Olhares sobre a crise do euro no início de 2015 — entrevistas

Entrevistas Janeiro e Fevereiro de 2015
Por Jorge Nascimento Rodrigues

Entrevista 1

Charles Wyplosz: “O pacote de Draghi veio terrivelmente tarde”

Mais vale tarde do que nunca, diz o economista francês Charles Wyplosz. A culpa do atraso foi da opinião pública alemã que paralisou o BCE. Há um subproduto da operação: 30% das dívidas soberanas da zona euro vão ser “absorvidas” pelo Eurosistema.

O novo programa alargado de compra de dívida pública e privada por parte do Banco Central Europeu (BCE), anunciado por Mario Draghi na quinta-feira, veio “terrivelmente tarde”, mas mais vale tarde do que nunca, diz Charles Wyplosz, professor de Economia no Instituto de Pós-Graduação, em Genebra, e diretor do Centro Internacional de Estudos Monetários e Bancários. O académico acusa a “opinião pública alemã” de ter paralisado o BCE durante três anos.

Não sabe se Draghi conseguirá trazer de volta a inflação anual na zona euro, que entrou em terreno negativo em dezembro passado, à proximidade da meta de 2% depois de 19 meses de programa até ao final de 2016. Mas há um alívio, de facto, no fardo do endividamento dos membros da zona euro. “Um subproduto do programa a que se deu menos atenção é que o Eurosistema (de bancos centrais da zona euro) irá absorver até 30% das dívidas públicas existentes”, sublinha Wyplosz que defendeu no início do ano passado uma operação através do BCE que levasse à redução de 55% da dívida soberana da zona euro. Wyplosz e o banqueiro Pieere Pâris batizaram a proposta com o curioso nome de “Padre”, que em inglês é acrónimo para Politically Acceptable Debt Restructuring, ou seja, reestruturação de dívida politicamente aceitável (leia-se por Berlim), uma solução que, então, divulgámos.

Draghi com este novo programa vai ficar na história?

O BCE surpreendeu-nos, de facto, pela positiva. Finalmente. O programa é grande, preciso e claro. O custo de chegar até aqui, é que foi muito alto. Houve um atraso de três anos. E acabou por não envolver mutualização da dívida, o que é pena. Mas é melhor haver um QE [acrónimo inglês para quantitative easing, um conceito que envolve este tipo de programas de estímulos monetários não convencionais] mesmo sem mutualização do que não haver nada. Mas houve uma vítima em todo este processo – a independência do BCE, em virtude da vénia à opinião pública alemã.

Será que vai ser suficiente para trazer a inflação de volta à meta do BCE, com alguns analistas a reclamarem que seriam necessários 2 a 3 biliões de euros em vez de 1?

Por si só, não. Mas temos a sorte da baixa dos preços do petróleo. Se estas duas circunstâncias não forem suficientes para reanimar a economia da zona euro, então, a história vai ser severa com os políticos que impuseram políticas de austeridade ao longo de cinco longos anos e se recusaram a adotar os cortes de impostos que são tão necessários nesta fase.

A maioria das pessoas acha que o BCE vai comprar dívida soberana diretamente nas emissões dos países emitentes. Essa perceção pode ser perniciosa?

O BCE não está autorizado a comprar diretamente obrigações públicas. Fim da história. Isso nunca vai acontecer. Mas, no entanto, isso não faz grande diferença, exceto, talvez, para os advogados alemães que não entendem nada de política monetária, mas que fazem questão de ter opiniões muito vincadas.

Qual é a diferença qualitativa que este programa de compra de ativos acarreta?

É fundamentalmente diferente de programas anteriores. Com os outros programas, o BCE estava pronto para comprar ativos, mas não controlava a quantidade e o momento; o que acontecia a seguir era o que os bancos quisessem, não o que o BCE pretendia. Com este novo programa, o BCE irá gerar, de certeza, € 60 mil milhões durante 19 meses.

