Wall Street à procura de nova ‘bolha’

O ‘verde’ está em alta politicamente. As tecnologias limpas (conhecidas nos meios americanos pela designação de clean tech) fazem furor. Os pacotes anticrise keynesianos – sobretudo o de Obama e o da China – associaram o ‘verde’ à saída da crise. No caso da China já lhe chamam mesmo ‘O segundo Grande Salto em Frente «verde»’ (esperemos é que não tenha o mesmo resultado, economicamente desastroso, do de 1958-1960, fruto do voluntarismo de Mao Zedong). O receio de um oil crunch (de uma contracção global na oferta do petróleo, tal como se falou de um credit crunch nesta crise) em 2015 espalhou-se.

Por isso, o sector das energias alternativas (incluindo o nuclear) e das infra-estruturas a ele associadas chegou a ser encarado como a alavanca da próxima ‘bolha’ financeira.

Entre 2005 e Outubro 2007 (quando ocorreu a derrocada bolsista), o índice da área de energia (mais vasto do que as energias alternativas) do New York Stock Exchange (NYSE) disparou 119%, quatro vezes mais do que o Dow Jones Industrial Average (DJIA) e cinco vezes mais do que o Nasdaq (a bolsa das tecnológicas numa das esquinas de Times Square, Manhattan, Nova Iorque). Eric Janszen, um analista financeiro, fundador da iTulip (em honra da ‘bolha’ de especulação em torno das túlipas nas tabernas e casas de prostituição da Holanda no século XVII) alvitrou a hipótese, na revista Harper’s, das energias alternativas puderem ser o combustível da próxima ‘bolha’ no próximo quinquénio.

“Eu escrevi que o sector financeiro – o que apelido de FIRE, finança, seguros e imobiliário (no acrónimo em inglês) – precisava de uma boa ‘bolha’ para evitar uma depressão e esse sector surgia com um bom candidato. Sem ‘bolha’, teríamos de nos preparar para uma depressão dura, era essa, então, a minha mensagem”, recorda Eric.

O melhor candidato

O sector das ‘alternativas’ atraía o capital de risco (O Nobel e ex-vice-presidente Al Gore entrou na famosa Kleiner Perkins Caufield & Byers, a firma de venture capital californiana que deu vida à Amazon e à Google), os governos, poderosos lóbis e os media e tinha um perfil favorável “a encantar a exuberância financeira”, diz ele. Uma terceira ‘bolha’ poderia estar no horizonte e “teria de ser bem maior do que as anteriores em conjunto para aguentar uma retoma”. Eric estimou, então, uma dimensão em “valor fictício” (estas bolhas do capital financeiro são, sempre, avaliadas em “capital fictício” para distinguir do capital investido na economia real) quase duas vezes superior à bolha do imobiliário e quase três vezes superior à das dot-com (ver gráfico neste artigo publicado na Harper’s).

Os outros candidatos para uma nova ‘bolha’ não o convenciam, a começar pela área da Internet, apesar do alarido em torno da web 2.0 ou da computação em nuvem (cloud computing). “Depois da derrocada do Nasdaq em 2000, o mercado de entradas em bolsa de start ups tecnológicas nunca mais convenceu. A qualidade das tecnológicas subiu muito, sem dúvida, mas são muito poucas para dar uma perspectiva de escala”, refere. Entre 2005 e Outubro de 2007, esta bolsa tecnológica subiu apenas 27%, menos que o próprio DJIA. Agora, na verdade, reanimou mais do que os outros índices, tendo recuperado 54%, mas continua a não convencer os capitalistas de risco.

A área das ciências da saúde é outro chamariz – biotecnologia, genómica, clonagem, vida artificial, farmacêutica (para mais induzida pelas pandemias) continuam a estar no pico dos media. “Mas não são suficientemente escaláveis. São necessários muitos milhares de cientistas empreendedores para gerar uma bolha nas ciências da vida. E não há que chegue”, ironiza.

Adeus bolha

Mas o andamento da crise não o convenceu da hipótese, diz-nos agora. O índice do NYSE ligado ao sector das energias subiu, apenas, 36% desde o ponto mais baixo em Março, menos do que o DJIA ou o Nasdaq. “Não se vislumbram fontes de crédito privado de grande dimensão para a área e o ambiente inflacionista nas commodities, em particular nas energéticas, prejudica a perspectiva de ‘bolha’ para as bolsas”.

A procura da próxima ‘bolha’ continua por isso em curso. E sabe-se como a Wall Street é viciada nas ‘bolhas’. Um investidor disse, com toda a candura, ao The Onion no ano passado (2008), antes do Grande Pânico de Setembro: “A América precisa de outra ‘bolha’. Na situação actual, as ‘bolhas’ são a única coisa que nos mantém à superfície”. E outro disse esta pérola: “O que a América, agora, precisa, não é mais conversa fiada e estratégia de longo prazo, mas uma saída concreta para criar mais riqueza imaginária no futuro imediato”.

Mas não está fácil. Segundo um estudo da consultora inglesa New Energy Finance, a crise financeira internacional afectou os investimentos mundiais em energias alternativas, que deverão fechar 2009 entre US$ 95 mil milhões e US$ 115 mil milhões, contra US$ 155 mil milhões no ano anterior (2008).

Eric vislumbra uma situação macroeconómica “pouco robusta para uma nova ‘bolha’”. Ele está pessimista. O seu prognóstico é que os americanos enfrentam um dilema: “Ou a Reserva Federal provoca novo crash por ser obrigada a aumentar de novo os juros mais cedo do que deveria [e isso, aquando da última Grande Depressão, provocou uma recaída em 1937/38], ou terá de deixar correr a inflação a galope, devido ao alto desemprego, o que será mau para as acções no sector energético. Adeus bolha”.

Quem é ERIC

Eric Janszen foi o fundador em 1998 da consultora financeira iTulip em plena ascensão do Nasdaq, e advertiu, então, no think tank na web LeMetropoleCafé, que o risco de uma derrocada poderia ocorrer no primeiro ou segundo trimestre de 2000 (como aconteceu logo em Março), opinião que a janelanaweb.com, então, divulgou.

Ganhou, por isso, o direito a uma história no clube dos analistas financeiros da contracorrente. E voltou a bisar. Quando publicou America’s Bubble Economy em finais de 2006 muita gente da Wall Street se riu e muitos analistas o alcunharam, de novo, de Cassandra. O livro falava de cinco bolhas co-evoluindo (a imobiliária que rebentaria em Agosto do ano seguinte, a bolsista que duraria até Outubro de 2007, a em torno do dólar suportada pelos chineses, a do consumo das famílias americanas e a da dívida pública americana) que em breve sofreriam um terramoto (bubblequake, como Eric baptizou).

Aconselhava no livro a investir em ouro e em euros e a não enterrar todos os investimentos na euforia bolsista. Vaticinava que o DJIA cairia para um patamar mínimo de 6.000 pontos fruto de uma correcção necessária (como, efectivamente, viria a aproximar-se em Março de 2009, até à data o ponto mais baixo do actual crash bolsista iniciado em Outubro de 2007).

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