Thomas Piketty (o autor do melhor livro de Economia de 2014), em entrevista ao Expresso: «Imposto sobre as fortunas é preferível à austeridade»

Teaser de uma entrevista realizada por Jorge Nascimento Rodrigues em Paris com Thomas Piketty e publicada numa versão editada no semanário português Expresso em 23 de maio de 2014

NOTA — O livro foi escolhido em novembro de 2014 como o melhor do ano em Economia pelo Financial Times e pela McKinsey

Foto Hamilton Oliveira, Paris (cortesia do fotógrafo)

O professor francês Thomas Piketty, autor de “Le Capital au XXI siècle” (editora Seuil, 2013, cerca de 1000 páginas) cuja tradução em inglês (“Capital in the Twenty-First Century”, Harvard University Press, 685 páginas) se tornou rapidamente líder da lista de best sellers na Amazon e esgotou nas livrarias norte-americanas, diz ao Expresso, na edição de 23 de maio de 2014, que a austeridade é a pior solução para diminuir o sobreendividamento público.

Thomas Piketty, economiste, directeur d'etudes à l'EHESS, l'Ecole des hautes etudes en sciences sociales, dans son bureau de l'ecole

A austeridade implicará décadas de sacrifícios para a maioria da população e só será benéfica para os grandes portefólios detentores de obrigações do Tesouro. O que aconteceu no Reino Unido entre 1810 e 1910 é bem ilustrativo dos malefícios de uma tal opção política por uma austeridade prolongada, sublinha o autor recorrendo a um caso de antologia histórica.

A melhor opção, diz o fundador da École d’Économie de Paris, é um imposto extraordinário progressivo sobre o valor líquido das fortunas acima de €1 milhão, com uma taxa de 1% entre 1 e 5 milhões e de 2% acima de 5 milhões, aplicado ao longo de um período de tempo como medida fiscal de emergência.

A taxa anual progressiva sobre as fortunas (avaliadas em termos líquidos, insiste o autor para não assustar as classes médias) acima de €1 milhão, poderia abranger, no caso da União Europeia (UE), uma minoria de 2,5% da população adulta e permitir uma arrecadação fiscal anual na ordem de €300 mil milhões, equivalente atualmente a 2% do PIB. Essa taxa deve aplicar-se a todo o tipo de ativos.

Se for politicamente difícil, a sua segunda escolha é aumentar a inflação para fazer diminuir o sobreendividamento público, apesar das desvantagens que acarreta.

A proposta de um imposto anual global progressivo sobre o capital (sobre a riqueza líquida acima de €1 milhão) é uma das traves mestras da política fiscal defendida no livro de Piketty que chama a atenção para a subida da concentração da riqueza no topo da pirâmide social, nos 1% e 0,1% da população, desde os anos 1980 e mesmo com a atual crise financeira e da dívida. Essa tendência dos últimos trinta anos fez regressar ao poder económico uma oligarquia que poderá renascer as desigualdades extremas e o esmagamento das classes médias típicas do século XIX, diz o autor.

Há uma recensão sobre o livro, sintética mas muito completa, escrita pelo professor João Constâncio no diário português “Público”.

A ler na edição do EXPRESSO de 23 de maio de 2014 no Caderno de Economia

A conversa original com Thomas Piketty será publicada mais tarde neste blogue.