A má da fita foi efetivamente a Alemanha?

Durante três anos, o BCE, que é nominalmente independente, foi paralisado pela opinião pública alemã. Foi, por isso, que não houve um QE antes, mas apenas alguns tímidos esforços condenados ao fracasso. Foi, por isso, que o BCE falhou o seu mandato em relação a uma inflação abaixo mas próxima de 2%. Este programa veio terrivelmente tarde.

Mas, mesmo tardio, valerá a pena?

Francamente, ninguém sabe. Mas há que ter em conta que o QE não é um instrumento poderoso. O efeito final vai depender inteiramente de os consumidores deixarem de ser menos pessimistas. Se o fizerem, vão pedir emprestado e gastar, e as empresas vão, por sua vez, também, pedir emprestado e investir. São, também, de esperar mais exportações. E, como que por milagre, os preços do petróleo caíram, de modo que uma enorme fatia de rendimento está a ser transferida para os países importadores de petróleo.

E como é que o programa vai alterar o panorama do sobreendividamento em grande parte da zona euro?

Um subproduto do programa a que se deu menos atenção é que o Eurosistema (de bancos centrais da zona euro) irá absorver até 30% das dívidas públicas existentes. Com efeito, estas dívidas vão desaparecendo à medida que sejam devidas aos bancos centrais, que, por sua vez, são dos estados. Por isso o serviço de dívida é zero. Isso vai ajudar a reduzir bastante a pressão sobre os mercados financeiros. Como sabe eu propus um plano de redução da dívida pública para mais de metade que designei por “PADRE”. O que temos agora, por via do BCE, é uma espécie desse plano, mas até 30%. Não é assim tão mau.

Alguns analistas dizem que a meta “sombra” deste programa é a crescente desvalorização do euro. Vai ser esse o impacto mais importante?

A depreciação do euro é de fato um canal importante através do qual o QE vai ajudar a subir a inflação. Ainda vamos ter de ver em que medida esse canal vai ser eficaz. Mas potencialmente pode vir a ser o principal.

Isso significa que estamos em plena guerra de divisas, como se ouviu em Davos?

Falar de guerra de divisas é uma tolice. As principais moedas flutuam livremente e isso pode naturalmente perturbar terceiros. Mas não se trata de uma guerra, é a vida normal, com taxas de câmbio flutuantes. Os países que se queixam podem muito bem indexar as suas taxas de câmbio a uma moeda em particular ou a um cabaz de moedas. É uma escolha sua e não devem reclamar se os principais bancos centrais cuidam de cumprir os seus mandatos.

Entrevista 2

Daniel Stelter: “O principal risco em 2015 está dentro da Zona Euro”

O risco político na Europa pode não vir sozinho. Pode rebentar uma guerra de divisas e os mercados financeiros podem deixar de acreditar no poder dos bancos centrais. A grande surpresa pode ser uma recessão mundial. São cenários que preocupam o consultor alemão Daniel Stelter.

“O verdadeiro risco está dentro da Zona Euro. Estagnação, deflação, desemprego elevado, esforços inúteis do Banco Central Europeu (BCE). E não está tanto na Grécia como se julga, mas na Itália e em Espanha”, diz Daniel Stelter, ex-consultor do The Boston Consulting Group, e atual fundador e presidente do think tank alemão Beyond the Obvious (além do óbvio) de Berlim.

Os políticos europeus não querem dizer a verdade aos europeus e, por isso, fizeram como que uma externalização, um outsourcing, para o BCE gerir a crise – é a imagem usada por este especialista alemão. “Mas o problema é que a política monetária pode estabilizar, mas não cura”, avisa o autor de “A bomba de um bilião de dívida” e “Dívida no século XXI”, a poucos dias da reunião do BCE mais esperada dos últimos anos.

