“A Europa deve fazer uma cimeira com os BRIC” (Franck Biancheri, LEAP)

O especialista francês em tendências geopolíticas e geoeconómicas propõe a realização antes de 2015 de uma cimeira entre a União Europeia e os BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China), dando expressão a uma nova realidade que batizou de BRICE. Franck Biancheri acha que a União Europeia é uma “potência nova” com uma moeda nova e um projeto novo, e não um incumbente obsoleto. Os Estados Unidos estão em “declínio irreversível”, pelo que a Europa tem de procurar novas alianças.

LEAP, Newropeans

Franck Biancheri, de 50 anos, é fundador e diretor de estudos do Laboratoire Européen d’Anticipation Politique (LEAP), uma organização de prospetiva e consultoria para empresas, instituições e governos sediada em Paris. Biancheri foi, também, fundador do movimento transeuropeu Newropeans, de que é presidente. Em fevereiro de 2006 antecipou o eclodir do que designou por “crise sistémica global”, antes dos primeiros afloramentos da crise financeira em agosto de 2007. No seu mais recente livro “Crise Mondiale” fala de uma década de 2010 a 2020 de “deslocação estratégica” global, marcando “uma transição histórica, de que a crise atual é, apenas, o acelerador”.

Biancheri vai realizar em Moscovo entre 23 e 25 de maio o primeiro seminário para definir uma agenda para os BRICE.

Entrevista a Franck Biancheri por Jorge Nascimento Rodrigues (a) 2011
[Anterior entrevista – em inglês, 2008]

P: Nesta década a América do Norte é o espaço mais vulnerável?
R: Os Estados Unidos não escapam à lei de ferro da História – sic transit gloria mundi. A expressão latina para frisar uma verdade que se aplica a qualquer potência: a glória do mundo é passageira. Se alguém surgir com um cenário de regresso à hegemonia por parte dos Estados Unidos, serei dos primeiros a dar toda a atenção. Mas todas as análises económicas, financeiras, do sistema social e de ensino, dos próprios resultados tecnocientíficos, para além da completa inabilidade para exercer uma liderança global nos últimos anos, confirmam que o declínio é irreversível. Veja-se o que se passou recentemente no G20 em Paris ou que ocorre no Médio Oriente ou no norte de África. Vocês portugueses, tal como nós franceses, ou os holandeses, espanhóis e ingleses, percebem bem este processo, pois o trilhámos, noutras alturas.

P: A última reunião de ministros das Finanças e de banqueiros centrais do G20 em Paris foi o toque de finados da superpotência “sozinha”?
R: Não há mais, de facto, liderança americana – e, aliás, não há liderança alguma. O que é uma estreia desde a queda do Muro de Berlim em 1989 e do final da Guerra Fria.

P: Nos dois cenários para esta década que refere no seu livro “Crise Mundial” fala de problemas muito graves nos Estados Unidos, inclusive fragmentação e separatismo, revoltas populares contra a Reserva Federal (FED), atração de alguns estados da federação para o Pacífico. O futuro americano vai ser, assim, tão aterrador?
R: Bom, a oposição à FED aumenta de dia para dia. O representante Ron Paul, que encabeça essa revolta, era um tipo marginal há cinco anos atrás – agora, espante-se, é o presidente do subcomité da Casa de Representantes para supervisionar a FED! Mas que caso mais simbólico da mudança ocorrida.

P: Mas isso chega para caracterizar uma situação?
R As notícias dão conta do aumento da violência – veja o caso de uma congressista baleada e de um juiz federal assassinado. Alguns estados estão a discutir pagamentos baseados no ouro e não em dólares. A bancarrota assola vários estados e numerosos counties e cidades. O presidente Obama, que foi eleito com muitos votos de pobres, agora tem de propor cortar o orçamento incluindo muitos programas sociais. O governador do Wisconsin pediu à Guarda Nacional para estar de prevenção contra a violência quando anunciou os cortes orçamentais nos programas do seu estado. As coisa estão a desenvolver-se muito rapidamente, mesmo apesar dos media que formam a opinião pública pretenderem que tudo isto é o “normal” nos EUA. Não é.

