A retoma está a ser longa de mais nos Estados Unidos — um estudo de Fatás e Mihov (INSEAD)

Já passaram quatro anos desde que o ponto mais baixo da recessão norte-americana foi atingido em junho de 2009. A retoma económica está a ser anormalmente longa, para os padrões históricos desde a segunda guerra mundial.

Jorge Nascimento Rodrigues, (c) JNR 2013

O padrão de recessões e de retomas alterou-se nos Estado Unidos. Não só a recessão, iniciada no final de 2007, foi mais longa do que as anteriores, pois durou 18 meses consecutivos (quando a média, desde 1945 , se situa em 11 meses, segundo o NBER), como a retoma económica, desde o verão de 2009, está a ser muito mais longa do que era habitual, dizem Antonio Fatás e Illian Mihov, académicos do INSEAD. Fatás e Mihov são professores de Economia daquela Escola internacional de negócios sedeada em Fontainebleau, em França.

Fatás e Mihov verificaram que a atual retoma nos EUA já se estende por 16 trimestres e parece estar para durar até que a maior economia do mundo entre em plena expansão. As retomas económicas mais longas, depois da segunda guerra mundial, duraram seis trimestres (nos anos de 1975 e 1976 e 1991 e 1992) – uma diferença colossal. “Para o ciclo iniciado no final de 2007, a retoma ainda não terminou. Até ao final do segundo trimestre de 2013, a retoma já vai em 16 trimestres”, referem num artigo publicado esta semana no portal europeu VOX.

Os autores admitem que seria de esperar uma recuperação económica um pouco mais longa do que nos anos 70 e 90 do século passado, em virtude da profundidade da recessão em 2008 e 2009. Mas estão admirados com o facto de a retoma em curso estar a revelar-se anormalmente muito longa – um caso fora do comum. Apesar dos 16 trimestres de retoma já concluídos, os dois académicos acham que “é provável que ainda demore vários trimestres até que acabe”. “Estamos a assistir a um ciclo em que a velocidade da retoma é significativamente mais baixa do que em qualquer um dos outros ciclos” desde 1948, sublinham.

A fase do meio

Os dois académicos diferenciam duas fases no que habitualmente se designa por expansão, uma primeira, a de retoma, e uma segunda, a de plena expansão.

Fatás e Mihov não seguem, por isso, a metodologia tradicional de falar apenas de dois períodos no ciclo económico, a recessão e a expansão. A recessão está separada da expansão por um momento crucial, o ponto mais baixo da queda do Produto Interno Bruto (PIB). A partir desse momento – que tecnicamente se designa por “vala” (trough, em inglês) – o PIB deixa de se contrair em relação ao período (mês, trimestre) anterior.

Fatás e Mihov dizem que, depois desse ponto mais baixo, segue-se a fase da retoma. Essa fase do “meio” deve ser analisada à parte da expansão, dizem os dois professores do INSEAD. O artigo de Fatás e Mihov, publicado no VOX, foi precisamente intitulado “From Recession to Normalcy: Recoveries as a Third Phase of the Business Cycle” (Da Recessão à Normalidade: As Retomas como uma Terceira Fase do Ciclo de Atividade Económica) e baseia-se num artigo académico publicado pelo Center for Economic and Policy Research (CERP), de Londres.

A individualização desta fase do “meio” pretende dar um enquadramento à compreensão das políticas monetárias ou orçamentais mantidas enquanto a retoma não estiver “firmemente estabelecida”.

A implicação política

Recorde-se que a política monetária se tem pautado nos EUA pela manutenção das taxas diretoras da Reserva Federal (o banco central) em níveis próximos de 0% e por medidas não convencionais de “estímulos”, como os designados programas de “alívio quantitativo” (quantitative easing, na designação em inglês) de aquisição de ativos para injetar liquidez.

Desde 22 de maio que o presidente da Reserva Federal anunciou que o banco central poderá iniciar um processo de redução do programa de “alívio quantitativo” ainda este ano e do seu encerramento em 2014. Para mais adiante é apontada a subida das taxas diretoras.

Os efeitos deste processo – que os americanos batizaram de tapering – na economia estão a motivar um aceso debate. Para alguns, é o momento para proceder a essa redução em virtude da “bolha” criada em alguns segmentos do mercado financeiro mundial, para outros – como a retoma ainda não está “firmemente estabelecida” – é uma decisão de alto risco que pode matar a recuperação e provocar uma recaída na recessão (o que os americanos chamam de double-dip).

OS CUSTOS ELEVADOS DE UMA RETOMA

A individualização da fase do “meio” permite, tambem, avaliar os custos associados a uma retoma demorada. A duração agrava a profundidade desses custos.

“No ciclo iniciado em 2007, os custos desta retoma lenta já são mais do triplo dos custos sofridos durante a recessão”, afirmam os dois académicos.

Os custos durante o período de recessão entre o final de 2007 e o segundo trimestre de 2009 foram de 5,54% do PIB, mas dispararam para 16,57% do PIB durante a retoma que se seguiu ao verão de 2009, um nível jamais visto desde 1948. E poderão subir mais, pois a retoma ainda não deu lugar à plena expansão.

Um facto paradoxal

Por mais paradoxal que pareça, nas fases de retoma registadas nos ciclos das crises iniciadas no quarto trimestre de 1990 e no final de 2007, os custos sofridos foram “maiores do que o custo na fase de recessão”. E, no caso da atual crise, é, pela primeira vez, anormalmente maior. O custo mede-se pela perda acumulada no PIB em relação ao seu nível potencial. Esse custo é expresso através de uma percentagem do PIB anual registado no momento de pico anterior à recessão.

As perdas em relação ao nível potencial já são de 22,1% do PIB no caso da recessão e retoma do atual ciclo de crise e foram de 11,72% no caso do ciclo iniciado no quarto trimestre de 1981. São os dois períodos com custos mais elevados desde 1948. O estudo abrange 11 ciclos desde 1948.

O ciclo da crise atual nos EUA iniciou-se após o pico da expansão económica anterior no quarto trimestre de 2007. A recessão foi profunda nos trimestres seguintes até ao ponto mais baixo em junho de 2009. A partir dessa altura iniciou-se uma retoma que ainda está em curso. Uma data para o início do período de expansão plena continua a ser do domínio das apostas.

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