Traves mestras do livro

# Principal contradição do capitalismo: r > g por longos períodos de tempo desde a Revolução Industrial no século XVIII (r é a taxa de crescimento da remuneração do capital privado que é, em regra, superior a g, a taxa de crescimento da economia e do rendimento nacional)

# A taxa r é historicamente elevada e mais elevada na Europa do que nos EUA

# Um ambiente de crescimento económico declinante e tendencialmente baixo e de baixa da natalidade nas economias desenvolvidas puxam r ainda mais para cima e reforçam o papel da hereditariedade na transmissão – será, segundo Piketty, a tendência desde 1970 (com o regresso do “capitalismo patrimonial”) e o cenário base de Piketty até 2100 (o que resulta numa aproximação ao perfil do séc. XIX)

# O período de baixo r entre 1913-1950 foi uma anomalia histórica

# Austeridade agrava a tendência de subida de r — o próprio caso de Portugal entre 2005 e 2012

# Evitar o cenário de austeridade de um século (1815-1915) ocorrida no caso britânico (a experiência dos excedentes orçamentais durante muitos anos já foi feita; quem ganhou com ela, os detentores de dívida pública)

# Propostas fiscais: impostos progressivos nos rendimentos singualare e colectivos e taxa anual sobre as fortunas (avaliadas em termos líquidos)

# Proposta de emergência face à crise da dívida soberana na Europa: imposto extraordinário sobre as fortunas durante um certo período para proceder à redução do nível de sobreendividamento

# Princípios fiscais básicos: progressividade nos impostos e avaliação líquida dos patrimónios com uma taxa sobre as fortunas à escala global (o que tem sido considerado uma utopia)

# Proposta institucional a nível europeu: um “parlamento orçamental” para a zona euro; BCE não chega como única entidade (não eleita) federal no âmbito da zona euro para gerir as crises

# Crítica do otimismo tecnologista e empreendedorista: não passámos no séc.XXI de uma civilização baseada no capital, na herança e no sangue para uma baseada no capital humano e no talento.

Financial Times critica Pikettypelas 19h de 23 de maio, o jornal britânico publica um artigo de Chris Giles alegando ter encontrado vários erros nos dados usados por Piketty que se corrigidos conduzem a outras conclusões.

Duas conclusões importantes de Thomas Piketty, no seu livro “O Capital no século XXI”, de que sobretudo a partir dos anos 1980 se verifica, de novo, uma subida da riqueza detida pelo topo da pirâmide social no rendimento nacional em diversas economias desenvolvidas e de que essa desigualdade é mais acentuada nos Estados Unidos do que na Europa foram hoje colocadas em causa.

Uma investigação realizada por Chris Giles, editor de Economia do Financial Times (FT), revelou muitas entradas não explicadas de dados, uso não explicado de diferentes períodos de tempo, alterações de dados e erros na transcrição de dados a partir das fontes originais, e médias entre países obtidas por métodos questionáveis que baseiam alguns dos gráficos chave de um capítulo do livro “O Capital no século XXI” de Thomas Piketty.

O editor do FT pôde realizar esta avaliação pois Piketty colocou online os dados usados para o livro desde a sua publicação em francês no ano passado, bem como um apêndice técnico desenvolvido.

Giles alega, num artigo que publicou ao final da tarde de hoje na secção “Global Economy” do FT, que “[os erros] são suficientemente sérios para colocar em causa a afirmação do professor Piketty de que a parcela de riqueza nas mãos dos mais ricos da sociedade tem vindo a crescer” depois de 1970. “Quando procurei corrigir estes aparentes erros, um quadro bem diferente sobre a desigualdade surgiu”, diz Giles em “Piketty findings undercut by errors”. “O resultado combinado de todos estes problemas conduz [no livro de Piketty] a um aumento artificial da concentração da riqueza nos mais ricos nos últimos 50 anos”, afirma. Com as correções feitas por Giles, a tendência para um aumento da desigualdade na riqueza depois de 1970 “desaparece”.

O ponto de divergência: concentração aumentou ou mantém-se estável?

O editor de Economia do FT iniciou a investigação por ter tropeçado numa diferença entre os dados oficiais britânicos e os referidos por Piketty quando pesquisava para um artigo sobre a distribuição de riqueza no Reino Unido. O editor do FT foi analisar ao detalhe os dados do capítulo 10 (“Desigualdade na posse do capital”) na parte III do livro do professor francês, verificando os tais problemas com dados para quatro países-chave da análise – França, Suécia, Reino Unido e Estados Unidos.

