Regra nº3 em tempo de crise: apoie-se nas ilhas de Darwin

Não, não são as Galápagos do Pacífico. As ‘ilhas de Darwin’ são as aglomerações geográficas de empresas relacionadas num dado sector ou fileira que Michael Porter, o professor de Harvard, celebrizou com o nome inglês de clusters, que têm servido de âncora a muitas políticas de desenvolvimento urbano e regional competitivo.

O leitor interrogar-se-á, então, porquê alcunhá-las de ilhas e colar-lhes o nome do famoso naturalista inglês criador da teoria da origem das espécies cujo bicentenário do nascimento se comemora este ano.

Kevin Xavier Murphy, presidente do escritório americano J.E. Austin Associates desde há mais de 20 anos, explica-nos: “Os clusters são ambientes que permitem uma melhor adaptação às crises. Ajudam as empresas a enfrentar a incerteza”. Não são paraísos isolados, imunes à crise. Mas a aglomeração virtuosa, a experiência de inter-relacionamento empresarial e público-privada e os “rituais de socialização” dos seus talentos poderão ajudar a gerir mais eficazmente a tormenta.

A mão do Banco Mundial

Este tipo de aglomerações – e em particular os clusters urbanos, tema a que Kevin Murphy se tem dedicado em centenas de projectos por todo o mundo – desenvolve uma dinâmica que vive das características fundamentais das espécies: sensibilidade às mudanças (uma espécie de «radar»), adaptabilidade, transformação, em suma evolução, de que falou em 1859 Charles Darwin depois da sua visita às ilhas do Pacífico onde estudou os tentilhões.

“O ponto mais forte destas aglomerações é um conjunto de coisas – não uma só. A habilidade em cooperar, o acesso a conhecimento, a capacidade de confrontar estratégias, a passagem rápida à acção e a mobilização de investimento. Mas julgo que a cooperação e o pensamento estratégico são a chave”, sublinha Murphy.

O consultor, que tem o ADN latino num dos apelidos (Xavier – a família era admiradora do jesuíta Francisco Xavier) e é um fã do Infante Henrique, ‘o Navegador’, refere que o próprio Banco Mundial está, agora, a promover os clusters. Colocará à disposição do público, em breve, um manual – ‘World Bank Export Competitiveness and Industrial Clusters Handbook’ – com ferramentas para impulsionar este tipo de aglomerações que Kevin desenvolveu.

O especialista refere o Silicon Valley como um caso emblemático de evolução desta espécie. Mas logo adverte: “Os casos são para estudar, não para copiar. E uma das tendências actuais que resulta é apostar na combinação intersectorial, a criação de novos clusters fruto do cruzamento de competências”. Duas ideias simples: clusters de turismo de saúde (Barcelona, Londres, Houston, várias localizações na Índia) ou rotas de gastronomia, cultura e património.

O consultor, que esteve em Portugal aquando da Revolução dos Cravos, deixa, no entanto, um aviso: a força dos clusters não está só na sua aglomeração num dado local propiciando a inovação «aberta» e o afluxo concentrado de capital de risco; com a revolução digital dos últimos vinte anos “o posicionamento deles ganha em serem elos de uma rede global”.

A ilha californiana

O Silicon Valley que abrange um espaço contínuo entre São Francisco e São José, na Califórnia do norte, é, por muitos apontado, como um exemplo de resiliência e adaptação. Tudo começou nos anos 1940 quando dois jovens engenheiros (Hewlett e Packard) fabricaram umas primeiras «gerigonças» numa garagem, com dinheiro emprestado pelo reitor da Universidade de Stanford, e depois conseguiram vendê-las a Walt Disney.

O modelo de ligação universidade-tecido empresarial singrou e várias “camadas” de inovação foram surgindo ao longo dos últimos sessenta anos criando de raiz novas indústrias: os semicondutores (nascidos da demonstração do efeito do transístor em 1947, a primeira empresa foi criada em Palo Alto por um dos inventores, William Shockley) e os chips (a Intel tornar-se-ia célebre), os computadores pessoais (Apple), os aparelhos de comunicações telemáticas (Cisco), o software empresarial (Adobe, Oracle, Sun, McAfee, Symantec), as plataformas na Web (Netscape, Yahoo, eBay, Google, Facebook) e a mais recente Web 2.0.

Duas entidades têm nos últimos quinze anos estudado as mudanças e apontado caminhos – o Silicon Valley Network e a Silicon Valley Community Foundation. Em conjunto têm publicado desde 1995 um anuário – o ‘Silicon Valley Index’ – onde apontam a viragem necessária. O documento mais recente foi, na semana passada, discutido em São José.

A reflexão estratégica face à actual crise – que tem batido forte na Baía de São Francisco – e a procura de uma migração rápida para novos clusters é patente hoje no Vale californiano. “O sector das energias alternativas tem sido muito hábil em usar a crise como uma oportunidade, incluindo o recurso aos incentivos públicos, locais e federais, num momento em que se notou uma retracção do próprio capital de risco”, diz-nos Kevin Murphy. “Tecnologia limpa” (Clean Tech) é hoje o moto do Vale para o desenvolvimento de um forte cluster.

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