O Manifesto de Paul Krugman: regresso a Keynes ou que mil flores floresçam?

DESTAQUE: «Nem Keynes nem Schumpeter saberiam, certamente, que condições seriam as preferíveis hoje. Isso é o papel e o dever da actual geração. É a profundidade da análise dos dois que tem de ser imitada, não as suas receitas», Carlota Perez, Universidade de Cambridge, Reino Unido

O NOBEL DA ECONOMIA PAUL KRUGMAN, um keynesiano assumido, resolveu entrar na ‘loja’ dos economistas e partir a loiça, como já referimos num post colocado na altura. Num extenso artigo na revista do The New York Times de 6 de Setembro, intitulado ‘How did Economists get it so wrong?’, Krugman ataca a corrente macroeconómica de inspiração neo-clássica nascida na Universidade de Chicago que tem dominado a academia e alimentado o paradigma de banqueiros centrais e financeiros da Wall Street.

O alvo de Paul Krugman, professor de Princeton, colunista do The New York Times (‘The Conscience of a Liberal’) e bloger afamado, foi a “hipótese da eficiência dos mercados [financeiros]” (HEM). Escreve Krugman: “Durante os anos de ouro, os economistas financeiros acabaram por acreditar que os mercados eram inerentemente estáveis – na verdade, julgavam que as acções e outros activos teriam sempre o seu preço definido de um modo certo. Não havia absolutamente nada nesses modelos prevalecentes que sugerisse a possibilidade de um colapso como o que ocorreu no ano passado”.

“Finalmente, alguém com reputação mundial disse aquilo que tinha de ser dito: o rei vai nu”, afirma-nos Jean-Philippe Bouchaud, um econofísico da École Politéchnique de Paris.

Regresso ao Keynes no original

Mas o polémico professor, que Obama não repescou para o seu governo (o que muita gente esperava), também belisca os ‘bastardos’ neo-keynesianos (na expressão irónica cunhada em 1962 pela keynesiana inglesa Joan Robinson) que ajudaram à festa das ‘bolhas’ financeiras dos últimos vinte anos. Sem papas na língua: “Os modelos standard neo-keynesianos não deixaram espaço para uma crise como esta, porque tais modelos, em geral, aceitavam a visão do mercado eficiente no caso do sector financeiro”.

O historiador económico Michael Perelman, da California State University e autor do recente ‘The Confiscation of American Prosperity’, deplora “esse domínio da ‘grande síntese’ nos últimos vinte anos”, animado pelo clima especulativo e a financeirização excessiva das economias da OCDE. “Abordagens alternativas, como a economia comportamental, a economia da complexidade e evolucionista e os pós-keynesianos, viveram nas margens da disciplina, sem terem conseguido exercer grande influência na economia em geral”, sublinha Perelman.

Por isso, os sucessivos “avisos” que foram feitos pela contracorrente não foram ouvidos, a começar pela hipótese da instabilidade financeira explicada pelo falecido economista Hyman Minsky, que conduzia à inevitabilidade de uma grande crise financeira se medidas a contraciclo não fossem tomados. Krugman lamentou no blogue ter tido a necessidade de cortar na versão final deste seu artigo alguns parágrafos em que recordava Minsky.

Face ao aparente colapso da corrente dominante, Krugman lança como que um manifesto pelo regresso ao Keynes original. Opinador hábil e com um sentido político agudo, o académico julga estar aberta uma janela de oportunidade para um Renascimento keynesiano face ao estado moribundo do que apelidou de ‘Idade das Trevas’ da macroeconomia neoclássica. “Uma visão mais ou menos keynesiana é o único jogo plausível em campo”, diz, e reforça mais adiante: “A economia keynesiana continua a ser o melhor enquadramento para compreendermos as recessões e as depressões”. Mark A. Thoma, da Universidade de Oregon, e uma das vozes da blogoesfera americana mais activas no actual debate (através do seu blogue Economist’s View), sublinha-nos: “Acredito que os acontecimentos recentes mudarão a macroeconomia muito mais do que os práticos julgam. E, nesse campo, os modelos na tradição keynesiana liderarão o caminho”.

Desalojar não é fácil

Mas a própria batalha contra a hipótese da eficiência está longe de estar encerrada nos corredores da academia. Apesar da força dos factos, o colapso intelectual dos “eficientistas” não está selado. Como Eugene Fama, 70 anos, professor de finanças da Universidade de Chicago e o pai fundador da teoria, nos refere numa curta entrevista (ver caixa), a crítica de Krugman e de outros cai ao lado. A culpa, dá a entender Fama, foi dos intervenientes nos mercados financeiros e dos políticos e tecnocratas que, na verdade, não aplicaram a sua hipótese. No final, o principal visado pelo artigo no The New York Times respondeu-nos prontamente: “Não vi [o artigo]. Mas também não presto grande atenção a ele [Krugman]”.

