O Tigre Celta no divã – com os predadores financeiros por perto

A Grande Recessão provocou um enorme trambolhão no orgulho irlandês. O crescimento “à chinesa” de 12% ao ano durante mais de 30 anos parou subitamente. A bolha imobiliária quando estoirou deu cabo do sistema financeiro. Hoje, a Irlanda está em 6º lugar no clube mundial de maior risco de default. Mas o economista, articulista e radialista Marc Coleman recusa o “pessimismo tablóide”.

Um país, várias imagens

Se ouvir pronunciar a palavra “Irlanda” em Portugal provavelmente obtém quatro palavras mágicas associadas à harpa dourada sobre um fundo verde: Guinness (a cerveja), ‘Tigre Celta’ (a economia efervescente que dava dor de cotovelo aos portugueses e que desmentiu o prognóstico catastrofista da revista inglesa The Economist em 1988), Temple Bar (o santuário de pubs no centro da cidade) e o grupo musical U2.

A gente mais literata acrescenta um rol de grandes nomes, como Óscar Wilde, William Butler Yeats, George Bernard Shaw, James Joyce, Jonathan Swift e Samuel Beckett. As más-línguas alcunharão o país de “porta-aviões americano” no mar-oceano a ocidente da Europa.

Os passageiros frequentes a partir do Porto ou Faro falarão da Ryanair, uma companhia aérea low cost, que proporciona mobilidade europeia a cerca de 75 milhões de passageiros em 150 destinos no nosso continente. As senhoras da classe média alta que fazem city-breaks juntarão, rapidamente, aos ícones irlandeses mais populares dois armazéns para saldos de qualidade ao fim-de-semana: Penny’s e Dunnes.

Um viajante acidental, por seu lado, ficará perplexo com a babilónia de línguas de gente que não é turista acotovelando-se nas passadeiras nos cruzamentos do centro de Dublin – ouve polaco, lituano, letão, chinês, português europeu ou com sotaque brasileiro, espanhol, italiano, francês, árabe, filipino, pelo menos. Os estrangeiros a trabalhar na Irlanda eram 420 mil no último censo, 9% da população, e apenas 25% deles eram semi-especializados ou sem qualquer especialização, o que atesta da qualidade de origem desta infusão, ainda que 35% trabalhassem na hotelaria e restauração e 15% na construção.

Mas, subitamente, o “tigre” caiu do pedestal com esta Grande Recessão. Dublin passou a ter restaurantes atraindo os clientes com placards a oferecer “menus de crise” e nos quarteirões do centro e nas novas zonas de expansão, como as Docklands, começaram a multiplicar-se edifícios ou mesmo blocos inteiros vazios para arrendar ou vender.

De menino de ouro aos PIIGS

Que desgraça bateu à porta da Irlanda?

A ‘bolha’ imobiliária. Ela rebentou em 2008 e desencadeou uma vaga de desemprego em toda a economia, que chega hoje aos 14%. Trouxe, também, ao de cima o “lixo tóxico” do sistema financeiro, avaliado em 88 mil milhões de euros, mais de 50% do PIB. O governo teve de nacionalizar as entidades bancárias – que alguns alcunham pejorativamente de zombies – e criar até um bad bank (o NAMA, National Asset Management Agency) para lidar com esta herança. Por piada, alguns alcunham esta agência de “papel higiénico”. Em Outubro de 2009, a intervenção acumulada das autoridades monetárias no sistema bancário era de 52,4% do PIB, oito vezes a portuguesa.

Um estudo de Luc Laeven e Fabian Valencia, especialistas do Fundo Monetário Internacional (FMI), classificou o caso irlandês como “exemplo típico de crise bancária sistémica”, tal como o islandês, o norte-americano, o holandês e o inglês. Os custos desta reestruturação financeira deverão equivaler a 7,6% do PIB. Pior só na Islândia. O Nobel Joseph Stiglitz, num dos seus momentos de crítica sem papas na língua, chegou a cognominar – injustamente – a Irlanda de “República das bananas”.

