Peter Temin: A economia mundial está sem líder

A crise das dívidas soberanas na zona euro prossegue sem fim à vista. A austeridade domina o pensamento económico e a Alemanha, a principal potência europeia, não arrepia caminho. O declínio do poder norte-americano para impor uma cooperação na resolução dos desequilíbrios mundiais é visível e não é substituído ainda nem pelo G20 nem pelos BRICS. A conjuntura mundial que vivemos é especial, tal como no começo dos anos 30 do século passado, aquando da Grande Depressão que durou uma década, do domínio ideológico do padrão ouro que se manteve até quando já era tarde para reparar os seus malefícios e das políticas extremas de deflação seguidas em países-chave, como na Alemanha. O historiador económico, professor emérito de Economia do Massachusetts Institute of Technology (MIT) em Cambridge, Boston, pensa que, por agora, não estamos com muita sorte para fazer a transição sem um desastre.

Entrevista por Jorge Mascimento Rodrigues (c) 2013
Foto de Peter Pereira (c) 2013
(Versão original publicada no semanário português Expresso)

Peter Temin fotografado por Peter Pereira

Peter Temin fotografado por Peter Pereira

DESTAQUES

«As atuais políticas hegemónicas alemãs impõem custos económicos a outros países europeus. O atual governo em Berlim parece não estar em condições de mudar de direção.»

«Os EUA tornaram-se parte do problema, não da solução. Esta crise sinalizou o fim do século americano.»

«O problema é que os EUA, a Alemanha, o Reino Unido e a China estão centrados nos seus problemas internos, excessivamente. Nenhum deles está a pensar seriamente no que se está a passar nos países sob regime de austeridade. As atuais políticas dessas quatro potências só alimentam as dificuldades, por ora.»

«A opção adequada pode ser vista como a solução de cooperação no dilema do prisioneiro, na esteira do Plano Marshall de há setenta anos. A solução tem de acomodar a expansão macroeconómica de uns e de outros. É claro que isto é o oposto das políticas que estão a ser seguidas.»

«Se uma economia de maior dimensão, como a Grécia ou outra, tiver de controlar a sua moeda, será parecido ao que aconteceu em Chipre, ou será o fim do euro? Coloco interrogações, porque tudo isto depende da forma como os que detêm euros esperam que a tendência de saída da zona euro se mantenha e ganhe vapor.»

ENTREVISTA

P: Qual é o mais importante sinal de que o mundo está sem liderança?

R: Quando não há uma potência hegemónica capaz ou com intenção de promover a cooperação económica internacional. Quando não há líder, mesmo pequenas perturbações económicas levam a depressões de grande dimensão. As políticas económicas acabam por não ser coordenadas e nada ajuda a aliviar as dificuldades económicas.

P: É o fim do século americano?

R: Como refiro no meu livro mais recente “The Leaderless Economy” (A economia sem líder) em coautoria com David Vines, a paralisia do governo americano é evidente, tal como, grosso modo, na Grã-Bretanha um século antes. Os EUA tornaram-se parte do problema, não da solução. Esta crise sinalizou o fim do século americano.

P: Isso significa que estamos numa conjuntura especial da história?

R: Essas situações ocorrem quando não há liderança e a economia mundial se despenha.

P: Tal como nos anos 30 do século o passado. Há saída benigna?

R: Podemos ter sorte e realizar uma transição sem desastre. Mas não me parece que estejamos com sorte nos dias que correm.

P: Qual foi o principal erro nesse período de conjuntura especial dos anos 30 que conduziu ao desastre?

R: As crises nos EUA e na Europa em 1931 transformaram-se numa Grande Depressão porque foram causadas e depois estimularam ainda mais políticas deflacionistas nos grandes países. Nem o Reino Unido nem os EUA estavam prontos e capazes para conseguir a cooperação entre os países afetados.

P: Que semelhanças encontra entre as duas conjunturas especiais dos anos 30 e de agora?

R: No começo dos anos 30 muitos países industriais da Europa e os EUA insistiam em prosseguir políticas deflacionistas, o que hoje chamam de austeridade.

P: Qual foi o caso mais emblemático?

R. O melhor exemplo de uma política errada foi o período de governo do chanceler Bruening na chamada República de Weimar alemã. A Alemanha tinha abandonado o padrão ouro no verão de 1931, mas ironicamente o chanceler não aproveitou essa situação de independência em relação aos constrangimentos que impunha o padrão ouro, e continuou a contrair a economia. É um exemplo vivo do poder da ideologia – no caso da ideologia do padrão ouro – em líderes políticos que viam a economia colapsar em frente dos seus olhos e não mudavam. Arruinou a economia alemã e levou à destruição da democracia no país.

P: A situação atual é uma oportunidade para os BRICS?

R: As atuais circunstâncias abrem sem dúvida oportunidades para os BRICS, mas essas oportunidades também contêm perigos. Nos anos 30 (do século passado) convém recordar que os países em desenvolvimento de então também sofreram juntamento com os industrializados. É difícil promover o desenvolvimento quando as principais potências industriais não estão em boa forma.

P: De entre os BRICS, qual poderá ser uma surpresa?

R: São um grupo muito diverso. É difícil saber ainda quais se sairão melhor destes tempos incertos.

P: Mas quem é que hoje pode provocar uma reviravolta?

