Dossiê China: Para onde vai o “Império do Meio”?

Um inquérito a vários especialistas chineses e estrangeiros sobre o atual curso na segunda maior economia do mundo.

Textos e entrevistas por Jorge Nascimento Rodrigues
Atualizados a julho 2013. Versões originais no semanário português Expresso e na revista portuguesa Exame.
© Dossiês 2013

O mundo foi surpreendido por vários “choques” recentes vindos da China. O mito da China como uma supereconomia, como o eterno dragão do Pacífico imune a crises, protegido por uma muralha, parece ter levado um rombo. O jornal alemão Handelsblatt aproveitava para intitular, esta semana, que o que se passa na economia chinesa é mais um traço de “O Fim da Euforia” dos BRIC.

O primeiro choque, e mais forte, registou-se no campo financeiro. Em junho rebentou uma crise no crédito interbancário com um disparo entre os dias 17 e 20 nas taxas da Shibor (a Libor de Xangai) que abalou as bolsas à escala mundial.

O segundo abalo foi de “comunicação”. A agência oficial de notícias Xinhua viu-se obrigada a “corrigir” um despacho onde relatava que o ministro das Finanças Lou Jiwei teria admitido numa conferência em Washington no dia 11 de julho que “a meta de 7% não deve ser considerada como o ponto de partida”. As declarações do ministro foram reescritas, no dia seguinte, para alinharem com o discurso oficial de que o crescimento será de 7,5% e que essa é a “média” política para os próximos anos. O terceiro choque foi psicológico. O destacado economista Xia Bin, diretor-geral do Instituto de Investigação Financeira junto do Conselho de Estado (o governo chinês), disse preto no branco, num fórum em Pequim, no dia 14 de julho, que “precisamos de encontrar a forma de deixar a bolha estourar e de amortizar as perdas que já temos o mais rápido possível para evitar uma crise maior”.

Finalmente, um abalo político, menos referido no Ocidente. O primeiro protesto bombista no aeroporto de Pequim correu mundo na Internet quase em direto no dia 20 de julho. Ji Zhongxing protestava no terminal 3 contra o facto de ter ficado numa cadeira de rodas, sem qualquer indemnização, depois de ter sido agredido brutalmente pela polícia de Cantão em 2005. A Amnistia Internacional já reportara 41 casos de autoimolação de chineses desesperados entre 2009 e 2011.

O “sonho chinês” da liderança XL

A ironia é que estes sinais ocorrem com uma nova liderança em Pequim desde março, que está ciente da necessidade de uma transição para outro modelo económico. A nova administração chinesa liderada pelo presidente Xi Jinping e pelo primeiro-ministro Li Kuqiang tem vindo a desvendar a nova estratégia da segunda maior economia do mundo. Ironicamente, a nova administração foi batizada de XL, não pelo tamanho dos fatos, mas pelas iniciais de Xi e Li.

A nova estratégia assenta em três eixos – uma nova política económica que muitos analistas já apelidam de “Likonomics” (do nome do primeiro ministro); o início de uma ação geopolítica baseada nas relações entre grandes potências; e uma campanha ideológica dentro do Partido Comunista da China para acabar com o “formalismo, a burocracia, o hedonismo e a extravagância”. Esta campanha ideológica, lançada a 9 de julho, tem claramente a ver com a necessidade vital de travar o clima de “bolha” em que a China tem vivido e estender-se-á até meados de 2014.

Virgínia Trigo, responsável pelos programas na China do ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa, refere que a administração chinesa lançou ultimamente “um slogan inspiracional”, o “sonho chinês”. Na realidade, o grande reformador chinês Deng Xiaoping, nos anos 1980, nunca disse a frase “ser rico é glorioso”, que foi popularizada por um livro de Orville Schell em 1984. Deng incentivou a que a sociedade, profundamente marcada pelo maoismo, deixasse “para começar, que alguns se tornem ricos” e isso foi tomado à letra por muitos milhões em todo o país, a começar pelas regiões costeiras. “Enriquecer passou a ser o único ideal que ocupou o vazio quando o entusiasmo em torno do maoismo se esvaneceu. O dinheiro substitui a ideologia e a apatia. O presidente Xi Jiping, agora, quer que os chineses enfrentem os problemas de um modo mais sonhador e menos materialista”, diz a professora portuguesa.

No “sonho chinês” cabem, certamente, muitas coisas, entre elas a afirmação do país como uma grande potência no xadrez político mundial, mais do que o lugar de segunda economia que já foi alcançado. O novo paradigma, disse Xi Jiping, é “um novo tipo de relações entre grandes potências”. Evitar os erros da União Soviética e do Japão noutras épocas nessa corrida é, certamente, uma prioridade em Pequim.

