O recente apetite de Pequim pelo ouro
A China resolveu anunciar recentemente o aumento das suas reservas em ouro em 75% em relação aos valores conhecidos desde 2002, segundo refere agora o World Gold Council (WGC). Em nove anos duplicou estes activos, passando de 500 toneladas em 2001 para 1054 em final de Abril. Passou a ocupar o 5º lugar na lista dos países com maiores reservas (onde se encontra Portugal em 11º lugar).
Ainda que a China represente apenas 4% das reservas mundiais, muito distante das 45% detidas pela União Europeia e das 30% na posse dos Estados Unidos, este movimento ascendente foi interpretado como um sinal de uma viragem para um investimento num valor de “refúgio” e para um esboço de diversificação.
Apesar de o ouro ter deixado de ser o suporte das divisas, desde que o presidente americano Nixon em 1971 rompeu com a convertibilidade do dólar em relação ao ouro existente em grande parte em Fort Knox, a China foi dos poucos países que resolveu, a contracorrente, aumentar as suas reservas neste metal precioso nas últimas décadas.
A Rússia fê-lo, também, em menor dimensão – mais 100 toneladas desde 2001. Pelo contrário, a União Europeia procedeu a vendas coordenadas desde 1999 a 2006 quando o ouro se vendia entre 280 e 600 euros por onça – ‘barato’ em relação aos mais de 950 euros actuais – e os EUA alienaram 10% das suas reservas desde 1971. Portugal entre 2001 e 2006 vendeu mais de 1/3 das suas reservas em ouro a preços baixos; actualmente regista menos de 400 toneladas, ou seja menos de metade do que dispunha em 1971, aquando do «golpe Nixon».
O WGC espera, agora, que o exemplo chinês tenha um efeito de contágio na Ásia e que os europeus revejam a sua posição aquando do final do Acordo dos bancos centrais para a venda coordenada de reservas de ouro que finda em Setembro próximo.
No entanto, a aposta no ouro é, apenas, um dos sinais da estratégia chinesa de grande potência que, provavelmente, só é entendida integrada num outro conjunto de movimentos e para além de razões estritamente técnicas.
Mensagens da Cidade Proibida
Os chineses têm estado a emitir “uma série de mensagens”, diz-nos o analista James Turk. Aquando do encontro do G20, o governador do Banco da China apoiou a ideia de se rediscutir o papel do dólar como divisa internacional e de se usarem, em alternativa, direitos de saque especiais (tecnicamente designados em inglês como SDR – special drawing rights) emitidos pelo Fundo Monetário Internacional como divisa de reserva supra-estatal imune à instabilidade actual do dólar e às dúvidas sobre a solvência dos próprios Estados Unidos que o imprime.
Os passos de que falava Zhou Xiaochuan são claros: uso dos SDR na própria fixação de preços das commodities; lançamento de títulos denominados nessa base, o que, aliás, tem sido estudado pelo próprio FMI; criação de um fundo aberto denominado em SDR. Entretanto, um membro da Comissão de Peritos das Nações Unidas para a Reforma Financeira Internacional, Avinash Persaud, recomendou inclusive a criação internacional de um instrumento cambial como o velho ECU que a Comunidade Europeia usou antes do euro baseado num cabaz de divisas. O assunto não está, portanto, encerrado e virá à tona, de novo, em próximas reuniões do G20.
Agora foi anunciada a aposta de Beijing no ouro, o que significa não só uma diversificação das suas aplicações bem como a concretização de uma estratégia de suportar a projecção externa da moeda chinesa, o yuan, numa convertibilidade sólida, o velho padrão ouro, segundo o analista Jim Willie. No caso do FMI proceder a vendas das suas reservas de ouro (que são, actualmente, mais de 3000 toneladas, ocupando a terceira posição logo a seguir aos EUA e à Alemanha), restará ver quem ganhará a corrida ao primeiro lote (provavelmente de 400 toneladas) com o preço da onça do ouro provavelmente a subir acima de 1000 dólares.
Estratégia em geometria variável
Em simultâneo, os chineses têm procurado minimizar o peso da denominação em dólares nas transacções internacionais, em particular na área dos fornecimentos estratégicos. Em Abril, a China tornou-se o principal parceiro do Brasil – depois de os Estados Unidos terem substituído em 1930 a Inglaterra nesse papel que, por sua vez, rendera Portugal nos anos 1800 – e na viagem recente do presidente Lula da Silva a Beijing o Banco de Desenvolvimento da China concedeu créditos de quase 20 mil milhões de dólares dirigidos em grande parte à Petrobras que se tornou em mais um dos fornecedores estáveis de petróleo (até 160 mil barris por dia) da máquina de crescimento chinesa.
Este modelo de relações bilaterais sem o uso intermédio do dólar como divisa comercial deverá tornar-se norma. Em Abril, a China tinha concluído vários acordos de empréstimos em yuans a outros bancos centrais da Argentina, Hong Kong, Indonésia, Malásia e Coreia do Sul.
