Michael Pettis sobre o momento crucial na China — duas entrevistas e um intróito

Intróito — China vive um momento de viragem decisivo
Gestão da mudança dispõe de algum tempo e de “amortecedores”

(c) Texto e entrevistas por Jorge Nascimento Rodrigues, agosto 2014

“A China vive um ponto de inflexão crucial”, dizia, esta semana, Ravi Menor, diretor-geral da Autoridade Monetária de Singapura, em entrevista à revista “Central Banking Journal”. A importância deste momento na história recente da segunda maior economia do mundo é partilhada por muitos economistas.

As diversas vulnerabilidades do modelo económico chinês subiram a tal ponto na última década que a mudança é uma prioridade absoluta. Com a agravante de que os desequilíbrios do crescimento excecional ocorrido são únicos na história económica pela sua dimensão.

Michael Pettis, Beijing

Michael Pettis, Beijing

O professor Michael Pettis sublinha (ver entrevistas abaixo) que esse ponto de inflexão, na verdade, já ocorreu há alguns anos atrás, mas que só, agora, a elite está a ter capacidade de meter mãos à viragem, e mesmo assim com muitas resistências.

Nos anos 1980, a revolução lançada por Deng Xiaoping foi um desses pontos de inflexão na história chinesa, feita inclusive contra a elite de então, graças “a uma centralização do poder” fortíssima que permitiu as reformas que levaram a China a um crescimento fantástico e a tornar-se a segunda economia do mundo. “Em certo sentido, a China tem de regressar ao modelo de atuação política de Deng”, diz-nos Pettis, um veterano de Wall Street desde 1987 que viria a radicar-se em Pequim desde 2002, quando aceitou ir dar aulas para a Escola de Economia e gestão da Universidade Tsinghua.

Um modelo económico e político que se esgotou

As reformas que têm de ser levadas a cabo agora são basicamente centradas na transformação do modelo económico capital intensivo e sobreendividado que se esgotou económica (o multiplicador deixou de funcionar) e politicamente.

Um dos alvos políticos da mudança aprovada no terceiro plenário do 18º Comité Central do Partido Comunista da China, realizado em novembro do ano passado, é uma das “redes” estruturantes da economia chinesa mais óbvias. Ou seja, o complexo que se teceu em torno do imobiliário e da construção, com tudo o que arrasta de sectores correlacionados e de aparelho político e financeiro interligado.

Pettis chama a atenção para que não se esqueça que esse modelo de crescimento do passado foi “tremendamente benéfico para a elite”. E ironiza: engordou o número do PIB, mas não a real riqueza nacional. Muito do PIB foi enterrado em projetos políticos hoje fantasmas, elefantes brancos, fraude e sobrecapacidade em sectores sem mercado interno ou externo à altura dessa dinâmica.

O resultado de curto e médio prazo mais visível será, naturalmente, o abrandamento da taxa de crescimento anual, que tem sido um número político associado à própria imagem de reputação da China. Ainda, recentemente, ela movia-se num intervalo entre 9% e 10%. Em 2010, a taxa atingiu 10,4%. Só a partir de 2012 desceu para o patamar dos 7%. A previsão é que desça de 7,7% em 2012 e 2013 para 7,5% em 2014 e para uma projeção de 7,1% em 2015, feita pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). Os técnicos e muitos diretores deste organismo gostariam que se desse um passo intermédio já em 2015 descendo para um intervalo entre 6,5% a 7%, como se refere no relatório sobre a China no âmbito das consultas ao abrigo do artigo IV, publicado em julho.

O abrandamento do crescimento é um resultado da própria transição de modelo económico.

“Dificilmente a China voltará a crescer com dois dígitos, mas, também, é pouco provável que venha a crescer abaixo de 5% na próxima década”, refere Enrique Galán, quadro do Gabinete de Planeamento, Estratégia, Avaliação e Relações Internacionais do Ministério das Finanças e que foi representante de Portugal no Conselho de Administração do Banco Asiático de Desenvolvimento até recentemente. Galán, que é editor do blogue “O Retorno da Ásia”, concorda com o FMI de que, apesar do avolumar das vulnerabilidades, continua a ser baixa a probabilidade de uma “aterragem forçada” da segunda maior economia do mundo e maior da Ásia.