No terreno das “Likonomics” (ver entrevista com Shaozhuang Ma), o Conselho de Estado anunciou no início de julho o que é designado como “Jin Shi Tao”, ou plano das 10 medidas financeiras, em que um dos pontos nevrálgicos – e que mais resistência poderá ter – é restringir o crédito aos projetos imobiliários e aos veículos financeiros extraorçamentais das administrações locais e regionais que se tornaram populares desde 2009 em “resposta” à crise mundial. Se se incluírem esses veículos financeiros e todas as atividades desorçamentadas, o défice público de 2012 dispara de 2% para 10% do PIB e a dívida pública mais do que duplica de 20% para 45% do PIB, segundo dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) na sua última análise à economia chinesa, publicada a 17 de julho (http://www.imf.org/external/pubs/cat/longres.aspx?sk=40786.0 ). A diferença é, de facto, colossal entre os indicadores oficiais e os “aumentados”, como os designa eufemisticamente o FMI. Deste modo a margem de manobra orçamental para estimular a economia é muito menor do que se julga.

O demónio do disparo do crédito

O grande demónio é o disparo do crédito com o inerente sobreinvestinento e sobreendividamento. O crédito total à economia, que a China designa por “financiamento social total”, saltou de 129% do PIB em 2009 para 195% do PIB no final do primeiro trimestre de 2013. Estima-se que o peso do crédito oriundo do “sector financeiro sombra” (englobando empréstimos particulares, financiamento paralelo e oriundo de bancos em Hong Kong) represente 28% do PIB, com juros de 9% ao ano no prazo médio de três anos.

Xu Hongcai, professor de Finanças e diretor do think tank China Center for International Economic Exchanges (CCIEE) em Pequim, diz-nos que este sector sombra “é ainda controlável” e espera que o panorama mude com o incentivo oficial para que “o capital privado entre na indústria financeira”. Uma das iniciativas mais arrojadas é a transformação de Xangai numa zona franca financeira, sublinha, por seu lado, Dan Steinbock, um finlandês que é professor no Instituto de Estudos Internacionais de Xangai e no Centro da União Europeia em Singapura.

O retorno do investimento caiu de 25% no início da década de 1990 para 16% atualmente. O diferencial entre o crescimento anual do crédito e da economia ampliou-se desde 2012. No primeiro trimestre de 2013, em termos homólogos, o crédito aumentou 20% e o PIB apenas 7,7%. Ou seja, o efeito multiplicador do crédito é escandalosamente negativo. Quase 2/3 do dinheiro emprestado não tem efeito produtivo. A financeirização domina a China.

Um dos efeitos é a gigantesca sobrecapacidade produtiva. O governo identifica nove sectores em situação mais dramática, diz-nos Marc Chandler, analista de Nova Iorque: aço, agroindústrias, alumínio, automóvel, cimento, construção naval, eletrónica, farmacêutica e metais raros. “Mas este problema de excesso de capacidade é uma das dimensões do excedente de capital que há no mundo e não é exclusivo da China”, conclui o analista.

No entanto, surpreendentemente, o investimento direto estrangeiro (IDE) na China teve em junho a maior subida mensal desde 1997 e envolveu sobretudo investidores japoneses, europeus e norte-americanos. O objetivo de atração de 120 mil milhões de dólares em 2013 deverá ser cumprido. Se Hong Kong for adicionado é provável que este ano, tal como em 2012, o IDE na China eclipse o registado nos Estados Unidos.

O dilema de Pequim

A liderança chinesa enfrenta, por isso, um dilema. “Há sempre o risco de instabilidade financeira, mas o Banco Popular da China, o banco central, parece estar muito vigilante. Ainda que uma crise de crédito de envergadura possa resultar das ações que o banco central tomou recentemente para travar o crédito, seria muito mais arriscado se continuasse a permitir a excessiva acumulação de dívida”, refere-nos Anisuzzaman Chowdhury, professor de Economia da University of Western Sydney, na Austrália. “Continuar esse caminho apenas levará a um estoiro massivo da bolha como se viu no Japão no princípio de 1992. O resultado seria uma economia em deflação para décadas”, recorda este especialista asiático. Entre as primeiras medidas de liberalização, a partir de 20 de julho, o banco central acabou com a fixação de um limiar mínimo nas taxas de juros praticadas pelos bancos comerciais no crédito, excluindo o crédito à habitação particular, dando, assim, um impulso à concorrência bancária, mas controlando a “bolha” imobiliária.