A Irlanda, de menino de ouro dos mercados financeiros e das multinacionais tecnológicas americanas, foi empurrada para a zona de risco de default (de incumprimento da sua dívida soberana no horizonte de cinco anos) com os especuladores financeiros a apostarem forte nos credit default swaps (cds, derivados financeiros que funcionam como seguros contra o risco de incumprimento) relativos à dívida soberana.

Acabou mesmo por entrar para o clube dos malcomportados que os analistas em Londres designavam por PIGS, designação pejorativa para o grupo europeu do “sul” com maior probabilidade de default (Portugal, Itália, Grécia e Espanha). A sigla humorística engordou e passou a PIIGS, com a entrada do novo membro do “norte”, o que os irlandeses não gostaram do alto dos seus mais de 40 mil dólares por ano em rendimento per capita, um nível de vida incomparável com qualquer outro dos “colegas” do “sul”.

Os políticos intervieram, logo aos primeiros sinais, na esperança de “rapidamente e em força resolver o assunto”. A Irlanda foi, então, apontada, na Europa, como o “modelo” a seguir de gestão da crise. Os dois primeiros orçamentos de austeridade, em Outubro de 2008 e Abril 2009, centraram-se em aumentos de impostos. Os cortes salariais na função pública entre 5% e 20% são o prato forte agora, no orçamento aprovado em Dezembro passado.

Mas os mercados financeiros não premiaram o vanguardismo do executivo irlandês. A probabilidade de default, segundo o monitor da CMA DataVision, em Agosto ultrapassou Portugal e o “tigre celta” entrou a meio do mês directamente para o 8º lugar do TOP 10 mundial do risco de incumprimento da dívida num horizonte de cinco anos, onde, ainda, se encontra a Grécia, em segundo lugar.

Este mês já se encontra em 6º lugar, com perto de 33% de probabilidade, e mais de 430 pontos base de preço nos cds. Também as yields (taxas de remuneração) das obrigações estatais a 10 anos dispararam para perto de 6,5%, mais altas inclusive do que no caso português – o que significa que a Irlanda está a pagar a preço de ouro os empréstimos públicos que ainda consegue obter no mercado financeiro.

Os anos de chumbo

Descendo ao terreno dos indicadores da economia real e financeira durante os anos de chumbo de 2008 e 2009, o panorama é, à primeira vista, chocante.

No ano do pânico financeiro internacional (2008), a exportação baixou 1% e o investimento 15,5%. A recessão já comeu, em 2008 e 2009, 11,1% do Produto Interno Bruto (PIB) e o crescimento, este ano, é quase nulo. O desvio em relação à tendência histórica de crescimento do PIB foi de 110% – quase 3 vezes mais do que em Portugal ou Espanha, quase 4 vezes mais do que na Grécia. Pior só na Letónia.

Em termos do dia-a-dia concreto do irlandês, a recessão em 2008 e 2009 já lhe custou um corte anual no porta-moedas de €5700. Aos que estão ainda empregados, o aperto anual do cinto foi menor, mas mesmo assim na ordem dos €3600 euros.

A dívida soberana mais do que duplicou entre 2007 e 2009. Apesar da população irlandesa ser menos de metade da portuguesa, a dívida irlandesa em euros é superior em mais de 16 mil milhões de euros. Em percentagem do PIB, a dívida pública irlandesa engordou 50% naquele período. Pior só mesmo na Islândia, em que saltou 80%. Para essa dívida em relação ao PIB descer para um patamar aceitável pela União Europeia e pelo FMI, a Irlanda vai ter de fazer uma cura de emagrecimento até 2021 – no entanto, bastante menos do que Portugal (até 2037) ou a Grécia (até 2031).

