Risco geopolítico saiu do armário com a crise da Crimeia

O impacto da crise da Crimeia saldou-se por uma queda na valorização bolsista mundial de 1,2% no dia 3 de março, segundo o índice MSCI AC World. Contudo, não é comparável com o trambolhão ocorrido ao longo de oito sessões consecutivas de 24 de janeiro a 4 de fevereiro, em que aquele índice mundial caiu 4,9%, em virtude de mais um surto da crise das economias emergentes, motivado pela “fuga” dos investidores internacionais daquelas paragens. No conjunto da semana, o índice mundial fechou ligeiramente positivo (0,31%).

Para alguns analistas, a crise da Crimeia é o primeiro “cisne cinzento” de 2014.

O impacto mais forte da “segunda-feira negra” – 3 de março – nos mercados financeiros registou-se na Bolsa de Moscovo e nas economias emergentes da Europa de Leste, com destaque para as bolsas da Ucrânia, Letónia, Polónia e Hungria. No entanto, por mais paradoxal que pareça, o efeito negativo, no conjunto da semana, no índice da Bolsa de Kiev foi ligeiro (apenas 0,8%).

No conjunto da semana, os maiores impactos negativos registaram-se nos índices da Bolsa de Moscovo, que caíram 8,36%, no índice geral da bolsa de Riga (Letónia) que desceu 6,8%, no índice da Bolsa de Budapeste (Hungria) com uma queda de 3,46% e no índice da Bolsa de Varsóvia (Polónia) com uma redução de 3,3%. No conjunto dos mercados emergentes da Europa de Leste, a queda semanal foi de 6,85%.

A “segunda-feira negra” saldou-se por uma quebra de 2,5% no índice MSCI para o conjunto das bolsas europeias. No caso do PSI 20 da Bolsa de Lisboa, a redução foi de 2,57%. O impacto negativo nos Estados Unidos foi ligeiro(o Dow Jones caiu 0,94%) e no conjunto das economias emergentes foi de 1,63%.

No entanto, no conjunto da semana, só o índice MSCI para a Europa se manteve no negativo (quebra de 1,16%). Os índices MSCI para os Estados Unidos e para os mercados emergentes tiveram valorizações de 0,92% e 0,03% respetivamente. O PSI 20 subiu 1,3% em termos semanais.

Em virtude do crash bolsista em Moscovo e do disparo da desvalorização do rublo (7% nos últimos 30 dias em relação ao euro), a Rússia – um dos BRIC – entrou para o “clube” das economias que se estão a revelar mais frágeis em 2014.

Três crises que poderão interligar-se

A economia mundial está agora a sofrer o impacto de três crises que poderão interligar-se.

A mais recente é a crise geopolítica provocada pela crise da Crimeia, tirando o risco geopolítico do armário e obrigando os investidores internacionais e os banqueiros centrais a recolocá-lo nos “cenários”. Mario Draghi, o presidente do Banco Central Europeu (BCE), ironizou, esta semana, que a geopolítica ia muito para além da mente dos “humildes” banqueiros centrais, mas este tópico vai marcar as suas reuniões nos próximos tempos.

Junta-se a crise das economias emergentes que está a desenvolver-se desde o verão do ano passado (já com três surtos, em junho e outubro de 2013 e mais recentemente em fevereiro passado).

A mais antiga é a crise das dívidas soberanas na zona euro, com um processo de desinflação (taxa de inflação muito baixa que se poderá manter por um período prolongado, como refere o BCE) e a manutenção de altos níveis de desemprego, de elevado hiato do produto (diferença em relação ao PIB potencial, um indicador para o qual Mario Draghi chamou à atenção esta semana) e de rácios da dívida soberana em quatro periféricos muito superiores a 120% do PIB (Grécia, Itália, Portugal e Irlanda).

A este trio de crises junta-se o abrandamento do crescimento da China, a segunda maior economia do mundo, que tem sido o “motor” do aumento anual do PIB mundial.

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