Jack Nilles em Portugal - I


Logo: CorvosLISBOA - UMA CIDADE QUE TEM DE SE COLOCAR NO MAPA DO TELETRABALHO


Jack Nilles, o «pai» do teletrabalho, é claro sobre a importância estratégica do teletrabalho numa cidade europeia capital como Lisboa, ainda por cima às portas de uma grande exposição internacional, a Expo 98. Atlanta, aquando da preparação dos Jogos Olímpicos de 1996, desenvolveu um intensivo programa de teletrabalho.

Jorge Nascimento Rodrigues e João Ramos
Entrevista originalmente publicada no suplemento XXI do Expresso, numa versão mais condensada.


O teletrabalho foi o tema de baptismo do suplemento XXI (ver capa da primeira edição em 7/9/96) do EXPRESSO e, curiosamente, o que mais reacções dos leitores provocou em seis meses de edição. O teletrabalho é um daqueles temas que mexe com a vida das pessoas, que provoca não só a curiosidade académica do finalista em Gestão ou do mestrando às voltas para arranjar um tema excitante e diferente, mas do quadro, ou mesmo do desempregado qualificado, que encontra ali a oportunidade.

O homem no centro desta nova forma de trabalhar é o californiano Jack Nilles, um ex-cientista de misseis e projectos de defesa secretos, que bem podia ter ficado bilionário com algumas inovações tecnológicas em que participou. Ele mantém intocável um bom humor californiano e podia juntar ao «site» da sua empresa na Web, a Jala International (www.jala.com), um especial, só de piadas, algumas envolvendo os ilustres da América. Anda sempre acompanhado da mulher, Laila, uma fumadora inverterada, que não perde oportunidade para dizer umas quantas verdades, seguramente "politicamente incorrectas".

As obras dele foram divulgadas pelo EXPRESSO e pela revista EXAME EXECUTIVE DIGEST (outra entrevista está aqui disponível «on line») em diversas ocasiões e o simpático casal Nilles e Laila transformou-se num bom amigo.

Foto: Jack and Laila Nilles esteve, neste princípio de Abril (de 1997), pela segunda vez em Lisboa, agora, a convite do consórcio Telepac & Tracy - Sistemas de Teletrabalho para o primeiro seminário nacional do género. O «pai» do conceito ficou positivamente sensibilizado com a audiência que encheu um dos auditórios do Centro Cultural de Belém, e espera que "a cidade de Lisboa se posicione decididamente neste mapa", onde a nível europeu prima ainda pela ausência. Ausência que foi patente, aquando do tão falado, a nível europeu, concurso do «Banguemann Challenge».

A gravidade deste atraso no mapa do teletrabalho é tanto maior, quanto Lisboa tem a EXPO 98 à porta. "Se não forem organizadas medidas, vai ser um caos e um inferno viver e trabalhar em Lisboa", confidenciou-nos, com o exemplo de Atlanta na memória - a cidade dos Jogos Olímpicos que soube preparar-se a tempo. Terão estado, então, mais de 200 mil pessoas em teletrabalho, naquela ocasião naquela cidade americana.

Jack Nilles vai acompanhar o consórcio lisboeta na sua actividade junto de grandes empresas e municípios e voltará a pregar o «evangelho» do teletrabalho no Funchal, no segundo semestre do ano, numa realização do Tecnopólo da Madeira.

Portugueses potencialmente mais sensíveis à inovação do que muitos outros povos europeus

Qual é a sensação que leva deste dia de trabalho em Lisboa com quatrocentos quadros a escutá-lo?

JACK NILLES - Fiquei agradavelmente surpreendido com o Seminário, particularmente com a qualidade das intervenções e o elevado número de participantes...se tivermos em conta a audiência potencial de uma cidade como Lisboa (de longe muito menos populosa do que Los Angeles ou Nova Iorque). Quando fazemos seminários nos Estados Unidos, não temos a sala com estes números. Em segundo lugar, foi o Seminário mais bem organizado em que ultimamente participei.
Não havia entre os oradores ninguem que não soubesse aquilo que estava a dizer. A própria ministra do Emprego tinha feito - bem - o seu “trabalho de casa”. Após duas visitas ao vosso país, quero arriscar que os portugueses são potencialmente mais sensíveis à inovação do que muitos outros povos da Europa desenvolvida. Estão mais abertos a tirar partido das novas tecnologias.
Há uma grande dose de entusiasmo. E parece-me que querem dar respostas rápidas. Outros países têm tendência em despender mais tempo - levamos anos a discutir com responsáveis a "filosofia" do teletrabalho e a procurar "nuances". As excepções europeias têm origem em multinacionais (normalmente com sede nos EUA) ou na Escandinávia, onde há gente mais prática.