No caso do Reino Unido, Giles encontra as maiores discrepâncias entre dados oficiais e os números de Piketty a partir de 1980. “O nível de concentração de riqueza na Grã-Bretanha em 1980, 1990, 2000 e 2010 é significativamente mais baixo do que reporta o professor Piketty”, sublinha o FT, e, nesse sentido, o que se verifica é um nível estável.

Resumindo sobre a Europa, Giles alega que a média que obtém – reduzindo o peso da Suécia, refletindo a menor população deste país em relação aos outros três – não é tão elevada no final do século XX como Piketty alega. E que os dados que coligiu sobre o Reino Unido nos últimos anos não apontam para uma tendência de subida. No caso dos EUA, Giles conclui também que a evolução entre 1960 e 2010 revela um aumento muito ligeiro da parcela de riqueza detida pelo 1% do topo (subiu de 33,4% para 34,6%).

A conclusão central de Giles é que a curva da riqueza detida pelo topo não aumentou, mas manteve-se praticamente estável nos últimos 50 anos quer na Europa como nos EUA. A preocupação da crítica do FT é este passado recente – o pós-1970 – e não o passado mais distante do século XIX e o que ocorreu na primeira metade do século XX, onde as conclusões globais de Piketty “parecem estar certas”.

Alguns comentadores internacionais alegam alguma similitude entre estas críticas aos dados de Piketty e a crítica no ano passado aos erros de Excel e metodológicos encontrados por uma equipa da Universidade de Massachusetts, Amherst, num artigo de Carmen Reinhart e Ken Rogoff de maio de 2010 sobre a questão do limiar vermelho dos 90% da dívida pública. Uma polémica que o Expresso então acompanhou.

A resposta de Piketty

O FT publicou uma resposta de Piketty às críticas de Giles, em que o professor francês refere ter realizado “alguns ajustamentos” aos dados em bruto das fontes originais “no sentido de as tornar mais homogéneas ao longo do tempo e entre países”.

Alega, ainda, que ficaria “muito surpreendido se alguma das conclusões substantivas sobre a evolução de longo prazo das distribuições da riqueza fossem muito afetadas” por melhorias na recolha de dados e nas estimativas cobrindo mais países que o projeto World Top Incomes Database, criado por Piketty com outros colegas, vier a fornecer. No entanto, o professor francês não analisa caso a caso as críticas de Chris Giles, mas desafia o FT a publicar estatísticas e rankings sobre a riqueza, material que ele analisará, ficando muito satisfeito se mudar de opinião. Conclui com ironia: “Mantenham-me informado”.

O autor de o “Capital no século XXI” refere ainda que as estimativas da concentração de riqueza por ele apresentadas pecarão até provavelmente por defeito. Piketty refere no livro uma investigação de Gabriel Zucman, publicada na revista científica “Quarterly Journal of Economics”, no ano passado, em que se concluía que uma boa parte da riqueza detida pelo topo não é reportada pois se encontra em offshores, o que deve representar 10% do PIB mundial ou 7 a 8% dos ativos líquidos financeiros globais.

A resposta de Piketty no Expresso

“A crítica é puramente ideológica”, replica, em declarações ao Expresso, Thomas Piketty, autor de “Capital no século XXI”, sobre a crítica de Chris Giles, editor de Economia do “Financial Times” (FT), que acusou ontem o volumoso trabalho do professor francês de ter erros nos dados e de se candidatar a ser mais um caso ao estilo dos erros de Excel e metodológicos de Carmen Reinhart e Ken Rogoff que estoirou no ano passado.

O Expresso falou com Piketty esta semana na École d’Économie de Paris sobre o best-seller que agitou particularmente os Estados Unidos e publicou a entrevista na edição impressa de ontem.

