Retoma: o fantasma do modelo “japonês” ronda os países “ricos”

O presidente da Reserva Federal decretou recentemente que a recessão técnica terá terminado nos Estados Unidos e a OCDE voltou a divulgar o seu “compósito de indicadores” referindo que a maioria dos países da OCDE e dos BRIC já parou de contrair o produto interno bruto. Apesar dos temores de uma recaída próxima ou mais tardia – como aconteceu em 1932 e depois em 1938 na Grande Depressão anterior -, o debate está a mover-se para o terreno do médio-longo prazo.

Será que as economias desenvolvidas vão ter crescimentos medíocres, ‘à japonesa’, inferiores a 2% e tendencialmente próximo de 1%? Será que, inclusive, esses países estarão a sofrer de estagnação crónica da economia real desde os anos 1970? A única saída possível é gerar nova ‘bolha’ financeira (por exemplo em torno das tecnologias “limpas” e dos negócios “verdes”) e prosseguir com a financeirização da dinâmica económica? Será que há alguma saída por via da inovação tecnológica, ou esta deixou de ter o impacto «schumpeteriano», que se apregoava outrora, no crescimento das economias maduras?

Olhando a história económica no pós queda do Muro de Berlim verificamos que, na actual fase de globalização, as taxas de crescimento entre os dois tipos de países comummente designados de desenvolvidos e em desenvolvimento estão cada vez mais distantes umas das outras. O crescimento nos desenvolvidos manifestou uma dinâmica duas vezes e meia inferior. O caso do Japão foi o mais extremo, entre os “ricos”, com uma média anual do crescimento do PIB em década e meia inferior a 2% (ver tabela 1).

Tabela 1

Padrões de crescimento da actual fase da globalização

(Taxa média anual de crescimento real do PIB, 1991-2007, em %)

Países desenvolvidos: 2,5%; Países em desenvolvimento: 6,4%; Modelo “japonês”: 1,9%

Fonte: UNCTAD, Setembro 2009

Tabela 2

Padrões de crescimento nos Estados Unidos desde a Grande Depressão

(Taxa média anual de crescimento real do PIB, por décadas, em %)

1930/1939: 1,3%; 1940/1949: 5,9%; 1950/1959: 4,1%; 1960/1969: 4,4%; 1970/1979: 3,3%; 1980/1989: 3,1%; 1990/1999: 3,1%; 2000/2009: 1,8%

Fonte: The Great Financial Crisis, 2009 e http://www.bea.gov/national/xls/gdpchg.xls; Obs: estimativa de -3% para 2009, UNCTAD

No caso dos EUA (ver tabela 2, acima), outrora o “motor” da economia mundial, o tecto da taxa foi baixando desde os anos 1970 e esta última década apresentará um padrão de “tipo japonês” (inferior a 2% de média anual). Em relação à tendência de muito longo prazo da economia americana, que cresceu, em média, quase 4% ao ano nos últimos duzentos anos, as previsões apontam para metade dessa dinâmica histórica no futuro.

Sob o signo da financeirização

Em compensação, a financeirização da economia mundial foi arrasadora: em 2007, o valor total dos activos financeiros globais somava 194 biliões de dólares (trilhões, na designação anglo-saxónica), o que significava uma “profundidade financeira” de 343% do PIB, segundo o mais recente relatório ‘Global Capital Markets‘ da McKinsey.

Há, por isso, um problema sério na economia real nos países capitalistas maduros, dizem John Bellamy Foster e Fred Magdoff, editores da revista americana Monthly Review, no seu mais recente livro The Great Financial Crisis (Monthly Review Press, Janeiro 2009). Atribuem essa maleita crónica ao que designam por capitalismo monopolista e financeiro que amortece o efeito da revolução tecnológica, do empreendedorismo e da “destruição criativa” renovadora. “O que poderá fazer sair desta situação o capitalismo? Não se vislumbra outra saída – dentro do sistema – que não seja outra vaga de financeirização, em última análise tão destrutiva como a última”, diz-nos John Foster, que prevê “explosões históricas pela frente”. Uma expressão dos anos da Grande Depressão regressou aos debates: a “estagnação secular”.

Muitos analistas mostram, por isso, prudência e falam de uma futura retoma “anémica” nos países desenvolvidos, e nomeadamente nos EUA, como o referiu Olivier Blanchard, director de Investigação no Fundo Monetário Internacional, na revista deste organismo, Finance & Development, publicada em Setembro. A OCDE teme que haja mesmo uma queda no produto potencial e que o nível de desemprego se mantenha alto, mesmo com estabilidade de preços. “Outros são mesmo mais pessimistas e alegam que haverá inclusive uma redução da taxa de crescimento, e não só do potencial”, frisa-nos Francesco Giavazzi, da Universidade Bocconi.

Tecnologia ao fundo do túnel?

E as tecnologias de informação e comunicação (TIC) parecem não estar a resolver o problema. John Bellamy Foster disse-nos: “A revolução digital foi importante mas não conseguiu, nem de perto, ter o impacto que teve a máquina a vapor, o caminho-de-ferro e o automóvel”. Ou seja, o que Toffler chamou entusiasticamente de “terceira vaga” teve, até hoje, um impacto coxo, com uma intensidade inferior às revoluções industriais.

