O Dia seguinte à crise: Há luz ao fundo do túnel

“Estamos num ponto de viragem”, afirma-nos Carlota Perez, investigadora venezuelana no Centro de Análise de Políticas da Área Financeira da Escola de Negócios da Universidade de Cambridge, no Reino Unido. E acrescenta: “Se a história servir de referência, estamos a meio do caminho na Revolução da Informação”.

Ao fim de trinta anos, o que a especialista em ciclos tecnológicos chama de “período de instalação” da Sociedade da Informação e do Conhecimento esgotou-se. A sua crise de ‘limpeza’ ocorreu com a derrocada do Nasdaq (a bolsa tecnológica de Nova Iorque que foi inspirada pelo hoje tristemente famoso Bernard Madoff) em 2000.

O que estamos, agora, a viver é a passagem para um período de massificação (de “desdobramento”, na expressão usada pela investigadora) da Revolução da Informação. Finalmente, estaremos a chegar à “idade de Ouro” do que o futurista Alvin Tofler baptizou de ‘Terceira Vaga’.

O que deixa uma nota de optimismo na paisagem recessiva actual. Há luz ao fundo do túnel da crise global actual. Um aspecto que já referia Brian Berry, outro especialista em ciclos longos, na entrevista que nos concedeu no ano passado.

Prepare já hoje o Dia Seguinte à Crise procurando as oportunidades que esta massificação da sociedade da informação e do conhecimento ainda tem para oferecer.

Mas, essa passagem – que está e vai ser dolorosa por algum tempo – é facilitada se os decisores políticos navegarem na direcção certa, acentua Carlota Perez.

Duas condições políticas

A transição com êxito de fase tem, no entanto, duas exigências, segundo esta investigadora do Centro inglês de Investigação sobre Políticas Científicas e Tecnológicas da Universidade de Sussex, mais conhecido pelo seu acrónimo SPRU.

Primeira exigência: proceder a “uma recomposição institucional” que coloque o capital produtivo no posto de comando da criação de riqueza, devolvendo, em simultâneo, ao capital financeiro o seu lugar de “facilitador da economia real”. Neste ponto, Carlota Perez recorda uma galeria de economistas célebres que defende essa posição política de subordinação da finança à economia real empreendedora: Joseph Schumpeter (que colocava no centro do capitalismo o empreendedor e o capital produtivo), Thorstein Veblen, A.C. Pigou e John Maynard Keynes (muito actual, “The Grand Slump of 1930”, publicado em Londres em Dezembro de 1930).

Segunda: investir na direcção certa, na massificação da infra-estrutura tecno-económica do actual ciclo tecnológico. É esse investimento de emergência que terá, a médio e longo prazos, o principal efeito multiplicador.

Estes eram os conselhos de Perez em 2003 quando escreveu o livro ‘Technological Revolution and Financial Capital: The Dynamics of Bubbles and the Golden Age’, cujo epílogo era um manifesto sobre o ponto de viragem.

A economia de casino depois de 2000

Contudo, o caminho seguido pelos decisores políticos após o «crash» do NASDAQ, particularmente na potência mundial dominante, os EUA, foi outro. Instigou-se um divórcio entre o capital financeiro e o capital produtivo num momento crucial. O que foi privilegiado foram as “práticas de economia de casino” que geraram uma nova bolha financeira nos anos 2000.

Mas, agora, “este segundo episódio” – a «bolha» do imobiliário e dos derivados financeiros – tem uma diferença fundamental em relação à euforia do Nasdaq: a bebedeira de crédito não esteve ligada ao parto de nenhum novo tecido económico, mas sim de um sistema financeiro fictício que hoje vale 15 vezes a economia real mundial e que é, pela primeira vez, globalizado.

Um tal erro político só poderia conduzir a um novo colapso e uma recessão ainda mais profunda e globalizada. Situação que só se alterará, diz Perez, quando os reguladores políticos restaurarem a confiança recolocando o acento tónico na criação de riqueza real ligada à Sociedade da Informação e do Conhecimento.

Corrigir o tiro

“O objectivo político saudável não é controlar a finança mas guiá-la no sentido de estar ao serviço da produção”, sublinha a nossa entrevistada. Quando este paradigma básico for reposto, entraremos numa “fase de sinergia” que poderá permitir um crescimento sustentável durante mais duas a três décadas.

Até que um novo ‘big bang’ tecnológico abale a economia como aconteceu no Silicon Valley californiano em 1971 quando se fabricou o primeiro microprocessador que tornaria realidade a Aldeia Global idealizada em 1968 por Herbert Marshall McLuhan. Até que uma crise de maturidade mude, de novo, as regras do jogo, como aconteceu em 1825, 1873, 1920 e 1974, recorda a investigadora. Mas isso já são outras contas.

Carlota Perez em Discurso Directo

“As próximas duas a três décadas poderão ser a Idade de Ouro de uma Sociedade global do conhecimento, tal como nos anos 1950 e 1960 vivemos a Era dourada da produção em massa e nos anos 1850 e 1860 o «boom» do caminho-de-ferro”

“A realidade de recursos energéticos e de materiais básicos limitados juntamente com a ameaça de mudança climática podem tornar-se os principais moldadores da forma como o paradigma das tecnologias de informação e comunicação é expandido globalmente. Acarretará uma mudança enorme nos padrões de consumo e nas estratégias de negócio”

“Agora necessitamos de inovação institucional tal como tivemos inovação financeira e tecnológica em décadas recentes. As duas áreas fundamentais de mudança institucional são a financeira e a do ambiente. E terão de ter uma componente supranacional”

One Response to “O Dia seguinte à crise: Há luz ao fundo do túnel”

  1. Exatamente por considerar legítimas as pesquisas e os estudos da professora Carlota Perez -no sentido visual- é que percebo a luz no fundo do túnel estar a vir acompanhada de uma dimensão sonora -metáfora para a locomotiva que se aproxima em nossa direção- carregada de ignorância, barbárie e despotismo fundamentalistas…
    Duvidas? Olhe ao redor! Apesar de todo o desenvolvimento tecnologico ainda vivemos na era da completa obscuridade (caverna
    platônica?) no meio de um aforismo chamado povo seguindo teses hobbesianas… e acreditando no céu e no inferno, já que a idéia de purgatório, uma vez que não gera mais lucros, foi abolida em ato solene pelo papa de plantão…
    MarcFlav

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