O fim do século americano

After America é um título que fala por si. É o primeiro livro de autor americano, que não pertencendo às correntes radicais anti-imperialistas, fala abertamente, para o (difícil e incrédulo) público do seu país, de que a “Civilização americana chegou a um fim depois da sua longa ascensão até à hegemonia” durante o século XX, diz-nos Paul Starobin.

Hoje a viver na região de Boston, com 52 anos, Starobin tirou um mestrado em Inglaterra na London School of Economics em Relações Internacionais, percorreu o mundo, o que lhe permitiu vários olhares, acabou por ser o chefe da delegação da revista americana Business Week em Moscovo e acabou por se apaixonar em Tashkent, no distante Uzbequistão. Paul é um globalista e insiste que os americanos têm de entender que se entrou “num período de transição em que o famoso século americano findou”.

“Escrevi este livro sobretudo para o americano comum que tem de se adaptar a este Depois da América em curso”, diz-nos numa entrevista que pode ser lida aqui (em inglês), reconhecendo que essa missão tem sido mais fácil do “que junto da classe política em Washington DC, que tem permanecido largamente num estado de negação sobre as novas tendências”.

Simbolicamente, o autor encontra, na entronização recente do G20 como cúpula mundial de decisões, o sinal dessa alteração de fundo, ainda por cima em solo americano, em Pittsburgh. Surpreendentemente, a parteira dessa mudança histórica foi a grande crise financeira surgida nos últimos dois anos a partir da Wall Street. Outros analistas dirão que a própria decisão de escolha do Rio de Janeiro para local dos Jogos Olímpicos de 2016 já reflectirá esta mudança – há um ano quando os quatro finalistas foram escolhidos, o Rio era a localização que recolhia a mais baixa pontuação face a Chicago, Madrid e Tóquio (a com pontuação mais elevada).

Hegemonia não vem do carisma

O processo de declínio – ainda que suave – da hegemonia americana vem de trás. Starobin fala de um pico da liderança mundial nos anos 1990. A queda americana não é, por isso, atribuível, apenas, a este ou aquele presidente americano. Mas, sem dúvida, que a Administração George W. Bush deixou o país no ponto mais baixo de influência internacional, de capacidade em soft power, além de diversos dilemas em termos de projecção externa de hard power.

Muitos segmentos políticos e sociais americanos depositaram, por isso, no novo presidente a esperança na inversão da situação: “O presidente Obama é uma figura carismática, sem dúvida, parece ser estimado em largas partes do mundo, mas isso não é suficiente para restaurar a hegemonia americana – a hegemonia nunca foi o produto de nenhum presidente carismático. Ela emergiu, no passado, de um conjunto de factores e oportunidades”. Starobin frisa que Obama tem uma estratégia “mais adaptada” à nova realidade do que a candidatura perdedora republicana que se imaginava, ainda, na idade de ouro do “século americano”.

Vários futuros em aberto

Mas o futuro está, ainda, em aberto, logo atalha o autor. “O mundo está grávido, mas não só com uma possibilidade do que virá a seguir, mas com múltiplas possibilidades. Estes embriões existem como que em paralelo”, afirma, ainda que reconheça: “É claro que, a dado passo, um ganhador emergirá”. Mas tranquiliza os mais stressados no Ocidente: “Provavelmente estamos ainda longe desse ponto”. Toda a gente fala que o candidato a hegemonista substituto é a China, um país que, no final dos anos 1970, surpreendeu tudo e todos ao enveredar por um caminho de afirmação de uma grande potência económica.

Mas Starobin, admitindo que a China é, sem dúvida hoje, o mais bem posicionado na corrida, recorda que a História dos ciclos das superpotências sempre foi marcada por dois padrões: a surpresa e a contingência criada pelos movimentos a partir de baixo, o que ele designa de “história orgânica”.

Os próprios Estados Unidos, diz ele, seriam um exemplo de “Império acidental”, que emergiu inesperadamente, fruto das oportunidades das “guerras civis” europeias do século vinte – as duas grandes guerras – que enfraqueceram a potência dominante (a Inglaterra) e os desafiadores directos. Depois, a própria implosão da União Soviética foi inesperada e permitiu um último fôlego ao hegemonismo americano.

Por isso, Starobin, através das suas viagens pelo mundo, ficou, ele próprio, surpreendido. Confessa que torcia o nariz a um tema exótico como o das “cidades-estado” e das “regiões-estado” (algo que em 1993 o estratega japonês Kenichi Ohmae agitou, mas que com a emergência dos BRIC ficou na penumbra). “Sinceramente, eu acho que essas regiões-estado têm mais futuro do que a própria formulação do conceito de BRIC [Brasil, Rússia, Índia e China]. Sempre encarei essa ideia [da Goldman Sachs] como algo artificial. No começo do projecto deste livro não estava muito focalizado nessa possibilidade das cidades e regiões-estado, mas à medida que fui investigando fiquei impressionado com essa hipótese”, sublinha-nos o autor, que avança com mais essa tendência: “É, na verdade, muito intrigante que possa surgir uma nova divisão do mundo, eventualmente multipolar, mas não baseada nas nações-estado, mas num agrupamento de mega-regiões urbanas”.

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