Países do Default I: Islândia saiu do radar da bancarrota

A Islândia esteve nas bocas do mundo em 2008 como o primeiro caso de quasi-bancarrota de um país durante a Grande Recessão mundial que havia começado em 2007. Foi o primeiro “sinal” de que países com alto nível de vida também podem ser abatidos pela crise da dívida bancária e soberana, o que, para muitos economistas, era impensável. Foram Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff, numa investigação sobre a história de defaults em países desenvolvidos e em países emergentes [a que nos referimos], que primeiro apontaram este evento aparentemente “anormal”.

O custo dos credit default swaps (cds, seguros contra risco de incumprimento) da sua dívida soberana chegou a estar no pico em 2008 em mais de 1500 pontos base, situando-se, então, no TOP 3 dos de maior risco do mundo. As yields (juros implícitos) da dívida a longo prazo chegaram a 18% (os relativos à Grécia no pico da crise em maio deste ano estiveram em 12,5%) no mercado secundário e a dívida externa chegou a um máximo alucinante de €160 mil por cada habitante, grosso modo 6 anos de rendimentos de cada cidadão.

Cuidado com o “dinheiro quente”

Foi o primeiro caso dos malefícios do “dinheiro quente” (hot money, na designação anglo-saxónica) que correu mundo durante o período áureo da “bolha” dos anos 2000. Os bancos islandeses atraíram capitais acenando com taxas de juro elevadas aos depositantes estrangeiros e para conseguir manter essas retribuições aplicaram o dinheiro em ativos arriscados por todo o mundo que recebiam, também, juros especulativos. A ilha deixou-se enredar num “esquema” atraente que envolveu os seus três principais bancos comerciais, com notações de triplo AAA, num processo de “internacionalização”, sobretudo na Europa e nos emirados do Golfo, como ainda na semana passada o contou Már Gudmundsson, o atual governador do Banco Central da Islândia.

Os ativos dos bancos islandeses chegaram, em 2008, antes do colapso, a representar 1050% do PIB (idêntico ao caso irlandês) e os seus ativos em subsidiárias estrangeiras eram 41% do total. As responsabilidades em divisas estrangeiras dos bancos subiram a 750% do PIB em setembro de 2008. A posição negativa de investimento internacional da Islândia atingiu, em 2009, quase 400%, 4 vezes mais grave do que a portuguesa.

Mas com a falência do Lehman Brothers americano em setembro de 2008, os habituais “fornecedores” de dinheiro quente ficaram nervosos, retraíram-se e puseram o dinheiro fora. Todo o castelo se começou a desmoronar. A 25 de outubro, o banco Glitnir, pede ao Banco Central Islandês um empréstimo de emergência de 600 milhões de euros, e o filme começou a acelerar. Como sublinha o analista americano Peter Cohan, no seu recente livro Capital Rising, o diabo é quando estes fluxos de capital fogem. Provocam uma escassez mortífera. A Islândia foi o primeiro país vítima deste impacto sistémico. A ilha não se precaveu nem procurou “dirigir” esses fluxos de capital para “investimentos de longo prazo ou financiamento de operações empresariais que se traduzissem em economia real – foi esse o seu pecado, que pagou caro”, diz-nos Peter Cohan.

Agora, a ilha do atlântico norte voltou a estar em foco por comparação com o que ocorreu, este ano, noutra ilha um pouco mais pequena, a Irlanda. A falência do sistema bancário em Reykjavik foi o facto mais mediático da crise islandesa seguido de movimentações populares de grande revolta e mesmo de um referendo incomum sobre se se deveria compensar ou não os depositantes estrangeiros. Mais de meio milhão de depositantes estrangeiros perdeu largas somas, particularmente do Reino Unido, Holanda, Alemanha e Dinamarca, aforradores e investidores que haviam sido atraídos pela especulação financeira.

A necessária bancarrota dos bancos

No entanto, em 2010, a Islândia conseguiu sair da zona vermelha do monitor mundial de risco de bancarrota. O custo dos cds da sua dívida soberana está hoje nos 280 pontos base (para comparação, o preço dos cds relativos à dívida soberana portuguesa está em mais de 450 pontos base), segundo dados da CMA DataVision, e as yields baixaram para menos de 6%.