No campo da projecção externa da sua divisa, Beijing autorizou, agora, o HCBC inglês e o Bank of East Asia (sediado em Hong Kong) a emitirem obrigações em yuans – são os primeiros bancos estrangeiros a poder fazê-lo. Em simultâneo, redinamizou, do ponto de vista comercial e financeiro, as relações com a Península Arábica, outra região com enorme liquidez actualmente. O eixo Cantão-Dubai é hoje dos mais fortes, conta-nos Ben Simpfendorfer, autor de ‘The New Silk Road’. Ben ficou particularmente surpreendido com a oportunidade explorada por Hong Kong em direcção às redes islâmicas de capitais. O escritor não acredita, no entanto, que se possa já falar de «uma convergência estratégica de interesses com os fundos soberanos».
Por outro lado, no plano simbólico, a China irá potenciar o facto de, actualmente, dominar os três lugares cimeiros da banca mundial em termos de capitalização bolsista (com o Industrial & Commercial Bank of China, o China Construction Bank e o Bank of China). Ocorreu uma mudança de poder financeiro avassaladora nos últimos dez anos – de um sistema dominado por 17 bancos americanos, ingleses e japoneses em 1999 para uma nova realidade, saída da crise de 2007/2009, em que a banca estatal chinesa detém cinco lugares e o anterior eixo dominante se reduziu a cinco bancos (ver quadro).
Acresce que a China é desde 2007 o principal minerador de ouro do mundo, tendo ultrapassado a África do Sul, o líder histórico. Recorde-se que, em 1970, a África do Sul era o líder incontestável da produção mundial de ouro com 68%. O seu declínio foi progressivo, tendo em 2008 baixado para 9,8% da produção mundial. Pelo contrário, a China só surgiu no radar dos grandes produtores em 1995 com 6,2%, alcançando os 12,2% em 2008.
O que a China sabe
. Que a situação dos contratos de derivados negociados fora de bolsa (over-the-counter, na designação técnica) não está “controlada” e que os seus estragos sobre o sistema financeiro poderão continuar com surpresas. Ainda que tenham baixado 13,4% em relação a Julho de 2008, continuavam em Dezembro do ano passado (segundo a comunicação de 19 de Maio último do Bank for International Settlements) num valor facial que é quase 11 vezes o PIB mundial. Sinal preocupante é o facto que o custo de substituição de todos os contratos existentes no final de Dezembro subiu 1,7 vezes em relação a Julho de 2008, representando 63% do PIB mundial. O risco subiu, apesar do montante total ter baixado.
. Que o dólar americano aparenta ter regressado a uma tendência de quebra do seu valor face a outras moedas, e nomeadamente em relação ao euro. Depois de ter estado no ponto mais baixo entre Março e Julho de 2008, logo a seguir ao episódio do colapso do banco Bear Stearns, com o dólar a valer apenas 63% do euro, as injecções anticrise de Hank Paulson (secretário do Tesouro de Bush) e depois do novo presidente Obama seguraram o dólar até Março de 2009. O efeito parece ter-se esgotado entretanto, e o dólar vale hoje apenas 70% do euro, ainda longe, contudo, dos 63% de há um ano atrás. Mas os analistas prevêem uma nova derrocada da divisa americana, o que prejudicará severamente as reservas em dólares que a China dispõe – as maiores do mundo actualmente (2,6 biliões de dólares, 3% do PIB mundial em 2008, 8 vezes o PIB português do ano passado).
. Que simbolicamente consolidou mais uma medalha. A maior empresa do mundo, em capitalização bolsista, é, de novo, a PetroChina, que voltou a desalojar a Exxon. Apesar de ter apenas 38% da facturação da Exxon e 37% dos lucros da multinacional americana, o gigante chinês cotado em Hong Kong e Xangai viu o seu valor aumentar depois dos movimentos de aquisição de 45,5% da Singapore Petroleum e de 50% da AO Mangistaumunaigas do Kazaquistão.
Reservas oficiais de ouro
País Toneladas
Março 2009
EUA 8133,5
Alemanha 3412,6
França 2487,1
Itália 2451,8
China 1054 *
Suíça 1040
Japão 765,2
Holanda 612,5
Rússia 523,7
Taiwan 423,6
Portugal 382,5
Fonte: World Gold Council, http://www.research.gold.org/reserve_asset/
Nota: (*) Anúncio de 24/04/09
10 Maiores bancos do mundo
(Capitalização bolsista em mil milhões de dólares, 2009)
Industrial & Commercial Bank of China (China)
China Construction Bank (China)
Bank of China (China)
HSBC (Inglaterra)
JP Morgan Chase (EUA)
Mitsubishi UFJ Financial (Japão)
Santander (Espanha)
Goldman Sachs (EUA)
Wells Fargo (EUA)
Bank of Communications (China)
Fonte: GEAB
Ago 8th, 2009 at 17:34
[...] China aumentou, em oito anos, as suas reservas em 110% subindo para o quinto lugar na classificação de países [...]