O que se pode aprender com a crise japonesa

Há um risco de um “paralelo” entre o comportamento da prolongada crise económica japonesa desde os anos 1990 e a actual Grande Recessão mundial, alerta um estudo técnico de especialistas do Fundo Monetário Internacional (FMI), realizado por Kiichi Tokuoka, Kenneth Kang e Murtaza Syed, recentemente publicado.

A crise japonesa, segundo estes especialistas, passou por três fases, tendo nos dois períodos entre 1990 e 2001 sofrido duas recaídas recessivas – dois double-dip, no economês.

Duas tentativas de retoma acabaram por soçobrar por virtude dos ziguezagues políticos e dos choques externos (primeiro o rebentar da crise financeira asiática em 1997 e depois o crash do Nasdaq em 2000 e a crise da “nova economia”).

O Japão acaba por ser um verdadeiro “laboratório” ao vivo de uma prolongada recessão, com “experiências” de política económica e financeira distintas ao longo do tempo. O que os técnicos do FMI chamam de “retoma sustentada” a partir de 2002-2003 deveu-se, em última instância, a um efeito “externo”, a uma janela de oportunidade: o impulso dado pelo crescimento da China às importações provenientes de toda a Ásia limítrofe. Bóia de salvação que permitiu ao PIB do Japão crescer 2% em média ao ano, até 2007, até ao rebentar da actual recessão mundial.

Controlo dos três “excessos”

No entanto, os técnicos do FMI, no estudo “Lost Decade in Translation: What Japan’s Crisis could portend about recovery from the Great Recession”, apontam para a capacidade política dos governos japoneses e do sector privado a partir de 2002-2003 em controlar os três “excessos” do sector empresarial no período anterior da ‘bolha’ – disparo da dívida das empresas em relação às vendas (pico de 300% em 1993), sobrecapacidade no máximo (pico em 2003 da relação capital fixo/vendas) e alta dos custos do trabalho em relação às vendas (máximo em 1999-2000) – e em inverter a queda do crédito bancário à economia real (ponto mais baixo em 2003).

A criação de instituições para a “limpeza” do sistema financeiro em 2003, a Industrial Revitalization Corporation of Japan e a Resolution and Collection Corporation, é tida, também, como uma medida acertada. No plano privado, desenvolveu-se um mercado para a reestruturação de activos “aflitos”. Ou seja, a oportunidade externa conjugou-se virtuosamente com a capacidade política, como sublinharam em entrevista (em inglês) disponível aqui.

Os ziguezagues de política orçamental e monetária ocorridos no Japão conduziram estes especialistas a formularem quatro recomendações aos políticos:

1) sinais positivos de retoma não são garantia de retoma efectiva depois de uma Grande Recessão, há riscos de recaídas que devem exigir cautela dos governos;

2) a protecção de fragilidades no sistema financeiro (manutenção até tarde de bancos zombies insolventes e de disparo do crédito malparado) torna as economias vulneráveis a choques externos inesperados;

3) é necessário calibrar bem estímulos macroeconómicos, pois tais políticas acarretam, sempre, custos, sobretudo em termos de dívida pública;

4) avaliar o momento certo para uma estratégia de saída dos estímulos (o que em economês anglo-saxónico se designa por “exit”) é sempre muito difícil, pelo que definir estratégias credíveis de médio-prazo em termos de consolidação orçamental é útil.

Os técnicos do FMI usam uma ferramenta de “mapas térmicos” que permite acompanhar o comportamento de um conjunto de 13 indicadores-chave, agrupados em três categorias (comércio, condições financeiras, procura privada interna), ao longo de um período, classificando cada um deles em quatro cores equivalentes a quatro situações de “retoma” ou recaída (verde escuro, verde claro, laranja e vermelho).

ENTREVISTA RÁPIDA a Kiichi Tokuoka, técnico japonês do FMI, doutorando no Departamento de Economia da Universidade Johns Hopkins, EUA

P: Não foi a China que “salvou” o Japão de continuar na recessão a partir de 2003?

R: Há alguma verdade na pergunta que faz, mas está longe de ser toda a história. No entanto, no nosso estudo, salientamos que o elemento diferenciador entre este período e os dois anteriores em que a retoma soçobrou, não advém só do contexto externo favorável. Mas da estratégia adoptada.

P: Mas, então, o que impedia o Japão de regressar ao crescimento?

R: A estratégia adoptada em 2002 baseou-se em dois aspectos centrais que, no passado, não haviam funcionado. Primeiro, uma atitude mais agressiva em relação ao problema do crédito. Em segundo lugar, o sector empresarial realizou progressos significativos na resolução dos seus três “excessos” – na dívida, na sobrecapacidade e nos custos do trabalho. Só quando começaram a ser resolvidos, os estímulos macroeconómicos e a situação externa favorável surtiram efeito.

P: Hoje defrontamos uma situação delicada em que é preciso uma arte de equilibrista para conciliar duas estratégias, a de pacotes anticrise e a da consolidação orçamental. O que pode ensinar a experiência do Japão?

R: A principal lição é que traçar uma consolidação orçamental credível de médio prazo pode ajudar a sustentar o crescimento e assegurar uma sustentabilidade orçamental. No Japão, o atraso em fazê-lo conduziu a que o corte de impostos decido no final dos anos 1990 só fosse completamente revogado em 2007, o que contribuiu para a persistência de grandes défices orçamentais durante a expansão de 2003 a 2007.

P: Os investimentos públicos são, sempre argumentados, com o efeito multiplicador. O que pode concluir-se do seu uso pelos japoneses?

R: Ainda que a gama de multiplicadores seja vasta, a evidência empírica mostra-nos que declinaram durante os anos 1990 no Japão. Isto sugere que estímulos bem sucedidos exigem identificar despesas públicas com efeitos multiplicadores elevados. No investimento público, a prioridade deve ser dada a projectos que possam estimular a procura privada. Mas os efeitos dessas medidas durarão muito pouco se os problemas do sistema financeiro não forem, de facto, resolvidos.

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