O pioneiro da chegada da gestão a Portugal — a propósito do livro sobre António Magalhães Ramalho

António de Magalhães Ramalho, mentor e primeiro diretor do Instituto Nacional de Investigação Industrial em 1959, foi, agora, recordado em livro. A ele se deve a introdução no país do que de mais avançado – e recente – havia, na época, sobre management

Por Jorge Nascimento Rodrigues
Inicialmente publicado na revista portuguesa EXAME

A propósito da publicação do livro “António de Magalhães Ramalho” da autoria de Margarida Magalhães Ramalho.

António Sobral Mendes de Magalhães Ramalho é, provavelmente, um nome desconhecido para a maioria dos atuais gestores, empresários, economistas e políticos. Por isso, será, certamente, uma surpresa o leitor ficar a saber que a este engenheiro mecânico e eletrotécnico, falecido há mais de quarenta anos, se deve a chegada a Portugal da arte do management corriam o final dos anos 50 e a década agitada dos 60 do século passado.

Management entendido quer no sentido lato, de análise macro do tecido industrial, quer no plano micro, das então recentes ferramentas da gestão moderna, em que se destacavam William Edwards Deming, Joseph Juran, Peter Drucker, Abraham Maslow, Chris Argyris, Frederick Herzberg, Douglas McGregor ou Alfred Chandler. Produtividade, Qualidade, Relações Humanas, design industrial, psicologia industrial, trabalho por objetivos e projetos, etc., foram buzzorwds que Magalhães Ramalho trouxe para um país marcado pelo improviso na gestão e o artesanalismo, provincianismo e arcaísmo na atividade empresarial e na administração pública. “Foi Magalhães Ramalho quem abriu as portas ao que de mais moderno havia em termos de gestão. O engenheiro Braz Frade foi a sua ponta de lança nessa matéria. A eles se deve a introdução a sério da disciplina de gestão no país, alguns anos antes de ter entrado nas nossas universidades. Nesta perspetiva, Magalhães Ramalho foi um pioneiro porque entendeu o fenómeno da gestão e viabilizou a sua introdução pública no país”, diz-nos José Maria Brandão de Brito, que, ainda estudante do ISCEF (Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras, hoje ISEG) em Lisboa, entrou para o INII e que é um dos especialistas da industrialização portuguesa no pós-guerra.

Magalhães Ramalho foi subsecretário de Estado do Comércio e Indústria de 1951 a 1958, mentor do marcante IIº Congresso dos Industriais e Economistas realizado em Lisboa em 1957, idealizador de um novo tipo de instituição pública virada para a economia real que viria a ser batizada de Instituto Nacional de Investigação Industrial (INII) e do qual seria o seu primeiro diretor em 1959. A ideia de criação do INII foi consolidada numa viagem que ele fez entre 3 e 15 de maio de 1957 visitando industriais e investigadores científicos na França, Bélgica, Holanda e Alemanha, de que guardou um diário de 40 páginas. A Holanda impressionou-o particularmente e a visita à TNO (Toegepast Natuurwetenschappelijk Onderzoek), a instituição para a investigação aplicada criada em 1932, influenciou a conceção que desenvolveu da instituição pública que queria criar.

Ponto de viragem

Foi uma das figuras de destaque, durante a ditadura salazarista, da corrente dos “industrialistas”, em larga maioria engenheiros saídos do Instituto Superior Técnico (IST) que queriam agitar o tecido empresarial e melhorar a especialização económica portuguesa. O nome mais proeminente é, sem dúvida, o de José Nascimento Ferreira Dias que em 1937 havia sido o mentor do Iº Congresso dos Industriais Portugueses e que viria a ser subsecretário de Estado do Comércio e da Indústria de 1940 a 1944 e depois ministro da Economia de 1945 a 1947. O nome de Ferreira Dias está indissociavelmente ligado à lei de eletrificação do país e ao programa de industrialização daquela altura. Ferreira Dias voltaria ao cargo de ministro da Economia entre 1958 e 1962 e foi na sua vigência que o INII começaria a funcionar.

Mas Magalhães Ramalho trouxe um ingrediente novo nos anos 50 que marcaria uma geração de altos quadros portugueses, então, muitos deles, jovens recém-licenciados. Ele acabaria por encarnar um ponto de viragem, o que é contado pelo livro da historiadora e investigadora Margarida de Magalhães Ramalho, publicado em abril pela editora By The Book. Em maio, o Museu do Design e da Moda, em Lisboa, homenageou este pioneiro esquecido.

