O fantasma da hiperinflação reaparece

“A hiperinflação é um cenário que pode rebentar nos próximos cinco anos nos Estados Unidos, e a meu ver as probabilidades apontam para o muito curto prazo”, afirma-nos Walter J. Williams, de 60 anos, um economista americano que alimenta um portal de informação estatística “alternativo” às fontes oficiais, que dá pelo nome bem ilustrativo de “estatísticas sombra”.

Esse processo poderá ser rápido e “traiçoeiro”, atravessando um curto período de euforia ilusória, aproveitado certamente por todo o tipo de especuladores, surpreendendo, por isso, depois, a maioria dos americanos. Não falta já a vaga de indicadores que apontam para uma desaceleração da crise a partir de um pico em Dezembro de 2008 ou Janeiro de 2009.George Soros juntou-se ao coro político decretando que “o pior já ficou para trás”.

Mas se o vírus da hiperinflação atacar, “a depressão que vivemos poderá transformar-se definitivamente numa grande depressão”, diz Williams, o responsável pelo sítio www.shadowstats.com. A ponte entre inflação e hiperinflação não tem nenhum muro de Berlim no meio a dificultar o caminho – é uma dinâmica que se pode gerar de um momento para o outro, como os exemplos históricos conhecidos apontam.

As próprias estatísticas apresentadas por Williams apontam para uma situação actual de inflação (de 6,1% ao ano) nos Estados Unidos – e não de ligeira deflação (quebra de preços) como alegam os responsáveis oficiais. “Os ingredientes para que um cenário hiperinflacionário nos surpreenda estão todos no seu lugar há muitos anos”, clama o economista.

Um modelo que faliu

O modelo de crescimento económico assente na ilusão de “dominar” o ciclo económico, de o restringir a uma “média” de meses mínima, e de alimentar continuamente o consumo e o investimento americanos por via da expansão da dívida pública “já não é mais viável, pelo menos no futuro imediato”. A ‘doutrina Greenspan’ à frente da Reserva Federal (FED) – particularmente entre 1992 e 2007 – levou o modelo ao extremo em tempo de paz e criou o berço para a crise financeira que rebentaria em meados de 2007.

Quando o abcesso começou a rebentar há dois anos atrás, os políticos e economistas da Administração W. Bush julgaram que se tratava de algo similar ao que ouviram falar, ou tinham mesmo estudado (como foi o caso de Ben Bernanke, que substitui Greenspan à frente da FED ainda durante a anterior administração), sobre a Grande Depressão de 1929 e decretaram o combate sem tréguas ao perigo de deflação. Aceleraram, por isso, a política de expansão da dívida pública e da sua monetarização, agora com o argumento de pacotes de emergência anticrise. O paradigma continuou com a eleição de Obama para a presidência: “Não vejo que a nova Administração tenha outra opção do que prosseguir com a depreciação do dólar e de arriscar ver-se no meio de uma hiperinflação sem se dar conta como”, diz Williams.

A situação atingiu um patamar inacreditável, recorda o economista: “as obrigações totais dos EUA (e não só o que é classificado como dívida pública que se situa nos 11,4 biliões de dólares, triliões na designação anglo-saxónica) subirão, no final deste ano, para os 75 biliões de dólares (triliões na designação anglo-saxónica, cerca de 54.000 mil milhões de euros), um valor descomunal, superior ao próprio PIB mundial de 2008 e que representa mais de cinco vezes o PIB americano naquele ano”. Este valor é mais do dobro do nível atingido em 2002. “Só a dívida pública americana  aumenta 6 mil milhões por dia. A dado ponto o mercado vai parar no financiamento do governo americano se começa a temer uma bancarrota”, sublinhava o analista chinês Andy Xie, no China International Business Magazine, em 2 de Julho.

Williams interroga-se: quem acreditará que a América é solvente?

A questão da confiança

A falta de confiança na solvabilidade americana pode espalhar-se. Os alertas chineses repetem-se – o governador do banco central da China, Zhou Xiaochuan, voltou, no princípio de Julho, a falar da urgência de se pensar na criação de uma divisa internacional de reserva “desligada das nações soberanas”. Diz Williams: “Não sei o que os chineses esperam em termos de janela de tempo, mas creio que podemos apostar com segurança que eles pressentiram já que vão perder muito dinheiro nos valores que têm em dólares”.

Qual poderá ser o novo despoletador de uma crise de confiança? Muitos analistas falam que continua “pendente” o estalar de uma crise de liquidez no mercado das obrigações do Tesouro americano a 10 e 30 anos, em larga medida compradas por investidores estrangeiros.

A hiperinflação é uma situação sobre a qual as gerações actuais de americanos não têm qualquer memória histórica – foi coisa longínqua dos tempos da guerra de independência anti-inglesa e depois na guerra civil. Por isso, reagem com estupefacção a uma conclusão deste tipo. Mas na Europa a memória tem sido avivada com o reestudo do que ocorreu durante um curto período na chamada República de Weimar na Alemanha, com um pico em Novembro de 1923 em que os preços duplicavam de dois em dois dias, ou na Hungria depois da 2ª Guerra Mundial em 1946, ou na Jugoslávia, mais recentemente no final dos anos 1980.

Como é possível que a principal potência mundial possa correr um tal risco, interroga-se o leitor que está habituado a ouvir dizer que esses cenários são ou eram típicos de países como o Zimbabwe (recentemente), em Angola entre 1991-1995, no Brasil entre 1986 e 1994 até ao ‘Plano real’, ou na Argentina em 2002, para citar alguns casos. O efeito de um cenário de hiperinflação americana gerará um processo de contágio imediato a todas as economias “dolarizadas”.

Williams não vê outra consequência geoeconómica deste cenário dramático senão “o desenvolvimento de um novo sistema global de divisas face ao colapso do dólar” e espera que “alguma relação com o ouro seja incluída para criar alguma credibilidade no público”.

DESTAQUE

Dois exemplos gritantes

Quando consultamos as estatísticas comparadas dos valores oficiais e dos apresentados pelo portal “sombra” Shadow Government Statistics, verificamos, logo, com surpresa, que os valores dos índices de preços são bem diferentes: oficialmente, os EUA estão em deflação, num valor anual de 1,3% (valor negativo) para Maio; no modelo de avaliação de Walter J. Williams, a inflação anual é de 6,1%. O enorme diferencial deriva dos critérios usados. Se se usarem os anteriores à reforma de critérios realizada durante a Administração Clinton, a inflação anual actual seria de 2%.

No caso do desemprego, a diferença é abissal: oficialmente, em Junho, era de 9,5%; para o portal “sombra” está nos 20,6% da população activa americana. “Uma situação que já não se via desde a recessão de 1973-1975”, sublinha Williams. Ainda não está ao nível de 34% (excluindo o sector agrícola), no pico do desemprego em 1933, nos tempos da Grande Depressão, mas também a actual crise ainda só vai no seu segundo ano. Recentemente, os optimistas, como Jeremy Siegel, da Wharton School, apontavam para um valor de “só” 275 mil novos desempregados em Junho, representando uma desaceleração dos 345 mil em Maio, mas as estatísticas surpreenderam pela negativa com 467 mil novos registos só no sector privado, o que teve, de imediato, um efeito sensível nas bolsas que fecharam em negativo no dia 2 de Julho. Williams calculou essa quebra em 513 mil novos desempregados. Foi um ‘balde de água fria’ que logo se repercutiu na Wall Street.

Leave a Reply

You can use these XHTML tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <blockquote cite=""> <code> <em> <strong>