O défice orçamental disparou para uns incríveis 14,3% do PIB em 2009 e projecta-se 11,6% em 2010, depois de o governo ter tido excedentes em 2006 e 2007. Se, for contabilizada a recapitalização do sistema financeiro, esse défice, este ano, poderá disparar quase para 20%! Pior do que a Grécia, o membro dos PIIGS sob os holofotes dos especuladores e dos analistas. O elevado défice irlandês em 2009 exige uma redução de 11 pontos percentuais em cinco anos para atingir os 3% em finais de 2014, um ano depois do final planeado de outros ajustamentos.

A Irlanda surgiu, também, como recordista na dívida externa bruta – incluindo pública e privada – em percentagem do PIB, mais de 1005%, mas essa situação acaba por ficar muito mitigada quando se avalia a situação líquida, que é bem mais importante em termos de avaliação da debilidade ou solidez estrutural. Neste campo, Grécia, Portugal e Espanha estão bem pior. O défice externo da Irlanda em percentagem do PIB é, também, muito baixo – 14 vezes inferior ao português. São dois pontos fortes a favor da harpa dourada.

No entanto, um estudo recente da OCDE, da autoria de Adrian Blundell-Wignall e Patrick Slovik, referia que a Irlanda precisaria de 13 anos para regressar ao ponto de partida de 2009 em termos de dívida pública no PIB, e um esforço de ajustamento orçamental acumulado equivalente a 16% do PIB. Muito mais do que a Grécia (8 anos e 12,8% do PIB), Portugal (8 anos e 11% do PIB) e Espanha (8 anos e 8% do PIB).

Com o sistema bancário numa situação dramática – o Anglo Irish Bank já atinge no mercado dos cds um preço superior a 850 pontos base e o Bank of Ireland (não é o banco central, é privado) mais de 440 pontos base – , o Banco Central Europeu (BCE) tornou-se no ‘bombeiro’ da liquidez do sistema financeiro irlandês desde 2008. Em Julho de 2010, o financiamento anual líquido por parte do BCE atingia mais de 83,6 mil milhões de euros, mais de 51% do PIB do Tigre Celta – contra 38,4% no caso grego e 30% no caso português.

Não admira que as agências de rating baixassem a notação da República Irlandesa, com a Moody’s em Julho passado a desce-la de AA1 para Aa2 e a Standard & Poor’s para AA- a 24 de Agosto.

Contra os pessimistas kamikaze

Chegou, por isso, a hora de colocar o “tigre celta” no divã do analista. A voz mais conceituada para o fazer é o radialista e economista Marc Coleman, que publicou, no final do ano passado, ‘Back from The Brink – Ireland’s Road to Recovery’, um livro surpreendente, entre os destaques da pequenina e velha livraria Books Upstairs, bem no centro da capital irlandesa, em frente do Banco central e da entrada principal para o Trinity College.

O livro afirma-se como “um manifesto” pelo “realismo dinâmico e optimista”, no meio de um coro negativista de analistas e académicos, que Marc designa por “comentadores kamikaze” e “astrólogos económicos sensacionalistas” que funcionam como “megafone” de tudo o que é negativo. Outros chamam-lhe de “pessimismo tablóide”.

Coleman acha que a Irlanda já saiu da borda do precipício e que “está a estabilizar nos níveis de 2005”, mas os media internacionais e as agências financeiras “continuam a ter um olhar dramatizado e super-simplista sobre a nossa economia”.

Um olhar de longo prazo, diz ele, observa uma economia que cresceu em 33 anos, até à Grande Recessão, mais de 400%. O que sucedeu depois, nestes últimos três anos, é como “dez passos à frente, um passo atrás”, ironiza.

