O que nos diz a História Económica

1. Outubro Negro de 2008: A maior derrocada desde 1974

A derrocada financeira no índice Dow Jones Industrial Average (DJIA) norte-americano atingiu 42% (desde o pico em 15 de Outubro de 2007 até 27 de Outubro de 2008), a maior percentagem desde o «crash» de 1972-1974. É o nono «crash» mais grave do DJIA desde 1885.

No entanto, alguns analistas, como Mark J. Lundeen, estimam que a correcção possa ser ainda maior. Lundeen tem vindo a analisar a assinatura e o perfil deste «crash», e coloca a hipótese de ainda se poder vir a assistir a mais semanas de correcção.

Depois da irrupção da crise do «subprime» em Agosto de 2007, foi num ápice que as bolsas sentiram o efeito – bastaram, apenas, três meses para o vírus do pânico começar a actuar, numa onda negativa que muitos analistas não esperavam que ultrapassasse os terramotos financeiros de 1987 (DJIA: quebra de 35%, Nasdaq: queda de 35,9%) e do DJIA pós-11 de Setembro entre 2001 e 2003 (queda de 38%).

PAINEL DE DADOS HISTÓRICOS

PRINCIPAIS «CRASHES» DO DJIA

(% de quebra desde o início até ao último dia da descida, ponto de viragem)

Terminado a 1 de Junho de 1932: 89,16%, durou 2,8 anos (durante a célebre Grande Depressão)

Terminado a 27 de Abril de 1942: 51,51%, durou 4,5 anos (período da IIº Guerra Mundial)

Terminado a 23 de Novembro de 1907: 47,79%, durou 1ano e meio

Terminado a 4 de Abril de 1938: 46,94%, durou pouco mais de 1 ano

Terminado a 29 de Agosto de 1921: 44,92%, durou 1,8 anos

Terminado a 9 de Dezembro de 1974: 44,86%, durou 1,9 anos

Terminado a 8 de Agosto de 1896: 44,77%, durou 6,3 anos

Terminado a 14 de Novembro de 1903: 44,64%, durou 2,4 anos

Fonte: Mark Lundeen, op.cit.

Contudo, por mais dramático que esteja a ser o actual terramoto bolsista, não foi, ainda, tão grave em percentagem como o do Nasdaq a partir de 11 de Março de 2000 que varreu o tecido mundial das empresas tecnológicas – uma quebra de 78% até ao ponto mais baixo em 9 de Outubro de 2002 – ou os ocorridos no DJIA nos princípios dos anos 1970, nos anos 1930 e 1940 e no princípio do século XX, como sublinha o estudo ‘123 Years of Bear Markets’ do analista Mark J. Lundeen com base nas séries do DJIA desde 1885.

O comportamento dos ciclos bolsistas desde 1970 parece estar a repetir a tripla assinatura que ocorreu 60 anos antes quando viriam a acontecer as derrocadas da Wall Street em 1929-1932 (a maior de sempre na história do índice: 89,16%) e depois em 1937/38 e 1939/42, esta em plena marcha da 2ª Guerra Mundial.

2. Depois do «crash» chegará a hora da ‘economia real’

Sete meses depois de uma crise financeira ocorre abrandamento económico ou mesmo recessão. Os efeitos negativos podem demorar três a quatro anos e implicar entre 9 a 20% de quebra do PIB. Pelo menos 5% de quebra tem sido a assinatura só no período de recessão. Tem sido assim desde 1980, diz o Fundo Monetário Internacional

As crises financeiras graves, sobretudo as ligadas ao sistema bancário, repercutem-se rapidamente no que se designa por economia real.

Dito de outro modo, a turbulência bolsista e a falta de liquidez nos mercados acaba por gerar um abrandamento do crescimento económico, estagnação ou mesmo recessão em grandes partes do mundo passados alguns meses. Isso sucedeu em 35 casos verificados em 17 países da OCDE entre 1980 e 2008, com 6 acontecimentos mais graves.

A repartição entre impactos que conduziram a recessões (quebras do PIB) ou a abrandamentos (desaceleração do crescimento, mas sem quebra do produto) é quase idêntica (18 eventos com abrandamento e 17 com recessão).

Em média, nos últimos vinte anos, o contágio entre a irrupção de uma crise financeira e o impacto na economia real levou sete meses.

