Países do default II: «Espanha vai acabar por ser intervencionada este ano» (Santiago Becerra)

Enquanto o governo de Zapatero e o Fundo Monetário Internacional (FMI) discutem sete décimas sobre a previsão de crescimento da economia espanhola este ano – o governo prevendo 1,3% e o Fundo 0,6% -, Santiago Niño Becerra, professor de “estrutura económica” em Barcelona, chocou os conterrâneos prevendo uma recessão este ano e no próximo e que Madrid irá acabar por ir bater à porta de Bruxelas “durante 2011”.

Becerra, de 60 anos, já havia gerado grande polémica quando publicou o livro ‘O Crash de 2010’. Muitos colegas criticaram-no por ter falhado nessa futurologia, mas o catalão responde que o “crash sucedeu sim – entre junho e outubro” e aponta como uma situação de risco o facto de o Banco Central Europeu estar em regime de “bar aberto em Frankfurt”.

P: O problema principal de Espanha é a situação das mais de três dezenas de Cajas, o sistema financeiro de caixas de poupança?
R: As Caixas são parte do problema, sem dúvida uma parte importante com um volume muito elevado de créditos hipotecários, mais do que os bancos. Mas um dos problemas centrais é a dívida total que soma mais de 400% do produto interno bruto (PIB), em que as empresas detêm 140%, a banca 110%, as famílias 90% e o Estado mais as Regiões e os Municípios 67%.

P: Mas qual é a saída no caso das Cajas, que parece ser o tema que mais nervosismo provoca nos investidores internacionais da dívida?
R: Podemos interrogar-nos: Que parte desses créditos que as Cajas detêm não poderá ser cobrada? Além do mais, têm dívidas muito elevadas e só muito limitadamente conseguem ir aos mercados para obter capital.

P: E qual é, então, a saída?
R: O resgate com dinheiro público – de todos os espanhóis – das Cajas que estejam em pior estado.

P: Mas há alguma semelhança com o problema irlandês?
R: Muitas semelhanças. Um peso enorme do “ladrilho” (imobiliário) no ativo destas entidades financeiras.

P: E há risco de falência?
R:Penso que é nulo. A quem é que interessa a falência de uma entidade financeira. É preferível intervir nela.

P: A estrutura do estado espanhol com um mosaico de nações e regiões é um problema adicional na hora de fazer o reajustamento da despesa pública e gerir o endividamento?
R: Por um lado, é, porque multiplica estruturas, aumentando a despesa e não ganhando em eficiência. Mas, por outro lado, dá ocupação a população ativa, ajuda a que o desemprego seja menor, a um custo elevado, mas benéfico – mas essa é outra história. O problema é que as regiões foram criadas para, de uma forma indireta, conseguir que algumas zonas se aproximassem da média, mas não através de um crescimento harmonioso, mas sim de piorar outras, mais do que é tolerável.

«Chegarão os Homens de Preto»

P: Espanha tem ou não condições de evitar um resgate por Bruxelas e pelo FMI?
R: Penso que não tem. Durante 2011 será intervencionada. Chegarão os ‘Homens de Preto’ que dirão o que é preciso fazer acerca do orçamento e sobre o sistema financeiro. Penso que Espanha entabulará conversações bilaterais com os seus principais credores e o destino final acabará por ser a re-estruturação da sua dívida.

P: Porque acha isso?
R: Espanha não pode pagar aqueles 400% do PIB. Julgo que nenhuma economia com uma dívida superior ao seu PIB conseguirá pagá-la sem um empobrecimento da sua população até limites insustentáveis. Isso não é possível em uma era pós-global como a atual.

P: O problema de longo prazo é a competitividade?
R: Sim, é a baixíssima produtividade do seu sistema produtivo, o que dificulta enormemente conseguir crescer num cenário de pós-crise. Para aumentar a produtividade, a Espanha teria de investir muito mais em bens de capital, o que parece difícil devido à estrutura do seu PIB.

P: Como é que essa estrutura dificulta o investimento?
R: Tem muitos bens e serviços de baixo e médio valor acrescentado. E se fizesse esse investimento em bens de capital, o desemprego dispararia, pois o nosso modelo é muito intensivo no fator trabalho. Mas haveria financiamento para isso? – não me fez, ainda, a pergunta, mas faço-a eu. Sim, Mas a evolução da situação terá de ser inclusive em direção à criação de clusters, transnacionais.

P: Uma das previsões que mais chocou foi projetar uma recessão em Espanha para os anos 2011 e 2012 e com um crescimento médio baixo até 2016. O crescimento está bloqueado?
R: Sinceramente acho que o período 1995-2006 não se vai repetir na economia espanhola durante muitos dos próximos anos – se é que voltaremos sequer a ver algo semelhante.