Stelter falou-nos em cima de um tsunami provocado pelo Banco Nacional da Suíça: “A decisão dos suíços não foi o primeiro cisne cinzento do ano, mas o primeiro canário dentro da mina de carvão. Coisas bem maiores virão junto”. Guerra de divisas, recaída na recessão mundial, esgotamento da atuação do BCE são cenários que ele não descarta.

A decisão surpreendente do Banco Nacional Suíço na passada quinta-feira foi o primeiro “cisne cinzento” do ano?

A decisão mostra que, provavelmente, poderemos chegar ao ponto em que os bancos centrais já não garantem mais a estabilidade económica. Atingem os seus limites. O passo seguinte pode muito bem ser a perda da narrativa de omnipotência dos bancos centrais. Então veremos uma enorme turbulência em todos os mercados que acreditam no poder dos bancos centrais. Se eu estiver certo, não se trata do primeiro cisne cinzento do ano, mas do primeiro canário dentro da mina de carvão. Coisas bem maiores virão junto.

Mas os suíços tinham alternativa?

A meu ver os suíços usaram a saída de emergência. Seria extremamente caro defender o limiar de 1,2 francos suíços por euro, logo que o BCE avançasse para um programa de quantitative easing [QE, no acrónimo em inglês] em larga escala. Depois do parecer do advogado geral ao Tribunal de Justiça da União Europeia [sobre o programa OMT de compra de dívida, anunciado em 2012] ficou claro que o BCE está numa posição para poder agir agressivamente. Saindo fora, os suíços limitaram as perdas. E, a meu ver, depois do choque, a economia suíça ainda se tornará mais competitiva.

Podemos esperar outros movimentos que surpreendam os mercados financeiros?

Até quando aceitarão os chineses um iene japonês baixo? Até quando a Coreia do Sul aceitará a desvalorização do iene? Quanto tempo tolerará a Reserva Federal norte-americana (FED) a atual apreciação do dólar? Sete anos volvidos sobre o início da crise global o consenso político e a cooperação estão em risco. Poderemos muito bem ver rebentar uma guerra de divisas. E, dentro da Europa, até quando os italianos, os espanhóis e os portugueses aceitarão o atual sistema que os deixa não competitivos e sobreendividados, apesar de todos os progressos que façam?

A revista “Euromoney” dizia recentemente que a “mãe de todas as crises” em 2015 poderá vir da Rússia. O país de Putin é o elo mais fraco?

Não. A Rússia gera perigo porque a crise poderá empurra-la para mais agressões na Europa. Mas eu penso que o verdadeiro risco está dentro da Zona Euro. A Rússia é mais uma vítima da queda do preço do petróleo, mais até do que das sanções. O preço do barril é o seu grande problema.

Porque fala de maior risco na Zona Euro?

Estagnação, deflação, desemprego elevado, esforços ineficazes do BCE. Por isso, os principais riscos políticos, para mim, centram-se aqui. E, nem tanto na Grécia, mas na Itália e em Espanha. O público pode não tolerar mais o falhanço da gestão da crise. Junte-lhe o facto que a derrocada do preço do petróleo tem enormes implicações para a estabilidade política dos países exportadores e para os mercados de capitais globais. Os próprios Estados Unidos têm beneficiado de uma vantagem de custo na energia nos últimos anos, mas isso está a reverter. Duvido até que a FED suba as taxas diretoras de juros nestas circunstâncias. A maior surpresa de 2015 pode muito bem ser uma recessão mundial.

O BCE vai mesmo avançar para um programa massivo de compra de dívida?

Creio que sim, sobretudo obrigações soberanas. Vai fazê-lo, apesar de saber que isso não terá efeito na economia real. E podemos ter implicações negativas. As pessoas terão de poupar mais para a reforma, em virtude de retornos mais baixos para as poupanças, as empresas não investem porque se confrontam com crescimento fraco e os bancos, e as empresas, que, na realidade, são insolventes, são mantidos vivos, como zombies. Isto foi o erro que o Japão fez há 20 anos e nós estamos a repeti-lo. O BCE sabe isto tudo.