Coleman aponta um momento em que a asneira começou a dominar a governação irlandesa e estragou um crescimento sustentado. “Entre 1994 e 2004 a economia cresceu com uma média de 7% ao ano de um modo sustentável, e esse nível deveria ter arrefecido normalmente um pouco para 2 ou 3% a seguir”, diz ele. Mas o facto de que o crescimento atingiu os 6% em média entre 2005 e 2007, fruto das políticas pro-cíclicas seguidas, conduziu a uma ‘bolha’ que Coleman, então editor de Economia do jornal Irish Times, denunciou, praticamente pregando no deserto.

Construção, banca e bebedeira

Os heróis de então, que enchiam as capas das revistas, eram os developers – os barões da especulação imobiliária – e todo um ecossistema político clientelar que desprezou a economia real, e que empurrou o país para uma política urbana desastrosa, diz o economista.

A Irlanda da tecnologia foi afogada pela “economia dos 3 Bs”, como se dizia ironicamente, em inglês: Building, Banking and Booze (construção, banca e bebedeira). Entre 2004 e 2008 era ministro das Finanças Brian Cohen, o actual primeiro-ministro, cargo designado por taoiseach (pronunciar teeshock e significa chefe ou líder em gaélico irlandês).

Esse período de extravagância “quase delinquente” é alcunhado de “os anos Inchidoney”, do nome da ilha turística, a uma hora de estrada de Cork, onde foi aprovada a nova estratégia política definida pelo partido do governo, Fianna Fáil. Era simples a ideia gizada, no intervalo das horas de talassoterapia e “reflexologia” (outra terapia publicitada pelos SPA locais), ironizava o jornal The Post, em Setembro de 2004. O truque era alavancar o apoio político em duas pernas: na especulação imobiliária, e em toda a economia que gravita à sua volta, e na compra da paz social com os aguerridos sindicatos da função pública.

Hoje a visão dos edifícios de escritórios e de habitação vazios emociona e empurra-nos para a ideia de um apocalipse económico urbano. Mas é preciso temperar essa imagem, diz Coleman. “Em muitos desses locais há vinte anos atrás não havia nada, apenas lixo. Mas é certo que muito do que foi construído desde 1994 não era necessário. E entre 2004 e 2007 disparou. Por isso, hoje, tem de haver edifícios vazios. Mas isso será corrigido nos próximos cinco anos”.

O que o próprio bad bank criado, a NAMA, está a fazer “é lipoaspiração – limpa a gordura, para que a Irlanda regresse a uma vida saudável”, ri-se o nosso interlocutor. Os dois bancos – Bank of Ireland e Allied Irish Banks, ambos nacionalizados aquando do pânico financeiro – foram submetidos aos recentes testes de stresse na União Europeia e ficaram pouco acima de 6% (o mínimo para o rácio de capital Tier 1), o que provocou alívio. Mas não deixou de ser sintomática esta proximidade do mínimo exigido, ainda por cima em bancos nacionalizados.

Olhar para os Vikings

O milagre irlandês sempre provocou uma enorme dor de cotovelo em Portugal e era considerado por muitos – que “esqueciam” a bolha e a euforia financeira artificial – como o modelo a seguir na Europa.

Mas, curiosamente, para Coleman, o modelo a seguir é o dos descendentes dos Vikings de há 30 gerações atrás. A Dinamarca – com 5,5 milhões de habitantes e 13º lugar em competitividade mundial – é um caso de referência constante para o economista, apesar de decorridos mais de mil anos dos raids desses navegadores e conquistadores nas costas irlandesas. Também a Finlândia, a Noruega e a Suécia surgem no radar de Coleman.

Menos exuberantes do que os “tigres asiáticos”, mas, no dizer do autor de ‘Back from the Brink’, mais sustentáveis para uma economia como a irlandesa de cerca de 4,5 milhões de habitantes (menos do que a cidade-Estado de Singapura inclusive, que terá 5 milhões actualmente) no contexto da Europa. Por isso, Coleman não gosta do termo “tigre celta”, inventado pelo economista londrino Kevin Gardner, em 1994.