O prémio Nobel Paul Krugman escreveu recentemente numa coluna no jornal International Herald Tribune (http://www.nytimes.com/2013/07/19/opinion/krugman-hitting-chinas-wall.html?_r=1& ) que estava muito preocupado com a China. A razão é que a transição na China ocorre num momento de confluência com uma desalavancagem em curso nas economias desenvolvidas, onde o fantasma da deflação e de uma recaída global na recessão assustam. Em economês, o Nobel disse que o risco que se vive é de convergência de um “ponto de viragem Lewis”, do nome do Nobel Arthur Lewis (em que o exército barato de reserva de mão de obra excedentária dos campos se esgotou), na China com um “momento Minsky” no Ocidente, onde todos procuram desalavancar ao mesmo tempo, o que não dará bom resultado, como alertou há muito o economista Hyman Minsky.

O FMI diz que o ponto de viragem Lewis poderá ocorrer já em 2020. Daí a premência de acelerar a transição de um modelo mercantilista e baseado na “acumulação primitiva” (a já referida migração interna em larga escala) para um outro centrado no consumo interno e de mudar de um crescimento extensivo baseado na realocação de mão-de-obra para um intensivo alimentado pelo fator produtividade total. Se esta transição não for realizada, a China acabará por estagnar em termos de crescimento do PIB per capita em 2030, distanciando-se da dinâmica conseguida pelo Japão entre 1955 e 1982 e pela Coreia do Sul entre 1961 e 1997. Em vez de copiar os “tigres do Pacífico” no período de glória, a China corre o risco de nem sequer chegar a um nível de 40% do PIB per capita dos Estados Unidos ao fim de 50 anos de expansão desde a queda do maoismo e o início das reformas capitalistas no final dos anos 1970.

O mito de crescer a altas taxas

Face ao dilema, a primeira grande mudança foi o abandono do simbolismo do objetivo político de um crescimento de 8%, um limiar abaixo do qual Pequim jurava não deixar a economia abrandar para que as reformas não fossem encaradas como um fiasco. Mas o sobreaquecimento convenceu os líderes no campus governamental de Zhongnanhai que o “abrandamento desde 2011 é apropriado e reflete as mudanças estruturais em curso na China e globalmente”, relata o FMI. Depois de um pico de 11,9% no segundo trimestre de 2010, a taxa de crescimento do produto interno bruto (PIB) abrandou nos 13 trimestres seguintes. Os dados oficiais apontam para um crescimento homólogo de 7,5% no segundo trimestre deste ano. É a menor taxa de crescimento nos últimos 23 anos. No entanto, em cadeia, o crescimento foi inclusive inferior a 7%. O FMI é, no entanto, mais otimista que os chineses – aponta para 7,75% em 2013.

Os próprios números oficiais do crescimento merecem reservas. Um dos críticos é Michael Pettis, professor na Escola de Negócios Guanghua na Universidade de Pequim: “O consumo de energia subiu em maio 4,9% em termos homólogos, mas o crescimento oficial é superior a 7%. Anteriormente havia algum alinhamento entre estes números, mas, agora, é difícil reconciliá-los”. Mas Pettis vai mais longe: “É preciso dizer claramente que o desenvolvimento da China não precisa de um PIB a crescer a 7,5%. Isso é um mito que tem de ser abandonado”. Segundo um estudo do Crédit Suisse, historicamente, a mudança de modelo económico implicou uma redução para um terço ou para metade da taxa de crescimento. Segundo o FMI, a transição de modelo de crescimento vai implicar a descida da média para o patamar dos 6% entre 2013 e 2030. Pettis é ainda mais radical: “Não há reequilíbrio sem abrandar o crescimento provavelmente para 3 a 4% na próxima década”.

Para Steinbock, não se trata, no entanto, de “uma aterragem forçada”, dramática e trágica. A viragem para o consumo interno até pode ser um excelente negócio. A consultora McKinsey diz que 75% da população urbana chinesa em 2022 terá um nível de classe média e que a sua camada alta, com a procura de uma “satisfação emocional” que a diferencie da massa, poderá dominar 56% do consumo privado urbano. “O problema nem é tanto o sistema financeiro sombra ou o lóbi bancário. Mas, as forças do ecossistema que alimentam as distorções, que estão ligadas ao velho modelo que funcionou até 2008, mas que agora desapareceu no caixote do lixo da história”, diz o especialista finlandês.

O caso mais alarmante é o do imobiliário. Dados oficiais para o primeiro semestre deste ano apontam para um montante de vendas de terrenos para projetos comerciais que é tanto como o registado em todo o ano passado. Não admira que haja um excesso de oferta de 20% e que os preços da habitação sejam exorbitantes se comparados com os níveis salariais. Nas cidades mais importantes, como Pequim, Xangai e Shenzhen, tais preços relativos são duas a três vezes superiores aos verificados em Londres e Nova Iorque. Pequim em termos relativos é duas vezes mais cara do que Tóquio. Em maio, a polícia de Pequim realizou um estudo no terreno e concluiu que 29,8% dos apartamentos estavam desabitados, recorda Michael Pettis.