Mas olhando para baixo da linha de água, e na base dos comentários informais que ouviu nos intervalos, o que é que encontrou?

J.N. - Julgo que as vossas empresas, em geral, ainda não encararam o teletrabalho formalmente, mas tive a sensação que poderão acontecer diversas iniciativas prioneiras nos próximos meses. Vou ter a oportunidade de avaliar esta previsão optimista quando estiver de volta no próximo mês de Setembro, quando vier à Madeira.
Fiquei particularmente satisfeito com uma preocupação que ouvi de diversas bocas - "já que vamos fazer algo novo, faça-mo-lo bem logo à primeira, vamos pensar no que pode correr mal e limitar esses erros". Nesse sentido, é muito importante a formação inicial das pessoas envolvidas, não só dos teletrabalhadores, mas sobretudo ao nível da gestão - muitas vezes não se pensa nos gestores, e eles são uma peça essêncial. Não basta escolher voluntários e pôr-lhes máquinas nas mãos ou em casa.
Eu aconselho a que, antes de se avançar verdadeiramente com um projecto piloto de teletrabalho, se tenha um “campeão” que preferencialmente deve estar numa posição elevada na companhia, que tenha poder real. Isso dá confiança às pessoas. Por outro lado, o período de demonstração é crítico, mas a "coisa" depois não pode morrer.
Em suma, durante este seminário julgo que esta e outras mensagens foram muito bem recebidas. Vi muita gente a tirar notas afanosamente.

Com que opinião ficou dos encontros com os promotores desta nova vaga?

J.N. - Penso que o consórcio Telepac & Tracy está muito empenhado em que o teletrabalho aconteça. O mesmo se passa com a Portugal Telecom, que conheço.
As companhias de telecomunicações nacionais têm que pensar cada vez mais em soluções inovadoras. Com o advento da desregulamentação e com a competição a surgir nos mercados locais, se querem manter a sua posição, não podem ignorar o potencial do teletrabalho e não se podem esquecer que os operadores mundiais estão atentos.
Por outro lado, também ao nível local, a competição e a baixa de tarifas - que terá de haver mais tarde ou mais cedo - vai beneficiar e criar ambiente propício para as iniciativas de teletrabalho.

A principal barreira é a velha cultura do poder dos gestores à moda antiga

Mas crê que a principal barreira é a factura de telecomunicações, em países, como o nosso, em que as tarifas ainda são comparativamente altas?

J.N. - O principal risco para o insucesso do teletrabalho está na gestão. Os chefes têm tendência para ficar nervosos quando não vêm os seus colaboradores. Os gestores à moda antiga colocam barreiras ao teletrabalho porque têm medo da mudança.
Eu diria que é aí que está o busilis. Mas é uma questão também de números para convencer os mais conservadores - no estudo que fizemos para a Cidade de Los Angeles verificámos, numa estimativa moderada, que o rácio entre os custos de implementação do teletrabalho na fase de arranque e os benefícios obtidos depois foi próximo de 10! É um número bem convincente. O problema é a (velha) cultura de poder.

O perito Hans Overmars, que veio a Lisboa apresentar a estratégia seguida na Holanda, falou da necessidade das empresas integrarem o projecto de teletrabalho com o redesenho dos processos de trabalho, por outras palavras, com a reengenharia....

J.N. - É uma excelente «buzzword», mas já não constitui novidade. Eu direi que isso é pura rotina, faz parte do plano. Mas não significa que implique alterar os empregos de toda a gente. Significa que face a um potencial teletrabalhador se possa determinar com mais precisão o que ele vai fazer e aonde. Deste modo, podem-se determinar os elos do processo que só são possíveis de realizar num escritório e os que podem ser feitos no domicílio ou em mobilidade.

Mas acha que se pode incluir na mensagem da reengenharia o teletrabalho?

J.N. - Claro que sim. Algumas grandes consultoras já o fazem. E até o praticam dentro de portas.

Outra das “buzzwords” da moda é a “intranet”. Julga que poderá ter algum impacto na organização do teletrabalho?

J.N. - Ter as pessoas da empresa informadas a custo mais baixo do que os grandes sistemas permitiam é uma boa notícia. A má notícia é que isso poderá fazer com que as pessoas percam tempo com lixo. Por outro lado, ainda não estão totalmente resolvidas as questões relacionadas com a segurança do que o teletrabalhador possa fazer entre a Internet e as intranets.
E há também o risco que tem origem nos próprios clientes: quando eles têm acesso a informação importante na intranet podem disponibilizá-la para os principais concorrentes. Por tudo isto, o acesso “on-line” dos teletrabalhadores ao sistema de informação tem de ser encarado com alguma precaução. Eu direi que são uma arma muito importante para o teletrabalho se forem desenhadas adequadamente.

