Como o FMI vê o futuro próximo da zona euro — risco de uma “armadilha de crescimento lento”

Um dos riscos que a economia mundial enfrenta no médio prazo é o de uma “armadilha de crescimento lento” na zona euro e no Japão, diz o “2013 Spillover Report ” do Fundo Monetário Internacional (FMI) publicado hoje. Este relatório avalia os efeitos globais das políticas em cinco economias consideradas sistémicas – China, Estados Unidos, Japão, Reino Unido e Zona Euro.

No caso da zona da moeda única, essa “armadilha” pode reduzir o crescimento económico da região em quatro pontos percentuais no médio prazo, daqui a cinco anos, e terá um impacto negativo na economia mundial de um ponto percentual nesse horizonte. Essa “armadilha” poderá, também, ficar associada a uma dinâmica de deflação nos países periféricos da zona euro. Nesse cenário, há o risco de “eventos extremos” ocorrerem, se “o processo de ajustamento descarrilar ao nível nacional devido a fadiga de uma austeridade crescente”, diz o relatório.

Segundo o FMI, a solução para diminuir os riscos é reforçar a sincronização de políticas das cinco economias sistémicas e explorar sinergias. Uma estratégia desse tipo aumentaria o PIB mundial em três pontos percentuais num horizonte de longo prazo, a dez anos, segundo o cálculos dos técnicos da organização chefiada por Christine Lagarde. As cinco economias sistémicas do planeta continuam a operar “extensivamente abaixo do seu potencial” e isso tem de ser alterado, diz o relatório.

Sete prioridades

Com esse objetivo em mente, o relatório do Fundo aponta um conjunto de prioridades para as cinco economias sistémicas:

# Consolidação orçamental credível de médio prazo nos EUA e Japão;

# Política orçamental “mais amiga do crescimento” no curto prazo por parte dos EUA e Reino Unido;

# Prosseguimento da política de “estímulos” monetários – através dos bancos centrais – nos EUA, Japão, Reino Unido e Zona Euro; a única exceção para esta recomendação é a China;

# Calibração adequada das estratégias de abandono das políticas monetárias de “alívio quantitativo” (quantitative easing, na designação em inglês), sobretudo por parte da Reserva Federal norte-americana;

# Ações para reduzir a fragmentação financeira na Zona Euro, através da implementação institucional rápida da união bancária e de mais medidas monetárias não convencionais (fora do âmbito da gestão das taxas diretoras) por parte do Banco Central Europeu;

# Implementação de reformas estruturais para melhorar a produtividade na Europa e no Japão;

# Transição do modelo de crescimento económico na China no sentido da “locomotiva” passar a ser o consumo doméstico, e não, como até aqui, o investimento e as exportações.

Riscos do abandono dos “estímulos” nos EUA

O relatório analisa com algum detalhe a probabilidade de uma redução e abandono posterior da política de “alívio quantitativo” (QE, acrónimo em inglês para quantitative easing) por parte da Reserva Federal norte-americana (FED).

A calibração desse processo é crítica. Essa gestão enfrenta um dilema, diz o FMI, dilema que é particularmente agudo no caso dos EUA, que irá proceder a essa revisão estratégica num futuro próximo, como foi anunciado pela FED em junho.

“[Os efeitos] dependem da altura em que o abandono do QE seja realizado – demasiado tarde arrisca-se a alimentar ‘bolhas’ em mercados de ativos e desequilíbrios; demasiado cedo matará o crescimento”, diz o relatório, que acrescenta um detalhe: mesmo que o abandono do QE seja realizado no momento certo, “a reação dos mercados pode ser desordenada como o atestam os acontecimentos em maio e junho”.

Essa reação recente teve um impacto particular nas yields da dívida soberana de alguns países, como o Brasil, Indonésia, Turquia, Grécia e Portugal. O FMI fala de que se registou um disparo significativo nestes casos.

Estímulos monetários nos EUA e programa OMT na Zona Euro foram positivos

O relatório considera que os riscos extremos foram afastados no ano passado graças às políticas de “estímulos” monetários seguidas pelas cinco economias sistémicas. O FMI estima que tais ações valeram 2 a 5 pontos percentuais no crescimento global. A correção dos desequilíbrios globais em 2012 terá valido 0,75 pontos percentuais do PIB mundial. Se não tivessem existido tais políticas e correções de desequilíbrios, a economia mundial teria regressado provavelmente a uma recessão ou estagnação, em vez de ter crescido 3,1%.

Explicitamente, os técnicos do FMI dizem que a política de “alívio quantitativo” da Reserva Federal norte-americana teve impacto positivo na economia americana e a nível global. Em relação, aos efeitos do mesmo género de política monetária seguida no Reino Unido e no Japão, o estudo do Fundo considera que é difícil tirar a mesma conclusão positiva. Há “maior ambiguidade” nos resultados, diz.

Mas o FMI não tem dúvidas de que várias medidas tomadas na zona euro tiveram efeitos positivos. O relatório cita três mais importantes: o lançamento do programa OMT (de potencial aquisição ilimitada no mercado secundário de obrigações soberanas de países membros do euro) pelo BCE no verão passado; a operacionalização do Mecanismo Europeu de Estabilidade; a reestruturação da dívida grega e a decisão pelo segundo resgate à Grécia. No conjunto, essas medidas impulsionaram o PIB mundial entre 1,5 e 3 pontos percentuais e reduziram o stresse provocado pelo risco de redenominação de dívidas nos periféricos da zona euro.

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