Duas bombas relógio

Mas os problemas do dragão asiático não se ficam pela gestão da transição de modelo económico. Há duas bombas relógio, alerta-nos Michael Pettis.

Um dos factos mais marcantes desde as reformas implementadas por DengXiaoping foi a saída da pobreza extrema – vivendo com menos de 1,25 dólares por dia – de 68% da população entre 1981 e 2008. Mais de 500 milhões de chineses terão saído da miséria nos últimos trinta anos. No entanto, o grau de desigualdade social disparou, se medido pelo índice de Gini, de 29% em 1981 para 47% em 2012, segundo um estudo de técnicos do FMI, superior ao português que andará em 34,5%.

Por outro lado, a pressão demográfica “baterá” à porta da China nas duas próximas décadas. O rácio de dependência dos jovens com menos de 15 anos e dos idosos com mais de 64 anos em relação à população em idade de trabalhar aumentará de 13,5% em 2010 para 30% em 2030. Estes dois grupos sociais dependentes das famílias ou de pensões somarão mais de 500 milhões de habitantes naquele ano e 700 milhões em 2050. O início de um declínio no total de mão-de-obra ocorrerá depois de 2015, ou seja no curto prazo.

No entanto, um dos problemas críticos levantados por Michael Pettis é o das expetativas dos licenciados que são já hoje o maior contingente mundial, a significativa distância da Índia e dos Estados Unidos. Em 2020, os licenciados chineses serão 59 milhões entre os 25 e os 34 anos. A China tem, também, mais de um milhão de estudantes em universidades estrangeiras, mais do que a Índia ou a Coreia do Sul. A China é “o maior fornecedor de estudantes universitários no estrangeiro”, diz Chowdhury. O génio rebelde da classe média ainda não saiu da garrafa como no Brasil ou na Turquia, mas as perspetivas de futuro dos licenciados são uma questão social fulcral. “Na China, ter educação superior sempre foi uma fonte certa de ascensão social. É difícil prever o que acontecerá se essa perceção se alterar”, conclui Pettis.

Única saída é a inovação

A economia chinesa é muito sensível ao andamento das economias da zona euro e dos Estados Unidos que contam com 30% das exportações e também às mudanças de política monetária não convencional dos bancos centrais dos países desenvolvidos, em particular no caso dos “estímulos” monetários por parte da Reserva Federal.

Na entanto, para além da conjuntura nos mercados de destino, há três fatores que pressionam as exportações chinesas. “O primeiro é a valorização do renminbi, que subiu até junho 6% em termos reais nos últimos doze meses, o que torna as exportações menos atrativas. Em segundo lugar, o nível salarial aumentou consideravelmente nos últimos anos. Finalmente, a proteção ambiental fez disparar os custos de produção”, refere Xu Hongcai, diretor do CCIEE. Em relação ao primeiro fator, o FMI considera que a divisa chinesa está, ainda, “moderadamente” subvalorizada entre 5 a 10%, o que só poderá piorar a situação.

Dan Steinbock, por seu lado, chama a atenção para a diferença entre a crise atual iniciada em 2008 e a crise asiática de 1997-98. “No final dos anos 90 foi possível aos novos países industrializados da Ásia uma retoma rápida baseada numa estratégia de exportação baseada nos mercados dos EUA, Europa Ocidental e Japão. Hoje em dia, essas perspetivas são muito menores para a China”.

A mudança só pode vir da “subida na cadeia de valor”. Passar do “fabricado na China” para o “inventado na China”, diz Shaozhuang Ma, vice-reitor da Escola de Negócios da Universidade de Estudos Estrangeiros de Cantão. Os chineses, desde 2006, que têm como doutrina oficial “co-inovar e re-inovar” a partir da “assimilação de tecnologias importadas”. Virginia Trigo, responsável dos programas do ISCTE na China, chama a atenção para o facto de que aquele país não é um deserto em criatividade nem em gente qualificada: “Há grandes bolsas de inovação. As suas fontes são as mais variadas – independente, em parceria e por aquisição”.

Kal Raustiala, diretor do Burke Center for International Relations, na Universidade da Califórnia em Los Angeles, diz-nos que a China há muito que está a fazer essa transição, tal como os Estados Unidos o fizeram no final do século XIX e o Japão nos anos 50 a 70 do século XX. A China, sublinha Raustiala, enveredou por uma cultura de “cópia criativa”, com o benefício de aproveitar uma oportunidade de que os japoneses não dispunham décadas atrás – a digitalização e a Internet. Esse movimento criou uma vaga de “imitadores-inovadores”, como a Xiaomi, a Weibo, a Youku, que superam inclusive, em muitos aspetos, as empresas ocidentais que “copiaram” (respetivamente a Apple, o Twitter e You Tube), casos que o especialista analisa em “The Knockoff Economy: How Imitation Sparks Innovation”. “Não é evidente historicamente que todas as grandes potências nascentes se dedicaram à cópia, mas isso aconteceu nos casos dos EUA e do Japão, e o mesmo se passa com a China”, afirma.