P: Mas o que bloqueia Espanha?
R: Espanha cresceu, em grande medida, baseada no modelo produtivo referido e em subsetores dependentes: construção, exportação de automóveis de baixo valor, turismo de massas e de relativamente baixo poder de compra, restauração e hotelaria, e tudo isso financiado a crédito. E com a população espanhola a atingir 46 milhões. São perspetivas obscuras. Contudo, o país não está a flutuar no vazio – a economia está integrada na economia mundial pelo que os problemas de esta são também os problemas espanhóis, contudo amplificados. Todo o planeta vai padecer com a crise, mas alguns países mais – como Espanha.

P: A situação estrutural do desemprego poderá criar uma situação social explosiva como na Grécia?
R: Explosões de descontentamento? – creio que sim, mas revoltas não. Coisas como corte de estradas, motins urbanos organizados por líderes revolucionários e saques, penso que não ocorrerão por aqui. O modelo de proteção social espanhol é mais amplo do que o da Grécia e o rendimento médio também. E creio que há um elemento adicional que amortece os problemas sociais: a família. Mas esse existe nos países mediterrânicos, também na Grécia. A questão final é: durante quanto tempo mais será assim?

«Não é mais possível resolver as coisas como dantes»

P: O seu último livro ‘O Crash de 2010’ foi criticado por ter falhado na futurologia. O crash ocorreu ou não?
R: Claro que ocorreu – foi entre julho e outubro do ano passado.

P: Mas em que consistiu, pois a maioria dos seus colegas diz que não existiu?
R: O crash foi dar-se conta de que era impossível resolver as coisas como dantes. Abriu as portas à crise em que o planeta está imerso. É verdade que não foi um crash como o de 1929, porque a realidade de hoje não é a de então, mas as consequências serão muito parecidas: desemprego crescente, abrandamento exasperante da atividade económica, afundamento da coleta fiscal, desprestígio de políticos e governantes, falta de esperança.

P: Mas como se manifestou?
R: Foi tomar consciência que a troca de cromos entre ‘um pouco de crescimento’ à custa de ‘muito défice’ não serviu para nada. Foi, também, o BCE entrar em regime de bar aberto em Frankfurt. Foi o segundo plano de estímulos de Obama. Foi a preparação do resgate da Irlanda pressupondo que mais países acabarão por ser resgatados. Também o projeto de orçamento britânico que contempla cortes brutais e que supõe o princípio do fim do modelo de proteção social. Foram as dúvidas que os testes de esforço à banca geraram. Foram os rumores de que 40% dos créditos concedidos pela banca chinesa são incobráveis. Foi a manipulação subtil da verdade.

P: A manipulação da verdade?
R: Por exemplo, dizer-se que na Alemanha o desemprego estava em retrocesso quando o Estado estava a pagar as horas dos trabalhadores que as empresas não necessitavam, e ignorar que há cinco milhões de pessoas subsidiadas para nada fazer ainda que estejam disponíveis em teoria para fazer o que faça falta. Ou o que acontece no Brasil em que se diz que vai tudo pelo melhor dos mundos mas depois a televisão está inundada de publicidade paga pelo governo incitando a população a consumir.

Politicamente incorreto

Santiago Niño Becerra é um economista catalão politicamente incorreto hoje com 60 anos. Muitos o conhecem em Espanha como “o profeta da crise”, pois advertiu em 2006 que uma “grande crise” se avizinhava. Então foi considerado “alarmista”, mas o que ocorreu dois anos depois deu-lhe razão. Doutorado em Ciências Económicas passou pelo setor privado até 1992 e ingressaria depois como professor na Universidade Ramón Llull, em Barcelona. Pertence ao Departamento de Economia e Finanças e dá aulas na Faculdade de Economia Instituto Químico Sarriá. Ensina estrutura económica e economia industrial.

Intervém diariamente na web com uma coluna de opinião muito crítica e com humor em La Carta de La Bolsa. O seu livro mais recente, editado pela Los Libros del Lince, de Barcelona, causou, de novo, grande polémica. Intitulado sugestivamente ‘O crash de 2010 – Toda a verdade sobre a crise’ foi publicado em 2009 quando ainda se viviam os embates recessivos do que viria a ser alcunhado de Grande Recessão. Mas Santiago Becerra, a contra corrente, avisava que o que estava a ocorrer era apenas a fase de “pré-crise” iniciada com o subprime em 2007. “A crise de verdade, a crise económica a sério, começará em 2010, e será brutal e terrível”, dizia ele, novamente chocando os colegas da academia e os analistas. Muitos não esperavam que a crise da dívida soberana acabasse por tomar a dimensão que tomou em 2010, e sobretudo centrada na zona euro e na Europa rica, e que os desequilíbrios mundiais continuassem em progresso, apesar dos encontros do G20.

A tese central de Becerra é que o período de 2010 a 2012 será o mais duro desta Grande Recessão que se arrastará até 2015, altura a partir da qual começará um período de recuperação lenta até 2018-2020.

One Response to “Países do default II: «Espanha vai acabar por ser intervencionada este ano» (Santiago Becerra)”

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