 63 mil milhões de dólares e as entradas terão sido inferiores.

As estimativas de saídas para o primeiro trimestre de 2014 apontam entre 35 mil milhões, segundo os números oficiais, e 70 mil milhões de dólares, estimativas da Capital Economics. A previsão da Goldman Sachs para todo o ano de 2014 aponta para 130 mil milhões de dólares, quase duas vezes a saída ocorrida em 2008, no auge da crise financeira global.

O Ministério da Economia russo disse esta semana que não vai introduzir controlo de capitais. As saídas de capitais têm, de facto, diversos significados. Um deles prende-se ao facto da Rússia, entre janeiro e setembro de 2013, ter sido o terceiro maior investidor no mundo, depois dos EUA e do Japão, segundo os dados já apurados. Outro tem a ver com os capitais russos voarem entre várias plataformas financeiras, em que se destacam Chipre, Ilhas Virgens britânicas, Luxemburgo, Suíça e Seicheles. A rede mundial do capital financeiro russo poderá tornar-se num dos elementos do atual surto de projeção externa de Moscovo.

Sinais claros de crise

Mas, o panorama negativo vai para além destas três frentes. “A economia mostra sinais claros de crise”, reconheceu, esta semana, Sergei Belyakov, ministro-adjunto da Economia, numa conferência em Moscovo.

Os sinais vermelhos mais gritantes são dados pelos perfis de evolução da taxa de crescimento económico e da taxa de crescimento das exportações ao longo desta crise global dos últimos seis anos. A previsão para 2013, aponta para um crescimento económico de 1,5%, face a níveis de 4% em média nos três anos anteriores. A projeção de crescimento para 2014 varia entre a estagnação, segundo a VTB Capital, 0,8% para a Morgan Stanley, 1,5% a 1,8% para o Banco Central da Rússia e 2% como meta oficial do Ministério de Economia.

O crescimento das exportações terá caído de 6% em 2011 para 1,9% em 2013. As duas curvas mostram uma tendência estrutural de declínio, apesar de altos e baixos e com uma recessão pontual em 2009. Um dado estrutural evidente é a queda do peso das exportações no PIB – de 34 a 35% entre 2004 a 2006 para 29-30% entre 2007 e 2012.

Para uma economia em que as receitas da venda de hidrocarbonetos representam 50% do orçamento nacional, o declínio estrutural do excedente externo, medido em função do PIB, é um pesadelo, ainda que alguns analistas digam que poderá ser contrabalançado pela desvalorização brutal do rublo. O excedente está hoje longe dos 18% de 2000 ou mesmo dos 9% de 2006. Em termos relativos, caiu de 5,1% em 2011, para 3,7% em 2012 e 1,6% em 2013. Nas previsões do Fundo Monetário Internacional, cairá para 0,2% em 2018 e a Citi Research aponta para défice externo já em 2016.

A dependência das exportações energéticas é brutal: 71,6% das exportações em 2012 concentraram-se no crude, gás natural e outros combustíveis. A Rússia é o primeiro produtor mundial de petróleo, à frente da Arábia Saudita, e o segundo produtor mundial de gás, depois dos EUA. É o primeiro exportador mundial de gás, à frente da Noruega, e o segundo exportador mundial de petróleo, depois da Arábia Saudita.

Por isso, a balança externa russa é totalmente “sensível” às flutuações dos preços destas commodities, à turbulência no seu transporte (gasodutos e oleodutos por terra ou submarinos) e às crises nos mercados de destino, sejam choques económicos (por exemplo, o abrandamento atual da economia chinesa, o segundo mercado de exportação russo) ou políticos (a União Europeia é o destino de 45% das exportações russas e a forma como Bruxelas reagir politicamente terá um impacto maior ou menor). Em segundo lugar, a larga distância vem o aço e o ferro (4,3%), depois o armamento (2,6%) e os fertilizantes (2,1%).

Um dos resultados da instabilidade da economia russa tem sido a variação das reservas internacionais. Depois de um pico de 537,8 mil milhões de dólares em 2012, as reservas caíram para 498,9 mil milhões no final de janeiro de 2014 e menos de 495 mil milhões no final de fevereiro. A 3 de março, o Banco Central da Rússia (BCR) teve de vender reservas no equivalente a 11,3 mil milhões de dólares, para inverter a desvalorização súbita do rublo que ultrapassara os 50 euros por rublo.