Segundo o último relatório da Organização Mundial de Propriedade Intelectual das Nações Unidas (WIPO), a China submeteu mais patentes em 2012 do que qualquer outro país do mundo, ficando, pela primeira vez, à frente dos EUA. Dan Steinbock, por seu lado, prevê que “a China poderá ultrapassar os EUA em Investigação & Desenvolvimento numa década”. “A inovação chinesa passou a um novo patamar. Na medida em que as multinacionais chinesas estão a entrar nos mercados mundiais, a sua prioridade é adquirir novas tecnologias e competências, o que acelerará o desenvolvimento da inovação a médio prazo”, refere o finlandês

Para que serve a Europa?

A estratégia de Pequim está, naturalmente, focalizada, em termos geopolíticos, nos assuntos regionais da Ásia e do Pacífico e na projeção externa em África e na América Latina em virtude do fornecimento de energia e commodities. Mas a União Europeia é o principal parceiro comercial da China, sublinha Xu Hongcai, e é um terreno importante no campo financeiro para a nova estratégia de Pequim. “A China e o Reino Unido assinaram recentemente um acordo de swap cambial no valor de 200 mil milhões de renminbi (o equivalente a cerca de 25 mil milhões de euros). O próximo passo será estabelecer um mercado offshore de renminbi em Frankfurt”, recorda Xu. Dan Steinbock acrescenta que a Europa é, também, “estrategicamente vital” em termos de parcerias tecnológicas: “Devido aos seus interesses geoestratégicos na Ásia e à regulação de controlo de exportações, os EUA não podem desempenhar esse papel. A Europa pode preencher esse papel”. O que atrai a China para a Europa, diz Virgínia Trigo, responsável pelos programas de ensino do ISCTE na China, é “sobretudo obtenção de conhecimento e a aprendizagem em geral, das formas de gestão, da criação de marcas, de marketing, de tecnologia”. Por seu lado, Shaozhuang Ma, vice-reitor da Escola de Negócios da Universidade de Estudos Estrangeiros de Cantão, vai mais longe: “A Europa é importante para a China pois ajudará a equilibrar as relações com os EUA”.

DUAS ENTREVISTAS

“Os pilares da ‘likonomics’: Cortar estímulos e crédito e reformar a economia”

Shaozhuang Ma, Vice- reitor da Escola de Gestão da Universidade de Estudos Estrangeiros de Cantão, professor convidado no ISCTE, em Lisboa

A nova administração chinesa empossada em março deste ano lançou duas novas estratégias, sublinha este académico doutorado pelo ISCTE em Portugal e que tem sido responsável pelos cursos de MBA na Escola de Gestão da Universidade de Estudos Estrangeiros em Cantão. No plano económico interno, a estratégia foi cognominada de “likonomics”. No plano geopolítico o novo paradigma resume-se numa frase proferida pelo presidente Xi Jinping: colocar em prática “um novo tipo de relações entre grandes potências”. Shaozhuang Ma é atualmente professor convidado no ISCTE.

P: Depois do neologismo “abenomics” no Japão, surgiu, agora, o “likonomics” para caraterizar a nova política económica na China. Em que consiste?

R: A expressão foi cunhada pela Barclays Capital e tornou-se popular cá dentro e no estrangeiro para interpretar a nova estratégia económica formulada pelo novo primeiro-ministro Li Keqiang. Assenta em três pilares: 1) Não mais estímulos. Minimizar o investimento direto governamental; 2) Desalavancar. O crédito cresceu mais do que o PIB. Está perto de 200% do PIB; 3) Reformas estruturais: urbanização, minimizar o controlo governamental sobre as atividades económicas e, mais recentemente, encorajar o investimento privado em instituições financeiras e desenvolver bancos privados.

P: O crescimento vai mesmo abrandar, afastando-se dos objetivos oficiais?

R: Muitos economistas pensam que o governo de Li já ajustou o crescimento anual para um mínimo de 7%, ainda que a meta oficial seja 7,5%. No primeiro semestre, em termos homólogos, o crescimento subiu 7,6%, segundo os últimos dados.

P: A exportação está toldada por nuvens na Europa e EUA, o que implicou uma baixa das exportações para estes dois mercados pelo quarto mês consecutivo?

R: Sem dúvida. As exportações, em geral, em junho, caíram 3,1%, em termos homólogos.

