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REVIVER O PASSADO EM GOA

Goa está semeada de igrejas. Quando menos se espera, surge uma cúpula ou uma torre sineira por entre a vegetação tropical de coqueiros e palmeiras. O património de 450 anos de história em comum entre a Índia e Portugal está a ser preservado como um dos mais valiosos atractivos turísticos do território.

Texto e fotos: Alexandre Coutinho

Forte Chapora, construído pelos portugueses em 1617 Os meses de Outubro e Novembro marcam o arranque da "época alta" do turismo em Goa. Este ano, são esperados mais de 200 mil visitantes, transportados em 850 aviões "charter". «Só não vêm mais porque há falta de "slots" no aeroporto de Dabolim e de alojamentos», garante ao jornal "The Navhind Times", Ernest Dias, vice-presidente da Associação de Viagens e Turismo de Goa. Ingleses, russos, alemães, suecos, finlandeses, dinamarqueses e espanhóis são, por esta ordem, os turistas que mais visitam o território. «Os portugueses são poucos, porque não há voos "charters" directos», justifica outro operador.

Praia de Anjuna, paraíso dos hippies A população acolhe de braços abertos os visitantes, com a boa disposição indiana, aliada aos traços de hospitalidade herdados dos portugueses. Aguiar, Aleixo, Almeida, Coutinho, Cunha, Furtado, "Gonsalves", Mascarenhas, Melo, Menezes, Noronha, "Olivero", Ressurreição, Rodrigues, Silva e Souza são os apelidos que mais se vêem nos estabelecimentos comerciais. Um taxista garante que 5% da população fala português, mas só os goeses mais velhos "arranham" ainda umas palavras. A maioria nem consciência tem da origem do seu apelido. «E em Portugal, também falam Concani?» - pergunta o mesmo taxista em inglês. Respondo-lhe que não e ele, que acha que os portugueses são como os indianos, manifesta a sua surpresa: «O quê? Nem 1%?»

Em Pangim (capital do Estado de Goa) há missa em português, aos domingos, na Igreja da Imaculada Conceição. Independentemente do idioma, as igrejas estão repletas e as mulheres vestem as melhores saias e saris para ir à missa dominical. Estima-se que os católicos correspondam, actualmente, a 30% da população de Goa, contra 60% de hindus e 10% de muçulmanos.

Apesar da urbanização crescente, a cidade ainda conserva muitos edifícios de traça colonial portuguesa (especialmente, nos bairros de S. Tomé e das Fontainhas), a maioria a necessitar de urgentes trabalhos de conservação, sob pena de verem ruir as suas características varandas de madeira. E, a cada esquina, encontram-se verdadeiros tesouros. As paredes do átrio do edifício onde está instalado o Instituto Menezes Braganza, conservam belíssimos painéis de azulejo que retratam várias cenas dos Lusíadas, como a chegada de Vasco da Gama à Índia.

Memórias do Império

Igreja de Saligão, uma combinação de arquitectura ocidental e hindu Pangim tornou-se na capital administrativa de Goa, em 1843, mas a Velha Cidade de Goa continuou a ser o centro religioso do antigo território português. Com cerca de 300 mil habitantes, nos seus tempos áureos (século XVI), era maior que Madrid e tão populosa como Lisboa. Embora nada subsista das ruas desta cidade - à excepção da imponência das suas igrejas, com destaque para a Basílica do Bom Jesus, a Igreja e Convento de S. Francisco de Assis, a Sé Catedral, a Igreja de S. Caetano e as ruínas da Igreja de Stº. Agostinho - é difícil de acreditar que a chamada "Roma do Oriente" rivalizasse com a capital do reino, como diziam os cronistas da época: «quem viu Goa, não precisa de ver Lisboa». Hoje, é Património Mundial da Humanidade.