O centro da divergência entre Piketty e o FT tem a ver com o que ocorreu depois dos anos 1970-1980 – a questão vital é esta: o peso dos segmentos de topo na riqueza subiu nitidamente (como documenta o professor francês) ou mantém-se “plano” (como documenta Chris Giles no artigo de crítica).

Em termos político-económicos: os ricos dos ricos estão a formar de novo uma oligarquia em larga medida “rentista” ao estilo do século XIX e começo do século XX e que pode vir a ser uma “ameaça para a democracia” (como aponta Piketty) ou isso é um exagero baseado em dados errados em vários casos (como alega Giles do FT).

Em termos globais, o peso médio do valor do capital privado – de todos os segmentos detentores de capital, não só os 10% ou 1% – no rendimento nacional subiu de um mínimo histórico nos anos 1950 de menos de 300% para mais de 400% em 2010. O cenário principal simulado por Piketty aponta projeções desse rácio para quase 500% em 2030, ou seja um patamar similar ao verificado em 1910, quando se atingiu o pico histórico deste indicador com base em dados desde 1870.

Sobre a polémica com o FT, Piketty disse hoje ao Expresso que o jornal britânico deve publicar uma classificação das fortunas diferente se a tiver, indicando quais as conclusões diferentes que tira. Um desafio que já fizera na resposta ontem publicada no jornal britânico, em que, no entanto, não responde ponto por ponto aos erros apontados por Giles.

Piketty alega que “todas as classificações sobre fortunas do mundo indicam que os patrimónios mais elevados progrediram muito mais rapidamente do que a média dos patrimónios”, remetendo os críticos para o quadro de síntese desses dados publicado no livro ( tabela 12.1 na página 435 no capítulo 12 sobre “Desigualdade Global na Riqueza no século XXI”).

Nesse quadro, Piketty aponta que a média anual, em termos reais (descontando a inflação que foi de 2,3% por ano em média no período assinalado), do crescimento da riqueza dos segmentos do topo foi superior a 6% entre 1987 e 2013, um ritmo que é mais de 3 vezes superior à média mundial do crescimento total da riqueza, mais de 4 vezes o crescimento médio do rendimento por adulto no mundo e cerca de 2 vezes a taxa de crescimento do PIB mundial.

Piketty vai atualizar os dados

Thomas Piketty disse ao “Business Insider” que atualizará em breve a sua base de dados colocada na Internet como anexos técnicos do best-seller “Capital in the Twenty-First Century”, em resposta às críticas do jornal britânico “Financial Times” (FT).

Chris Giles, editor de Economia do FT, detalhou na sexta-feira passada uma crítica ao livro do professor francês apontando erros na base de dados que, se corrigidos, conduzem a conclusões sobre a concentração da riqueza opostas àquelas que o livro aponta para o período após 1980. Para Piketty houve um agravamento desde aqueles anos, para Giles a evolução é “plana”.

Piketty disse ao “Business Insider” que “se congratula com uma discussão construtiva dos dados – é, por isso, que eu coloco tudo online -, mas as pessoas do FT não são, realmente, construtivas. Apesar de fingirem o contrário, as pequenas alterações que operaram nas minhas séries de dados – com as quais discordo – não alteram em nada as evoluções de longo prazo e as minhas análises. Atualizarei o apêndice técnico do livro nos próximos dias no sentido de esclarecer ainda mais esta questão”.

“A nova luta de classes” diz a American Spectator

Entretanto, a edição de junho da revista “The American Spectator” dá capa a “A nova luta de classes – a cobertura intelectual para o confisco pelo economista francês Thomas Piketty”. A capa publica uma ilustração sugestiva: um cadafalso preparado para guilhotinar um capitalista com o carrasco agitando o livro do professor francês.

James Piereson que assina o artigo de capa, com uma recensão ao livro de Piketty que tem estado no centro das polémicas atuais, é muito crítico do diagnóstico e das soluções fiscais do professor francês, nomeadamente os impostos progressivos e uma taxa extraordinária sobre a riqueza líquida, considerando-as “confisco”.