Aterragem forçada tem baixa probabilidade

O relatório do FMI sublinha que o país dispõe de margem política de atuação no campo das reformas e conta com “suficientes amortecedores”. A posição externa do país continua “moderadamente forte”, diz o FMI. A posição internacional líquida de investimento – diferença entre os ativos detidos no estrangeiro e os ativos detidos por estrangeiros na China – passou a terreno positivo em 2003, mas tem descido desde a crise financeira global; fechou 2013 em 23,5% do PIB, o que posiciona a China muito abaixo do Japão (com este indicador em 67,6%) e da Alemanha (com 48,4%, segundo o Eurostat).

O saldo comercial é ainda impressionante. Bateu um recorde mensal em julho. O excedente externo (que não abrange, apenas, o saldo comercial) tem, no entanto, diminuído. Caiu de 9,3% em 2008 para 1,9% em 2013 e estima-se 1,8% para 2014. É um sinal dos tempos, com os turistas chineses a invadirem o mundo.

Alguns meios de comunicação ocidentais com influência internacional têm ultimamente levantado o perigo iminente da bolha de crédito estoirar e o risco sistémico do designado sector bancário sombra.

O relatório recente do FMI alerta inclusive que disparos de crédito por um tão longo período, com uma dimensão similar ao que aconteceu na China, conduziram a crises bancárias sistémicas. No entanto, Pettis considera que a maioria dos chineses continua “a acreditar que a garantia implícita do governo aos seus depósitos é credível” e que “o mais provável é uma espécie de trituração, longa, lenta e dolorosa, dos créditos incobráveis, um pouco como aconteceu no Japão entre 1990 e 2010”.

A dimensão do sector sombra é, de facto, impressionante; já envolve 44% do PIB chinês, segundo o relatório anual de Supervisão e Regulação Financeira publicado em maio pelo Centro de Investigação Financeira Internacional Lujiazui e pelo Instituto Financeiro e Bancário da Academia Chinesa de Ciências Sociais. É mais do que a soma do PIB de França e Itália. Representa 19% de todos os ativos do sistema bancário chinês. No entanto, Michael Pettis e Enrique Galán desdramatizam a polémica em torno deste sector. O relatório chinês conclui com um tom otimista; “O sistema bancário sombra tem tido efeitos positivos no desenvolvimento económico chinês fornecendo liquidez financeira flexível onde está é necessária”.

Projeção externa vai prosseguir

Independentemente das flutuações políticas dentro da elite chinesa e da gestão, melhor ou pior, das vulnerabilidades, uma coisa é certa: a estratégia de projeção externa do capital financeiro e industrial chinês não vai parar, nem a própria internacionalização da moeda chinesa.

Na lista das 500 da Fortune, a China está já em segundo lugar, depois dos EUA, em número de multinacionais. Segundo os dados do SWIFT Watch, o RMB está em sétimo lugar no sistema de pagamentos internacionais, apesar de ser a segunda maior economia do mundo. A estratégia de Pequim tem passado não só por acordo bilaterais, como pela expansão da rede de centros offshore de pagamento em moeda chinesa, em que o líder é Hong Kong (com 70% do movimento), mas de que fazem parte Singapura (com 7%) e Londres (com 6%). Bancos de compensação foram estabelecidos na Ásia (por exemplo, em Macau) e na Europa continental (Frankfurt). O recém-criado Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS terá sede em Xangai.

Mesmo que haja um “aterragem forçada” da economia chinesa nos próximos anos, “as implicações para Portugal são mínimas ou nulas”, refere Galán. “Os países exportadores mais prejudicados serão os criticamente dependentes da procura chinesa designadamente de matérias-primas, de que o caso asiático mais destacado é a Austrália”, conclui. As oportunidades são, pelo contrário, imensas.

O relatório do FMI chama a atenção que os países exportadores que melhor aproveitarão a própria viragem do modelo económico chinês são os que demostrarem vantagem comparativa na produção de bens cada vez mais procurados por uma massa enorme de consumidores sofisticados, como bens duráveis e de gama alta.

