Roberto Perotti: As eurobonds são uma ideia ridícula

Mensagem do prof. Perotti: Não há política monetária na zona euro contra a Alemanha

Roberto Perotti foi na década de 1990 co-autor com Alberto Alesina, outro economista italiano radicado na Universidade de Harvard, de estudos que apontavam para a possibilidade de ajustamentos orçamentais de envergadura não terem consequências recessivas.

Declarações recolhidas por Jorge Nascimento Rodrigues, (c) JNR 2013

DESTAQUES

roberto perotti

“Os ajustamentos na periferia dependem do que vai acontecer na China e nos EUA. Se estas duas economias recuperarem solidamente, com a Alemanha a comportar-se bem até agora, os outros países europeus terão uma oportunidade”

“Há alguma investigação que argumenta que os multiplicadores orçamentais são mais elevados em período de recessão. É uma velha ideia e razoável. Mas a evidência até agora é escassa”

“As consolidações são provavelmente necessárias no curto prazo por três razões: são instrumentais para reduzir a taxa nominal de juro; tornam possível a moderação salarial e a queda dos custos unitários do trabalho; e podem favorecer um disparo da exportação”

“Os casos de ajustamentos na Europa dos anos 1980 e 1990 analisados habitualmente revelam que as consolidações foram mais pequenas do que previamente se pensou e não se basearam em cortes da despesa. Só na Irlanda entre 1987 e 1989, os cortes na despesa foram superiores ao aumento das receitas”

Artigo

“As eurobonds (euro-obrigações) são uma ideia ridícula que, felizmente, nunca será implementada”, diz-nos cruamente o italiano Roberto Perotti, doutorado pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT) e professor de Economia na Universidade Bocconi, em Milão.

“Acho incrível que muita gente no Sul da Europa continue a propor versões desta ideia. A Alemanha não pode assumir os riscos de todos os países da periferia (da zona euro) e se, por acaso, as euro-obrigações fossem concretizadas gerariam um tal ressentimento na opinião pública alemã que isso selaria a morte da zona euro”, explica Perotti que considera um aventureirismo político essa proposta que tem corrido entre políticos europeus e economistas ocidentais de renome.

Perotti, de 51 anos, insiste na questão alemã, um aspeto geopolítico que ainda em maio desenvolveu em Washington DC perante a Reserva Federal norte-americana, no âmbito da audição dos consultores académicos. “Qualquer política que implique um enorme passivo contingente para a Alemanha é politicamente arriscada, pois corre o risco de gerar uma reação violenta contra o euro naquele país. No final, até os países da periferia se arrependeriam amargamente dessa opção”, insiste o académico italiano. Para Perotti, “muitas das preocupações dos alemães não são totalmente infundadas, ainda que sejam pouco discutidas nos círculos académicos”, e conclui este tema perentoriamente: “não há política monetária de longo prazo contra a Alemanha”. O problema das transferências permanentes da Alemanha para os periféricos “não é politicamente sustentável”.

Em Washington, na conferência que proferiu sobre “A crise da dívida soberana na Europa – Lições do passado, questões para o futuro”, o académico italiano referiu que há uma variante de euro-obrigações que são admissíveis de discussão – a proposta apresentada em 2011 pelo grupo Euro-nomics (http://euro-nomics.com/ ) em que participam 9 académicos, incluindo o português Ricardo Reis, professor de Economia na Universidade de Columbia. Designadas pela sigla ESBies – European Safe Bonds, obrigações europeias seguras, não envolveriam nenhuma transferência entre países da zona euro, o que seria mais fácil de aceitar pelos países com orçamentos mais equilibrados. O problema da proposta é que envolve mecanismos de finança estruturada e isso “deixou de ser popular nos círculos políticos e nos meios de comunicação europeus” depois da crise.