P: Vamos assistir a outra crise no mercado interbancário chinês como a registada na segunda metade de junho?

R: É pouco provável que se repita nos próximos doze meses, segundo o especialista Zhang Chenhui, do Centro de Investigação do Conselho de Estado. A China não arrisca uma grande crise de crédito. Não é também provável uma onda de falências nos bancos.

P: A China vai conseguir entrar no campeonato mundial da inovação, ou continuará a ser um fabricante para outros e um imitador?

R: Já foi lançada a campanha de passar do “fabricado na China” para o “inovado na China”. Estamos a tentar mudar para uma economia de serviços e baseada no conhecimento.

P: Como vê o papel da China no mundo nos próximos anos?

R:A China está a posicionar-se como número dois, a seguir aos EUA. No recente diálogo estratégico e económico com os Estados Unidos, os delegados chineses exploraram o que o presidente Xi Jinping definiu como novo tipo de relações entre grandes potências. Com uma crescente influência na economia mundial, é natural que a China procure desempenhar um papel crescente.

P: Qual é o papel da Europa nesse novo paradigma?

R: A Europa é importante para a China porque pode ajudar a equilibrar as relações com os EUA.

P: E em relação aos outros espaços?

R: Há uma relação cada vez mais estreita com a América Latina, pois precisamos de matérias-primas, enquanto esses países ganham com o crescimento chinês. Quanto a África é não só um parceiro económico importante, mas significa, também, uma aliança política. Quanto aos seus vizinhos asiáticos, a China necessita de uma relação harmoniosa, mas há disputas territoriais que incluem Japão, Filipinas e Vietname.

Desemprego entre licenciados pode vir a ser uma bomba relógio

Uma conversa com Michael Pettis, professor na Universidade de Pequim

«Na China ter uma formação superior sempre foi a via certa para a mobilidade social. É difícil prever o que poderá acontecer se essa perceção mudar»

A China provocou alguns calafrios no mundo quando rebentou a crise no mercado interbancário em junho. Para alguns analistas o principal risco para o crescimento mundial vem, agora, da China, que tem sido a locomotiva do globo. A “bolha” financeira é gigante. “A orgia de investimento tem proporções historicamente inéditas”, diz-nos o académico Michael Pettis, de 55 anos. Nascido em Espanha, filho de pai norte-americano e mãe francesa, desde há anos radicado na China, é perito em mercados financeiros e professor na Escola de gestão Guanghua da Universidade de Pequim.

Olhando para a “bolha” imobiliária, a situação é de choque: “Ainda em maio, o departamento de polícia de Pequim realizou um inquérito de campo e descobriu que 29,8% dos apartamentos estavam desabitados – e continuam a construir como se não houvesse amanhã”, diz-nos este académico que ficou célebre na noite de Pequim por ter fundado o nightclub D22, uma catedral do punk-rock, um ícone dos notívagos pequineses, que ao fim de dez anos fechou. Mas logo reabriu o clube XP.

O dilema para o Conselho de Estado – o governo chefiado pelo primeiro-ministro Li Kewiang – localizado no campus de Zhongnanhain, perto da Cidade Proibida, é dramático. “Não é possível refrear a expansão do crédito sem provocar um abrandamento da economia ainda maior, e não é possível manter altos níveis de crescimento sem que o crédito dispare. Se não diminuírem o crescimento da dívida bruscamente, arriscam uma crise de dívida. Isto é algo que Pequim percebe perfeitamente”, afirma o académico e dono da marca discográfica Maybe Mars. Em suma, o modelo de crescimento baseado nas exportações, no disparo do crédito, na expansão rápida de um “sistema financeiro sombra” e na “bolha” imobiliária esgotou-se e a transição para outra estratégia não parece fácil, pois implica profundas mudanças no ecossistema que se cimentou ao longo de décadas. E fazer mudanças profundas é sobretudo um problema político e não técnico. O lóbi exportador é, naturalmente, muito poderoso. O crédito à exportação deve representar uma verba entre 45 a 70 mil milhões de dólares, a maior fatia à escala mundial, representando entre 15% a 24% do total do crédito à exportação, seguindo-se Japão, Alemanha, EUA, Índia e Brasil.

Mudança de “modelo” é politicamente difícil

“A boa notícia é que a nova administração chefiada pelo presidente Xi Jinping parece estar determinada a resolver os desequilíbrios macroeconómicos na China e a enfrentar o crescimento insustentável do crédito. Mas a má notícia é que se esperou tanto para o fazer que, agora, tem de se lidar com mais sobreinvestimento do que se imaginava, e isso deixou o país com muito crédito incobrável que ainda falta reconhecer”, refere o economista que ainda este ano publicou um livro que não nos deixa tranquilos, intitulado “The Great Rebalancing: Trade, Conflict, and the Perilous Road Ahead for the World Economy” (Princeton University Press, 2013). E adverte: “Apesar de tanto o governo e o mercado agora entenderem – provavelmente um pouco tarde – que o crescimento tem de abrandar substancialmente – sublinho substancialmente – penso que subestimaram seriamente a dimensão desse abrandamento, o que torna, agora, politicamente mais difícil fazê-lo do que imaginaram”.

