The Day After em Espanha: Rajoy não teve sequer meia-hora de folga

A primeira reação dos mercados da dívida à vitória por maioria absoluta muito ampla do Partido Popular de Mariano Rajoy nas eleições legislativas de domingo 20 de novembro não foi de inversão da crise da dívida espanhola.

Segundo dados da Bloomberg, o spread (diferença) entre as yields (juros) das obrigações espanholas (OE) e os títulos alemães (Bunds) a 10 anos abriu a subir 5,8% em relação ao fecho de sexta-feira, situando-se, no início da manhã, em 467 pontos base, acima da linha de alerta laranja de 450 pontos base. As yields (juros) das OE a 10 anos abriram em 6,56%, uma variação em alta de quase 3% em relação a sexta-feira. A probabilidade de incumprimento da dívida (risco de default) subiu logo pela manhã com o custo dos credit default swaps (seguros contra o risco de incumprimento) a situar-se em 469 pontos base, 12 pontos acima do fecho de sexta-feira, segundo a agência de informação financeira Markit.

O novo governo só tomará posse a 20 de dezembro e grande parte do pacote que irá lançar é desconhecido, por ora. A esperança dos analistas é que o Banco Central Europeu intervenha no mercado secundário, como o tem feito em relação a Itália, para segurar o nervosismo dos spreads e das yields, até que alguma solução europeia acalme os investidores internacionais e Rajoy possa avançar com o seu pacote. A envolvente europeia também não ajuda – o já famoso “fator exógeno” continua a estragar eleições. A Moody’s voltou hoje à carga sobre a instabilidade da notação de França, o que desencadeia ondas de choque por toda a zona euro.

Equívoco habitual

“É um grave equívoco julgar que simplesmente com mudança de governo se resolvem os problemas da dívida espanhola. Uma indicação clara é que, apesar das sondagens já assinalarem com clareza uma mudança, o prémio de risco subiu significativamente durante a última semana”, refere José García-Montalvo, professor na Universidade Pompeu Fabra, em Barcelona, um dos três economistas que o Expresso ouviu. O catedrático Santiago Niño Becerra, também professor em Barcelona na Universidade Ramón Llull, vai ainda mais longe: ” O grau de autonomia [do novo governo] será menos do que nulo. Terá de fazer o que lhe digam para fazer”. Essa é uma ideia forte que muitos analistas em Espanha referem hoje de manhã na imprensa económica.

O desejo popular de que uma maioria absoluta parlamentar é suficiente não passa o crivo da realidade. “Já vimos em semanas anteriores e em momentos anteriores que as mudanças de governo, por si sós, não conseguem acalmar os mercados. O facto do novo governo [de Rajoy] contar com o apoio maioritário do eleitorado pode contribuir para a sua estabilidade e pode facilitar a adoção de medidas, o que poderá ser acolhido favoravelmente pelos mercados. Mas os problemas são muito profundos”, refere, por seu lado, Santiago Carbó Valverde, professor de Teoria e História Económica na Universidade de Granada.

O modelo económico

A gravidade da situação é, assim, colocada por Santiago Niño, sem papas na língua: “Uma mera mudança de governo não faz cair o preço que um país tem de pagar pela sua dívida. Os investidores internacionais estão conscientes de que a Espanha não cresce, nem pode crescer, devido ao seu modelo económico, e, por isso, arrasta uma dívida total que não consegue pagar”. Para o professor de Barcelona, tem de haver “uma perspetiva conjunta [europeia]. Ninguém pode pagar tudo o que deve”.

O problema imediato é financeiro. “A curto prazo, o desafio mais importante é desenhar e aplicar uma solução para o problema da necessidade de financiamento dos setores público e privado. Para começar há que saber como se vai fazer o saneamento dos ativos bancários deteriorados”, diz Santiago Carbó. Para García-Montalvo, “o novo governo terá três missões – finalizar a reorganização do sistema financeiro, fazer face às consequências de não ser cumprido o objetivo do défice em 2011, e convencer os mercados que cumprirá os objetivos de 2012 e 2013″.

No entanto, do ponto de vista estrutural, todos concordam que o desemprego é o calcanhar de Aquiles de Espanha. É um problema crónico, diz-nos García-Montalvo: “Mesmo qualquer pequena recessão faz logo saltar o desemprego acima de 20%, o que gera logo uma situação muito grave”.

“Não é uma tarefa fácil, com o desemprego em 21%, que deriva de um mercado laboral deficiente e ineficiente, em cima de uma estrutura produtiva que precisa de mais competitividade e de maior produtividade”, refere, por seu lado, Santiago Carbó. Este professor de Granada adianta que “há que liberalizar os serviços ainda mais do que tem sido feito nos últimos anos e estabelecer uma política de incentivos e salários baseada na produtividade e não na inflação”.

Mas é preciso tocar na ferida: “o problema é o modelo económico”, sublinha Santiago Niño, que explica: “Espanha fabrica produtos e serviços de baixo valor acrescentado, com uma produtividade baixa e com uma capitalização média da empresa espanhola baixíssima. Como o valor acrescentado é reduzido, não é rentável investir. Trata-se de um cocktail terrível para sair de uma situação como a atual”.

A mesma sorte de Itália?

A interrogação final que se coloca é se Espanha vai conseguir escapar à sina de Itália. Pode não ter de ser resgatada, como a Grécia, Irlanda e Portugal, mas a troika pode entrar por outra porta e de outra forma, como em Itália, com a monitorização trimestral do Fundo Monetário Internacional (FMI) e da União Europeia, e o papel de muleta de liquidez e de bombeiro no mercado secundário do Banco Central Europeu.

“Eu penso inclusive que a economia espanhola já está sob monitorização, e isso ficará ainda mais claro depois destas eleições”, afirma Santiago Niño Becerra, de um modo mais radical. “Se o novo governo não conseguir convencer os mercados e o prémio de risco não relaxar, então Espanha acabará monitorizada pelo FMI. A dívida espanhola é sustentável com juros nos 4% mas não nos 7%”, afirma, por seu lado, José García-Montalvo.

A concluir, Santiago Carbó Valverde, no entanto, distingue Espanha de Itália: “Nada é descartável, mas há que ter em conta que a Espanha já avançou muito mais no campo das reformas do que a Itália e poderá contar com maior estabilidade política”. Mas há um senão: “A incerteza sobre o horizonte financeiro em Espanha, de uma forma ou de outra, poderá dar lugar à necessidade de contar com um apoio institucional europeu e ou internacional”.

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