“O problema central já não é a crise grega” – um olhar de Atenas

A longa cauda da Grande Recessão parece não ter fim. Depois do Pânico financeiro em 2008 veio a recessão económica global e a quebra do comércio internacional, e quando todos esperavam uma retoma sorridente em “V” estalou uma série de crises da dívida externa em países outrora considerados “tigres” e “gazelas” filhos de “milagres económicos”.

O primeiro sinal havia sido a Islândia, seguiu-se a grave crise na Irlanda, depois o choque no Dubai e, finalmente, a Grécia que agitou seriamente os mercados financeiros da dívida desde Dezembro (quando as agências de rating baixaram a notação do país), com um pico nas primeiras duas semanas de Fevereiro.

Mas a caixinha de Pandora não fechou, como se viu na semana passada antes da cimeira europeia de Bruxelas de 25 e 26 de Março. A turbulência grega despoletou uma crise onde menos se esperava, na zona euro, depois de um ano em que o dólar esteve sob fogo internacional, à beira de ser considerado uma divisa de referência em morte lenta.

Não se esperaria que o Fundo Monetário Internacional viesse substituir, mesmo que parcialmente, o papel da Zona Euro num seu problema interno. Mas o FMI acabou por “entrar” na própria “fortaleza” da moeda única europeia, não se ficando só pela intervenção em países membros da União Europeia mas não participantes no euro (como na Hungria e na Letónia).

Os eurocépticos desejariam que a entrada do FMI na Grécia empurrasse esta para fora da zona euro, para poder proceder a um mais eficiente “ajustamento” segundo o receituário do Fundo de Washington. Seria uma “estreia” que, depois, poderia ser seguida por outros, dando um golpe de morte no euro. Mas na entrevista que publicamos, esse cenário é considerado um absurdo.

Para ter um olhar a partir do epicentro da crise, entrevistámos o economista Jens Bastian, de 50 anos, de origem alemã, mas há 13 anos na Grécia,  investigador sénior na Fundação ELIAMEP (Fundação Grega para a Política Europeia e Internacional) em Atenas, sobre o significado destes acontecimentos que desde há três meses abalaram a pátria de Homero.

ENTREVISTA por Jorge Nascimento Rodrigues, (c) 2010

P: Como é que a Grécia chegou a este ponto para roubar o protagonismo mediático à Islândia e ao Dubai?

R: Juntou-se um ramalhete de maus indicadores que prefiguravam o que a agência de notação Moody’s referia em 13 de Janeiro de que a economia grega corria o risco de uma “morte lenta”. A profundidade desta crise revelou a imagem de tigre de papel que a economia grega alardeava na década anterior. O “milagre económico” grego era baseado num ingrediente trágico: na mentalidade geral de “gaste agora e pague depois”.

P: Mas a que se destinou essa bebedeira financeira dos últimos anos?

R: Houve um aumento de mais de 9 pontos percentuais no peso do gasto público em relação ao produto interno bruto desde 2006, ainda que o nível fiscal se tenha mantido o mesmo durante o governo anterior conservador de Kostas Karamanlis. Em termos monetários absolutos isso equivale a 23 mil milhões de euros, cerca de 45% das necessidades de financiamento do governo grego que atingirão 53 mil milhões este ano. O governo grego tem lidado desde Janeiro com a aflição de ter de se financiar justamente em pouco mais de 20 mil milhões entre meados de Abril até final de Maio.

A coragem de Papandreou

P: A reacção do novo governo do PASOK eleito em Outubro do ano passado foi a adequada?

R: As medidas tomadas pelo novo governo de George Papandreou merecem crédito pela sua enorme coragem. Pela primeira vez, um primeiro-ministro grego avançou com a cura necessária sem adoçar a situação muito grave do país. Não há folga para novas iniciativas de despesa pública. O governo tem as mãos atadas atrás das costas para estimular o crescimento neste contexto de crise. É essencial para este governo que a situação de crise orçamental e económica não descambe numa crise política grave que o país não aguentará.

P: Seria útil um Fundo Monetário Europeu para acudir à situação grega, como se tem falado?