O papel de Magalhães Ramalho na realização do Congresso conjunto dos Industriais e dos Economistas em 1957 foi decisivo e, no dizer da investigadora Maria Fernanda Rollo, o evento marcou um ponto de viragem. No relatório que ali apresentou, Magalhães Ramalho sublinhou a viragem industrial do país face à anterior dominância da “lavoura” no Produto Interno Bruto (PIB), a afirmação de vários sectores fabris da especialização internacional portuguesa e lançou um slogan com alguma irreverência: “Tudo pela Exportação! Nada contra a Exportação!”, adaptando uma das frases ex-líbris da ditadura («Tudo pela Nação! Nada contra a Nação!»). A indústria representava 37% do PIB em 1957, um peso já superior ao da agricultura e pescas, mas ainda não ocupava um milhão de trabalhadores numa população ativa de um pouco mais de três milhões. A exportação era, no entanto, muito fraca: nos anos 50 variava entre 10 e 13% do PIB e vivia principalmente das conservas e da cortiça, segundo as séries do economista Nuno Valério, professor do ISEG. Só em 1984, a exportação ultrapassou os 20% do PIB.

A autora de “António de Magalhães Ramalho – Fundador do INII e pioneiro da investigação industrial” é a filha mais nova de António e confessa-nos que “nunca quis escrever sobre o assunto”. Acabou por meter mãos à obra porque justamente aqueles que passaram pelo INII naquela época e que ainda estão vivos – e dos quais recolhe testemunhos – a convenceram que o pai e o instituto “desempenharam um papel especial” no panorama industrial e na administração pública da ditadura. A própria autora ficou surpreendida com “a forma como o INII marcou aqueles que por lá passaram, sendo interessante ver que uma boa parte dos principais quadros deste país no pós-25 de abril passaram por lá”.

Do INII e do pai naquela época, a autora recorda o contador “de aventuras extraordinárias de um elefante azul” e de brincar com outra irmã às secretárias agarradas aos telefones e ao jogo das escondidas nos jardins do edifício do instituto na Rua Garcia de Orta, à Lapa, em Lisboa, onde o pai “despachava papéis ao fim de semana”. António morreu subitamente dois anos antes do 25 de abril, com apenas 65 anos, sem ter recuperado psicologicamente do afastamento de diretor do INII em 1969 por decisão do secretário de Estado da Indústria Rogério Martins.

António foi “atropelado” pelo marcelismo, como nos diz Brandão de Brito. Paradoxalmente, admirador do ditador Salazar, Magalhães Ramalho acabaria nos últimos anos de vida por se tornar um fiel leitor do semanário “Comércio do Funchal” (CF) que a jovem filha Margarida lhe trazia. O CF, relançado por Vicente Jorge Silva no final dos anos 60, era uma das tribunas legais da oposição à ditadura que, por ser impresso em papel salmão, era conhecido como o “jornal cor-de-rosa”. “E é que eles têm razão!”, disse, uma vez, António para uma surpreendida Margarida.

Um excêntrico

“O pioneirismo do pensamento e da ação de Magalhães Ramalho era claro na altura para alguns sectores empresariais e sobretudo para uma geração de recém-licenciados que tinham uma enorme vontade de mudança. Mas, para a maioria dentro da administração pública do regime, ele era um excêntrico”, diz-nos a autora. As “excentricidades” de António eram ainda mais acentuadas por ele ser temperamentalmente “um verdadeiro vulcão”.

Essas “excentricidades”, refere a autora, passavam por ele ter “a mania de apostar em gente nova” nas contratações, por a mandar especializar-se no estrangeiro com dinheiro público insistindo na importância de viajar, de sair do provincianismo da ditadura e de adquirir competências lá fora, por defender a formação superior das mulheres e o seu recrutamento para os quadros do INII, por nunca seguir os pareceres negativos da polícia política sobre quem pretendia contratar, e por ter optado por práticas então desconhecidas na administração pública, como a criação de equipas pluridisciplinares com vista a uma organização em que se cruzassem os saberes e em que se trabalhasse por projetos e objetivos. Não admira por isso que, a par de grande leva de engenheiros do IST, ele recrutasse gente tão diversa como jovens economistas, licenciados de belas artes, de farmácia e de letras, e que nos quadros do instituto houvesse gente com ficha na PIDE.

O ambiente criado por Magalhães Ramalho gerou vários eixos de atividade em que o INII foi pioneiro entre nós. Aquele que é considerado a joia da coroa, foi a Produtividade, que se tornou tema obrigatório a partir de aí no mundo empresarial, e em que se destacou o 1º Ciclo de Conferências logo em 1960 em Lisboa e no Porto com enchentes de participantes e em que se envolveram Eduardo Gomes Cardoso que foi o primeiro diretor do Núcleo de Produtividade e o então ainda finalista do IST João Cravinho. Este tema foi uma das “heranças” que Magalhães Ramalho recebeu “de muitas das ideias do Plano Marshall”, refere-nos Fernanda Rollo, cujo livro “Portugal e a Reconstrução Económica do Pós-Guerra. O Plano Marshall e a Economia Portuguesa dos Anos 50” é uma referência. “Os americanos haviam-se fartado de insistir na criação de um Centro de Produtividade, pois Portugal era o único país membro fundador da Organização para a Cooperação Económica Europeia [criada em 1948] que ainda não o tinha constituído. Salazar sempre se lhe opôs de uma forma mais ou menos ostensiva. Mas o INII viria a constituir esse departamento que foi, talvez, o serviço mais importante e relevante”, acrescenta a investigadora.

