3º aniversário do início da crise financeira: o fantasma do Lehman continua atrás do reposteiro

A 15 de setembro de 2008 o mundo foi surpreendido pela decisão da firma financeira Lehman Brothers, fundada em 1850, entrar com um pedido de insolvência.

O “acidente financeiro” derivou de, nas noites anteriores, um trio ao mais alto nível ter deixado cair o banco de Wall Street – o secretário do Tesouro Henry Paulson, o presidente do Banco da Reserva Federal de Nova Iorque, Timothy Geithner (atual secretário do Tesouro do presidente Obama), e Ben Bernanke, o presidente da Reserva Federal. A 9 de setembro as ações da Lehman tinham caído 45% e a derrocada desde fevereiro já somava 88%. O dominó que se seguiu provocou a maior crise financeira do mundo desde os anos 1930 e o evento de 15 de setembro foi batizado de “momento Lehman”, de acelerador da crise.

Para muitos analistas e economistas mais atentos o “momento Lehman” acabou por não ser uma surpresa. As bolsas já haviam atingido um pico em 29 de outubro de 2007, olhando ao comportamento do índice mundial MSCI. No caso dos Estados Unidos, o organismo que “decreta” os ciclos económicos – o National Bureau of Economic Research – acabou por marcar o início da recessão económica em dezembro de 2007 e os analistas dos meios financeiros falam do “momento Bear Stearns” (o colapso deste banco de investimentos de Wall Street) em março de 2008 como o ponto de viragem na crise financeira.

O que se viria a verificar, depois deste “cisne negro” – ou “cisne cinzento”, para outros – ter aparecido no lago, é que a economia mundial estava a ser alimentada por uma “bolha” financeira desde os anos 1990, em que o endividamento global (privado e público) funcionou como motor da economia.

Dois choques

Essa vaga de financeirização acabaria por ter dois choques: uma derrocada do Nasdaq, a bolsa das empresas tecnológicas, que acabaria por perder 76% da sua capitalização entre março de 2000 e setembro de 2002, e, depois, uma grande crise financeira global entre 2007 e 2009. O índice mundial das bolsas caiu 58% entre outubro de 2007 e março de 2009.

Hoje, o índice está, ainda, 29% abaixo do máximo em 29 de outubro de há quatro anos.

No 3º aniversário do “momento Lehman”, o mercado da dívida soberana da zona euro escapou, por ora, por um triz, de uma bancarrota da Grécia que poderia desencadear um efeito dominó nos mercados financeiros.

As bolsas reagiram com alívio e o índice mundial está a valorizar desde terça-feira.

Uma teleconferência entre a chanceler alemã, o presidente francês e o primeiro-ministro grego na noite de quarta-feira foi responsável pelo reforço do otimismo depois de um verão de alta volatilidade, em que se temeu o pior – o regresso do fantasma do “momento Lehman” com outra máscara e outra roupa.

A decisão “preventiva” do Banco Central Europeu (BCE) em lançar no último trimestre do ano – a 12 de outubro, 9 de novembro e 7 de dezembro – três operações para financiar a 3 meses (e não a uma semana como tem feito), com taxa fixa, a liquidez em dólares da banca europeia acalmou o temor de problemas graves no final do ano. A decisão foi concertada com a Reserva Federal norte-americana, o Banco de Inglaterra, o Banco Nacional da Suíça e o Banco do Japão.

As notícias de que os bancos europeus não conseguiam financiar-se em dólares no mercado privado têm-se multiplicado. Em meados de agosto, um banco europeu teve de pedir 500 mil milhões de dólares ao BCE e, no começo desta semana, dois outros bancos europeus financiaram-se em 575 mil milhões junto da mesma entidade.

Pendentes debaixo do tapete europeu

No entanto, nos pendentes continua uma série de questões críticas.

O exame da Grécia pela troika prossegue e o acordo de re-estruturação da dívida com credores privados não está, ainda, concluído por Atenas. A data limite para estes pendentes foi adiada até meados de outubro por decisão da reunião informal desta semana do Eurogrupo e do Ecofim em Wroclaw, na Polónia.

Os dealers no mercado dos credit default swaps (cds, seguros contra o risco de incumprimento) associados à dívida grega continuam a considerar como altamente provável um evento de crédito. A CMA DataVision e a Markit passaram a referir o custo em pontos “à cabeça” (up-front points) para os cds gregos, o que implica um montante adicional no início do contrato. Esta semana já chegou aos 60 pontos numa escala de 1 a 100.