O limiar político mínimo de 8% no crescimento anual foi abandonado já no ano passado ainda durante a presidência do antecessor Hu Jintao e as projeções oficiais atuais apontam para 7,5%. No entanto, alguns analistas esperam uma redução da meta oficial para 6% em 2014. O Fundo Monetário Internacional, na revisão da Primavera do “World Economic Outlook”, cortou as projeções de crescimento na China para 7,8% este ano e 7,7% no próximo ano. A revisão em baixa significou o abandono do patamar dos 8% (as anteriores projeções, feitas em abril, apontavam para 8,1% este ano e 8,3% no próximo) e refletem, agora, a perspetiva de que a trajetória das taxas de crescimento será decrescente (crescimento mais baixo em 2014 do que em 2013). Na realidade, a China já cresce abaixo dos 8% há 5 trimestres consecutivos. No 1º trimestre de 2013 cresceu 7,7% em termos homólogos e no 2º trimestre 7,5%.

Os próprios valores do produto interno bruto (PIB) são controversos e em junho o governo anunciou que iria dar mais atenção à qualidade das estatísticas e punir mais severamente as autoridades que fizessem vigarices com os números. “Números falsos tornam ainda mais difícil a gestão da economia”, diz Pettis, que faz uma comparação com o consumo energético registado: “Durante 20 anos até 2012, o consumo energético cresceu muito mais rapidamente do que o PIB. Por exemplo, em 2011, o PIB cresceu 9,6% e o consumo energético 11,6%. Mas, no ano seguinte, a situação alterou-se. O crescimento foi de 7,9% mas o consumo de energia foi apenas de 5,5%. Nos últimos doze meses, esse consumo cresceu ainda menos – em termos homólogos entre maio de 2012 e maio de 2013 cresceu apenas 4,9%. Mas os números oficiais para o PIB continuam acima de 7%. É muito difícil reconciliar estes números”.

Este abrandamento vai significar um “emagrecimento” do motor exportador. Segundo os dados divulgados em junho pela Administração Geral de Alfândegas, o comércio externo (exportações e importações) caiu 2% em termos anualizados; a exportação contraiu-se 3,1% em termos homólogos. “A China necessita desesperadamente de reduzir os níveis de investimento, mas como este é a principal fonte do crescimento, mesmo se é puramente desperdício, reduzir a taxa de investimento vai significar diminuir globalmente o crescimento e a dinâmica de exportações em particular. Este abrandamento é, também, afetado pela crise europeia e pelo abrandamento do crescimento nos Estados Unidos. O que significa que o impacto final sobre a atividade económica na China será ainda muito pior”, explica Pettis. E há o reverso da medalha – o abrandamento da economia chinesa arrastará uma redução das importações, e em particular de commodities e de bens intermédios fornecidos pelas economias emergentes e de bens e serviços de economias como as da zona euro. A Alemanha, a locomotiva da zona euro, já deu sinais de que esta onda de choque chegou este ano às suas exportações.

Dinheiro quente continua a girar

O anúncio da mudança de política monetária pela Reserva Federal norte-americana foi uma má notícia em junho, apesar de, na prática, ainda não se ter concretizado. O “dinheiro quente” que gira pelo mundo, e em particular nas economias emergentes, gerado por taxas de juro perto de 0% e pelos programas de “alívio quantitativo” do banco central norte-americano, pode mudar de ares. Pettis diz que ainda é cedo para ter um balanço dessa mudança: “Na primeira metade deste ano, o ‘dinheiro quente’ continuou a entrar na China para lucrar com as taxas de juro muito altas do renminbi (a moeda chinesa). Recentemente estas taxas ainda subiram mais, mas a perceção do risco também aumentou. O meu palpite é que o ‘dinheiro quente’ continua, no entanto, a entrar. É claro que nos últimos anos assistimos a períodos de fluxos de entrada líquidos massivos bem como o contrário. Na verdade, isso vai depender do que, na realidade, a Reserva Federal venha a fazer”. Pelo que os passos que vierem a ser dados em Washington serão ouvidos do outro lado do mundo, provavelmente com ainda mais ruído.

