Volatilidade é maior hoje do que no «crash» de 1929/32

Estamos a viver um período único – “a volatilidade está a atingir uma frequência espantosa”, diz o analista Mark J. Lundeen que criou um modelo de acompanhamento da actual crise na Wall Street nova-iorquina, comparando-a a par e passo com a derrocada bolsista que ocorreu entre 3 de Setembro de 1929 e 8 de Julho de 1932, a pior de sempre na história daquela praça financeira.

O conceito de volatilidade usado pelos especialistas financeiros permite “medir” as variações extremas diárias no índice bolsista, sejam no sentido da descida ou da subida, ou seja toma em conta quer as positivas (motivadas por euforias repentinas) ou as negativas (derivadas de pânico súbito). Avalia o grau de ‘nervosismo’ dos investidores bolsistas, independentemente da cor do movimento de preços das acções – ‘verde’ ou ‘vermelha’.

Lundeen verificou que nos 290 dias de negociação no New York Stock Exchange que a actual derrocada bolsista já leva, até 21 de Novembro passado, desde o pico do Dow Jones Industrial Average (DJIA) em 9 de Outubro de 2007, a frequência de variações de preços acima de 1% – sejam positivas ou negativas – é superior àquela que se verificou nos 845 dias da derrocada financeira do tempo da Grande Depressão.

Esta penúltima semana de Novembro foi, aliás, uma vez mais exemplar da volatilidade intra-diária e de um dia para outro. A euforia e o pânico – por vezes com a diferença de umas horas – revezaram-se à medida que noticias potencialmente «positivas» (eventualmente a confirmação de um membro da rede das Reservas Federais como futuro secretário de Tesouro da Administração Obama) ou realisticamente «negativas» (como os números do desemprego ou a entrada do Japão em recessão) iam surgindo nos «media».

O paradoxo da falta de suicídios

Em certos patamares de volatilidade média-alta e alta – casos dos intervalos de variação entre 2-3%, 4-5%, 6-7%, 7-8% e 10-11% – a frequência de ocorrências é, no actual, «crash», muito superior à que se verificou entre 1929-1932. Lundeen avalia estes movimentos em grupos de 40 dias de negociação na bolsa anteriores a um pico de volatilidade e o seu modelo corre dados desde 1900 até à data.

Sublinhe-se que a volatilidade média anual “normal” desde 1900 no DJIA, calculada por este analista, é de 0,79%, o que significa que tudo o que se move acima deste patamar deve tocar as campainhas de alarme.

O que é paradoxal, espanta-se Lundeen, é que “enquanto na crise de 1929-1932 os afectados saltavam das janelas da Wall Street para se suicidar, hoje compram bilhetes de avião e vão de férias, porque sentem que têm a longa mão da Reserva Federal e do Tesouro americanos por detrás”.

Como falta (felizmente) aquela tonalidade de sangue, a agonia bolsista actual quase que se transformou em “normalidade”. As injecções de liquidez, as notícias de planos «keynesianos» (como o grande plano de Obama até 2011) e a tentativa de desdramatização política (com discursos e cimeiras sucessivas) estão a funcionar como morfina num doente terminal, provocando-lhe rompantes de euforia, a que se seguem, depois, quedas mais dramáticas e dolorosas, aproximando a actual derrocada de níveis já alarmantes superiores a 1974 e 1921.

Quadro de referência comparativo 1929/32-2007/08 (c) Mark J. Lundeen aqui.

Quando o Barron’s nos deixa preocupados

Ainda segundo Lundeen, o prognóstico de continuação de más notícias na Wall Street pode ser «lido» no comportamento do Índice de Confiança da Barron’s (ICB), uma publicação financeira de referência do The Wall Street Journal. Esse índice avalia a relação entre as taxas de rentabilidade de obrigações com potencial mais elevado ou intermédio. O ICB está, actualmente, abaixo dos 50, o que não ocorria desde o «crash» de 1937/1942.

Como sublinha Lundeen, “quando o índice da Barron’s desce a tal ponto é um sinal dado pelo mercado de que os seus agentes estão muito preocupados com as perspectivas de ganhos”.

3 Responses to “Volatilidade é maior hoje do que no «crash» de 1929/32”

  1. […] Sexta feira (dia 21 de Novembro), depois de uma abertura no vermelho, o DJIA subiu repentinamente, à ultima hora, fechando positivo com um aumento superior a 6,5%, manifestando, uma vez mais, a alta volatilidade a que a Wall Street está a ser sujeita – muito mais intensa do que em 1929, como referiremos noutro artigo. […]

  2. A questão que coloco então é a seguinte: se a doença é terminal não será a “morfina” um desperdiçar de recursos, afinal de contas a deontologia médica não se aplica necessáriamente neste caso.

  3. O problema é que os médicos em questão que andam de volta do dito doente não estão convencidos que seja terminal, não será?

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