Quer avançar com áreas em que as grandes empresas podem, sem hesitação, lançar soluções de teletrabalho?

J.N. - Se querem fazer dinheiro, poupando no imobiliário e ganhando tempo para os clientes, ou estar preparadas para enfrentar situações de emergência, há muita coisa que pode ser feita, para começar. Áreas de vendas, de marketing, de todo o tipo de interface com o cliente, também de retaguarda de apoio ao cliente - «help desk» ou «call centers» -, de engenharia, de arte e concepção, de contabilidade, em suma de manipulação e reflexão sobre dados e de comunicação.
Podem avançar com soluções de «hoteling» dentro da empresa, com secretárias para vários teletrabalhadores - «hot desks» - que vão alguns dias à empresa, ou a um telecentro, e nos outros dias organizam-se a partir de casa. Há uma paleta muito grande de opções na experiência internacional.

Manter aberto um bom leque de opções, e não "ditar" uma solução exclusiva

Acha que é preferível nos países "latinos" optar pela impantação de telecentros, em vez de promover o teletrabalho em domícilio? Os franceses - vide a experiência do CATRAL com a sua rede de "Bureaux de Voisinage", de telecentros, na região de Paris - dizem que querem evitar o sindroma do isolamento às pessoas, que continuam a querer sentir-se "ligadas à sua comunidade de trabalho"... Por isso, em oposição à ideia do fomento do teletrabalho em domicilio - que acusam de ser uma estratégia elitista - falam da criação de redes de telecentros pluriempresas. Acha que vale a pena travar essa guerra?

J.N. - Em 1973, quando começei com o projecto na Califórnia, também pensava que os telecentros eram a melhor opção. Mas há um conselho que quero dar, logo à partida - não criem telecentros só porque o imobiliário fica de graça, ou quase. Não os façam, só porque há edificios disponíveis nalgumas entidades.
É necessária uma avaliação demográfica cuidada da zona de implantação e permitir que os futuros telecentros desenvolvam um tecido de oferta de serviços, ou se liguem a esse tecido.
Depois da experiência californiana, eu direi que os telecentros são bons para uma fracção dos candidatos ao teletrabalho, para "teste" e habituação de muitos. Para outros, a solução é um «mix», um lote de combinações possíveis entre trabalho em casa, no escritório, num telecentro, ou no próprio cliente. Deve manter-se aberto um amplo leque de soluções, apesar das casas dos europeus parecerem, na generalidade, ser menos espaçosas do que as americanas...
Segundo as investigações que temos feito, a tendência parece apontar para o facto de que o teletrabalho em regime parcial em casa será a "quota" dominante no próximo século.

Seguir o exemplo de Atlanta na preparação dos Jogos Olímpicos

Overmars, o perito holandês a que já nos referimos, chamou, também, à atenção para a necessidade de ligar, no meio urbano, o teletrabalho com a gestão do tráfego citadino e a promoção de novos conceitos de imobiliário, levando à inovação nos escritórios e nas casas urbanas e suburbanas. O que é que acha?

J.N. - Essa é uma questão essêncial para uma cidade como Lisboa. Em Los Angeles desenvolvemos o conceito de "gestão da procura de tráfego", e daí o conceito de "telecomutar". Hoje é uma lei no Estado da Califórnia, ainda que ao fim de uma série de anos...
A gestão de tráfego tradicional está votada ao fracasso, se querem a minha opinião muito frontal e um conselho sincero aos responsáveis do pelouro.
É pura perca de tempo julgar que a solução é obrigar as pessoas a passar do automóvel para outros meios de transporte. As pessoas estão muito agarradas aos carros, mesmo nos países com bons transportes rápidos. O que é preciso é tirar os carros das vias engarrafadas alguns dias por semana.
O teletrabalho é uma solução para isso. Em Paris, segundo aqui disse a representante do CATRAL, basta uma redução de 3,5 por cento nestes trajectos diários, para acabar com os engarrafamentos! E eu acrescentarei que, com a EXPO 98 à porta, será conveniente tomar as medidas adequadas. Atlanta fez o mesmo na sua preparação para os Jogos Olímpicos de 96, como nos veio aqui relatar Frank Boyd, da empresa de energia local. No período dos Jogos, houve para cima de 200 mil pessoas em regime de teletrabalho diário.


A NÃO ESQUECER:

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  • PARA LER AINDA:

  • As estimativas de Jack Nilles para Portugal
  • Entrevista concedida à Executive Digest: O APÓSTOLO DO TELETRABALHO

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