Um “Nobel” de Economia desconcertante (Prémio de 2013)

Ao atribuir o prémio a Eugene Fama, o “pai” da teoria dos “mercados eficientes”, e a Robert Shiller, um dos investigadores da “exuberância irracional” dos mesmos, o Comité sueco deu uma no cravo e outra na ferradura, cinco anos depois da segunda maior crise financeira dos últimos 100 anos.

Texto: Jorge Nascimento Rodrigues (c) 2013

Não foi a primeira vez que o Comité da Academia Real de Ciências Sueca surpreendeu galardoando abordagens bem divergentes na Economia: em 1974 premiou o sueco Gunnar Myrdal, que muitos consideram inclusive um keynesiano antes de Keynes publicar a sua obra-prima “Teoria Geral”, e o austríaco August von Hayek, um dos expoentes da corrente que gerou nos anos 1940 os fundamentos do que muitos designam por neoliberalismo.

De qualquer modo, os mercados financeiros estiveram na ribalta esta semana e não pelas piores razões. Ficaram em foco pelo facto do Comité sueco que atribui o prémio conhecido por “Nobel da Economia” – que, na realidade, é designado por Prémio de Ciências Económicas em memória de Alfred Nobel patrocinado pelo Sveriges Riksbank – ter destacado investigação empírica nessa área, agora que passam cinco anos sobre o auge da maior crise financeira dos últimos cem anos. “Apesar de ainda não dispormos de explicações completas e geralmente aceites sobre a forma como os mercados financeiros funcionam, a investigação dos laureados melhorou significativamente a nossa compreensão sobre os preços dos ativos e revelou um número de regularidades empíricas importantes, tal como fatores plausíveis dessas regularidades”, justificou o comité.

O Comité da Academia Real de Ciências Sueca para a área das Ciências Económicas acabou por juntar no pódio Lars Peter Hansen, um estatístico menos conhecido do grande público, que é diretor de investigação no Becker Friedman Institute (originalmente Milton Friedman Institute) onde lidera o grupo de modelos macrofinanceiros e professor na Universidade de Chicago. A ele se deve um método econométrico conhecido como “método generalizado dos momentos” (GMM, no acrónimo em inglês), apresentado em 1982, que se revelou muito útil na área financeira, sempre que os sistemas sejam não-lineares. Hansen confirmou a verificação de Shiller de que os preços dos ativos flutuavam tanto que era difícil “reconciliar” a realidade com os modelos dominantes usados então que se baseavam numa fantasia designada por “investidor representativo”.

Misturar teorias divergentes

De facto, Fama e Hansen recolhiam muitos votos nas sondagens e foram dois dos 10 “palpites” publicados pelo semanário português Expresso na semana anterior. Shiller não aparecia no radar como mais votado. O professor Barkley Rosser atribui a paternidade da solução de misturar Fama com Shiller a um fã do primeiro, o académico sueco Per Krusell, que preside desde 2011 ao Comité sueco. “Atribuir a Shiller e Fama seria como atribuir o Nobel da Física a Galileu e ao Inquisidor que o condenou”, disse, ironicamente, com manifesto exagero, o economista grego Yanis Varoufakis. Ou como John Kay disse, de um modo mais preciso no “Financial Times”, “é como atribuir o Nobel da Física juntamente a Ptolomeu pela sua teoria de que a Terra era o centro do universo e a Copérnico por ter mostrado que não era”.

A ideia de uma “ponte” entre as investigações de Fama e de Shiller era defendida já em 2005 (antes da crise) por Andrew Lo, o académico que dirige com Hansen o grupo de modelos macrofinanceiros no Instituto Becker Friedman. Tal como hoje em dia muitos continuam a tentar “pontes” entre a corrente “austríaca” e o keynesianismo.

‘Não sei o que é uma bolha’, dizia Fama

Ainda o auge da crise financeira não estava muito distante, Eugene Fama dizia em entrevista que me concedeu publicada no Expresso, em setembro de 2009, que o colapso no ano de 2008 nada tinha a ver com a sua teoria e que a culpa era precisamente dos agentes no mercado financeiro que não acreditam que os mercados são eficientes. Declarava, na entrevista, “eu venci” no debate académico, e reclamava que a sua hipótese (conhecida pela sigla inglesa EMH, de Efficient Market Hypothesis) “fornece um bom ponto de vista sobre o mundo para quase todos os aspetos práticos”.

Ver Entrevista de Eugene Fama — versão em inglês publicada em 6/Set/2009

Um resultado da teoria da “eficiência” é que situações como as “bolhas” financeiras seriam difíceis de identificar. Aliás, Fama diria numa entrevista ao “New Yorker”, em janeiro de 2010, que “não sei sequer o que uma bolha quer dizer”. E remataria: “Essa palavra tornou-se muito popular, mas eu não penso que tenha qualquer significado”.