Mas, então, por que razão o BCE prossegue nessa política?

Atua porque está sob chantagem dos mercados, de outro modo os juros e o euro disparariam, e também dos políticos, que fizeram como que um outsourcing ao BCE para a solução da crise. Mas o BCE não pode concertar o problema europeu de dívida excessiva, só os políticos podem fazê-lo com reestruturações de dívida.

Essa “externalização” da gestão da crise para o BCE foi o maior erro dos europeus?

Depende como se define erro. De um ponto de vista político, eu até posso compreendê-lo.

Em que sentido?

Os políticos europeus não nos querem revelar a dimensão dos custos financeiros, económicos, sociais e políticos da crise. Se o dissessem, teriam de admitir que uma união monetária sem uma união política e económica desemboca em crises e grandes desequilíbrios. Teriam de nos dizer que 3 a 5 biliões de euros de dívida não serão pagos de uma forma ordeira. Teriam de dizer claramente quem paga e quando. E isso é um pesadelo.

Só resta o BCE?

É, de facto, a última instituição que pode tentar manter o euro e gerar uma saída da crise. Mas o problema é que a política monetária pode estabilizar, mas não cura!

O BCE vai andar em sucessivos programas de estímulos monetários?

A meu ver, o cenário é do BCE vir a realizar várias rondas de QE e acabar por se tornar no principal credor dos governos da Zona Euro. Depois, a pressão vai surgir no sentido de cancelar essas dívidas. E face às duas opções – o euro desintegrar-se ou realizar um cancelamento de dívida – imagino que optará pela segunda. As implicações disso estão totalmente em aberto. A confiança no dinheiro pode corroer-se muito rapidamente.

A culpa é dos alemães que só se lembram da hiperinflação do início dos anos 1920 e se esquecem da deflação do início dos anos 1930?

Bom, os anglo-saxões, por seu lado, só se lembram da deflação dos anos 1930 e não têm memória da inflação. Acho que ambos estão certos – e estão errados.

Como?

O verdadeiro problema é a dívida excessiva. E ou nos livramos dela através de hiperinflação ou através de bancarrotas, o que significa deflação. O que precisamos, na realidade, é de um processo para nos livrarmos da má dívida. E nem a inflação nem as bancarrotas são o caminho certo, a meu ver.

Qual é, então, a saída?

O que precisamos é de um processo organizado em que todas as partes participem. Todos sabemos que o BCE não pode gerar inflação em tempos de sobreendividamento. Por isso, não é uma questão entre inflação e deflação, mas como redistribuir o fardo da má dívida.

E como é que isso pode ser feito?

Se o BCE for adiante, o que vai acontecer é que se evoluirá para uma mutualização da dívida na Europa sem nenhuma legitimação democrática. Ora, a Alemanha detém 28% do capital do BCE, mas não é responsável por 28% da má dívida. Se nós alemães ajudarmos os devedores – e deveremos fazê-lo! -, isso tem de ser feito de uma forma em que nós recebemos algo em troca, mesmo que seja apenas o goodwill político. Os povos dos países em crise deverão dizer: não culpamos os alemães, eles ajudaram-nos.

Espera um compromisso entre a Grécia e Bruxelas?

Sim. Penso que os políticos da Zona Euro farão tudo para prevenir uma nova crise. Mas…

Mas?

Por outro lado, como eu já disse recentemente, poderão ser tentados a empurrar a Grécia para fora do euro com uma crise subsequente como uma vacina para impedir que outros países sigam o exemplo da Grécia.

Essa “vacina” pode correr mal?

É uma estratégia que poderá ser muito perigosa. Depois de um primeiro choque, a economia grega até pode muito bem enveredar por um boom com uma moeda competitiva.

Para finalizar, disse no início desta entrevista que o preocupava mais Itália e Espanha do que a Grécia. Recentemente referiu o caso italiano como o país a seguir de perto num radar de crise. Com o processo de eleições presidenciais a se iniciar a 29 de janeiro, o que espera?