O papel do livro, diz Piereson, é dar “munições intelectuais” para a “punição dos ricos” aos derrotados pelas correntes em prol do “mercado livre” – vulgo neo-liberais – que triunfaram nos anos 1970 e 1980 e que têm dominado em boa medida a atual gestão da crise financeira global e da crise das dívidas soberanas.

Reposta de Piketty a 29 de maio

Piketty rejeita acusações do Financial Times

O académico francês, autor do best-seller sobre o capital que tem feito furor, respondeu ponto por ponto às críticas do jornal britânico. Mas admite que a informação disponível sobre a riqueza é limitada para fazer grandes projeções para o futuro e quase ironiza com o caso atual do Reino Unido.

O autor de “Capital no século XXI” atualizou ontem algumas explicações sobre dados usados e escolhas metodológicas no apêndice técnico ao livro que mantém no seu site. Mas reafirmou que as conclusões que apresentou no livro não sofrem beliscadura, nomeadamente que a desigualdade na riqueza aumentou moderadamente desde as décadas 1980-1990 na Europa e ainda mais fortemente nos Estados Unidos em décadas mais recentes.

Essas conclusões tinham sido o pomo da divergência entre Thomas Piketty e o “Financial Times” (FT) na semana passada. Chris Giles, o editor de Economia do jornal britânico, contrapôs na crítica que publicou no dia 23 de maio que a tendência desde os anos 1980-1990 tem sido “plana”, baseando-se num conjunto de alegados erros em dados e discordâncias metodológicas no seu tratamento que apontou ao capítulo 10 – Desigualdades na Propriedade do Capital – do livro. No dia em que o FT publicou a crítica, o Expresso publicou uma entrevista com o polémico professor francês.

Thomas Piketty rejeita duplamente a críticas. “Não achei a crítica do FT particularmente construtiva”, diz. Rebate a acusação de erros no uso das bases de dados – algo que o colocaria na galeria para que foram empurrados no ano passado Carmen Reinhart e Kenneth Rogoff – e não aceita as correções propostas por Giles, que acha inclusive “em grande parte relativamente menores e que não afetam as evoluções de longo prazo e a minha análise global”. E contra-ataca afirmando que as opções metodológicas feitas por Giles “são bastante discutíveis (para dizer o mínimo) “.

Não sou “determinista”

Contudo, Thomas Piketty sublinha que o seu ponto de vista não é “determinista”, separando águas com as correntes na economia ou na economia política que assim pensam.

“A principal mensagem que sai do meu livro não é a de que deverá existir sempre uma tendência determinística no sentido de uma crescente desigualdade (eu não acredito nisso). A principal mensagem é que necessitamos de mais transparência democrática sobre as dinâmicas da riqueza, de modo a podermos ajustar as nossas instituições e políticas ao que quer que seja que observemos”. Sublinha inclusive: “Deixem-me tornar muito claro que não acredito que a r>g [em que r é a taxa de retorno do capital privado e g a taxa de crescimento do rendimento e do output, o que considera ser a “contradição central do capitalismo”] seja a única força que determina a dinâmica da desigualdade na riqueza. Há muitas outras forças importantes que, em princípio, podem conduzir a desigualdade na riqueza para outras direções”.

Concede que poderia ter explicado “mais claramente”, tornado “mais explícitas”, certas opções que fez ao lidar com séries de dados nos quatro países desenvolvidos analisados (EUA, França, Suécia e Reino Unido) em termos de uso das séries (por exemplo, médias decenais) e de escolhas metodológicas (por exemplo, médias simples em vez de médias ponderadas, ou o uso de técnicas de Pareto para estimativas).