O economista Peter Radford ironizava, por ocasião da atribuição deste prémio, no blogue da Real-Word Economics: “É um prémio póstumo à EMH. É atribuído por trabalho muito árduo em prol de uma teoria hoje desmascarada”.

O prémio, contudo, é atribuído ao trabalho original de 1965 e 1969, derivado da tese de doutoramento de Fama, e que apontava para ser quase impossível os agentes no mercado predizerem, no curto prazo, os preços dos ativos. A partir desta verificação emergiram, no terreno prático, os fundos que procuravam replicar os movimentos dos índices dos mercados financeiros, índices que agregavam muito rapidamente toda a informação disponível, no entender de Fama.

Os ‘espíritos animais’ de Shiller

No outro lado da ponte, Shiller que, em entrevista que me concedeu publicada no Expresso em 2000, face aos primeiros sinais do colapso da “bolha” da Nova Economia, dizia que “a Web encorajou sonhos extravagantes”, no momento em que lançara uma das suas obras mais populares intitulada precisamente “Exuberância Irracional”. Dizia ele ao Expresso: “É verdade que muita gente está a adotar estratégias de investimento muito arriscadas. Talvez não seja uma estratégia suicida – mas, diria, que estão a atravessar alegremente uma ponte indo em cima do parapeito”. Sabe-se como, depois, se estatelaram.

Ver Entrevista com Robert Shiller em abril/maio de 2000

Este académico é associado à corrente das “finanças comportamentais”, ou da psicologia social aplicada aos mercados financeiros, que considera que o comportamento dos “agentes” se move por “espíritos animais” (uma expressão que vem do latim, usada por Keynes em 1936 na “Teoria Geral” para descrever as emoções que marcam o comportamento humano também na área da economia e da finança). O que leva a que, no longo prazo, o comportamento dos índices dos mercados financeiros esteja pejado de euforias e de colapsos, com períodos revelando enorme volatilidade. Shiller acentuou que essa “dinâmica social” era o padrão – bem longe de qualquer “eficiência” nata – e que os investidores tinham acessos do que poderia ser considerado “irracionalidade”, tanto na euforia como no pânico. Os comportamentos bipolares dos investidores derivam do “pensamento de grupo” ou do “comportamento em manada”, como se referia na entrevista ao Expresso.

Os economistas que entendiam os mercados financeiros como tendo uma dinâmica histórica de “flutuações” acentuadas, como a verificada empiricamente por Shiller, e descrita desde 1981, alertaram nos últimos quinze anos para um colapso da euforia das dot.com e depois para a iminência de uma grande crise financeira e económica similar à de 1929/1933. Um dos académicos que chamara a atenção, desde 1974, de que um novo “1929” poderia voltar a acontecer foi Hyman Minsky, falecido em 1996, com cuja “hipótese da instabilidade financeira” Eugene Fama, na entrevista ao Expresso, admitiu “não estar familiarizado”.

No entanto, falar de “espíritos animais” e da “loucura das multidões”, citar Maynard Keynes para sublinhar que, de tempos-em-tempos, os “agentes” no mercado financeiro ficam “irracionais” e dão cabo do “equilíbrio geral” que era suposto funcionar, não esclarece sobre a matéria substantiva, ou seja, sobre os mecanismos causais que levam os “agentes” a agir como agem em determinados períodos, de euforia ou de pânico.

Como refere Philip Mirowski em “Never Let a Serious Crisis Go To Waste” (obra publicada em 2013), o que é que a “finança comportamental” esclarece sobre o processo de financeirização nas últimas décadas que levou à criação dos credit default swaps, ao crescimento do “sistema sombra” financeiro, às mais diversas inovações de estranhos derivados financeiros? Nada. E nem lhe competiria, disseram dois “comportamentalistas”, George Lowewenstein e Peter Ubel, numa coluna no “The New York Times” (10 de julho 2010): “Está a tornar-se claro que estão a pedir à [corrente da] economia comportamental para resolver problemas que não lhe compete (…) A economia comportamental deve complementar – e não substituir – intervenções económicas mais substantivas”.

Shiller ficou, também, conhecido nos mercados imobiliários por criar, com Karl E. Case, o índice de preços que leva o apelido dos dois, e que mede a evolução e mudanças do preço do imobiliário em 20 cidades dos Estados Unidos. O prémio atribuído a Shiller fez abrir muitas garrafas de champanhe nas firmas de consultoria nesta área.

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