O comportamento das yields (juros implícitos) das obrigações espanholas e dos títulos do Tesouro italiano nos prazos a 10 anos continua teimosamente acima de 5%, mesmo com as intervenções que têm sido feitas desde 8 de agosto pelo Banco Central Europeu no mercado secundário.

As bolsas mundiais perderam, até à véspera do aniversário do “momento Lehman”, 18% da sua capitalização desde o último pico em abril deste ano. O que equivale a cerca de 10,6 biliões de dólares (cerca de €7.800 mil milhões), o que é, apenas, 1/3 das perdas na derrocada de 2007 a 2009. Mas que já é muito mais do que os 6 biliões de dólares de perdas no Nasdaq aquando do crash de 2000 a 2002.

O sector financeiro é o mais penalizado na mais recente volatilidade dos mercados e a banca europeia – sobretudo francesa e italiana – tem estado em foco. A nível mundial desde 31 de agosto até 14 de setembro, a capitalização do sector financeiro caiu 9,6%, mais do que o índice global, que desceu 5,8%.

No entanto, a recapitalização da banca europeia – alegada como necessária pela diretora-geral do Fundo Monetário Internacional – só deverá ter um número oficial na reunião do fundo no final da próxima semana em Washington DC. Entretanto, o chefe de estratégia de mercado da Jefferies, David Zervos, referia, esta semana, a título de exemplo, que a alavancagem de alguns bancos franceses e italianos que têm estado em foco é, em média, 3 vezes superior à de dois bancos de referência norte-americanos, o JP Morgan e o Bank of America. A agência de notação Moody’s cortou, na quarta-feira, o rating da Société Générale e do Crédit Agricole, dois dos bancos europeus com quebras superiores a 50% desde 1 de julho.

O Comité Económico e Financeiro da União Europeia (EFC, no acrónimo em inglês) produziu um relatório para a reunião informal do Ecofin desta semana, a que a Reuters teve acesso, onde se alerta para um novo risco sistémico ancorado num tripé: a crise das dívidas soberanas, as necessidades de financiamento da banca e o crescimento económico estagnado ou negativo. As condições de base para um “momento Lehman” – como dizem os historiadores financeiros desta crise – existem debaixo do tapete.

A cereja em cima do bolo

Para colocar a cereja em cima do bolo, descobriu-se, esta semana, mais uma megafraude realizada por um trader da dependência do banco suíço UBS em Londres.

Kweku Adoboli, de seu nome, era diretor de ETF (Exchange-Traded Funds) e juntou-se à galeria dos 28 criminosos em operações financeiras desde 1994, com uma fraude de 2 mil milhões de dólares. Feito que o coloca no 3º lugar, depois de Jerome Kerviel, da Société Génerale (€4,9 mil milhões em 2008), e de Yasuo Hamanaka, da Sumitomo (com 2,6 mil milhões de dólares em 1996).

Este episódio levanta um problema mais grave do que a questão do controlo pelos bancos deste tipo de operações pelos seus empregados. Tira da penumbra mais uma etiqueta desconhecida da maioria dos mortais – os ETF, um tipo de fundos, que evoluíram inclusive para instrumentos financeiros ainda mais sofisticados e muito mais arriscados designados por ETF “sintéticos”.

O que está ainda por averiguar é se estamos na presença de mais alguma bomba-relógio. A UBS apressou-se a declarar que nenhum cliente havia perdido dinheiro.

Um padrão histórico

A evolução do ciclo desta grande crise – já com mais de 3 anos e meio – acabou por respeitar os padrões históricos das grandes crises depois de 1800 provocadas pelas vagas de financeirização: pânico financeiro; alastramento da recessão económica; depressão (com desemprego estrutural e ampliação da miséria social), crises de dívidas soberanas, recaída na estagnação ou recessão, e regresso da tormenta aos meios financeiros.

O mundo mergulhou em 6 grandes recessões e crises financeiras de âmbito mundial entre 1800 e 1940 – 1825-1826; 1873-1876; 1890-1893; 1907-1908; 1914-1917; e numa Grande Depressão entre 1929-1932.

Na primeira vaga de financeirização moderna entre 1800 e 1944 acabaram por ocorrer 132 bancarrotas (48 das quais na Europa), uma nova fase de projeção externa que se designou por imperialismo (por parte da Europa, EUA e Japão) e duas guerras de dimensão mundial. Alguns destes fenómenos acabaram por ser, então, novidades na geoeconomia (imperialismo) e inovações na geopolítica (guerras de alcance mundial).