R: Independentemente da sua utilidade, para o caso grego já seria tarde. Uma tal entidade necessitaria de uma mudança no Tratado de Lisboa e de uma nova definição no seu relacionamento com o Banco Central Europeu. Depois, haveria o problema do financiamento desse Fundo, em que divisa deveria ser? O que é visível é que a crise grega é, apenas, um sintoma de uma crise mais ampla e mais profunda no processo de integração europeu, e particularmente da moeda única. O problema central já não é a crise grega.

FMI em Atenas desde Janeiro

P: Estamos, então, rendidos à vinda do Fundo Monetário Internacional (FMI) acudir a Grécia, um país da Zona Euro?

R: O FMI já está em Atenas desde Janeiro, dando apoio técnico ao governo em áreas como o planeamento orçamental, a carga fiscal e os requisitos de uma boa informação estatística. Em muitos aspectos, o plano de austeridade de Papandreou aprovado no princípio de Março tem todos os ingredientes das políticas do FMI, sem ter essa etiqueta e, pior, sem poder usar os recursos do Fundo.

P: Papandreou tem realmente condições políticas – como o governo irlandês aparenta, por exemplo – para implementar esse plano até 2013?

R: Uma coisa parece certa: o ‘estilo à grega’ de resolver as coisas terminou. A Grécia do ano passado faliu. As elites estão desacreditadas. Mas a sociedade grega não está, ainda, preparada nem convencida dos méritos da odisseia que o governo socialista actual propõe. O governo tem, de facto, uma tarefa nada fácil, de convencer uma população desacreditada de tudo de que é indispensável mudar de curso, urgentemente.

P: Alguns analistas prognosticam que o FMI acabará por impor a saída da Grécia da zona euro para melhor proceder ao seu ajustamento económico e financeiro. Trata-se de um rumor infundado alimentado pelos eurocépticos ou de um cenário possível?

R: Esse cenário nem é credível, nem é realizável sequer. Estabelecer a assistência do FMI na condição da Grécia abandonar a zona euro é absurdo. Nem sequer pode ser considerada uma “análise”. Como já referi, o FMI está a colaborar com as autoridades gregas desde Janeiro em termos de apoio técnico em áreas como o planeamento orçamental, a gestão fiscal e a transparência estatística e a contabilidade pública.

Todos salvaram a face

P: O que há de novo, então, com esta decisão da cimeira europeia?

R: O FMI tem, agora, um mandato para dar apoio financeiro quando for requerido pelos gregos. A cimeira europeia o que fez foi estabelecer um guia para tal tipo de assistência se e quando for necessária ou requerida por Atenas.

P: As decisões da cimeira de 25 e 26 de Março, com aquela solução “mista” adoptada, puseram uma pedra no assunto?

R: As decisões tomadas foram, de facto, uma “mistura”, que permitiu a todos salvar a face. Primeiro, a Grécia, com a combinação do FMI e da União Europeia no pacote, ainda que com condições consideráveis anexas. Depois, a decisão do presidente Trichet, do Banco Central Europeu, permitindo continuar a usar as obrigações gregas como colateral teve um efeito positivo imediato nos mercados internacionais e deu uma lufada de oxigénio na capacidade da Grécia em se refinanciar quando procurar colocar obrigações soberanas no mercado, provavelmente já nas próximas semanas. Por outro lado, a Comissão Europeia pode clamar politicamente que a decisão mantém a Comissão na liderança do processo e avança com elementos de uma solidariedade europeia.

P: E a questão da “governação económica” da Europa tem pernas para andar?

R: A introdução de meios mais apertados para evitar, no futuro, crises da dívida pública e orçamentais abre, de facto, uma janela de oportunidade para o que poderá vir a ficar conhecido por “governação económica europeia”. Finalmente, no fundo, é um triunfo pessoal da chancelerina alemã Angela Merkel que poderá declarar para a sua audiência doméstica que as decisões tomadas em Bruxelas não colocam mais a Alemanha na situação de ter de ser o “tesoureiro” dos problemas da União.

Adaptado de entrevista originalmente em inglês publicada aqui.

One Response to ““O problema central já não é a crise grega” – um olhar de Atenas”

  1. [...] Jens Bastian, economista principal da fundação ELIAMEP, em Atenas, “os desenvolvimentos dos últimos dias [...]

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