A Itália é, a meu ver, um candidato para uma saída do euro. O seu governo é sobretudo financiado internamente. O sector privado tem níveis de dívida baixos. O orçamento até tem um saldo primário (antes de pagamento de juros). A indústria italiana continua a existir – mas quem sabe durante quanto mais tempo poderá sobreviver ao euro – e será, da noite para o dia, novamente, competitiva. Tudo isto aponta para que a Itália considere seriamente uma saída do euro. Alguns anos atrás, o Bank of America realizou um estudo baseado na teoria dos jogos cujo resultado era que a Itália era o país mais propenso a sair do euro. E eu concordo.

Mas isso vai acontecer em breve?

Não necessariamente. Mas tenha em conta que todos os partidos de Oposição em Itália são a favor da saída do euro.

Entrevista 3

William White, presidente da Comissão de Análise da OCDE: “O BCE pode alimentar uma bolha financeira”

Os investidores financeiros, por efeito dos estímulos monetários dos bancos centrais, podem estar a ser atraídos para investimentos de alto risco sem disso se estarem a aperceber, avisa William White, no intervalo de uma análise à China em que está envolvido no âmbito das suas funções na Organização para a Cooperação Económica e Desenvolvimento (OCDE). “As ações recentes do Banco Central Europeu (BCE) vão juntar-se a esses perigos”, sublinha.

O recado fica dado para os efeitos negativos que poderá ter o programa de compra alargada de dívida que Mario Draghi vai colocar em marcha a partir de março e que envolverá até final de setembro de 2016 mais de 1 bilião de euros.

No encontro de Davos, o economista canadiano, de 72 anos, agitou as águas com outro tema, que envolve, também, o BCE. “Estamos a agarrar um tigre pela cauda”, avisou, referindo-se a que “toda a gente está a usar a guerra de divisas e não sei onde isso possa ir parar”. Admite, em entrevista ao Expresso, que os EUA podem ter sido os primeiros a dar o tiro nessa guerra, sobretudo a partir do segundo programa, em finais de 2010, do que foi batizado como quantitative easing (QE, no acrónimo), ou “alívio quantitativo”, uma outra designação para injeção de liquidez massiva pelos bancos centrais.

William White é uma referência no mundo dos banqueiros centrais. Ele entrou em 1994 para o banco dos bancos centrais, como é conhecido o Banco Internacional de Pagamentos sediado na Suíça. Ali exerceu o cargo de chefe do Departamento Económico e Monetário até 2008. Entraria em linha de rutura com os banqueiros centrais por ter sido um dos primeiros economistas a alertar, ainda em 2007, para a probabilidade de uma grande crise financeira. Desde outubro de 2009 é presidente da Comissão de Análise e Desenvolvimento Económico da OCDE, o departamento responsável pelas avaliações regulares dos países membros e aspirantes a tal. É membro da Comissão Issing que aconselha a chanceler alemã Angela Merkel em matéria dos assuntos do G20.

Estamos mesmo mergulhados em plena guerra de divisas como disse em Davos?

Não creio que alguém esteja conscientemente a promover uma “desvalorização competitiva”. No entanto, os bancos centrais de todas as economias avançadas ao implementarem políticas de “alívio” monetário certamente estavam cientes de que a queda da taxa de câmbio seria um efeito colateral importante.

Quem atirou o primeiro tiro?

É difícil dizer, já que as raízes dos nossos problemas atuais de sobreendividamento remontam até pelo menos 20 anos atrás, se não mais. Mas, se olharmos simplesmente à evolução desde a crise global, que começou em 2007, o primeiro tiro foi atirado pelos Estados Unidos, sobretudo com o segundo programa de quantitative easing (QE). Outras economias avançadas vieram logo a seguir.

Quais foram os efeitos dessa vaga de estímulos monetários?