Ao fim de quase 150 anos, o panorama geopolítico sofreu, então, uma mudança radical com a consolidação da hegemonia política e do domínio do dólar por parte dos EUA e a emergência de uma nova superpotência a partir de uma revolução (a União Soviética).

A segunda vaga de financeirização moderna após Bretton Woods acabaria por gerar dois choques petrolíferos nos anos 1970, uma crise da dívida pluriregional nos anos 1981-1982 (mercados emergentes), duas crises financeiras pluriregionais em 1991-1992 (países nórdicos e Japão) e 1994-1995 (com o foco na crise da “tequilla”), uma crise económica pluriregional em 1997-1998 (com o foco na Ásia), o crash bolsista do Nasdaq no ano 2000 e, mais recentemente, a grande crise financeira originada com o subprime em 2007 e a Grande Recessão ainda em curso. Durante esta segunda vaga ocorreram, desde 1951, 56 bancarrotas, 8 das quais na Europa (em 5 países – Polónia em 1981, Roménia em 1981 e 1986, Rússia em 1991 e 1998, Turquia em 1978 e 1982 e Islândia em 2008). A Islândia inauguraria os defaults soberanos no século XXI.

Factos surpreendentes

Apesar das surpresas terem acompanhado esta grande crise desde o começo em outubro de 2007, este verão quente de 2011 trouxe novidades, inimagináveis quando o Lehman Brothers decidiu entrar com o pedido de insolvência há três anos.

CHINA — A China surgiu como “salvador” para várias dívidas soberanas – o último apelo de ajuda foi por parte de Itália – e já colocou, pela boca do seu primeiro-ministro, a sua primeira exigência estratégica aos europeus: o seu reconhecimento antecipado como “economia de mercado”, segundo o critério da Organização Mundial do Comércio.

GUERRA SAI DO BAÚ DA HISTÓRIA — O ministro das Finanças polaco, Jacek Rostowski, afirmou perante o Parlamento Europeu que temia “uma guerra nos próximos dez anos na Europa” se houver uma implosão da zona euro. Um outro cenário negro havia sido adiantado, na semana passada, pelo UBS, no caso de saídas do euro: “Ou se caminha para uma resposta mais autoritária de governo para conter ou reprimir a desordem social – um cenário que tenderá a exigir uma mudança de governo democrático para autoritário ou militar -, ou, em alternativa, a desordem social se misturará com fraturas na sociedade para dividir o país, redundando em guerra civil”.

CONVIDADO ALÉM ATLÂNTICO — Pela primeira vez na história da União Europeia, o secretário do Tesouro norte-americano Tim Geithner participa numa reunião informal do Ecofin (ministros das Finanças e banqueiros centrais da UE). Presume-se que um dia destes o ministro das Finanças chinês será convidado de honra.

A grande incógnita

Doug Short, um dos estudiosos dos períodos de “bolha” e de derrocada das bolsas, coloca com clareza a interrogação fundamental: os mercados financeiros vão reagir, como nos anos 40 do século passado, e retomar um crescimento de longo prazo; ou vão seguir o perfil de evolução do índice Nikkei 225 da bolsa japonesa que há 19 anos não consegue levantar a cabeça, desenhando um comportamento que os analistas batizaram de “L”.

Peter Cohan chama a atenção inclusive para um paradoxo nos EUA: enquanto campeia o que ele designa por “pessimismo irracional” nas bolsas, o grosso das empresas cotadas pertencentes ao índice S&P 500 reportaram um crescimento de 19% nos ganhos no segundo trimestre deste ano. Os motores, segundo o estudo que ele realizou, são a exportação, as empresas com tecnologias inovadoras e as firmas envolvidas no negócio de commodities com alta procura.

Os próprios “ativos de refúgio” sofreram uma reviravolta em relação ao período anterior à crise financeira, chamava à atenção, esta semana, Chris Marshall no Citywire Money. Durante a “bolha”, os ativos atraentes tinham à cabeça as bolsas dos países desenvolvidos e o ouro, e, mais abaixo, os títulos de dívida soberana dos países emergentes.

Com a crise de 2008, a volatilidade disparou e apenas escapam com maior rentabilidade o ouro e os títulos de dívida das empresas das economias emergentes. Apesar da corrida aos títulos do Tesouro americano e aos Bunds (títulos) alemães, o retorno em termos reais é negativo. Pelo que a procura de ativos com rentabilidades interessantes é hoje cada vez mais uma arte, provavelmente a exigir dotes cirúrgicos.

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