O nó górdio

Coleman refere no seu livro cinco pilares para a Irlanda dar a volta – competitividade de custo, desenvolver uma economia inteligente, ter uma estratégia espacial correcta, limpar o sistema bancário, revolucionar o sistema político actual. “A competitividade é central. Com ela, todos os outros podem funcionar”, sublinha-nos.

No entanto, na competitividade em termos de custo unitário na industria, a Irlanda está em muito melhor situação do que a Itália, Espanha, Portugal, Bélgica e Luxemburgo – o índice do custo unitário é 30 pontos inferior ao português e quase 40 pontos em relação ao italiano. Juntamente com o Luxemburgo, a Holanda e a Alemanha tem um alto nível de produtividade laboral e de intensidade de capital.

Se compararmos o PIB por empregado entre Portugal e a Irlanda verificamos que cada irlandês que está a trabalhar produz, em valor, quase 3 vezes mais! Fruto de mais alta produtividade e de maior valor acrescentado no que se produz. Convém não esquecer, por isso, estas assimetrias entre os PIIGS.

Na classificação mundial organizada pelo IMD, a escola suíça de gestão, e designada por World Competitiveness Scoreboard, a Irlanda surge, este ano, em 21º lugar, muito à frente dos restantes quatro PIIGS. Mas, como a comparação que os irlandeses fazem é com o pelotão da frente, esta é uma posição que não consideram honrosa.

A competitividade exige mexer num ecossistema de interesses que se cristalizou, em que se movem como peixe na água os sindicatos da função pública e uma nomenklatura de lugares do estado, que não querem ouvir falar de austeridade. Esse ecossistema criou “duas Irlandas”. Uma das mudanças, diz Coleman, é restaurar a paridade salarial entre os sectores público e privado. O nível salarial na função pública é 12,5% mais alto.

Uma nova aliança

O que exige apoio popular. O economista e radialista sugere: “O governo terá de forjar uma aliança entre os trabalhadores do sector privado e as camadas menos bem pagas e mais na linha da frente do sector público, como os professores, a polícia e as enfermeiras, por exemplo. Uma aliança que isole os mais bem pagos da nomenklatura e os menos produtivos do estado e dos sectores semi-estatais que estão a bloquear a situação”.

Apesar de muito pessimismo na Main Street e de muito clientelismo instalado, a procura de novas saídas é constante na Irlanda. Em Junho, a Federação Bancária Irlandesa declarou pretender transformar Dublin no principal centro europeu para fluxos financeiros de entidades que seguem os princípios da lei islâmica. Tais capitais giratórios somariam uns €800 mil milhões no mundo, e a banca irlandesa quer captar €40 mil milhões, ¼ do PIB do país.

Apesar de a crise afectar profundamente a exportação, a Irlanda, também, soube alterar a composição da sua especialização internacional. O excedente comercial foi de 17,3 mil milhões de euros até maio. Hoje em dia, 62% das exportações de bens são em produtos de “ciências da vida” (química, farmacêutica, biotecnologia, meios de diagnóstico, aparelhos e utensílios médicos), o novo cluster em que a Irlanda apostou. A sua imagem de marca anterior, o sector da computação, representa hoje, apenas, 12% das exportações. A Irlanda assumiu que este sector está em declínio. Aliás as exportações irlandesas em derivados das “ciências da vida” foram as únicas que não tiveram contracção em 2009.

Marc Coleman deixa, ainda, uma última mensagem de esperança: “Apesar da razia feita pela recessão e pela emigração, os empreendedores irlandeses deverão exceder, ainda, os 200 mil”, quase 10% da população activa.

ENTREVISTA A MARC COLEMAN

«PREFIRO O MODELO DOS NÓRDICOS AO DOS TIGRES ASIÁTICOS»

Marc Coleman, dublinense, economista, radialista de economia duas vezes por semana à noite no Newstalk 106-108fm, colunista no The Sunday Independent, e evangelista do “realismo e optimismo dinâmico” sobre o país da harpa dourada em fundo verde.