Levou à entrada massiva de capitais em muitas economias emergentes, o que colocou uma pressão ascendente sobre as suas moedas. Por uma série de razões, entre elas, preocupações sobre competitividade internacional, os bancos centrais dos países emergentes resistiram a essa pressão, através de uma intervenção direta nos mercados de câmbio e adotando, também, políticas monetárias de “alívio”. A intervenção cambial repercutiu-se, por sua vez, nos países avançados. As políticas de “alívio” contribuíram para pressões inflacionárias e outros desequilíbrios internos nos próprios países emergentes. Desta forma, os problemas de endividamento excessivo que assolam as grandes economias avançadas tornaram-se verdadeiramente globais.

E o que aconteceu mais recentemente?

Como sabe, esses fluxos de capital inverteram a direção e o dólar norte-americano está a fortalecer-se contra praticamente todas as divisas. Mas esta tendência também pode causar problemas, tanto para os EUA como para os outros, se ela for longe de mais ou andar muito rápido.

O primeiro-ministro italiano Matteo Renzi disse em Davos que tinha um sonho, o da paridade do euro com o dólar. Isso é bom para a Europa?

Em princípio, um euro mais baixo deve alterar a procura em direção a bens produzidos na área do euro e, por essa via, criar empregos. No entanto, uma vez que a procura de produtos de fora da área do euro ainda é uma parcela relativamente pequena da procura total, esse impacto não deve ser sobrestimado. Aliás, há evidências recentes que apontam para um declínio geral na eficácia das depreciações nominais de moedas, provavelmente por causa da expansão de cadeias globais de valor acrescentado no comércio internacional. Finalmente, se as outras divisas importantes também desvalorizarem em relação ao dólar, o efeito de um euro depreciado será ainda mais suave. Um dos grandes problemas neste ponto é o futuro da moeda chinesa.

A depreciação do euro desde maio de 2014 é uma espécie de “efeito sombra”, primeiro dos rumores, e agora do anúncio efetivo de um programa de compra alargada de divida pelo Banco Central Europeu?

A recente depreciação do euro parece ter sido relacionada com a antecipação do anúncio de um pacote de QE pelo BCE. Isso será uma coisa boa para a economia global? Não tenho a certeza. Marca, sem dúvida, uma forma mais importante de flexibilização da política monetária por um banco central muito importante, e foi provavelmente inevitável dado o que todo mundo estava a fazer.

Mas parece estar reticente…

A minha preocupação é que toda essa flexibilização monetária poderá ter consequências inesperadas e seriamente negativas a médio prazo.

Esse programa vai resolver o problema de desinflação na Zona Euro?

Um euro mais baixo deve aumentar os preços dos produtos estrangeiros. Mas isso é uma espada de dois gumes, uma vez que também implica uma redução do poder de compra interno. Deixe-me dizer-lhe, num aparte, que a zona euro não é a única região do mundo onde a inflação está a descer bem abaixo das expectativas e muito abaixo da meta. Se este processo de descida da inflação tem algo a ver com a evolução das redes de fornecimento globais, e certamente tem no caso da energia, então não é assim tão perigosa como alguns nos querem fazer crer…

Mas os QE não ajudaram à rápida retoma económica?

A partir de uma perspetiva mais ampla, não é óbvio para mim que a implementação dos QE nos EUA e no Reino Unido tenham tido uma contribuição importante para o crescimento relativamente rápido nesses dois países.

Porquê?

Creio que, nesses dois países, o QE funcionou mais por via dos efeitos sobre a redução das taxas de juro de mercado. Na Europa, no entanto, o financiamento através dos mercados é muito menor do que nos EUA e, em qualquer circunstância, os juros dos títulos soberanos já estão nos níveis mais baixos em séculos. A produção europeia também está muito mais concentrada em pequenas e médias empresas, que por sua vez são muito mais dependentes de financiamento bancário. O financiamento bancário para as PME ainda é muito difícil de obter, especialmente em países como Portugal e o QE não fará nada para melhorar isso.