Mas Carlota Perez, da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, não se deixa abater: “Todos estes anos de investimento nas TIC criaram as condições para uma idade de ouro sustentável. É neste sentido que a finança tem de ser ‘seduzida’, através da regulação, do tratamento fiscal e da pressão da opinião pública”. Ela fala de luz ao fundo do túnel desta crise: virá um grande impulso de desenvolvimento que precisou de mais de meio século para gerar os seus efeitos. Depois das crises de 2000 (rebentar da ‘bolha’ tecnológica) e da crise actual (financeira) abre-se um período final de posicionamento da sociedade baseada no conhecimento, mostrou, recentemente, num estudo publicado no Cambridge Journal of Economics (nº33, 2009). O ponto de vista da professora é que a dinâmica de financeirização será revertida e que a hegemonia da economia real regressará, tal como aconteceu após a Grande Depressão dos anos 1930 até 1970.

Mudar o eixo da política

O economista italiano Giavazzi é ainda, politicamente, mais claro: “A forma de retornar ao crescimento implica uma mudança na carga fiscal, dos rendimentos do trabalho para os activos financeiros. Os governos podem ajudar, mudando a carga fiscal das actividades produtivas para as rendas financeiras”.

E sugere em termos de estratégia empresarial nos países desenvolvidos: “Enquanto o consumo interno nos grandes países emergentes não se tornar a motor da economia mundial, o que ainda vai demorar tempo, pode e deve explorar-se uma ponte no investimento, com taxas de juro baixas, no sentido de uma reestruturação das estruturas de produção nos países desenvolvidos de modo a se prepararem para a tal mudança de alocação geográfica e de alteração da composição do consumo mundial”.

As firmas no mundo ocidental têm de se adaptar para a oportunidade da massificação do consumo nos grandes países emergentes. “Vai haver mais consumo na China e menos nos EUA. Mais procura de electrodomésticos básicos, por exemplo, e menos relativamente de automóveis topo de gama. O que tem um corolário: os países que investirem, agora, na reestruturação, sairão mais ricos da crise”, conclui o professor italiano.

O regresso do pequeno é belo

Também o small is beautiful regressa ao sistema financeiro pelo grupo dos Economistas para a Paz e Segurança e pela Iniciativa para Repensar a Economia que reuniu em Agosto em Paris e que teve como relator o economista James K. Galbraith (ver curta entrevista abaixo). A tese central do grupo é que a situação anterior à crise não pode ser restaurada no que toca ao sistema financeiro. Por isso, Galbraith sublinha, no Manifesto da reunião, que o papel das agências de regulação transnacionais e nacionais tem de ser reforçado e que as estruturas do sistema financeiro devem ser emagrecidas para acabar com o “demasiado grande para falir” e lhes quebrar o poder de influência política. Uma medida radical num ambiente em que o que se tem assistido é a uma concentração financeira ainda maior em menos actores na Wall Street, movimento que alguns analistas consideram inclusive que foi fomentado explicitamente pela acção da Reserva Federal e do Tesouro americanos durante o Grande Pânico de 2008.

A força deste ecossistema é conhecida. Galbraith fala-nos de uma dinâmica sociológica por baixo desta realidade numa curta entrevista: foi “criada uma classe profissional treinada de gente que pratica a retenção”. Não admira que John M. Keynes, no seu tempo, já falasse da necessidade de fazer “a eutanásia do rentista”, recuperando o radicalismo do economista americano Thorstein Veblen com a sua teoria sobre a classe ociosa, publicada há cento e dez anos.

ENTREVISTA RÁPIDA

Responde: James K. Galbraith (Universidade do Texas, Austin, EUA)

Regressar ao small is beautiful para o sistema financeiro

P: Na presente fase da gestão da crise, precisaríamos de mais políticas schumpeterianas em vez de keynesianas?

R: Não vejo a relevância da inovação para o momento actual. Mas admito que o investimento dirigido a problemas como a energia e o ambiente tenham relevância.

P: A financeirização da economia dos últimos trinta anos consolidou um ecossistema poderoso que alguns afirmam que ‘capturou’ o Estado. Acha realista que se consiga mexer em profundidade neste sistema como propõe o relatório do grupo de Paris? O próprio presidente Obama acabou, recentemente, por não discursar no New York Stock Exchange.

R: Durante toda a minha carreira propus coisas que não eram consideradas ‘realistas’, mas não descarto as dificuldades.

P: É realista, também, propor o emagrecimento dos grupos bancários transnacionais ocidentais, para mais sabendo que os bancos estatais chineses dominam hoje as classificações mundiais em capitalização?

R: Não estou preocupado com essas classificações. O meu objectivo é um sistema financeiro estável e não predatório. Instituições mais pequenas é melhor, como se refere no relatório. Demasiado grande para falir é um risco que não se deveria repetir. Os próprios chineses entendem isso.

P: Com todas essas medidas em relação ao chamado sistema sombra financeiro não há o risco de ele migrar para outras geografias?

R: Insisto que o princípio de emagrecimento deve ser injectado no sistema. O sistema financeiro não deve retornar à situação em que estava antes da crise.

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