ENTREVISTAS A MICHAEL PETTIS
(c)JNR, agosto 2014

Entrevista I — “Muito do investimento tem valor negativo”

A questão central é política. Depende da atual liderança implementar a transformação do modelo económico. Para tal, a China não dispõe de muito tempo, diz, em entrevista exclusiva, o professor de Finanças da Escola de Gestão Guanghua da Universidade de Pequim e editor do blogue China Financial Markets.

P: As vulnerabilidades da economia chinesa aumentaram a um ponto que a mudança é uma prioridade absoluta?

R: Sim. Mas, na realidade, isso já ocorreu há vários anos. O problema é que tem sido difícil implementar as mudanças.

P: Porquê?

R: As mudanças só acontecem quando uma nova liderança política é capaz de fazer uma centralização tremenda do poder. O que parece ser justamente o que a atual liderança está a fazer.

P: É uma viragem difícil?

R: Tal como qualquer país que seguiu o mesmo modelo de crescimento, a China desenvolveu enormes desequilíbrios e uma dependência excessiva do crédito. Esses desequilíbrios são maiores do que alguma vez de observou na história. Por isso, o ajustamento pode vir a ser mais difícil do que todos esperamos.

P: Passar a uma taxa de crescimento num intervalo de 4 a 6% é politicamente possível?

R: É. Se a China alterar o modelo de crescimento capital intensivo. Se passar para um modelo de crescimento de trabalho intensivo. Aliás, acabará por ser uma das consequências das reformas propostas.

P: Quais são as resistências?

R: A elite chinesa tem beneficiado tremendamente desse modelo capital intensivo financiado por capital muito barato. A China não dispõe de muito tempo para fazer essa transformação.

P: A eficiência do investimento tem diminuído?

R: De acordo com os dados oficiais isso aconteceu acentuadamente durante a década passada. Mas essa avaliação até subestima o problema em virtude de não reconhecer as dívidas incobráveis e não proceder ao registo dos maus investimentos.

P: O problema é mais grave do que o declínio do multiplicador?

R: Na realidade, muito do investimento na China tem um valor negativo. O que isso quer dizer é que o custo do projeto excede o valor que o projeto cria. Muito do crescimento chinês em anos recentes até aumentou o PIB, mas, na verdade, reduziu a riqueza.

P: O sector financeiro “sombra” chinês é um risco sistémico?

R: Há excesso de atenção no tema. O problema é que a economia não consegue crescer mais do que um mínimo anual de 3 % a 4% se o crescimento do endividamento não for superior, e isso é que é insustentável. Tanto faz que o endividamento ocorra por via da banca formal ou do sistema sombra.

P: O disparo da desigualdade no rendimento e na riqueza coloca sérios riscos?

R: É um risco sério porque a desigualdade nos rendimentos aumenta a poupança de precaução e reduz o consumo. Na China a poupança é muito elevada e o consumo demasiado baixo para permitir o crescimento – a não ser através de investimento desperdiçado.

P: Como se altera essa situação?

R: Acho que é mais importante – e até mais fácil – aumentar a riqueza do cidadão comum transferindo riqueza do Estado, do que transferindo-a da elite.

Entrevista 2 – “Risco de crise bancária não é iminente”

“O principal problema da China não é o sector bancário ‘sombra’” e o risco de uma crise bancária na segunda maior economia do mundo “não é iminente”, diz Michael Pettis, professor norte-americano na Universidade de Pequim e autor do blogue de referência “China Financial Markets”.

Os temores foram ampliados com a publicação no jornal “Financial Times” (FT) de declarações do responsável da Fidelity em Hong Kong para o fundo de investimento China Special Situations alertando que o nível de crédito mal parado é muito superior ao referido pelas fontes oficiais, que apontam para 1% dos ativos na maioria dos bancos chineses. Os próximos 12 meses “serão muito interessantes” para acompanhar o assunto, disse Dale Nicholls ao FT, repetindo o que muitos gestores de fundos têm avisado.