No entanto, Pettis não espera uma situação de bancarrotas em cadeia no sistema bancário e um pânico financeiro ao estilo ocidental. “As famílias chinesas na sua esmagadora maioria não conseguem colocar o dinheiro no estrangeiro e há poucas alternativas para as suas poupanças. Mesmo que os bancos estejam tecnicamente falidos – e eu penso que sim – não vão sofrer corridas às dependências, como aconteceu no Ocidente. Afinal para onde é que o dinheiro pode ir? Como um alto funcionário do Banco Popular da China (o banco central) disse: ‘A banca chinesa é ineficiente, mas estável’”.

O mau génio dos licenciados ainda está adormecido

O mau génio das classes médias ainda está dentro da garrafa, ao contrário do que se tem passado em países como o Brasil ou a Turquia. “Não creio que haja muita infelicidade entre as classes médias na China. As suas condições são incomparavelmente melhores hoje do que eram há uma década ou três décadas atrás. Continua a haver uma enorme fé no governo central em Pequim, ainda que menor em relação aos governos locais”, sublinha Pettis.

Por outro lado, o êxodo rural gerou uma população migrante gigante de mais de 150 milhões fora das suas regiões de origem durante estas décadas de crescimento acelerado. Se contabilizarmos os migrantes dentro das suas regiões de origem, o número salta para 260 milhões e as projeções para 2030 apontam para mais de 300 milhões. Alguns analistas temem que se transforme, agora, numa bomba relógio. Michael Pettis acha, no entanto, que “é, ainda, cedo para saber qual o impacto que o desemprego, resultante do abrandamento, vai ter nas migrações rurais”. E prossegue: “A maioria dos chineses quer viver hoje em cidades, já que as condições no mundo rural ainda poderão ser más – muitas zonas do interior não são muito melhores do que o Haiti ou o Equador. Mas se houver menos emprego nas cidades, a migração rural poderá tornar-se terrível para as condições sociais nas cidades”.

O grande problema pode vir de outro lado. “O que me preocupa sobretudo é o desemprego entre os licenciados universitários. Na China ter uma formação superior sempre foi a via certa para a mobilidade social. É difícil prever o que poderá acontecer se essa perceção mudar”, conclui Michael Pettis.

A evolução do número de licenciados na China não terá precedentes. Eles são já hoje o maior contingente no mundo. Segundo a OCDE, em 2010, a China contava com um pouco mais de 23 milhões de licenciados, cerca de 18% do total de licenciados no mundo entre os 25 e 34 anos, acima dos EUA (com 14%), da Rússia (com 11%), da Índia (com 11%) e do Japão (com 7%). Nas projeções para 2020, a China representará 29% do total de licenciados no mundo naquela faixa etária. Serão 59 milhões, um grupo com altas qualificações com um peso social significativo, que, em apenas uma década, crescerá mais de duas vezes e meia. A alguma distância ficarão a Índia (com 12%) e os EUA (com 11%).

BI de Michael

Dos mercados financeiros ao punk rock

Nasceu em Málaga de pai norte-americano e mãe francesa, mas correu mundo na infância, pelo Peru, Paquistão, Tunísia e Haiti. Regressou a Espanha para frequentar a universidade, mas acabaria por tirar mestrados em Assuntos Internacionais e Finanças na Universidade de Columbia, nos Estados Unidos. Trabalhou em Wall Street desde 1987, quando integrou a equipa virada para as aplicações em dívida soberana na Manufacturers Hanover (hoje parta da J.P.Morgan). Foi o começo de uma carreira na área de mercados financeiros, com trabalho de aconselhamento em áreas como as privatizações do sistema bancário e as reestruturações de dívida. Foi professor na Escola de gestão da Universidade de Columbia entre 1992 e 2001 e depois veio para a China. Ensinou na Faculdade de Economia e de Gestão na Universidade de Tsinghua em Pequim entre 2002 e 2004 e, desde essa altura, leciona Finanças na Escola de Gestão Guanghua na Universidade de Pequim. É um bloguista ativo e autor de diversos livros. O seu blogue China Financial Markets pode ser acedido em http://www.mpettis.com/ . Apaixonado pela música ajudou a fundar em 2002 um dos clubes noturnos mais famosos de Pequim, o D22, associado à Maybe Mars, uma marca discográfica chinesa independente. O night club de punk rock estava no distrito de Wudaokou, uma das principais zonas universitárias. Depois do fecho do D22 em janeiro do ano passado, Pettis abriu um novo espaço de música, o XP, que continua ligado à Maybe Mars, e localizado em Di’anmen Xi Dajieno, distrito de Xicheng, na capital chinesa. Mais informações em http://site.douban.com/xpbeijing/ .

One Response to “Dossiê China: Para onde vai o “Império do Meio”?”

  1. Este blog es realmente un paseo a través de toda la información que anelaba sobre este este tema tan complejo y no sabía a quién preguntar .

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