O dilema dos sauditas

Pressionados para conservar a galinha de ovos de ouro e garantir uma sucessão pacífica no trono, as promessas de mais barris diários serão sempre muito limitadas… a convencer os mercados.

Os anúncios de decisão de aumento de produção pela Arábia Saudita têm-se sucedido, face à pressão política das grandes potências consumidoras e importadoras líquidas. Há uns tempos os sauditas prometeram aumentar este mês (Junho) 300 mil barris por dia de crude e durante a recente visita do secretário-geral da ONU, Ban ki-moon, a Riad, um porta-voz dessa organização (uma inovação de comunicação!) falou em nome dos sauditas anunciando um aumento de mais 200 mil barris por dia em Julho.

De qualquer modo, o impacto psicológico destes anúncios nos preços do crude no mercado «spot» e no mercado de futuros não se sentiu. A evolução altista do preço do barril, ainda que oscilante, tem continuado, no sentido de uma consolidação num patamar próximo dos 140 dólares para o petróleo americano.

A Arábia Saudita, o maior produtor do mundo, pela sua própria voz, fez, agora, uma promessa de aumento de 500 mil barris por dia de crude na reunião entre produtores e consumidores que se reuniu este fim-de-semana (22 de Junho) em Jedá, o porto que serve Meca e Medina, os lugares simbólicos do «hajj» (peregrinação muçulmana). E juntou-lhe uma perspectiva optimista: passar dos actuais 9,2 milhões de barris diários (mbd) em Maio para 12,5 mbd em finais de 2009. Mais de 3 milhões adicionais!!! O ministro dos petróleos saudita Ali-Naimi tirou, ainda, da cartola a hipótese de sacar mais 2,5 milhões de cinco campos petrolíferos…alguns deles bem velhos. Para chegar a um máximo de 15 mbd! De tanta fartura, o pobre desconfia…e os mercados, também, que continuaram com os preços em alta quer no «spot» como nos futuros.

Novo campo petrolífero

A provável garantia que o reino saudita vai dar para o cumprimento da promessa mais imediata dos 500 mil barris de crude é o recém-aberto (apenas em 22 de Abril) campo petrolífero de Khursaniyah, previsto para abrir no ano passado, mas cujo funcionamento deslizou para 2008 – espera-se que este jovem campo possa passar de uma produção diária actual de 300 mil barris para uma de 500 mil, o máximo possível segundo a Aramco, a petrolífera saudita. Quando o conseguirá exactamente ninguém arrisca.

Tenha-se em conta que, segundo a Agência Internacional de Energia, o aumento actual da procura mundial é de 1,4 milhões de barris por dia, sobretudo devido à pressão consumista realizada pelos países emergentes, com a China à cabeça, seguida dos próprios países do Médio Oriente. A Ásia no seu conjunto está a consumir mais 700 mil barris por dia e o próprio Médio Oriente mais 300 mil do que em 2007. Os crescimentos anuais na China de gasóleo, gasolina e «jetfuel» (para os aviões) são respectivamente de 10%, 8,8% e 8,5%. Os países desenvolvidos da OCDE até têm diminuído o consumo, derivado de ganhos de eficiência e de substituição tecnológica.

Teoricamente, a Arábia Saudita dispõe de uma “capacidade disponível” para produzir mais 1,45 milhões de barris diários (mbd) num período de 3 meses, segundo dados da Energy Information Administration, o que só por si resolveria o problema da fome mundial de petróleo no curto prazo.

Questão política é essencial

Mas os sauditas defrontam-se com um dilema estratégico: por um lado, acelerar o aumento da sua produção compromete a longevidade da sua galinha de ovos de ouro; por outro, aproximar-se da quota fixada pela OPEP, diminuindo a produção actual e limitando o desgaste do seu maior campo petrolífero (o velho Ghawar, aliás o maior do mundo), atrai a ira política dos seus aliados consumidores e incendeia o preço do barril que é facturado em dólares, uma divisa que cada vez vale menos.

Dilema estratégico que ocorre num período politicamente delicado para o país. Em virtude da idade avançada e das alegadas doenças do actual monarca Abdullah (que substituiu há três anos o também muito velho rei Fahd, quando este faleceu) e do seu sucessor o príncipe Sultan (Ministro da Defesa), é elevado o risco de disputas agudas entre vários candidatos (pelo menos mais cinco) e entre as duas grandes facções internas do regime (a al-Sudairy e a al-Faisal).

A conservação dos activos do ouro negro parece ser a opção seguida, tendo corrido a informação que o rei teria dado instruções à Aramco para “pousar” em cima de novas descobertas, deixando a sua exploração para gerações futuras, segundo o relatório de Maio da Agência Internacional de Energia.

O que se pode, então, observar historicamente sobre o comportamento da produção saudita nos últimos anos? Segundo os dados disponíveis, o pico de produção de combustíveis líquidos (11,1 mbd) situou-se em 2005. Em 2006 baixou para 10,85 mbd e em 2007 para 10,41 mbd. Ou seja entre o pico e o último ano, a quebra diária de produção foi de 690 mil barris.

Contudo, há que ter em conta, também, que para além da quebra da produção, o volume total de exportação líquida de petróleo saudita continua abaixo do atingido em 2005, por uma razão que está a alterar as regras do jogo: o disparo no aumento do consumo interno. A exportação líquida diminui de 9,22 mbd em 2005 para 8,26 mbd – ou seja menos 960 mil barris por dia. O consumo interno, no mesmo período, devorou mais 260 mil barris diários. Se somarmos o aumento do consumo com a quebra de produção obtemos a diminuição da exportação.

É claro que uma diminuição do volume de exportações líquidas colocadas pela Arábia Saudita no mercado internacional tem impacto na oferta e na «guerra» apertada que esta trava com a procura por parte de «glutões».

Situação global

Como se pode, também, observar pelo gráfico fornecido quer pelos dados da IEA como da EIA, a produção mundial de líquidos aumentou entre Janeiro de 2007 e Maio de 2008, cerca de 2 milhões de barris por dia. Contudo, este aumento está a ser alimentado pelos polémicos biocombustíveis e por alguns aumentos mais significativos de produção do Cazaquistão, de Angola e até do Iraque (que, no entanto, continua 33% abaixo do seu nível de produção no final dos anos 1980).

No entanto, no reverso da medalha, grandes produtores estão em declínio: a Rússia, que deixou de ser o primeiro produtor mundial (lugar que voltou a ser ocupado pela Arábia Saudita), o México, a Nigéria (fortes perturbações políticas internas), a Venezuela, o Reino Unido e a própria Noruega. Se houver, inclusive, uma inversão na política de incentivo aos biocombustíveis (em virtude do alegado impacto em algumas produções alimentares), isso significará necessidade de mais crude.

(c) Jorge Nascimento Rodrigues, Junho 2008

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