O “segredo” para esta saída da zona de risco, diz Gylfi Zoega, professor de Economia na Universidade da Islândia, foi “deixar os bancos entrar em default em relação com as obrigações para com os bancos estrangeiros”. “O principal fator por detrás do arrepiar de caminho da Islândia foi a depreciação das taxas de câmbio e o facto de grande parte dos custos da bancarrota do sistema bancário ter recaído sobre os credores estrangeiros e não sobre os contribuintes islandeses”, afirma, também, Jon Danielsson, economista islandês, atualmente professor na London School of Economics. Ele é de opinião que “esta é a estratégia correta para os contribuintes em outros países com sistemas financeiros em crise – o povo nada teve a ver com as decisões dessas instituições financeiras sofisticadas e não há razão alguma para resgatar quem quer que seja”. O ministro dos Assuntos Económicos da Islândia, em entrevista (ver abaixo), reforça que agora “muito mais gente concorda que estávamos certos”.

Introduziu-se, também, um regime de controlo de capitais, que permitiu um default parcial nos detentores de obrigações islandesas em moeda islandesa num total de 30% do PIB, e a coroa islandesa desvalorizou 35% entre janeiro e setembro de 2008.

Danielsson é inclusive de opinião que a Islândia acabou, paradoxalmente, “por ter sorte” no meio da bancarrota por o governo da altura não ter conseguido financiar-se no mercado internacional ou junto de governos estrangeiros (como o inglês) e do Banco Central Europeu e da Reserva Federal americana. “Se o tivesse conseguido, tudo indica que usaria esse dinheiro numa tentativa fútil de salvar os bancos falidos, o que significaria que hoje estaria em piores lençóis”, diz-nos Danielsson, que aponta o contraste com a estratégia seguida pelo governo irlandês que acabaria por gerar, este ano, um défice de 32% do PIB tentando – infrutiferamente – tapar o buraco dos bancos irlandeses falidos.

Zoega é de opinião, no entanto, que esta “solução islandesa” não é viável nos países da zona euro devido ao entrelaçamento dos bancos europeus. “Uma solução como a nossa teria efeitos devastadores. Contudo, acho que os irlandeses poderiam ter garantido, apenas, os depósitos e não a dívida a outros bancos, ou pelo menos nunca a dívida subordinada, o que teria obrigado os bancos estrangeiros a assumir parte das perdas em virtude da sua política de empréstimos irresponsável”, sublinha.

A Islândia acabou por acordar um Stand-by Arrangement com o Fundo Monetário Internacional em outubro de 2008 com um financiamento de 2,1 mil milhões de dólares, a que se juntaram empréstimos de 2,5 mil milhões de dólares por parte dos vizinhos nórdicos (Noruega, Suécia, Finlândia, Dinamarca e Ilhas Faroé), da Polónia e da Rússia, e €5 mil milhões por parte da Alemanha, Reino Unido e Holanda. Foi a segunda vez que o FMI pôs o pé na ilha gelada – a primeira fora em 1960. Novas eleições em abril de 2009 levaram ao poder um governo liderado pela aliança social-democrata (esquerda).

Acertando contas com os amigos

Entretanto, recentemente, ao fim de dois anos de negociações, o governo islandês acordou com o Reino Unido e a Holanda pagar-lhes, ao longo de 35 anos, os re-embolsos que fizeram aos 400 mil depositantes desses países que tinham aplicado poupanças no Icesave, um banco virtual do Landsbanki, um banco que colapsou em 2008. O acordo envolve taxas de juro baixas, de 3,3% no caso inglês e de 3% no caso holandês. Os dois países concordaram em levantar o bloqueio à proposta da Islândia de vir a integrar a União Europeia.

No entanto, o acordo ainda não está aprovado pelo Parlamento islandês. “Espero que o acordo seja aprovado. Necessitamos ainda de dar mais alguns passos para voltar a atrair investimento estrangeiro, sobretudo relaxar os controlos de capitais que então decidimos. Manter uma moeda própria, como a Islândia fez, é uma bênção com resultados mistos. Dá competitividade ao país, mas com um custo pesado. Enquanto em Portugal o desafio é aumentar a competitividade da economia real, no nosso caso é reconstruir a economia monetária”, sublinha Zoega.

Perigo de uma economia «zombie»

Contudo, os sucessos recentes não devem ser exagerados, diz-nos o professor da Universidade Islandesa. A ilha acabou por cair numa longa depressão desde o terceiro trimestre de 2008, com o produto interno bruto (PIB) a descer 6,8% no ano passado e continuando em queda este ano, com 6,3% no primeiro trimestre e 8,2% no segundo trimestre. Teve crescimento positivo no terceiro trimestre. Mas mesmo esta retoma há que ser vista com cautela, diz: “Foi motivada pelo consumo, que não é sustentável no contexto de uma crise de dívida. O investimento ainda não descolou e a exportação é muito ténue, apesar da baixa taxa de câmbio. Além do mais a re-estruturação das contas dos bancos ainda vai no adro”.