Marc é um irlandês “incontornável”. Para perceber o que se passou nos últimos trinta anos e passa agora no país da Guinness apodado de “tigre celta”, é preciso ouvir e ler este dublinense que, em miúdo, foi para a Alemanha onde se formou em economia no Kiel Institute of World Economics. Quando regressou em meados dos anos 1970 foi espectador da viragem inacreditável que viria a ocorrer – entre 1974 e 2007, a economia irlandesa cresceu 413%, uma dinâmica “chinesa” de 12,5% ao ano.

Andou pela política no final dos anos 1980 e começo dos 1990, sendo um dos ‘jovens turcos’ do Wednesday Club, que pretendia renovar o partido Fine Gael (à letra a “tribo dos irlandeses”), que, politicamente, se define como “centro progressivo” e pro-europeu e que, actualmente, está na oposição.

Contra o pessimismo militante do que chama os “comentadores kamikaze” da praça dublinense e das agências financeiras, Marc considera-se um “realista” e “optimista dinâmico”. O seu livro de 2007, ‘The Best is Yet to Come’, previa o estoirar da bolha irlandesa, mas deixava a luz ao fundo túnel: um horizonte de esperança. No final do ano passado publicou ‘Back from the Brink’, onde mantém a confiança do regresso da Irlanda ao caminho do crescimento, pelo menos de 3% em média já a partir de 2011. Com um “se” – “se a competitividade for restaurada”. O livro pretende traçar uma estratégia (sobretudo no capítulo 13) até 2016, no centenário da proclamação da República Irlandesa contra o colonialismo britânico.

Marc pode ser visitado ou ouvido na rádio.

P: O “Tigre Celta” vai sobreviver às mudanças geo-económicas que esta Grande Recessão está a acelerar? “Tigres” de crescimento na União Europeia vão continuar a ser possíveis?
R: Eu acho que o paradigma do “tigre” é um pouco simplista. Muito do que aconteceu na Irlanda foi crescimento para apanhar a “média” europeia, a que chegámos nos anos 1990, em termos de PIB per capita, algo que deveria ter acontecido muitos e muitos anos antes. Prefiro o modelo nórdico aos tigres asiáticos. Nos nórdicos, o crescimento foi mais vagaroso e mais gradual, com décadas de investimento na educação e na investigação, e com o aproveitamento de alguns factores específicos. Quanto a mim, este modelo tem os melhores ingredientes para a próxima fase da Irlanda, de crescimento mais moderado mas mais sustentável, complementando o papel das multinacionais (cuja competitividade em termos de custo já não é o que era) com um crescente núcleo duro de empresas indígenas.

P: Refere a possibilidade de um tsunami político, o que as últimas sondagens em Junho pelo Irish Times/Ipsos MRBI parecem confirmar. Mais de 50% dos entrevistados queriam mesmo eleições antecipadas já este ano e a sondagem dava o primeiro lugar aos trabalhistas, uma das forças na oposição. Até 2013, ano final para o ajustamento do défice público, o que vai acontecer na política irlandesa?
R: Penso que, pela primeira vez, os três grandes partidos da Irlanda – Fianna Fáil, Fine Gael e Trabalhista – terão votações similares. E o governo mais provável é uma aliança do Fine Gael com o Trabalhista. Idealmente, eu acho que uma coligação dos dois partidos à direita (Fianna Fáil e Fine Gael) permitiria um governo forte por mais cinco anos enquanto os Trabalhistas se consolidariam. Mas essa coligação no centro-direita significaria acabar com uma divisão que vem da guerra civil e superar uma dinâmica de carreirismo dentro desses dois partidos, o que não se revela fácil. A emergência de um novo partido à direita também não é de excluir. O orçamento de estado mais crítico é o próximo a aprovar em Dezembro, e deverá passar na Câmara Baixa do Parlamento [designada por Dáli] apresentado pela coligação actual liderada pelo Fiana Fáil e que conta com os Verdes. Eleições antecipadas poderão ocorrer provavelmente em 2011, um ano antes do final do mandato do actual governo liderado pelo Fiana Fáil, e gerar uma coligação Fine Gael-Trabalhistas, o que poderá atrasar um pouco a consolidação orçamental até 2013.