Dmity Polevoy, analista da ING em Moscovo, citado pela Euromoney, estimava o montante das reservas apenas em moeda estrangeira convertível na ordem dos 270 mil milhões de dólares. Mas, desse montante, sublinhou Polevoy, as divisas realmente disponíveis, para o tipo de operações como a realizada a 3 de março, não ultrapassam os 150 mil milhões de dólares, o que daria, tecnicamente, para 13 operações daquela envergadura. Numa situação anterior, na resposta à guerra da Geórgia em agosto de 2008 e ao pico da crise financeira global que ocorreu a seguir, o BCR vendeu 57 mil milhões de dólares durante todo o mês de dezembro de 2008. Há alguma margem de manobra para o Kremlin, dizem alguns analistas, mas não dá carta-branca.

Vários círculos de impacto

Os analistas de geoeconomia apontam para vários círculos de impacto deste movimento do Kremlin de anexação da Crimeia e de eventual jogada da cartada étnica para se posicionar nos espaços contíguos, como o sul estratégico da Ucrânia entre Odessa e Kharkiv (ver mapa). A península da Crimeia depende do vizinho ucraniano em 85% da eletricidade, 90% da água potável e na alimentação.

Segue-se a frente até ao Báltico. Em 2006 e 2009, a Gazprom, o potentado do gás, pressionou a Ucrânia e em 2010 a Bielorrússia, e em 2013 ameaçou a Moldávia, onde os russos apoiam movimentos separatistas na Transnistria. Uma mensagem cínica de um membro da equipa do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia então proferida ficou na história: “Esperemos que não gelem”. No Báltico, a Rússia dispõe do enclave estratégico de Kalininegrado, literalmente “entalado”. Ucrânia, Polónia e Lituânia têm reservas de gás de xisto que ameaçam a estratégia energética russa. A Ucrânia, dispondo provavelmente de reservas que a colocam em terceiro lugar na Europa, poderá exportar esse tipo de gás a partir de 2020.

A dependência europeia do gás natural russo é a face mais visível de uma vulnerabilidade com implicações geopolíticas. Um conjunto de países da União Europeia é mais vulnerável (ver gráfico), pelo que a Polónia, Hungria, Eslováquia e República Checa já pediram aos EUA para iniciar exportações de gás para a Europa. Uma das respostas de alteração àquela dependência foi o aumento das importações de gás europeias da Noruega e do Qatar. E a aproximação da Ucrânia à União Europeia colocará fora do perímetro estratégico russo o principal hub de gasodutos do gás russo – nomeadamente o ‘Bratstvo’ e o ‘Soyuz’ – por onde passam anualmente 3 biliões de pés cúbicos de gás natural para a Alemanha, Áustria, Bósnia-Herzegovina, Bulgária, Croácia, Eslováquia, Grécia, Hungria, Moldávia, Polónia, Republica Checa, Roménia e Turquia.

A exposição da banca europeia à Rússia era no final de setembro – segundo os últimos dados disponíveis – de 156 mil milhões de dólares, quase quatro vezes a exposição da banca norte-americana. Os três países mais expostos são a França (cerca de 1/3 do conjunto), Itália e Alemanha. Os três bancos europeus mais expostos são o Rosbank, subsidiário da Société Générale francesa, o Unicredt italiano e o Raiffaisenbank austríaco.

Perguntas a

Constantin Gurdgiev
Economista russo, professor no Trinity College em Dublin

P: A economia russa é vulnerável aos preços internacionais do crude e do gás?

R: Totalmente. A Rússia está exposta a qualquer flutuação nesses preços. Esse efeito é só parcialmente mitigado pela “esterilização” das receitas das exportações pelas aplicações que são feitas pelos Fundos Soberanos russos.

P: Há alguma correlação?

R: Desde 1999-2000 tem havido uma correlação positiva muita alta e estável entre o crescimento do PIB nominal e as variações do preço do petróleo, ajustadas pela volatilidade do mercado de câmbios. Essas variações antecipam por três a seis meses as variações no PIB: Há um canal de transmissão claro de choques nos preços globais para a economia russa.

P: O Banco Central da Rússia (BCR) pode intervir para limitar esses efeitos?

R: As intervenções do BCR podem compensar esses choques adversos de preços, mas estão limitadas pelas pressões inflacionistas internas e pela política monetária que regista movimentos contrários entre o preço do petróleo e as taxas diretoras de juros do banco central desde 2011.

P: As reservas em divisas não são uma boa almofada financeira?

R: A maioria dessas reservas – entre 490 a 500 mil milhões de dólares – estão fora da Rússia, o que as torna vulneráveis ao risco de paragens súbitas, se as sanções inluirem o congelamento de ativos do Estado russo. Isto não é esperado para já, mas a ocorrer tornará o rublo extremamente vulnerável a um ataque fortíssimo.

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