Igreja da Imaculada Conceição, em Panjim No primeiro piso do museu instalado no convento adjacente à Igreja de S. Francisco de Assis, desfilamos perante os retratos dos vice-reis e governadores de Goa, cuja jurisdição incidia sobre todo o Império português no Oriente: da costa oriental africana (Sofala, Ilha de Moçambique e Mombaça) até Macau e Timor, passando pelos enclaves de Ormuz e Mascate, no Golfo Pérsico e pelos territórios de Damão, Diu, Baçaim, Cochim e Malabar, nas costas indianas. O rés-do-chão é dominado pela enorme estátua de bronze do poeta Luís de Camões, uma oferta do "Diário Popular", em 1960, apenas um ano antes da entrada das tropas indianas em Goa...

Mais a Sul, a poucos quilómetros de Chandor, situa-se o palácio da família Menezes Braganza, o maior e o mais rico de Goa. Foi construído no século XVII e, posteriormente, ampliado. Apesar dos seus 86 anos, Aida de Menezes Braganza (celebrizada há uns anos no documentário "A Dama de Chandor", de Catarina Mourão) ainda revela um imenso prazer em percorrer as salas e salões da ala Oeste do velho palacete com os visitantes, por entre mobiliário indo-português em pau-rosa, jarrões chineses, um serviço de louça japonês, vidros de Murano e lustres de cristal encomendados na Bélgica. O chão do salão de baile é de mármore italiano e a biblioteca conserva mais de cinco mil obras, em diversas línguas. Na ala Este, os outros herdeiros da família, revelam os segredos da capela do palácio (uma relíquia de S. Francisco Xavier).

A caminho da região Norte de Goa, avistam-se igualmente muitas igrejas e conventos portugueses perdidos na vegetação, mas relativamente bem conservados. São os casos da Igreja da Mãe de Deus, em Saligão (construída em 1873), a melhor síntese entre o estilo ocidental neo-gótico e a arquitectura inspirada nos templos hindus; e da Igreja da Nossa Senhora de Penha da França, na aldeia de Britona, mesmo junto ao rio Mandovi.

Cuidado com a vaca!

Bairro das Fontainhas, em Panjim "Horn please" ("apite por favor") é o aviso que se pode ler na retaguarda de todos os camiões. E não hesite em fazê-lo antes de ultrapassar qualquer veículo, entrando no verdadeiro "concerto" de buzinas que caracteriza o trânsito caótico indiano. A Índia é o país onde a vaca foi eleita o animal sagrado por excelência (sob a crença que a presença de Deus se manifesta em todos os seres vivos) e pode fazer tudo o que quer sem ser minimamente incomodada. Assim, é normalíssimo encontrar vacas no meio do trânsito citadino ou a vasculhar nos contentores do lixo, obrigando os condutores dos veículos a fazer autênticas "gincanas" para evitá-las. Manadas de vacas percorrem as estradas e as ruas ao ponto de obrigarem o trânsito a parar. Todas as vacas errantes têm dono, mas são poucas as que estão presas nas bermas ou nos pastos. Até há vacas nas praias!

Praia de Vagator As praias de Goa correspondem ao cenário de postal ilustrado com muitos coqueiros e vegetação luxuriante, mas alguns banhistas poderão ressentir-se da areia escura e grossa (que resulta de um amontoado de conchas partidas), bem como do lixo que as ondas atiram para a costa com a maré. Nas praias a Norte de Calangute e de Baga, há também famílias a viver nas praias, em barracas quadradas com paredes de bambu entrançado e telhados de zinco. São, na sua maioria, vendedores ambulantes de artesanato e das "bugigangas" mais diversas.

De Anjuna (celebrizada pelas dezenas de "hippies" que frequentam o seu mercado de artesanato, à quarta-feira), às praias de Ozran e Vagator, toda a costa Norte está marcada por pequenos cruzeiros brancos. Lá no alto, o Forte de Chapora ainda impressiona pela sua imponência e posição estratégica. Foi construído pelos portugueses em 1717, sobre as ruínas de um antigo bastião erigido pelos sultões Xás Adil (o nome deriva de "shahpura" ou "cidade do Xá"). Hoje, apenas dois baluartes de vigia se mantêm intactos, mas ameaçando ruína, vítimas da erosão do tempo.


BLOCO NOTAS

País: União Indiana (República Federal - 26/1/50).

Área: 3268090 km2 (Goa - 3702 km2).

População: 1103 milhões de habitantes (Goa - 1,3 milhões).