Por outro lado, a revista “Euromoney” referia em agosto que os riscos de crise bancária na China triplicaram em pouco mais de um ano, devido a uma descida na capitalização do sector em bolsa e ao disparo da dívida, assinalando, também, o risco sistémico colocado pelo sector “sombra”. O nível de risco subiu de 153 mil milhões de euros em fevereiro de 2013 para 459,9 mil milhões em maio, segundo o índice de risco sistémico do Volatility Institute da Stern School of Business da Universidade de Nova Iorque e do Center for Risk Management, de Lausana, na Suíça. Esse nível mede o montante da injeção que o governo chinês terá de realizar no caso de crise financeiro do sector; em maio equivalia a 7,8% do PIB. É o mais elevado do mundo em termos absolutos (na injeção em euros), estando à frente do Japão e dos Estados Unidos, ainda que, em termos relativos (rácio face ao PIB), esteja muito abaixo do requerido para a Suíça, França, Reino Unido e Japão.

P: O risco de crise bancária na China é iminente?

R: Depende do que se entende por “risco”. É verdade que o crédito mal parado continua a acumular-se no sistema bancário, pois o crédito bancário continua a subir muito rapidamente. Mas a probabilidade de se desencadear uma crise financeira é baixa.

P: É baixa?

R: A maioria dos chineses acredita que os depósitos bancários – e mesmo o dinheiro investido nos “produtos de gestão de fortunas” – estão garantidos pelo governo e que essa garantia é credível.

P: O alarme difundido nos media internacionais é excessivo?

R: Não penso que o risco seja iminente. Pequim tem mais três ou quatro anos para controlar o problema.

P: O problema é o tão falado sistema bancário “sombra” que tem servido como intermediário para a economia real e para muitas operações financeiras realizadas contornando as regras do sistema bancário formal?

R: Não acho que seja o problema principal.

P: Porquê?

R: Apesar de haver fraude e esquemas Ponzi campeando no sistema “sombra”, no conjunto, numa avaliação global, eu diria que, provavelmente, o sistema “sombra” não faz pior, e que até pode estar a fazer melhor à economia, canalizando dinheiro para empresas e negócios na China mais eficientes e com menos desperdício – nomeadamente para as pequenas e médias empresas, que, no seu conjunto, economicamente, são mais eficientes e produtivas.

P: Onde está, então, o problema?

R: Está no modelo de crescimento económico da China que está excessivamente dependente de um crescimento da dívida ainda mais rápido, seja operado pelo sistema bancário formal, seja pelo sistema “sombra”. Este modelo é claramente insustentável.

P: Por que razão surge toda esta atenção dada ao sistema “sombra”?

R: O sistema “sombra” cresceu rapidamente devido às regulamentações que limitam o crescimento do crédito normal através do sistema bancário formal, em virtude da obrigação de determinados rácios dos empréstimos face aos depósitos. Por isso, muita da expansão do crédito ocorre fora do sistema formal, ainda que a generalidade das pessoas acredite que os bancos formais têm efetivamente garantidas as potenciais perdas no sistema “sombra”.

P: O que deveria fazer o governo chinês?

R: Em vez de tentar resolver o problema dos bancos “sombra”, eu acho que Pequim tem de alterar a dependência da China em cada vez maiores pilhas de uma dívida que está a gerar inclusive um declínio num crescimento não saudável.

Principais vulnerabilidades

# O modelo iniciado nos anos 1990 esgotou-se. Na última década gerou investimento capital intensivo desperdiçado em capacidade excessiva em diversos sectores, fraude, “projetos troféu” ou elefantes brancos

# Deflacionar a bolha imobiliária é um quebra-cabeças. Apenas 60 firmas do sector detêm 80% das responsabilidades financeiras do sector e revelam rácios de alavancagem superiores a 300%.

# Há uma poupança excessiva. A reforma do sistema de segurança social, incluindo a sua extensão, é crucial para reduzir a poupança por precaução realizada pela maioria esmagadora das famílias.

# Custo das externalidades é imenso. Não só o que deriva de capacidade excessiva e desperdício público e social como o enorme impacto ambiental.

# Explosão das desigualdades. O coeficiente de Gini disparou em 30 anos. Estabilizou desde meados dos anos 2000 num planalto elevado acima de 45 (numa escala de 0, para uma sociedade igualitária, a 100).

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