América corre o risco de um default “por uns dias” em agosto

A palavra default subiu pela primeira vez explicitamente ao palco político nos Estados Unidos e passou a ser tema de conversa no mundo. A crise da dívida soberana ameaça entrar na vida americana. A luta política no Congresso dos Estados Unidos em torno do aumento do limite de endividamento do governo federal está a provocar uma onda de nervosismo entre os investidores na dívida emitida pelo Tesouro americano.

Dois responsáveis chineses advertiram na semana que terminou que os parlamentares americanos que se opõem ao aumento desse teto estão “a brincar com o fogo”. Li Daokui, do Banco Central da China, afirmou que havia o risco real de um default da dívida americana, no que foi acompanhado por Yuan Gangming, da Academia de Ciências Sociais da China. Gangming referiu inclusive que a guerrilha política interna nos Estados Unidos, à medida que se aproxima a eleição presidencial de 2012, poderá colocar em risco a situação do Tesouro americano.

Segundo a Reuters, alguns congressistas republicanos “pensam que um default técnico [no princípio de agosto] poderá ser o preço a pagar para que a Casa Branca aceite cortar na despesa” e imaginam que os credores aceitariam “um pequeno atraso, talvez uns dias” até que consigam dobrar Obama. O novo ano fiscal inicia-se a 1 de outubro, pelo que esta guerrilha não vai parar no verão.

Para além da China, logo o Banco Central da Índia e o Banco Central do Omã (refletindo a voz do Golfo) vieram manifestar publicamente a sua apreensão.

Rating ameaçado

Para completar o ramalhete, a agência Fitch, veio ameaçar na quarta-feira que poderia baixar no princípio de agosto o rating dos Estados Unidos do nível atual de triplo A para B+ se se verificar qualquer default técnico ou moratória na altura do vencimento de letras do Tesouro americano no valor de 30 mil milhões de dólares a 4 de agosto, e se o assunto não for resolvido até 11 de agosto, quando há novo vencimento de dívida. Na semana anterior tinha sido a vez da Moody’s Investors Service a ameaçar que procederia a uma revisão da notação dos Estados Unidos em julho se o assunto continuar no pé atual.

Este problema deriva do facto do nível máximo de endividamento federal já ter sido atingido a 16 de maio. Um conjunto de medidas extraordinárias tomadas pelo secretário do Tesouro, Tim Geithner, permitiu adiar a situação de ruptura até 2 de agosto.

A dívida pública americana atingiu os 14,3 biliões de dólares. Cada cidadão americano nasce com 143 mil dólares de dívida ao pescoço desde que o cordão umbilical é cortado. O PIB americano foi de 14,7 biliões no ano passado, pelo que a dívida pública é praticamente 100% do PIB.

Mal estar económico: retoma que não retoma

Os números da economia americana continuam a desagradar. E muitos analistas e economistas falam do risco de uma recaída na recessão – double-dip na designação inglesa. O desemprego, segundo o relatório do US Bureau of Labor Statistics de 3 de junho, atingiu os 13,9 milhões de pessoas, uma taxa de desemprego de 9,1% em final de maio, em que o desemprego estrutural é de 45,1% e o desemprego entre os jovens é de 24,2%. É o mais alto desemprego estrutural desde 1969 . O número mais elevado neste período foi em janeiro de 1983 com cerca de 3 milhões – hoje são 7 milhões.

Há já mais de 800 mil “trabalhadores desencorajados” que já não procuram emprego. Espera-se que o nível de desemprego suba para 9,2% em final de junho.

A economia americana vive do consumo interno em 70% da sua dinâmica e este está afetado por duas doenças: o desemprego (já referido) e a quebra brutal no valor do imobiliário detido pelas famílias americanas. A baixa do preço do imobiliário (e o consequente valor em ativos detidos pelas famílias) desde o rebentar da bolha em 2007 já fez desaparecer 7 biliões de dólares (cerca de €5 biliões) e espera-se que caia mais 1 bilião no próximo ano. O professor Robert Shiller, da Universidade de Yale, e co-autor de um indicador sobre o imobiliário americano (conhecido como S&P/Case-Shiller home price índex), disse esta semana que não ficaria surpreendido se os preços do imobiliário caíssem ainda mais 10 a 25%, segundo a Reuters.