Capital: Nova Deli (19,7 milhões de habitantes).

Moeda: Rupia (1 euro = 57 rupias).

Idiomas (principais): Hindi, Urdu, Bengali, Kanada, Concani (Goa) e Inglês.

Vacinas: Febre amarela e hepatite.

Hora: GMT +4h30.

Documentos: Passaporte e seguro de viagem.

Guias: Lonely Planet e Footprint.

Clima: Tropical moderado ao longo de todo o ano, embora a temperatura e a humidade possam aumentar consideravelmente de Abril a Junho (meses que antecedem as monções). De Julho a Setembro, as chuvas (por vezes, torrenciais) tornam a estadia menos agradável do que nos meses de Inverno.

Vestuário: O mais simples e leve possível, mas procurando evitar os calções e as T-shirts de alças nos centros urbanos. As mulheres estão sujeitas a maiores limitações e devem evitar roupas transparentes ou demasiado justas ao corpo. De preferência, deverão usar saias compridas, camisas de manga e lenços para cobrir os ombros. Na praia podem usar bikini, mas o "topless" e o nudismo estão proibidos.

Conselhos úteis: Descontracção, espírito de tolerância e alguma paciência, são os requisitos necessários para uma boa adaptação aos usos e costumes da sociedade indiana. Observe o código de conduta apropriado em matéria de vestuário; descalce os sapatos à entrada dos templos hindus, da maioria das casas e em alguns estabelecimentos; respeite a privacidade das pessoas e peça autorização antes de fotografá-las; não beba água da torneira (lave os dentes com água mineral e feche a boca no chuveiro), recuse os cubos de gelo nas bebidas e não coma alimentos mal cozinhados (como carne mal passada), crus ou frutas com casca.

Gastronomia: Embora a cozinha goesa esteja em risco de perder a sua especificidade com a globalização crescente, ainda é possível provar em alguns restaurantes especialidades que resultam da fusão da exuberante cozinha indiana com os brandos costumes portugueses (que a tornam menos picante e mais saborosa). "Cabidel", "fejuade", "calde" verde, "recheiados", sarapatel, vindalho ou vindaloo, balchão, caril e chacuti e assado de bife, são algumas das receitas que poderá degustar. Goa é umas das poucas regiões da Índia onde é possível comer carne de vaca e excelentes camarões, lagostins, lagosta e peixes grelhados (atum, douradas, chaputas, pargos, etc...). Nas sobremesas, não perca a deliciosa bebinca, o tradicional bolo feito às camadas ao longo de várias horas, só possível com a paciência e o lento correr do tempo de Goa.

Pontos de interesse: Museus e igrejas da Cidade Velha de Goa e de Pangim; Bairro das Fontainhas, em Pangim; Forte Aguada e Forte Chapora; Casa da família Menezes Braganza, em Chandor; os templos hindus de Shri Mangesh, Mahalsa e Ganesh, na zona de Ponda; a Sahakari Spice Farm, em Curti; e as praias de Calangute, Baga, Anjuna, Ozran e Vagator.

Alojamentos:

  • Hotel Mandovi (***) - D. Bandokar Marg, Pangim - Tel.: 832-2426270.
  • Goa Marriot Resort (*****) - Mandovi river, Pangim - Tel.: 832-2463333.
  • Dolrina Guest House (*) - House nº536, Vagator - Tel.: 832-2273382.
  • Cafés e restaurantes:

  • Kamat (vegetariano) - Jardim Municipal, Pangim - Tel.: 832-2226116.
  • Longuinhos - Praça Jorge Barros - Tel.: 832-2739908, Margão.
  • Souza Lobo - Calangute - Tel.: 832-2281234.
  • Tin Tin Bar e Restaurante - Vagator.
  • Charles Bar e Restaurante - Ozran
  • salão de chá do Solar de Souto Mayor, na Cidade Velha de Goa - Tel.: 832-5614524.
  • Como chegar: De avião, com a Air France, a Lufthansa, a KLM ou a British Airways até Bombaim e, depois, com a Jet Airways, a Sahara, a Kingfisher ou a Indian Airlines para Goa.

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