Michael Pettis: Vai ser difícil esvaziar a “bolha” chinesa

Michael Pettis

Entrevista a Michael Pettis por Jorge Nascimento Rodrigues (c)JNR,2013
(Entrevista publicada originalmente no semanário português Expresso)

DESTAQUES

# O que passou a ser normal: “Como Beijing vai continuar a restringir o crescimento excessivo do crédito, as tensões no sistema bancário vão reaparecer de tempos a tempos”

# O dilema do banco central: “Se esvaziar a bolha rapidamente, corre o risco de desestabilizar o sistema financeiro; se o fizer lentamente, é quase certo que o custo final vai ser maior”.

# “Efeito” Bernanke: “Se a Fed endurece a política monetária, a China terá de fazer o mesmo mais rapidamente”.

# Ironia: “Um reequilíbrio macroeconómico rápido na China será muito difícil de gerir para a Europa. Um reequilíbrio lento irá ajudar a Europa”.

A China atravessa o momento mais crítico depois das reformas de Deng Xiaoping. O desafio, agora, é conseguir realizar progressivamente o “esvaziamento” de uma “bolha” de investimento sem paralelo na história económica, diz-nos Michael Pettis, um dos académicos norte-americanos a viver na China, dando aulas na Universidade de Beijing. O seu blogue “China Financial Markets” é local diário de “peregrinação”. A reorientação estratégica na Reserva Federal norte-americana (Fed), anunciada por Ben Bernanke em junho, veio acelerar o imperativo de “endurecer” a política monetária chinesa e de colocar na ordem o poderoso sistema de crédito “sombra” que o Banco central chinês denomina desde 2011 como “financiamento pela sociedade”. Esta gigantesca “desalavancagem” em curso vai tornar normal episódios de turbulência no sistema financeiro chinês como os que assistimos recentemente. A dose de pânico global que implicam vai depender da gestão política e monetária em Beijing.

O que gerou esta situação de turbulência financeira na China?

Durante 2012 e já este ano, muitas empresas chinesas com filiais no estrangeiro montaram um esquema – pediam emprestado lá fora e “importavam” esse dinheiro disfarçado como rendimentos da exportação, de modo a poderem, depois, re-emprestá-lo cá dentro em moeda local, em renminbi. Isto criou um significativo sistema de carry trade, à custa do Banco Popular da China (BPC), o banco central, que foi forçado a expandir a oferta de moeda doméstica. Em maio, as autoridades resolveram começar a atacar este esquema de faturas falsas de exportação. Resultado: as receitas de exportação caíram e a injeção vinda de fora secou, o que abalou a expansão da liquidez interna que tinha permitido o disparo do crédito. Foi isto que provavelmente gerou o pânico na semana passada e as convulsões no mercado interbancário esta semana.

Essa operação muito vasta de esvaziar a bolha financeira é exequível, ou já é tarde?

É possível fazê-lo, mas será, sem dúvida, muito difícil. Acarreta um dilema: se o BPC o faz muito rapidamente, corre-se o risco de desestabilizar o sistema financeiro; mas se o fizer lentamente, é quase certo que se acumulará ainda mais “má” dívida e o custo final será ainda maior.

O anúncio da estratégia de saída da política de “estímulos” monetários por parte da Fed vai amplificar os problemas na China?

Vai. O regime cambial da China significa que, para as exportações chinesas se manterem competitivas por mais tempo do que seria normal, Pequim tem de alavancar a política monetária dos EUA. Uma política monetária acomodativa nos EUA implica uma política similar na China, e inversamente um endurecimento pela Fed resultará num ainda mais rápido endurecimento da política monetária na China.

Como é que a Beijing poderia ter cortado esse cordão umbilical?

Há muitos anos que os economistas têm alertado as autoridades chinesas que indexar (ao dólar) a moeda chinesa por razões comerciais acabaria por colocar em causa a capacidade da China em gerir a sua política monetária doméstica. Mas, como se sabe, o setor exportador chinês é muito forte e sempre resistiu a qualquer mudança. O resultado foi uma bolha de investimento, talvez sem precedentes na história, um pouco como o que aconteceu no Japão na década de 1980, mas ainda em maior escala.

O desafio crítico agora é gerir a desalavancagem dessa super-bolha?

Sem dúvida. Mas não é apenas uma questão de desalavancar a bolha. É preciso, também, abater o valor de ativos que não estão a gerar retornos.

A China arrisca-se a ter o destino do Japão no final dos anos 80 do século passado?

Acho que não vai ser assim tão ruim. Mas penso que vamos ter uma década, ou mesmo mais, de crescimento muito mais lento, talvez uma média de 3-4% e não os 6 -7% de que se fala. Se essa transição for bem gerida, haverá poucas consequências políticas adversas. Se a China conseguir reequilibrar-se, o rendimento familiar, por definição, deverá subir mais rápido do que o PIB. Se a China crescer a 3-4%, por exemplo, o rendimento aumentará 5-6%, e as famílias ainda se sentirão felizes. Aliás, foi o que aconteceu no Japão – o rendimento familiar cresceu mais rapidamente do que o PIB.

A desaceleração da economia chinesa vai agravar a situação económica global?

Os exportadores de mercadorias e de bens de capital para a China vão sofrer no médio prazo. O que afetará principalmente a Alemanha como exportador típico de bens de capital. O resto da Europa provavelmente vai até beneficiar de preços mais baixos das mercadorias. A chave de tudo isto é a rapidez ou a lentidão com que a China proceda ao seu reequilíbrio macroeconómico.

E para a Europa é preferível que seja rápida ou lenta?

Um rápido reequilíbrio provavelmente resultará num aumento no excedente comercial da China, o que seria muito difícil de gerir para a Europa. Pelo contrário, um processo lento provavelmente resultará em uma contração no excedente comercial da China, o que irá ajudar a Europa.

A ler complementarmente no “Diário de Bordo” no Geoscópio: O que se passou na China no final de junho

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