Ben Bernanke, o presidente da Reserva Federal (FED, o banco central), no seu discurso da semana passada na Conferência Monetária Internacional, em Atlanta, apesar de admitir uma retoma económica “espasmódica e frustrante” que continuará a exigir “uma política monetária acomodatícia” (na fixação dos juros), insistiu que o consenso dentro da equipa da FED é que se assistirá a uma inversão no segundo semestre e que o surto inflacionário será temporário. No entanto, o presidente da FED advertiu os políticos republicanos que “uma consolidação orçamental abrupta no curto prazo” poderá enfraquecer ainda mais a “retoma ainda frágil”.

Este desapontamento ocorre em simultâneo com uma economia totalmente inundada por dinheiro quente. A base monetária dos EUA atingiu agora um recorde de 2,5 biliões de dólares (€1,75 biliões, €1750 mil milhões). Há menos de 3 anos, durante a bolha, essa base monetária era de 820 mil milhões de dólares, ou seja a intervenção monetária na economia desde a crise gerou um aumento de 300% – o que compara com os magros 44% entre 2000 e 2007.

Quem beneficiou da injeção monetária?

Para onde foi essa inundação de dinheiro? Não para a economia real. Os bancos aumentaram as suas reservas na Reserva Federal (FED) e embrenharam-se na especulação financeira uma vez mais.

Peter Cohan é muito claro sobre esta política de Bem Bernanke: “Já vimos que o efeito desta injeção de dinheiro não levou ao crescimento do emprego – as empresas estão a ‘armazenar’ o dinheiro nos seus balanços, os bancos usam-no para comprar títulos do Tesouro em vez de emprestar às empresas e os traders utilizam-no para especular nas commodities“.

Paul Krugmam colocou os nomes nos bois na sexta-feira passada na sua coluna no The New York Times com um artigo sugestivamente intitulado: “Governados por rentiers“. Rentiers é a palavra francesa, usada em economia, para os que vivem de rendas financeiras. Diz o Nobel: “Estou cada vez mais convencido de que [a paralisia das políticas transatlânticas] é uma resposta à pressão de grupos de interesse. Conscientemente ou não, os decisores estão a servir quase exclusivamente os interesses dos rentiers“.

Preocupante também o facto da FED ter ultrapassado a China como principal credor do Tesouro norte-americano. Harm Bandholz, economista-chefe do UniCredit nos EUA, deu os detalhes: em virtude do QE2 (2º programa de alívio quantitativo, quantitative easing em inglês, que injetou 600 mil milhões de dólares desde novembro de 2010), a FED passará a deter 16% da dívida federal no final de junho, bem à frente da China que deteria menos de 12% em finais de março. Os detentores seguintes desta dívida são as famílias americanas (como aplicação de poupanças), o Japão, os governos estaduais e locais da federação americana e os fundos de pensões privados.

A última revoada de compras do QE2 somará 50 mil milhões de dólares entre 13 e 30 de junho, conforme foi anunciado pelo Banco da Reserva Federal de Nova Iorque. O QE1 funcionou entre novembro de 2009 e meados de 2010.

Se Ben Bernanke decidir não renovar nenhum programa de alívio quantitativo quando o QE2 terminar no final deste mês, alguém terá de preencher o lugar principal na aquisição de títulos do Tesouro e para tal os juros dos títulos do Tesouro terão de subir significativamente para ser atrativos. Atualmente, os juros dos títulos do Tesouro americano são mais baixos do que os juros dos Bunds (títulos alemães) nas maturidades a 5 anos (1,56% contra 2.17%), mas superiores nas maturidades a 10 anos (2,97% contra 2,96%) e 30 anos (4,18% contra 3,52%).

As bolsas refletiram este mal-estar. O índice bolsista S&P quebrou 1,4% na sexta-feira, findando uma semana em que caiu 2,24%. Desde o pico em 29 de abril, o S&P já desceu quase 7%. Foi a sexta semana consecutiva em baixa. O índice bolsista Dow Jones desceu abaixo dos 12.000 pontos.

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