Desalojar esta hipótese não é fácil. Tal como na geopolítica, a academia é hoje “um sistema multipolar”, diz-nos Bouchaud, e dentro dele “os interesses objectivos dos que defendem o mercado eficiente são muito profundos”. E Mark Thoma acrescenta com alguma flexibilidade: “A HEM tem diversas interpretações e depende de que definição se tem na ideia – as formulações mais fracas podem ainda ser válidas, ainda que as suas bases fundamentais tenham sido postas em causa pela realidade”.

Luigi Spaventa, da Universidade de Roma e ex-ministro italiano, conclui com uma imagem: deitar a água suja do banho conservando o bebé. Ou nas suas palavras: “Que os mercados são eficientes é uma coisa, a versão forte da hipótese da eficiência de mercado, é outra. São duas proposições diferentes. Parece-me possível manter a primeira, sem aceitar a última. Na verdade é difícil, senão mesmo impossível, manter hoje em dia que a HEM ‘forte’ funciona – como, por exemplo, o professor Lucas defendeu recentemente na revista The Economist, onde a única concessão é a admissão de que a macroeconomia de Keynes é, apesar de tudo, de alguma importância”.

Pluralidade em vez de ‘ambição luciferiana’

Jean-Philippe Bouchaud, um econofísico, é abertamente pela diversidade no debate e na investigação no rescaldo do descrédito da HEM. Que diversas escolas floresçam, poderia ser o mote. Luigi Spaventa diz-nos: “A diversidade deve sempre florescer na pesquisa, particularmente nas ciências sociais. Foi isso, precisamente, que foi esquecido nas últimas décadas, quando se defendeu que o paradigma keynesiano não devia ser levado a sério, pois era um conto de fadas. Sem dúvida, que houve desenvolvimentos importantes depois de Keynes que são compatíveis com o paradigma keynesiano e que podem ser de grande utilidade. Mas a ambição ‘luciferiana’ de um grande modelo universal deverá ser provavelmente abandonado. O sacrifício da elegância será certamente premiado por maior relevância”.

Um esquecimento e um corte

Paul Krugman confessou que, na edição da peça final para o The New York Times, teve de cortar os parágrafos em que se referia a Hyman Minsky, um personagem central da economia a que nos temos referido como o ‘pai’ da hipótese da instabilidade financeira e da inevitabilidade das bolhas e estoiros que, antes de morrer em 1996, insistiu nestas características “inerentes” à vaga de financeirização das economias desenvolvidas, e em particular dos Estados Unidos. Curioso, também, referir que Eugene Fama, na curta entrevista que realizámos, declinou responder sobre o assunto, alegando “não estar familiarizado” com os pontos de vista de Minsky

Mas Krugman esqueceu, de todo, um outro personagem da história económica, um contemporâneo e rival de Keynes: Joseph Schumpeter. E os temas a que este economista costuma estar associado: inovação, papel do empreendedor, vagas tecnológicas. James K. Galbraith, da Lyndon B. Johson School of Public Affairs, da Universidade do Texas, disse-nos claramente: “Não vejo qual é a relevância da inovação para o momento actual de crise. Admito a importância do seu papel quando dirigida por exemplo ao caso da energia e do ambiente”.

Carlota Perez, da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, e uma das principais especialistas mundiais no impacto da tecnologia na economia, recusa, no entanto, uma oposição Keynes-Schumpeter: “São ambos necessários. A actual crise tem as suas origens na finança, mas só pode ter uma solução na economia real. O que tem de ser feito requer uma intervenção keynesiana para cobrir o campo de jogo e a visão de Schumpeter sobre a inovação como motor do crescimento”.

E conclui: “O que é fundamental perceber é que cada revolução tecnológica gera as suas próprias condições, únicas, e coloca os seus desafios específicos. Nem Keynes nem Schumpeter saberiam, certamente, que condições seriam as preferíveis hoje. Isso é o papel e o dever da actual geração. É a profundidade da análise dos dois que tem de ser imitada, não as suas receitas”.

Vale a pena, por isso, a findar esta artigo, recordar este economista “esquecido” por Krugman.

O Profeta da Inovação

JOSEPH ALOIS SCHUMPETER (austro-húngaro, em termos actuais checo, radicado nos Estados Unidos, 1883-1950) uma vez disse, com o seu estilo chocante, de grand seigneur educado em Viena, que os académicos e seus alunos conservadores detestavam: “as depressões são um bom duche frio para o capitalismo”. Ele até concordaria que, em tempos de depressão, os problemas sociais devem ser tratados com alguma medicina keynesiana (do nome do seu eterno rival do outro lado do Atlântico), mas retorquia que o capitalismo é intrinsecamente dinâmico e orientado ao crescimento de longo prazo através da inovação e de um protagonista-herói, o empreendedor.