Duração prolongada

Estes impactos não são passageiros; duram em média quase três anos e nos casos mais graves podem chegar aos quatro anos. O impacto destas crises ao longo de todo um ciclo de turbulência bolsista (com um «crash»), de recessão (ponto de viragem com quebra abrupta do PIB) e de depressão (período seguinte em que há uma convergência de efeitos negativos) conduz, em média, a quebras acumuladas do PIB, ao longo de todo o processo que podem variar entre 9,3% (só abrandamento) e 19,8% (com recessão), no estudo dos 35 eventos realizado recentemente pelo Fundo Monetário Internacional.

Nos seis casos mais graves (Finlândia, Suécia, Noruega, Japão, Reino Unido e EUA nos anos 1990) a queda abrupta do PIB só entre o pico e o fim da recessão (excluindo a depressão posterior) foi, em média, de 5,4%.

A duração destes episódios significa que, depois, de um primeiro momento de destruição dos valores da capitalização bolsista e de aperto no crédito, segue-se um período de real impacto nas facturações e lucros das empresas, no consumo das famílias e no emprego. O pior para o cidadão da rua vem depois do pânico financeiro.

Trata-se de um padrão histórico, refere o ‘World Economic Outlook’ do Fundo Monetário Internacional, publicado em Outubro de 2008 (e intitulado sugestivamente ‘Financial Stress, Downturns and Recoveries’), que estuda, no capítulo 4, as relações entre “stresse financeiro” e desaceleração económica nos últimos vinte anos.

O estudo do FMI refere, ainda, as recessões económicas mais prolongadas nos Estados Unidos até à data, com destaque para a de 1929-1932 (que durou quase dois anos). Segundo o National Bureau of Economics Research (NBER) americano, no caso dos EUA, as recessões – não incluindo os períodos subsequentes de depressão – têm sido desde 1945 mais curtas do que anteriormente, durando em média menos de um ano.

Média de 3 anos desde 1870

Uma investigação mais ampla, abrangendo o período de 1870 a 2008, e elaborada para o NBER por Robert Barro e José Ursúa, e em que participou uma equipa portuguesa, revela que ocorreram 148 episódios de quebra do PIB per capita em 35 países (24 da OCDE e 11 emergentes) com uma média de duração de três anos.

Segundo este estudo, intitulado ‘Macroeconomics Crises since 1870’, divulgado em Abril passado pelo NBER, essas crises implicaram uma quebra acumulada em média de 20,8% do PIB per capita, mais de 1/5 do rendimento pessoal de cada um. As maiores quedas do PIB per capita à escala mundial deram-se durante as guerras mundiais – na 2ª Guerra Mundial (em 25 casos com uma média de 36% de quebra) e na 1ª Guerra Mundial (em 26 casos com uma queda de 21%) – e durante a ‘Grande Depressão’ dos anos 1930 (em 22 casos com 22%).

PAINEL ESTATÍSTICO

Quadro 1

Recessões económicas mais prolongadas nos Estados Unidos desde 1900

Período de contracção e Duração em meses

Agosto de 1929 a Março de 1933 (‘Grande Depressão’) – 43 meses

Janeiro de 1910 a Janeiro de 1912 – 24 meses

Janeiro de 1913 a Dezembro de 191423 meses

Janeiro de 1920 a Julho de 1921-  18 meses

Novembro de 1973 a Março de 1975 – 16 meses

Julho de 1981 a Novembro de 1982 – 16 meses

Fonte: National Bureau of Economic Research, EUA.

Quadro 2

Duração do impacto na economia real de uma crise financeira relacionada com banca

(Desde 1980 em 17 países da OCDE)

Tipo de evento / Número de eventos /Duração em anos / Impacto negativo no PIB
(acumulado)

Com abrandamento
da economia – 18 eventos: 2,9 -9,3 % de quebra acumulada no PIB[1]

Com recessão –  17 eventos: 2,9 -19,8%[2]

Mais graves –  6 eventos: 4 – 5,4%[3]

Fonte: FMI, World Economic Outlook, 2008, Capítulo 4, quadro 4.2.


[1] Abrange período de «crash», recessão e depressão.

[2] Ver nota 1.

[3] Só durante o período de «crash» e recessão.

2 Responses to “O que nos diz a História Económica”

  1. […] o anterior artigo sobre a História dos «crashes» do […]

  2. […] período único – “a volatilidade está a atingir uma frequência espantosa”, diz o analista Mark J. Lundeen que criou um modelo de acompanhamento da actual crise na Wall Street nova-iorquina, comparando-a a […]

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