Por isso Zoega, avisa: “Há um perigo real de emergência de uma economia zombie, onde há muito tecido empresarial falido que continua a operar”. A viragem de uma economia artificial de bolha (financeira e imobiliária) para uma economia produtiva está ainda a dar os primeiros passos, apesar de se registarem já excedentes na balança comercial desde 2009.

ENTREVISTA com Arni Pall Arnason, ministro dos Assuntos Económicos

«Os detentores de títulos devem sentir a dor do risco»

P: A Islândia está finalmente no caminho certo, como concluiu o Fundo Monetário Internacional (FMI), na sua mais recente análise ao andamento do ajustamento?
R: O programa do FMI funcionou bem. Focalizou-se nos quatro principais desafios: sustentabilidade orçamental, estabilidade de câmbios, re-estruturação das dívidas do setor financeiro e do privado. As ferramentas convencionais e não-convencionais funcionaram bem e mantemos a nossa determinação de regressar a um excedente no orçamento público em 2013.

P: O “não” ao pagamento aos credores estrangeiros foi a atitude certa?
R: Foi uma questão existencial mesmo para um país do tamanho do nosso. Os detentores de títulos em 2008 tiveram de partilhar o fardo. Algo menos do que isso seria a nossa destruição. Agora, as regras estão a ser revistas em toda a Europa e muito mais gente concorda que estávamos certos na altura – os detentores de títulos devem sentir a dor do risco que assumiram.

P: A Islândia conseguiu sair do radar do risco de default e deixar o palco livre para o Dubai, depois para a Grécia, Irlanda, Portugal e agora Espanha. Qual foi o segredo?
R: Temos estado duramente a cortar nas despesas e a re-estruturar os pilares das receitas governamentais. Pretendemos, como já sublinhei, ter excedente orçamental daqui a três anos. Até agora tudo tem corrido bem. O facto de o governo de então ter sido incapaz de resgatar os bancos mostrou ser crucial e a cooperação com o FMI tem sido um sucesso.

P: Que setores são importantes para a Islândia poder sair da depressão?
R: As pescas e o alumínio têm sido os pilares da economia durante a crise e continuarão no futuro. Mas, para a frente, as indústrias com base no conhecimento, como as tecnologias de informação, e o turismo desempenharão um papel crescente. Os bancos absorveram muito do nosso talento jovem durante os anos de boom. Este pool tem, agora, a oportunidade de seguir vocações mais produtivas. Também estamos a assistir a um crescimento das exportações nestes setores e estamos empenhados em que continue essa tendência.

P: Será útil para a Islândia fazer parte do euro ou ter algum relacionamento especial com a moeda única europeia?
R: A Islândia sofreu não só uma crise bancária como uma severa crise de divisas com consequências bem sérias para a economia. Isto torna a adesão ao euro fundamentalmente importante e estamos a acompanhar com imensa atenção os acontecimentos presentes na zona euro.

ISLÂNDIA em números
População: 318 mil habitantes
PIB (2009): 12,1 mil milhões de dólares (7,4% do PIB português)
PIB per capita (ppc=paridade de poder de compra): 37.589 dólares (13º mais alto do mundo; Portugal está em 40º)
Inflação (2010): 2,6%
Desemprego (2010): 6,4%
Dívida Pública Bruta em % do PIB (2009): 84,5% (Portugal: 76,1%)
Défice público em % do PIB (2ºtrimestre 2010): -7,9%
Défice externo em % do PIB (2º trimestre 2010): -2,4%
Yields de obrigações de longo prazo (2010): 6%
Credit default swaps da dívida soberana (Dez 2010): 280 pontos base (Portugal está acima de 450 pontos base)
Balança comercial (2009): excedente
Destino de Exportações (2009): 59% para zona euro
Câmbio da coroa (2010): €1 equivale a 152,05 coroas islandesas
Pico da crise financeira: Défice público em 55,8% do PIB no 4º trimestre de 2008; défice externo em 38,1% do PIB no 2º trimestre de 2008; quebra do PIB mais elevada no 4º trimestre de 2009 com 8,5%; desemprego nos 9% em 2009; inflação nos 18,6% em 2009; yields de dívida de longo prazo nos 18% em 2008; dívida externa galopante em % do PIB: 428,3% em 2006, 522,8% e, 2007, 870,1% em 2008; mais de 900% em 2009.

One Response to “Países do Default I: Islândia saiu do radar da bancarrota”

  1. […] Série Países do default (Artigos) I – Islândia (Dez 2010): 1º artigo escrito sobre o tema islandês […]

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