O agente da retoma, depois das crises, não é a despesa governamental, mas a acção dos empreendedores, diria ele hoje em dia, se voltasse a vestir a pele de ministro das Finanças como o foi episodicamente em 1919/1920 em Viena de Áustria. A ideia do empreendedor era antiga em Schumpeter e, segundo muitos, a sua principal contribuição para o entendimento do capitalismo. Escreveu-a pela primeira vez em 1911 na ‘Teoria do Desenvolvimento Económico’ (que só foi traduzido para inglês em 1934) e andou a remoer no assunto até 1942 quando publicou a sua obra mais conhecida ‘Capitalismo, Socialismo e Democracia’. Esse personagem revolucionário não vem de nenhuma classe social específica, mas tem uma pulsão (aliás, em alemão, Schumpeter usava a expressão espírito empreendedor) para inovar em todos os aspectos, da tecnologia à organização, provocando um “enxame de imitadores” que colectivamente desencadeiam um “temporal” de “mutação” das estruturas económicas, destruindo “criativamente” as velhas e fazendo emergir as novas. Estas imagens schumpeterianas são as que mais ficaram marcadas na memória, havendo mesmo quem ache que isso é mais sociologia histórica do que economia, pois é difícil de formalizar no ‘economês’ matemático, apesar de até a ‘destruição criativa’ ter sido atacada pelas equações de Philippe Aghion e Peter Howitt. Os críticos, no entanto, recordam que, no final, o profeta da inovação começou a descrer do seu personagem de eleição e, que, por isso, admitia, a contra gosto, que o capitalismo provavelmente não sobreviveria.

Desde 1939, sete anos depois de ter chegado a Harvard, na região de Boston, Schumpeter tentou recuperar, também, a teoria dos ciclos económicos, falando de que a convergência de vários tipos de ciclos provocaria a severidade das depressões, agravada por factores externos como a geopolítica e as políticas públicas. Mas o livro ‘Ciclos de Negócio’ não convenceu boa parte da academia, o que permitiu aos conservadores divulgarem a ideia de que a periodicidade, a regularidade e o carácter repetitivo dos ciclos era coisa de “antigamente”, ainda por cima de uma altura em que as estatísticas eram medíocres.

CURTA ENTREVISTA

Eugene Fama em discurso directo

«Continuo em minoria»

P: Face à actual crise, corrigiria algum aspecto da sua hipótese de eficiência do mercado (HEM)?

R: Penso que as duas coisas não se relacionam de todo.

P: Alguns economistas referiam há muito que o sistema financeiro é intrinsecamente instável. A realidade não o demonstrou?

R: Se as firmas financeiras tivessem de suportar tanto os custos como os benefícios das suas acções, penso que o sistema não seria ‘inerentemente’ instável. Quando essas firmas recolhem os benefícios dos bons tempos, mas são os contribuintes que aguentam as perdas nos maus períodos, então o sistema pode tornar-se instável.

P: A avalancha de críticas diz que a HEM é hoje o pecado original que gerou a crise financeira?

R: Repito o que já disse recentemente: na verdade, se os bancos e os bancos de investimentos tomassem a eficiência dos mercados mais seriamente, talvez tivessem evitado muitos dos seus recentes problemas. É muito claro que continuo a estar em minoria. Não me dei conta que a HEM tenha tomado conta do mundo dos investimentos.

Nota: Extractos, traduzidos, de uma entrevista publicada em inglês aqui.

2 Responses to “O Manifesto de Paul Krugman: regresso a Keynes ou que mil flores floresçam?”

  1. […] também, de superar a bipolarização entre neo-liberalismo e keynesianismo, que alguns tentaram, agora, fazer renascer. Há mais […]

  2. Concordo plenamente com Paul Krugman, sei que as suas opiniões desagradam aqueles que dizendo que o Estado tem de emagrecer, querem no entanto serem apoiados em tudo o que lhes convem,

    Ex. os banqueiros que geriram mal as instituições provavelmente porque utilizaram os seus recursos em investimentos especulativos em vez de os utilizarem no desenvolvimento das economias e no seu próprio desenvolvimento.

    Os empresários dizem que também querem menos Estado, mas por outro lado, querem reduções de impostos, créditos mais baratos, pagamento pelo estado de uma parte das indeminzações por despedimento, apoios à exportação e todo o género de apoios, afinal parece é que querem mais Estado.

    Afinal o poder económico só quer Estado para proteger os seus grandes interesses, mas por outro lado não quer Estado para regular a Economia, porque no meio da desrugalação e do caos económico é mais fácil realizarem rapidamente grandes fortunas em detrimento de uma evolução económica mais justa e mais homogénea.

Leave a Reply

You can use these XHTML tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <blockquote cite=""> <code> <em> <strong>