O maestro-guru: “O que tenho para oferecer é uma atitude”

“Quero que os olhos dos portugueses brilhem. Quero ver os olhos dos portugueses a brilhar!”, dispara Benjamin Zander, que aos 70 anos, quase 71, mantém uma comunicação “electrizante”, como dizem os que o ouvem quando veste a pele de guru de liderança ou que assistem ao seu desempenho como maestro de projecção mundial.

Zander fala do “brilho” no olhar para “sacudir os cépticos e os cínicos”, diz-nos, a rir, na entrevista que concedeu a partir de Boston. E, também, a rir sacode a ideia de que é um “evangelizador” de gestão. Tom Peters, o guru dos gurus antes da Grande Recessão abalar este filão, disse que este maestro, que dirige desde a sua criação em 1979 a Orquestra Filarmónica de Boston, estava “na berra no circuito dos gurus de management”. “

Não sou um especialista em gestão. Lidero uma orquestra, sou maestro. O que tenho para oferecer aos líderes noutras áreas – e a toda a gente, sublinho, a toda a gente – é uma atitude”, acrescenta.

Não é a arte do possível

O maestro construiu um “modelo de liderança”. Baseia-se numa frase simples, que aliás é título do livro que escreveu com a psicoterapeuta Rosamund Stone, sua segunda mulher: a arte da possibilidade (‘The Art of Possibility’, Harvard Business School Press, 2000). “Falo de possibilidade, não do possível – isso é política. O meu conceito é mais aberto. Sejam quais forem as circunstâncias, mesmo as mais cruéis e terríveis, o que é decisivo não é focalizar nas razões da situação, cultivar a lamentação, mas virar-se para descortinar que possibilidades se abrem. O que conta é gerar possibilidades”, precisa.

E, nesse campo, ele sempre recorda o exemplo do pai, economista e jurista de formação, que, mesmo nas condições de preso num campo de internamento durante dez meses entre 1940 e 1941, quando os ingleses prenderam emigrantes de origem alemã, mesmo fugidos ao nazismo (como foi o caso do casal Zander que saíra da Alemanha hitleriana em 1937), resolveu meter mãos à obra e criar uma espécie de universidade com 40 cursos por semana desde física teórica, a filosofia grega, a música. Benjamim que tinha, na altura, pouco mais de um ano, e que ficou com a mãe e os irmãos numa cidadezinha inglesa, ficou marcado por esta postura.

Uma atitude que implica vários colaterais: não basta explorar oportunidades, há que gerá-las também. E não se trata de “pensamento positivo” – muitas vezes artificial, envolto em optimismo plástico. “A minha abordagem da liderança não se baseia em perder tempo com juízos de valor. Mas, no quê a seguir”. No que se pode fazer acontecer a seguir.

As exigências da visão

Mas não se trata de mero pragmatismo político, insiste. Ele cita o exemplo de Mandela, para explicar o que entende pela importância da visão nessa atitude. “Não essa coisa irritante de que ninguém se lembra, esse blá-blá-blá sem sentido”, que as empresas têm a mania de meter, às vezes, até no tamanho de um cartão de crédito, se calhar à espera que todos memorizem aquelas “tretas”. Visão é outra coisa: “Mandela, quando antes lhe haviam oferecido a liberdade em troca de largar a sua visão para a África do Sul, gritou, indignado, aos carcereiros: fechem a porta!”.

A arte da possibilidade alimenta-se de uma forma de estar e de pensar. “Paixão por fazer música sem barreiras”, é a visão, o modo de estar quer da Orquestra de Boston como da Orquestra Filarmónica Juvenil do Conservatório de Nova Inglaterra, que Zander continua a dirigir desde 1967, quatro anos apenas depois de ter emigrado da Inglaterra para os Estados Unidos.

Este modo de estar exige, no entanto, uma certa forma de pensar, confessa o maestro-guru. “A arte da possibilidade é contra-intuitiva. Mas isso é difícil. Exige muita prática. Obriga a quebrar a forma comum de pensar e abandonar os clichés. Obriga a ser-se criativo e experimental”, conclui.

ENTREVISTA RÁPIDA

« Muitas dessas histórias que conto baseiam-se no pensamento contra-intuitivo. Em deixar as pessoas ser criativas».

P: Mais do que metáforas, o maestro conta histórias carregadas de simbolismo. Como a da professora que, para acabar com a discriminação e gozo pelos colegas de uma aluna que fizera quimioterapia, decidiu, inesperadamente, rapar o próprio cabelo e surpreender a turma…

R: Não é extraordinário? Há imensas histórias assim. Uso sempre imensas histórias – verídicas – nas minhas apresentações e no livro. A história do meu pai no campo de internamento nos anos 1940 é outra surpreendente. Criou 40 cursos, imagine-se. Muitas dessas histórias baseiam-se no pensamento contra-intuitivo de que ainda há pouco falávamos. Em deixar as pessoas ser criativas.

P: Numa situação de crise aguda, de Grande Depressão, como ainda vivemos, o que é mais adequado, o estilo de maestro de Orquestra ou o jamming do jazz do French Quarter de Nova Orleães?

R: (Risos prolongados). Não faço essa escolha. Depende das circunstâncias, podemos optar por um ou por outro. Retiro muitos ensinamentos da música clássica, mas adoro jazz. Cada estilo é para cada situação. A minha tarefa é fazer as pessoas estarem cientes da música.

P: Aliás, a interpretação de uma sinfonia pela sua Orquestra é candidata aos Grammy que vão realizar-se no final de Janeiro e tem tido uma menção especial…

R: Sim, a nossa interpretação da 5ª Sinfonia de Anton Bruckner foi nomeada para os Grammy de 2010. Do Porto vou, aliás, viajar para Los Angeles para essa 52ª Gala. De facto, à interpretação da sinfonia juntámos um outro CD onde explicamos a música mesmo para quem nada entenda, para novas audiências, para gente insuspeita. Tem sido um êxito de vendas. E são 80 minutos de comentário! [A nomeação de Zander acabou por não ganhar o prémio].

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