O BCE não é a Reserva Federal

Sobre os apelos de governos da periferia e economistas de nomeada para que o Banco Central Europeu (BCE) seja mais aberto a políticas monetárias expansionistas, à semelhança do que a Reserva Federal norte-americana (Fed) tem feito na gestão da crise estes últimos anos, Perotti responde que, primeiro, “é preciso que os proponentes desse expansionismo sejam mais concretos”. Depois, recorda que o BCE não é idêntico à Fed, não só em termos de mandato – a Fed tem um duplo mandato, face à inflação e ao emprego -, mas sobretudo em termos de estrutura: “O BCE é um agregado de muitos países, e terá dificuldade de replicar algumas das políticas da Fed e teria ainda maiores problemas (do que a Fed) se tivesse depois de desfazer essas políticas”. Apesar da “mente aberta” de Mário Draghi, presidente do BCE, para “fazer tudo o que for necessário” para segurar a zona euro, Perotti antevê limitações à margem de manobra do banco central de uma zona monetária que é assimétrica e que está condicionada pelo que é “politicamente sustentável face à Alemanha”. Por isso, até uma intervenção massiva do programa OMT (alegadamente de compra ilimitada no mercado secundário da dívida em prazos mais baixos) será “arriscada do ponto de vista da Alemanha”. Não terá sido, por acaso, que o alemão Jorg Asmussen, membro da direção executiva do BCE, numa audiência recente no Tribunal Constitucional alemão, afirmou ambiguamente que o OMT é efetivamente limitado (aspeto que conta para efeitos práticos, caso se concretize, e não seja penas estratégia de “comunicação”) mas não oficialmente.

Um tema mais polémico é o da austeridade na zona euro. Roberto Perotti foi na década de 1990 co-autor com Alberto Alesina, outro economista italiano, radicado na Universidade de Harvard, de estudos que apontavam para a possibilidade de ajustamentos orçamentais de envergadura não terem consequências recessivas. Alesina é considerado o “pai” da doutrina da austeridade e em 1998 e 2010 com Silvia Ardagna promoveu a ideia de que a história de ajustamentos anteriores apontava para uma austeridade expansionista. Os líderes europeus em 2010 convenceram-se disso. Mais recentemente, Alesina com Carlo Favero e Francesco Giavazzi argumentaram que os ajustamentos orçamentais baseados no corte da despesa pública (e não no aumento de impostos) têm sido associados, em “média”, com recessões muito curtas ou suaves, e mesmo, em muitos casos, sem recessão.

Austeridade incontornável ou ilusão?

Perotti admite que a “metodologia estatística usada então não foi a mais apropriada para investigar o fenómeno”, mas “não consideraria os trabalhos (de então) errados”. “Em economia nunca há uma prova de uma relação causal, ao contrário do que se pode esperar em experiências controladas na física ou em outras ciências. E para mais quando os casos estudados são poucos. Mas isso não significa que a posição de Alesina seja uma ilusão”, defende. “Acho que pessoas igualmente competentes e sensatas podem argumentar a favor ou contra os efeitos positivos da austeridade. Diferenças de opinião não significam necessariamente má fé ou incompetência”, conclui.

Por isso, Perotti conclui que “mesmo no curto prazo, as consolidações orçamentais são provavelmente uma condição necessária para a expansão da economia – o facto de algo ser prejudicial não quer dizer que possa ser evitado”. “Talvez a austeridade seja prejudicial, e mesmo mais do que pensávamos. Mas, provavelmente, não haveria outra alternativa disponível na altura. O que teria acontecido à Grécia e à Itália se tivesse anunciado que iriam aumentar temporariamente o défice ainda mais para fomentar a retoma da economia? O inferno teria tomado os mercados financeiros”, argumenta o académico italiano, que ironiza rematando que “nunca viu nenhuma austeridade orçamental em Itália”.

No entanto, na intervenção em maio perante a Reserva Federal, concluiu que “a noção de austeridade orçamental expansionista no curto prazo é provavelmente uma ilusão “ e que “as consolidações orçamentais implementadas em vários países europeus podem muito bem agravar a recessão”.

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