P: Quando é que a crise da dívida vai chegar aos “intocáveis”, aos EUA e ao Reino Unido?
R: Já afetou severamente o Reino Unido. As medidas de austeridade da dupla Cameron/Clegg são o equivalente a amputar as pernas e os braços de uma paciente para prevenir o espalhar da gangrena. As próprias agências de notação – que como se sabe tentam proteger até ao limite esses “intocáveis” – acabarão por, nos próximos meses, ter de ver o óbvio: que as medidas de austeridade não estão a produzir os resultados pretendidos de redução da dívida pública do Reino Unido, e de que esta economia está a cair, de novo, na recessão. O descontentamento social desenvolver-se-á – é só a partir de março que os cortes começam a ser mais sentidos.

P: E no caso dos Estados Unidos?
R: Tentam jogar o mesmo jogo. O segundo semestre vai ser o dia do julgamento final. Não pelas agências de notação, mas pelos investidores e os mercados internacionais. As agências serão seguidistas – como Portugal, a Grécia e a Irlanda bem sentiram.

P: Uma das condicionantes que sublinha nos seus cenários é que não espera nenhuma inovação maior na economia, ou mesmo na política e na tecnologia até 2020. É, assim, tão pessimista?
R: Talvez venham a acontecer tais inovações – mas não vejo absolutamente nada por agora, não vejo que algo esteja em movimento. E não acho que a História nos deixe ficar à espera de Godot. Além do mais, inventar os métodos e instrumentos que nos permitam gerir pacificamente um mundo multipolar, tal como o descrevo no meu primeiro cenário, exigiria uma engenharia sociopolítica tamanha. De facto, os meios estão aí, à vista, mas o que falta é um certo conhecimento e o ensejo de o fazer.

P: Segundo sustenta no seu livro, a União Europeia é uma potência nova, com uma moeda nova, e não um velho incumbente. A Europa tem condições de impedir a dinâmica do G2 entre os EUA e a China?
R: O G2 é uma ideia tipicamente americanizada. Não há qualquer dinâmica positiva na relação EUA/China. É um processo crescentemente de confronto, sem qualquer resultado final positivo. Na realidade, a China está dentro da dinâmica dos BRIC. A minha aposta é que a Europa deve contribuir para uma cimeira com os BRIC ainda antes de 2015.

P: Mas com a crise da dívida, a zona euro não corre o risco de colapso?
R: Isso estará ultrapassado pelo final deste ano. O processo atual de emergência de uma euroland está a criar a estrutura para uma maior integração da zona euro. A crise desta zona foi, em larga medida, uma tentativa dos media britânicos – e primeiro do que tudo do Financial Times – como manobra de diversão para desviar a atenção dos problemas do Reino Unido (e dos Estados Unidos). Mas essa tentativa falhou, como se pode ver com o euro e com o movimento franco-alemão para estabelecer uma “governação” da zona euro.

P: O dólar perderá o seu papel nesta década?
R: A única saída é criar um novo sistema monetário internacional baseado num cabaz das principais divisas mundiais. Até que isso surja, a crise continua, e com consequências cada vez mais perigosas.

P: Um dos pontos que refere como importantes para a Europa são os “anéis europeus” de mobilidade. Mas diz que só o anel do centro da Europa Ocidental conta. E o resto?
R: Por razões práticas – tempos de transporte. Mas outras realidades menos “centrais” podem ser colocadas em anéis secundários.

P: Mas as ligações rápidas por alta velocidade, incluindo a ligação Lisboa-Madrid-Paris, não são fundamentais para a mobilidade europeia?
R: Acho vital que o TGV ligue todas as capitais europeias. Não devemos olhar, apenas, a resultados de curto prazo. É um investimento de longo prazo para a coesão europeia.

P: Mas dados os problemas de financiamento na periferia, deveria ser assumido como um projeto totalmente europeu?
R: Concordo. Uma tal rede de alta velocidade deve ser suportada pela União Europeia – e tanto mais quanto é maior a volatilidade económica de curto prazo.