Em alguns pontos, o académico francês acusa o FT de não ter consultado com cuidado a informação técnica sobretudo nas críticas sobre França e de ignorar investigação mais recente como no caso dos EUA, em que a investigação de Emmanuel Saez, da Universidade de Berkeley, e de Gabriel Zucman, da London Business School, confirmam o padrão apontado no livro, que inclusive pecaria por defeito – a tendência recente de crescimento da desigualdade é ainda mais elevada do que Piketty apontava.

Limitações e incertezas na análise

Concede que há “grandes incertezas e limitações na nossa capacidade coletiva de medir a recente evolução da desigualdade nos países desenvolvidos, particularmente no caso da Grã-Bretanha”. Piketty acha que “este é um grande desafio para as nossas instituições estatísticas e democráticas”.

O professor francês admite que no campo da concentração da riqueza em décadas recentes os dados são limitados e que, por isso, no livro trabalhou com a diversidade e heterogeneidade das séries de dados existentes. Piketty concorda que “as fontes de dados disponíveis sobre desigualdade na riqueza são muito menos sistemáticas do que as que existem sobre desigualdade no rendimento” e que a capacidade para analisar “as tendências mais recentes sobre a desigualdade da riqueza é limitada, sobretudo em virtude do crescimento gigantesco em ativos financeiros transfronteiriços e na riqueza em paraísos fiscais”.

Por isso ele propõe uma política fiscal sobre a riqueza, a cooperação internacional e a troca automática de informação bancária como formas de “desenvolver mais a transparência e obter fontes de informação mais confiáveis sobre a dinâmica da riqueza”.

O estranho caso do Reino Unido ser mais igualitário do que a Suécia

Thomas Piketty rejeita a opção metodológica de Chris Giles, do Financial Times (FT), ao usar um inquérito recente do Instituto Nacional de Estatísticas britânico sobre a riqueza e ativos que inclusive é experimental e que estima a partir do que os inquiridos auto reportaram. Mas o caso do Reino Unido deixa o francês intrigado: “o que aconteceu à desigualdade na riqueza na Grã-Bretanha em décadas recentes?”.

O matemático Carter Price já havia chamado, esta semana, à atenção para a fragilidade da escolha do editor do FT. Piketty, pelo contrário, tinha optado no livro por usar os dados do Her Majesty’s Revenue & Customs (a autoridade tributária).

Com base nos dados do inquérito que o FT usa como argumento central para demolir a tese de Piketty, o país da City seria “atualmente um dos países mais igualitários na história em termos de distribuição da riqueza”, comenta Piketty. Mais: “a Grã-Bretanha seria muito mais igualitária que a Suécia, e inclusive muito mais do que [aquele país nórdico] alguma vez foi (incluindo na década de 1980). Isto não parece particularmente plausível”. O professor francês conclui, por isso, que se trata “de um interessante debate para o futuro, e que todos concordaremos que sabemos pouco sobre ele”.

Howard Reed, fundador e diretor de investigação económica na consultora britânica Landman Economics, publicou ontem no jornal “The Guardian” uma análise das alegações de Chris Giles a respeito dos dados sobre o Reino Unido. Reed, que foi anteriormente economista-chefe do Institute for Public Policy Research, argumenta: “No geral, as séries de Piketty, embora não sejam uma representação perfeita dos dados em bruto (ajustados pelas descontinuidades), encaixam-se no padrão de mudanças subjacentes na desigualdade de riqueza [no Reino Unido] muito melhor do que as séries de Giles, que são, em grande parte, um artefato das descontinuidades”. E conclui que o editor do FT cometeu um “erro muito grave”: “trata as mudanças na forma como é medida a desigualdade da riqueza ao longo das décadas como se fossem verdadeiras mudanças na distribuição subjacente da riqueza. Este erro leva-o à conclusão errada de que a desigualdade na riqueza caiu no Reino Unido entre 1980 e 2010, enquanto que, na verdade, aumentou (embora não tanto quanto sugerem os resultados publicados por Piketty)”.

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