O choque petrolífero ao contrário

Os preços do petróleo parecem estar loucos. Em seis meses, o barril de Brent (crude de referência na Europa) caiu de perto dos 145 dólares para menos de 40. O dia em que o Brent desceu da barreira psicológica dos 40 dólares ficará registado na história deste terceiro choque: 5 de Dezembro, em que fechou a 39,19 dólares em Londres.

O processo inverso levara quase quatro anos – desde meados de 2004 até ao pico histórico de 3 de Julho deste ano (143,95 dólares em Londres). Assistimos, num curto período, a um verdadeiro “choque petrolífero ao contrário”, como sublinha o analista holandês Rembrandt Koppelaar, editor do The Oil Drum, e um dos especialistas europeus do modelo designado por ‘pico do petróleo’. Koppelaar deu uma entrevista a Janelanaweb em Novembro de 2008 (antes do Brent ter caído abaixo da barreira dos 40 dólares) que pode ser lida na íntegra (em inglês) aqui.

Isso surpreendeu os adeptos desse modelo que aponta para uma tendência de longo prazo de escalada dos preços do petróleo em função de se ter já atingido ou de se vir a atingir nos próximos anos um pico mundial de produção, a partir do qual a oferta desacelera e se acumularão problemas para a satisfação de uma procura crescente. Aos «piquistas», que tinham prognosticado correctamente o disparo do preço do barril desde 1999, foi difícil mudar de agulha e reconhecer uma inversão – ainda que provavelmente temporária – da tendência.

O limiar de um colapso parcial

Os analistas interrogam-se, agora, até onde poderá descer o preço do barril nesta rampa inclinada. Rembrandt acha que não deverá cair sustentadamente abaixo dos 40 dólares, pois “este é o patamar para além do qual muitos dos campos petrolíferos, hoje em dia em operação, descerão abaixo de um limiar de rentabilidade”. E acrescenta: “Se descerem a tal ponto, o sector petrolífero sofrerá um colapso parcial e quase todos os países exportadores de crude sofrerão um problema grave na sua liquidez. Para alguns isso significaria uma quebra económica no curto prazo e disrupções sociais e políticas no médio prazo”. Por isso, o analista é peremptório: “O cartel petrolífero, bem como a Rússia, o Azerbaijão e o Cazaquistão farão tudo – mesmo tudo – o que estiver ao seu alcance para evitar que isso venha a suceder”.

Refira-se que, em termos do cabaz de 13 variedades de crude (OPEC basket price) oferecidas pelo cartel, o preço médio diário está abaixo dos 41 dólares por barril (5/12/08). Este preço médio abaixo dos 50 dólares já levou a Organização dos Países Exportadores do Petróleo (OPEP) a reunir em 28 de Novembro um comité consultivo de ministros no Cairo, no Egipto, o que coincidiu com uma reunião dos ministros dos países árabes exportadores de crude. Mas a reunião foi inconclusiva, aparentemente por divisões políticas internas.

O especialista holandês sublinha que “o orçamento ‘médio’ dos países da OPEP para 2008 – e para 2009 – baseia-se num escalão entre 50 a 60 dólares por barril”. “Preços abaixo desse limiar darão um enorme incentivo político a que a OPEP decida, este ano, ainda maiores cortes de produção”, diz Koppelaar. A OPEP, que tem vindo a fazer uma aproximação com a Rússia, reunirá, de novo, a 17 de Dezembro em Orão, na Argélia. “Se a OPEP quer, de facto, empurrar o preço do petróleo para um nível superior, terá de fazer mais algum corte significativo, acima de 1 milhão de barris por dia”, diz o analista.

Forças contraditórias

Rembrandt é de opinião que o ano de 2008 poderá vir a fechar com preços do barril na ordem dos 60-70 dólares. Na opinião contrária, está um relatório de um analista da Merrill Lynch que vaticina uma queda para a banda dos 25 dólares em 2009.

Duas forças contraditórias se digladiam no mercado:

– por um lado, o impacto na procura do clima recessivo e de abrandamento do crescimento económico em todo o mundo, em particular nos principais consumidores de petróleo (Estados Unidos, China, Japão, Europa, Rússia, Índia, etc), o que está a implicar a queda de quase 1 milhão de barris por dia na procura neste último trimestre de 2008;

– e, por outro, o efeito real dos cortes de produção decididos pela OPEP, nomeadamente o anunciado na reunião anterior de 24 de Outubro, de 1,5 milhões de barris diários a partir de 1 de Novembro, bem como o impacto sazonal do Inverno.

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