P: Uma das constatações que faz é que a fuga de cérebros para os Estados Unidos se inverteu. Mas isso foi só com os casos da Índia e China, ou também abrange a Europa?
R: Na Europa, o lançamento do programa Erasmus inverteu essa tendência logo nos anos 1990. Antes do Erasmus, 90% dos estudantes que iam estudar fora do seu país iam para os Estados Unidos. Poucos anos depois, essa percentagem caiu estrondosamente para 10%. O mesmo acontece, agora, com indianos e chineses. Isso deriva do caráter atrativo destas economias emergentes, mas também pelo facto do ensino americano estar a perder atratividade trimestre após trimestre, devido à decaída do próprio país.

P: Em relação à aprendizagem de línguas, considera que o inglês está a perder a hegemonia. Quais são as línguas globais do futuro?
R: Na Europa, penso que o inglês, o francês e o alemão, mais o russo, serão as línguas fundamentais para as comunicações transeuropeias. O espanhol, por seu lado, será essencial internacionalmente, juntamente com o inglês, naturalmente. O chinês e o árabe, também, serão essenciais.

P: Reparo que não refere o português, apesar da emergência do Brasil como uma das economias emergentes…
R: Algumas línguas serão cruciais para certas dimensões regionais: o português sem dúvida na América Latina, e o francês em África.

P: Nos seus cenários nesta década, a África e o Médio Oriente continuam a ser regiões sem autonomia estratégica. A revolução do Facebook e do tweetdeck nestas regiões não vai alterar esta situação?
R: Estes acontecimentos vão com certeza transformá-las em um bid mover (motor de oferta) não agora, nesta década, mas na de 2020/2030. Nesta década, as dificuldades vão ser extremamente enormes no caminho da democratização e do desenvolvimento económico das sociedades árabes. Lembre-se de Portugal e da Espanha – levou vários anos até que se desse realmente o take off. O mesmo, aliás, aconteceu com a Europa de Leste. O que estamos a assistir no mundo árabe é indiscutivelmente algo de positivo e importante, mas nesta década vai ser sobretudo uma idade de adolescência, com todas as suas turbulências inerentes.

Crise Mondiale – En route pour le monde d’aprés
[Anticipolis, 2010]
Ideias centrais do livro
. Época de transição histórica – o elemento central desta década; é um período de rutura que só acontece uma vez de dois em dois ou três em três séculos (tal como foram as décadas de 1900 a 1920); uma “tempestade perfeita” histórica
. A Grande Recessão atual é uma crise sistémica atual e serve de acelerador à “deslocação estratégica” em curso

. Os dois elos fracos da conjuntura atual geopolítica e geoeconómica:
a) A América do Norte é o continente “menos bem adaptado” para os próximos decénios – um “número crescente de linhas de fratura”, incluindo o risco de desintegração nos EUA, Canadá e México
b) O Reino Unido e o seu ecossistema antieuropeu patológico
c) Os ocidentais vão rapidamente compreender que a China não vai ser o seu “salvador”

. Os perigos
a) O risco de ascensão de blocos regionais
b) A emergência, cerca de 2014, das verdadeiras clivagens transeuropeias, com o risco de ascensão de movimentos populistas e xenófobos
c) O G20 corre o risco de ser o equivalente moderno da Sociedade das Nações

. Os pontos fortes europeus
a) O caráter policêntrico
b) A experiência concreta com uma nova divisa, o euro, e com a construção da União Europeia

. Guinadas a dar na estratégia europeia
a) Avançar com uma cimeira com os BRIC – a Europa é uma nova potência, e pode fazer oscilar as relações de força num sentido ou noutro se consagrar “tempo e energia” em direção a Moscovo, Pequim, Nova Deli e Brasília; recusar a ideia de “dissolver a Europa num vasto Ocidente centrado nos Estados Unidos”
b) Projetar o papel do ouro
c) Defender a disseminação controlada do nuclear e do equilíbrio nuclear

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