O programa de Mario Draghi vai originar uma bolha nos mercados financeiros, como avisou recentemente Klaas Knot, presidente do banco central holandês?

Há uma forte suspeita de que a flexibilização da política monetária global, particularmente mas não exclusivamente pela Reserva Federal norte-americana (FED), tem empurrado para cima os preços dos ativos de risco por todo o lado. Os mercados de ações subiram para níveis inquietantes. O mesmo pode ser dito quanto à descida dos spreads em yields elevadas e na volatilidade medida.

A redução dos índices de volatilidade é perturbante, então não é um bom sinal?

Esse último efeito de redução da volatilidade é particularmente preocupante. Se a baixa volatilidade está a refletir as ações dos bancos centrais, ao invés de ser uma verdadeira redução de choques ou refletir uma maior eficiência de mercado, os investidores estão a ser atraídos para investimentos mais arriscados, sem realmente se aperceberem disso. Veja o caso recente, com toda essa turbulência em torno do fim da indexação do franco suíço ao euro, que evidencia perigos mais amplos quando a volatilidade subjacente volta a emergir.

Mas o BCE vai alimentar esses riscos?

As ações recentes do BCE vão juntar-se a esses perigos. Note-se que os efeitos não vão sentir-se só nos mercados de capitais europeus. Os analistas estão a referir que a ação do BCE vai fazer flutuar ainda mais a procura por instrumentos financeiros noutros lugares, incluindo nos Estados Unidos.

Acha que a equipa de Janet Yellen, da FED, vai continuar a ser “paciente” quanto ao momento em que deverá iniciar a subida das taxas diretoras de juros?

Há perigos tanto em apertar a política monetária muito lentamente como demasiado rápido. Um exemplo do primeiro caso foi o fracasso da FED em apertar a política monetária no início dos anos 1970, o que resultou em inflação alta. Um exemplo do segundo caso foi o aperto pela FED em 1937, que prolongou a Grande Depressão. Temo que a Reserva Federal, desta vez, possa voltar a ser “paciente” por demasiado tempo.

Porquê?

Há uma enorme tentação para não fazer nada, pois há imensas incertezas sobre o estado da economia dos EUA, bem como sobre apertar ou não e quais as implicações. A tentação pode ser reforçada pela preocupação da FED com os níveis de emprego, evitando a repetição de 1937. Aqueles que lucram com a atual orientação da política, sobretudo os que pedem emprestado como o próprio governo dos EUA, farão um forte lóbi para manter a política de “alívio por mais tempo” . A minha preocupação não é tanto que isso conduza à inflação, mas mais que isso incentive novos aumentos de preços de ativos e outros desequilíbrios na economia real.

Finalmente, está em curso uma avaliação da OCDE sobre a China. A segunda maior economia do mundo vai mesmo aterrar suavemente?

Esse é, de facto, o melhor palpite da maioria dos analistas. Mas essa previsão tem um pressuposto. Assume que a liderança chinesa será capaz de lidar com um número extraordinário de desafios decorrentes de um muito rápido crescimento económico na base do crédito, verificado ao longo dos últimos anos. Entre os problemas destacaria: a sobrecapacidade em muitos setores de atividade, um grande excesso de endividamento por parte das empresas, uma bolha imobiliária prestes a estourar, uma fragilidade financeira associada e a realidade da queda acentuada dos preços no produtor. Além disso, há uma série de transições, ou previstas ou em curso no modelo de crescimento, do rural para o urbano, do investimento para o consumo, da produção para os serviços e do governo para um progresso baseado no sector privado. São muitas bolas para manter no ar ao mesmo tempo. Dado o tamanho da China e a sua importância atual na economia mundial, aconteça o que acontecer lá afetará a todos nós. Vamos esperar, por isso, o melhor, tanto na China como em outros lugares.

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