P: Outro ponto politicamente controverso é a sua proposta para uma estratégia económica unificada em toda a ilha. Mas estarão os ingleses disponíveis para a ideia de uma economia potencial de 8 milhões de habitantes com bom nível de vida em 2040 ali mesmo na vizinhança, com todo o efeito de cascata que possa ter, por exemplo, junto da Escócia?
R: A política britânica está a mudar. Permitir a unificação irlandesa e a independência escocesa não sabota necessariamente o papel desempenhado pela monarquia britânica em Inglaterra, Gales e Escócia e alguma acomodação pode ser arranjada para os que no norte da Irlanda continuam fieis ao monarquismo, ainda que permitindo que a governação económica fosse feita a nível de toda a ilha. Isto não se consegue num clique, é claro. Mas os próprios votos nacionalistas estão a chegar à paridade no norte. A situação está a melhorar, não a piorar.

P: A previsão da República da Irlanda ter uma massa crítica de 5 milhões de cidadãos em 2020, regressando ao nível populacional de meados de 1800 antes das grandes fomes e da emigração em massa provocada pelos ingleses, vai sofrer um atraso com esta Grande Recessão?
R: Talvez atrase de um ano ou dois. A população pode baixar umas 80 mil pessoas este ano e até final de 2011. Prevê-se que 150 mil deixem o país nos próximos dois anos. Mas não altera nada quanto ao fundamental. Com meio milhão de jovens entre os 15 e os 24 anos, mais de 10% da população, creio ser possível alcançar os 5 milhões daqui a dez anos.

IRLANDA EM NÚMEROS
População: 4 milhões e 459 mil (Portugal: 10 milhões e 637 mil)
População activa (inclui empregados e desempregados): 2 milhões e 200 mil (Portugal: 5 milhões e 600 mil)
PIB (2009): €166,4 mil milhões (Portugal: €163,9 mil milhões)
PIB por empregado: €88.700 (Portugal: €32.800)
PIB per capita (em dólares, e em paridade de poder de compra, 2009, Banco Mundial): $41.282 (Portugal: $24.021)
Estrangeiros (legais) a trabalhar no país: 420 mil; 9% da população (Portugal: 436 mil; 4% da população)
Défice público em % do PIB (2009): 14,3% (Portugal:9,4%)
Posição líquida de investimento internacional em % do PIB (valores negativos, 2009): 78,1% (Portugal: 111,7%)
Número de Desempregados (1º trimestre de 2010): 305.800; 14% da população activa (Portugal:592,2 mil, 10,6%)
Exportações de bens e serviços (2009): €144 mil milhões; 86,5% do PIB
Exportações de bens (2009): €85,5 mil milhões (Portugal: €31 mil milhões)
Excedente no comércio externo (2009): €38,7 mil milhões (Portugal tem défice no comércio externo; as exportações portuguesas cobrem apenas 62% das importações)
Exposição total da banca estrangeira à Irlanda (2009): €402 mil milhões (mais de 1,6 vezes superior à exposição da banca estrangeira a Portugal)
Exposição da banca da União Europeia à dívida soberana irlandesa (registada nos banking books, 2010): €25,5 mil milhões (no caso português é superior, é de 37,4 mil milhões)
Dependência do petróleo (% no mix de energia total): 55% (Portugal: 55%)
Notação de rating da S&P: Irlanda com AA- (Portugal com A-, Grécia com BB+, Espanha com AA, e Itália com A+).

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