Reviravolta na Globalização – I: As Vítimas do Crude

OBRA EM DESTAQUE

(língua francesa) 

MICHEL WAUTELET – Vivement 2050

As principais vítimas do petróleo a mais de 100 dólares por barril vão ser muitas e diversificadas. O maior impacto será no comércio através de rodovia (TIR) ou avião. Os fornecimentos «just-in-time» e todo o tipo de exportações (bens perecíveis, produtos físicos em «outsourcing» de longa distância) que vivam da rapidez aérea ou do camião na estrada vão ser profundamente afectados.

Os profissionais e métodos de gestão ligados a estes sectores vão ser dizimados, segundo um estudo de Michel Wautelet, um físico belga de 60 anos, professor na Universidade de Mons-Hainaut, na Valónia. «Como viveremos em 2050», foi a razão da investigação que fez, movido pelo que diz ser um “pragmatismo sensato”, recusando os dois extremos: “Na minha idade já me deixei do optimismo beato ou do pessimismo profissional”, confessa-nos.

Choque brutal

Também vai haver um choque nos hábitos desenvolvidos ao longo do século XX ligados ao veículo privado movido a gasolina ou gasóleo – coisas tão comezinhas como ir para o trabalho ou para casa fora da cidade, ir às compras nos subúrbios ou passear ao domingo mesmo «cá dentro» – e ao turismo de massas com pacotes aéreos ou companhias de aviação comercial de baixo custo (conhecidas por «low cost»).

Só no caso dos europeus, até 2050, vão ter de reduzir para ¼ o seu consumo «per capita» de petróleo e gás natural. «É um corte brutal. E vai certamente ocorrer antes dessa data, pois o principal parâmetro para o cidadão vai ser o preço», exclama.

Com o atraso tecnológico de décadas na substituição de frotas de viaturas e aviões comerciais – muito longe da evolução que tem havido nos transportes públicos e nalguns nichos de viaturas particulares -, Wautelet não acredita que se dê a volta, até 2020, ao problema das actividades económicas diárias dependentes do crude, bem como aos conceitos de planeamento regional que levaram à fuga das cidades de actividades e habitações.

O físico belga teme pelas grandes infra-estruturas turísticas e imobiliárias, dependentes do turismo de massa à distância, interroga-se sobre as «ilhas» criadas em regiões não urbanas para parques de escritório e tecnológicos ou para espaços comerciais sem ligações multimodais apoiadas no transporte público, e particularmente no comboio.

Vaticina novos desequilíbrios no mundo derivados do recuo no «outsourcing» de produtos físicos a longa distância (que hoje nos inundam a partir das «fábricas do mundo») ou da ameaça à sobrevivência dos exportadores de bens perecíveis (que hoje enchem as superfícies comerciais com produtos agrícolas vindos das «quintas do mundo»). Muitas das dinâmicas da globalização das últimas décadas vão ser viradas do avesso.

As centralidades urbanas e o espaço regional vão, de novo, girar em torno dos eixos ferroviários e fluviais ou marítimos – não mais das auto-estradas.

Reverso da medalha

Mas há o reverso (simpático) da medalha, diz Wautelet, que encontra um futuro risonho em profissões como ferroviários, marinheiros, estivadores, agricultores e «pessoal das obras».

Decididamente, os sectores que vão estar em «boom», para além das mais mediáticas telecomunicações e energias renováveis, vão estar ligados ao comboio, à actividade oceânica, fluvial e portuária, ao renascimento da agricultura e comércio de proximidade e à necessidade de investimento massivo em novo tipo de infra-estruturas preparadas para a era do pós-petróleo. «Tudo o que cheire a empreendedorismo e emprego local vai renascer. Inclusive vão crescer – ironia da história – os empregos não qualificados de novo, apesar de vivermos numa sociedade do conhecimento», sublinha o físico belga.

Pode parecer paradoxal, mas muitos dos profissionais e sectores que hoje são dados como extintos, vão renascer como a Fénix, ainda que enquadrados num ambiente de novas tecnologias e exigindo um conhecimento formal mais elevado.

Tempo político

Wautelet afirma que o problema não é primordialmente técnico, mas político. “Tem de se ter consciência que esta mudança exige tempo – várias décadas – e muito investimento. Vai ser necessário arbitrar opções. Por isso, a primeira medida de todas – num horizonte máximo de cinco anos – é um guião para o futuro que abranja todos os sectores afectados positiva e negativamente”, aconselha.

AS PRINCIPAIS VÍTIMAS

– companhias aéreas de baixo custo (desde o início do ano de 2008 já faliram 25) e pacotes de turismo de massas para lugares exóticos

– o transporte rodoviário de média e longa distância (que vai ser o sector mais afectado)

– grandes superfícies comerciais, condomínios, parques de escritórios e empresas em locais onde o acesso essencial é o veículo privado

– exportações de produtos perecíveis transportados a longa distância

– fornecimentos «just-in-time» a unidades fabris ou de montagem

– «outsourcing» de produtos físicos que utilizem intensivamente aviões ou TIR

– subúrbios sem acesso adequado de transportes públicos

OS SECTORES PREMIADOS

– ferrovia

– portos e ligações marítimas para comércio de longa distância

– centros urbanos e vida comercial de proximidade

– agricultura local

– construção civil e obras públicas ligadas a novas infra-estruturas para a Era pós-petróleo

– energias não fósseis

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