Outra excentricidade foi introduzir a “Estética Industrial” – conceito que mais tarde seria popularizado com a designação de design industrial – criando um Núcleo de Arte e Arquitetura Industrial para o qual António foi buscar uma escultora, Maria Helena de Matos. A Psicologia Industrial e a corrente do que então se designava no management por “Relações Humanas” – insistindo no “lado humano da empresa” – seriam ferramentas para o desejo de António em criar “um desenvolvimento industrial harmónico”, tendo chamado para liderar a área o economista Adérito Sedas Nunes, que se tornaria, mais tarde, o expoente da moderna sociologia em Portugal. O estudo da Economia Industrial seria outro dos pilares do Instituto, realizado quase que clandestinamente, de onde sairia em 1962 a primeira matriz interindustrial da economia portuguesa, numa colaboração com a Associação Industrial Portuguesa e o Instituto Nacional de Estatística, um trabalho de grande vulto em que se destacou João Cruzeiro, um licenciado em Finanças pelo então ISCEF (hoje ISEG) de Lisboa.

Uma matriz de ideias estratégicas

Magalhães Ramalho tinha uma mesma “ideologia voluntarista e produtivista” ligada ao industrialismo da época que Brandão de Brito apelidou de “engenheirismo”. Magalhães Ramalho invocava o “Hamlet” de Shakespeare para clamar: “ser ou não ser um país industrializado é a questão”. No entanto, diferenciava-se dessa corrente, o que levou a choques com “a corte de apóstolos” de Ferreira Dias e a nunca fazer parte dela.

O diretor do INII era pela diversidade do tecido industrial e pelo apoio à economia real de pequenas e médias empresas (PME) distanciando-se da “conceção heroica e grandiosa da economia baseada nas grandes barragens e cimenteiras e nas grandes indústrias de base”, sublinha Brandão de Brito. Dizia Magalhães Ramalho que “há que fomentar a maior multiplicidade possível de atividades economicamente viáveis”, que “não há, pois, que defender só a agricultura ou só a indústria, ou, dentro de qualquer delas, só tal ou tal tipo de atividade específica”. Preocupava-se essencialmente com o tecido real: “Ele pensava que a nossa indústria era o que era e que a esmagadora maioria de PME, pouco evoluídas tecnicamente, precisavam de apoio nas questões mais comezinhas – gestão, produtividade, qualidade, design, laboratórios de investigação científica, etc., no fundo, o que o INII pretendeu ser”, refere-nos Fernanda Rollo. A importância da investigação científica era um dos seus cavalos de batalha contra “um certo parti pris ou desdém com que, no geral, tendemos a encarar as questões da ciência”, como ele referiu na sua primeira intervenção na Assembleia Nacional para a qual foi eleito como deputado em 1949.

Magalhães Ramalho era adepto de uma concorrência moderada contra a ideia perigosa de se “reger [a indústria] indefinidamente pelo sistema de condicionamento [industrial] atual”, referindo que “a sua inexistência em França, na Bélgica, Holanda, Alemanha, etc., deve-nos também abrir os olhos”. Dizia, ainda, que “a mania de concentrar indiscriminadamente as indústrias é um erro”. O condicionamento industrial fora instaurado em fevereiro de 1931 e obrigava à autorização pelo Ministério do Comércio e Comunicações da instalação de novos estabelecimentos e mesmo à montagem ou substituição de tecnologias ou transferência de licenças para estrangeiros. Foi uma trave mestra do regime tendo uma lei renovada em 1965. O diretor do INII pronunciava-se abertamente contra o autarcismo económico e a focalização no mercado interno, alertando para o risco de se “instalar uma indústria artificial e de vida técnica e económica sempre precária”. O seu mote “tudo pela exportação” ficou célebre.

Estas ideias estratégicas de António de Magalhães Ramalho chocavam-se com a corrente dominante na década em que ele dirigiu o INII – uma teia de lóbis tanto no sector empresarial mais ligado ao mercado interno protegido e aos grandes projetos estatais como na governação que apostava na consolidação de grandes organizações e coligações industriais favorecidas pelo Estado. Essa corrente dominante permitiria, até 1973, a formação de um tecido de capital financeiro liderado por grupos financeiros nascidos quer de alguns grupos industriais como da banca, ou do seu casamento.

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