O erro do FMI abalou a confiança nos “ajustamentos” — Anis Chowdhury

“O erro do Fundo Monetário Internacional (FMI) foi importante. A confiança com que os resultados eram apresentados jogou um enorme papel para convencer os decisores políticos para mudarem de uma política de estímulos para a consolidação orçamental, ainda que alguns decisores fossem provavelmente mais inclinados ideologicamente a aceitá-lo do que outros”, afirma Anisuzzaman Chowdhury, professor de Economia da Universidade de Sidney Ocidental, na Austrália, e um dos académicos muito críticos da chamada “austeridade expansionista”.

Entrevista conduzida por Jorge Nascimento Rodrigues

Alguns dos mais inclinados para aceitar os baixos multiplicadores orçamentais do FMI tinham uma determinada “ideia fixa”, refere-nos Chowdhury, “ideia que permanece ainda”. Jean-Claude Trichet, quando presidente do Banco Central Europeu, e grande parte dos membros do ECOFIN (reunião dos 27 ministros das Finanças da União Europeia) ficaram profundamente influenciados pelas opiniões expostas pelo economista de Harvard Alberto Alesina em abril de 2010.

Estávamos ainda no período inicial da crise das dívidas soberanas na zona euro. Nesse momento crucial, os políticos europeus e os banqueiros centrais retiraram a ideia de que, em regra, a austeridade era expansionista e de que os ajustamentos eram bem-sucedidos. Conclusão apressada que ia contra a própria evidência da investigação de Alesina, que apontava apenas para sucesso em 19% dos 107 eventos estudados em países da OCDE entre 1970 e 2007 e para 25% em que se verificou efetivamente expansão posterior. É este o intervalo de “probabilidade que a experiência histórica sugere”, alerta Chowdhury.

As diferenças de contexto

Um estudo do académico Adam Posen realizado para a Comissão Europeia em 2005 – antes da crise – concluía que 50% dos casos de sucesso de programas de austeridade “foram acompanhados por uma política monetária expansionista que permitiu ao crescimento ser sustentado”. Além do mais, recorda Chowdhury, há um conjunto de fatores complementares que são decisivos, e nomeadamente o contexto.

Os episódios estudados por Alesina e muitos outros académicos aconteceram em períodos, desde 1970, em que não ocorreu nenhuma grande crise financeira e económica global e em que não se observava a simultaneidade de programas de ajustamento em países que são parceiros comerciais e partilham inclusive a mesma moeda. “Ajustamentos estruturais ou as chamadas políticas de reformas pró-crescimento não são muito eficazes quando as mesmas políticas são aplicadas nos principais parceiros comerciais. Neste caso, não há procura que compense durante a fase de declínio, o que acaba por agravar o declínio por todo o lado. Ora isto ainda fica mais agravado quando as autoridades monetárias – os bancos centrais – por medo da inflação mantém políticas de contração”, conclui o economista.

Quem responde pelos erros?

O erro do FMI ficou famoso em outubro passado quando Olivier Blanchard, conselheiro económico do fundo e diretor do Departamento de Investigação, reconheceu no “World Economic Outlook” que o multiplicador orçamental era muito mais elevado do que se pressupôs no desenho dos programas de gestão da crise das dívidas soberanas nos países da zona euro, onde o FMI interveio integrado na troika.

“Não foi dito que as estimativas eram derivadas de uma metodologia informal. Pelo contrário, foi dada a impressão de que se tratavam de estudos rigorosos confirmando resultados empíricos de que os multiplicadores orçamentais eram mais pequenos”, prossegue este economista nascido no Bangladesh, que, em setembro passado, contestou a robustez da evidência empírica da convicção da “austeridade expansionista” na “Economic and Labour Relations Review”. Antes da Austrália, Chowdhury já lecionou em vários pontos da Ásia e da América do Norte e é membro do Center for Pacific Basin Monetary & Economic Studies, do Banco da Reserva Federal de São Francisco.

O erro do FMI foi entretanto “esquecido” e sobretudo acantonado na ideia de que se tratou de um “erro técnico” separado das políticas em que se inseriu. Chowdhury é particularmente crítico desta postura: “Não é possível separar os erros técnicos das políticas mais amplas. Quem é que assume a responsabilidade dos erros?”.

O economista asiático discorda da estratégia de gestão da crise das dívidas seguida pela troika, tanto pelo FMI como pelos europeus: “Não seguiram o melhor caminho. Deveriam ter começado com um plano de alívio da dívida em vez de imporem mais empréstimos com a condicionalidade dos ajustamentos estruturais. Querer fazer reformas profundas durante uma recessão é como pedir a uma pessoa que se está a afogar para aprender a nadar, em vez de a salvar primeiro”.

(c) JNR, 2013

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