“Os resgates são um erro histórico” – Charles Wyplosz

“A reestruturação de uma dívida soberana é sempre algo desordenado e confuso, complexo e mesmo feio. Mas é melhor do que um estrangulamento em ritmo lento da economia grega”, afirmou Charles Wyplosz, professor de Economia Internacional no Graduate Institute, em Genebra, onde dirige o Centro Internacional de Estudos Bancários e Monetários.

Charles é membro do grupo de conselheiros independentes do presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso. É licenciado em engenharia a estatística em França e doutorou-se em economia na Universidade de Stanford.

Entrevista por Jorge Nascimento Rodrigues @2011

P: Acha que a Grécia sairá da zona euro antes de 2013, ou o artigo publicado pelo Der Spiegel não tem fundamento, e é uma manobra de contrainformação como acusam alguns analistas gregos?
R: Percebo que alguns segmentos da opinião pública alemã se oponham aos resgates das dívidas públicas. Têm razão no sentido de que tais resgates são proibidos pelo Tratado de Maastricht, pelo menos no espírito se não mesmo na letra do tratado. O resgate da Grécia é a fonte direta do contágio que temos estado a ver desde o ano passado. É um erro histórico, tal como são os resgates subsequentes da Irlanda e de Portugal, bem como a política do Banco Central Europeu de compra de dívida soberana.

P: Mas porquê o stresse deste final de semana?
R: O perigo é que façamos um erro ainda maior agora que os efeitos do primeiro desta série – o resgate grego – começam a ficar a claro. Se a Grécia abandonasse o euro, seria um desastre imediato não só para a Grécia, mas a longo prazo para o resto da união monetária, pois haveria um contágio de desintegração. Alguns alemães sonham com o regresso do marco, ou, de um modo mais plausível, com um euro nortenho limitado aos países disciplinados em termos orçamentais. Esta situação desintegraria obviamente o próprio mercado único.

P: Por detrás destes fumos sobre a saída da Grécia da zona euro, estará outra coisa, que ande a ser negociada discretamente, e negada oficialmente?
R: Como há muito eu e muitos outros temos vindo a predizer, é hoje claro que tentar estabilizar a dívida grega em dois ou três anos é uma missão impossível. Este tipo de coisas leva o seu tempo, muitos anos mesmo. O fardo sobre os cidadãos gregos é elevado e mesmo assim não funciona. A reestruturação de uma dívida soberana é sempre algo desordenado e confuso, complexo e mesmo feio. Mas é melhor do que um estrangulamento em ritmo lento da economia grega.

P: Quer dizer que é inevitável?
R: Sim, e quanto mais cedo, melhor.

P: Qual o impacto destas incertezas em relação à Grécia sobre a Irlanda já resgatada e sobre Portugal que discute atualmente o seu resgate?
R: O pior cenário poderá ser este: a Grécia entra em default – hoje em dia é uma quase-certeza, e o mercado financeiro faz disparar a pressão sobre a Irlanda e Portugal, e os dois países também entram em incumprimento. É uma tarefa imensa, mas, a meu ver, pode ser gerida. O problema real é com Espanha.

P: Teme que o contágio atinja Espanha como um dominó para chegar ao centro da Europa?
R: A Espanha é já uma grande economia e o contágio pode depois espalhar-se para a Bélgica, Itália e França. Depois, é um desastre mundial com consequências que nem posso imaginar.

P: Mas como se pode evitar esse cenário catastrófico?
R: Os países evolvidos devem imediatamente estabelecer instituições credíveis que garantam a estabilidade a longo prazo. O mercado financeiro é realista. Não espera que acabem imediatamente os défices, mas o que querem saber é se as dívidas serão estabilizadas e reduzidas logo que essas economias retomem o crescimento. O mercado olha para a próxima década. Os governos olham para concertos rápidos, enquanto o que necessitamos – e os mercados exigem – são soluções de longo prazo. Os governos têm uma duração curta e, por isso, são incapazes de olhar mais adiante para o futuro. Mas as instituições – leis, procedimentos – duram até serem mudadas. Necessitamos de boas instituições e a garantia de que serão eficientes e não mudarão.

P: Pode ser mais concreto?
R: A única saída é mudar a forma como os orçamentos são preparados, negociados, adotados e implementados em países que não têm sido capazes de impor uma disciplina orçamental. O que requer a adoção de regras – como obrigando a orçamentos equilibrados, tetos de dívida, tetos de despesa – e de procedimentos – como limites em emendas parlamentares, delegação no ministro das Finanças – que forneçam um grau adequado de refreamento. Os mercados reconhecerão que, daqui em diante, a disciplina orçamental será conseguida se estas mudanças se mantiverem em vigor, e se forem respeitadas, para o futuro.

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