R: No fim de contas, o que me pergunta é que potências são possíveis de exercer hegemonia e de promover uma expansão seletiva hoje em dia? O problema é que os EUA, a Alemanha, o Reino Unido e a China estão centrados nos seus problemas internos, excessivamente, como eu refiro no livro que publiquei agora com David Vines.

P: Estão desatentos?

R: Nenhum deles está a pensar seriamente no que se está a passar nos países sob regime de austeridade. As atuais políticas dessas quatro potências só alimentam as dificuldades, por ora.

P: Acha que o G20 pode ser a plataforma para a cooperação necessária entre potências económicas neste período de crises?

R: Eu e o David Vines insistimos que a cooperação é crucial. Esperamos que o G20 possa ser um bom fórum para negociações e acordos, mas ainda está para se ver como o fará.

P: A Alemanha tem desenvolvido uma estratégia hegemónica na Europa, dada a fraqueza do Reino Unido, da França e também dos Estados Unidos. Terá sucesso?

R: A estratégia da Alemanha parece, por ora, ser a de responder a cada minicrise com o suficiente para acalmar os investidores por um tempo. Tem havido muito pouca alteração na posição global económica da Alemanha em relação aos periféricos da zona euro e poucas tentativas de cooperação internacional. As atuais políticas alemãs impõem custos económicos a outros países europeus. O atual governo em Berlim parece não estar em condições de mudar de direção.

P: Há alternativa à política de deflação nos “periféricos”?

R: Ajustamentos de competitividade numa união monetária são difíceis. Não se podendo desvalorizar a moeda, o segundo instrumento é mudar os preços relativos, o que implica deflacionar. O que é ainda mais duro. Mas pode ser conseguido de outro modo, se a Alemanha aumentar a procura e deixar os custos internos aumentar, se a Alemanha, também, suspender a sua própria austeridade – mas poderá não o querer fazer.

P: Essa situação poderá ser alterada?

R: Não sabemos quem vai ganhar as eleições legislativas federais no final do ano, mas não há muita esperança que os que ganhem mudem a direção das políticas económicas alemãs.

P: Isso significa que a possibilidade de se resolverem os principais desequilíbrios internos na zona euro, através de uma nova política por parte do país com maior excedente externo, está perdida?

R: Sobre a atitude da Alemanha creio que está claro o que penso. A minha posição, bem expressa no livro que referi, é que a solução para todos estes problemas atuais na zona euro tem de ser conseguida por uma grande negociação entre várias partes. Pode ser vista como a solução de cooperação no dilema do prisioneiro, na esteira do Plano Marshall de há mais de sessenta e cinco anos. A solução tem de acomodar a expansão macroeconómica de uns e de outros. O ponto de vista que defendemos no livro é que a Alemanha, a putativa potência hegemónica na zona euro, deveria tomar a liderança em promover esta solução de cooperação. É claro que isto é o oposto das políticas que estão a ser seguidas.

P: Então, a melhor opção para os países periféricos é sair do euro, tal como alguns países fizeram nos anos 20 e 30 do século passado abandonando o padrão ouro, ou a situação hoje é diferente?

R: Na prática, temporariamente, Chipre saiu do euro instaurando controlo de capitais. Contudo, a zona euro não se desfez. Quantas mais pequenas economias do euro, como Malta e outras, poderão duplicar esta experiência de Chipre? Se uma economia de maior dimensão, como a Grécia ou outra, tiver de controlar a sua moeda, será parecido ao que aconteceu em Chipre, ou será o fim do euro? Coloco interrogações, porque tudo isto depende da forma como os que detêm euros esperam que a tendência de saída da zona euro se mantenha e ganhe vapor.

P: E à escala mundial os desequilíbrios poderão ser resolvidos?

R: A China está a virar-se para dentro e a aumentar o rendimento da sua população. O resultado poderá ser a mudança de uma estratégia dominada pelas exportações para uma de expansão do mercado interno. Isso será muito bom para o resto do mundo. Outros países poderão usufruir dessa viragem chinesa, mas só se tiverem políticas sensíveis a esse novo contexto.

P: Os EUA com a nova estratégia no gás de xisto e com a contínua vantagem na investigação científica e tecnológica e no empreendedorismo poderão superar as suas atuais fraquezas e reganhar uma situação de liderança?

R: Os Estados Unidos têm uma economia que está pronta para crescer. Mas o sector privado tem sido travado por políticas loucas de redução das despesas públicas. Isso diminui a procura privada no curto prazo e desencoraja os investimentos em curso. Essas políticas ignoram também as necessidades da América na educação e nas infraestruturas e falham redondamente em criar boas condições para investimentos futuros.

PERFIL

O historiador da Grande Depressão

Peter Temin nasceu no final de 1937 ainda com a Grande Depressão no horizonte. Curiosamente, um período da história que o apaixonaria e em que é considerado um dos especialistas. A sua obra “Lessons from the Great Depression” (Lições da Grande Depressão) publicada em 1989 é de leitura obrigatória. O livro que publicou este ano com o inglês Davide Vines, e intitulado “The Leaderless Economy” (A Economia sem Liderança), vai certamente ser uma referência sobre a situação atual. Temin doutorou-se no Massachusetts Institute of Technology em 1964, onde viria a desenvolver toda a sua carreira académica até desempenhar o papel de diretor do Departamento de Economia, tendo em 2009, já com 72 anos, passado a professor emérito.

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