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O DESPERTAR DOS SENTIDOS
Imagens e instantes de uma manhã no mercado

Texto e fotos: Alexandre Coutinho

Bem cedo, pela manhã, a actividade fervilhante do Mercado da Ribeira, em Lisboa, desperta os sentidos adormecidos (foto 1). A grande maioria dos vendedores chega muito antes do nascer do sol. As camionetas e carrinhas acotovelam-se na avenida 24 de Julho e nas ruas que ladeiam o mercado, na ânsia de descarregar os bens preciosos que transportam. Multiplica-se o vaivém dos carrinhos e também há quem não hesite em carregar os fardos ao ombro ou à força de braços (foto 2).

Chegadas às respectivas bancadas, as hortaliças libertam-se do jugo opressor dos atilhos com que viajaram até ao mercado e respiram, ofegantes, por uma última vez, antes de entrar no saco da freguesa. Os cheiros da fruta e dos legumes no Mercado da Ribeira são algo que os hipermercados nunca sonharam ter (foto 3).

Os primeiros clientes regulares não tardam a chegar. São os fregueses habituais dos restaurantes de Lisboa, velhos conhecidos, amigos de longa data, cúmplices de muitos negócios, profundos conhecedores do mercado e os mais exigentes em matéria de qualidade. Quer seja para um estabelecimento de luxo, um restaurante popular ou uma simples tasca, esta relação privilegiada trará proveito aos seus comensais, isto é, o consumidor final.

Subitamente, os raios de sol irrompem pelos telhados de vidro e iluminam todo o recinto. Marcam a transição da noite para o dia. Os ensaios estão concluídos e os actores podem dar ínicio ao espectáculo (foto 4).

Para as gentes do mercado, a primeira "bucha" do dia é comida às 8h da manhã, num dos cafés que partilham o recinto. É tempo de recobrar do esforço dispendido e ganhar ânimo para completar a jornada. Várias gerações de vendedores cruzam-se naquele espaço. Os mais velhos recordam com saudade o bulício de antigamente, quando as frutas e legumes chegavam de carroça ou de burro, e temem pelo seu desaparecimento, em favor do novo mercado abastecedor gigantesco recentemente construído nos arredores de Lisboa. No fim do ano, o Mercado da Ribeira vai fechar para obras e reabrir como simples praça para retalhistas, alargando a sua vocação de espaço cultural (exposições, feiras de livros ou passagens de modelos) (foto 5).

O peixe respira, ainda, o mar salgado que o viu crescer: as sardinhas reflectem os primeiros raios do dia; os peixes espada contorcem-se nas caixas (foto 6); o tamboril prepara-se para ser esquartejado; o polvo exibe-se, poderoso, no entrelaçar dos seus tentâculos (foto 7); e a pescada resigna-se à sua sorte - qual é o peixe, qual é ele, que antes de o ser já o era.

Voam no ar as primeiras escamas, ao som dos estalidos libertados pelo atrito eficaz da escova de pregos da peixeira. Do outro lado da praça, começa o concerto dos talhantes que atacam a golpes de cutelo bem afiado as primeiras peças de carne, transformando-as em lombos, bifes da vazia, do pojadouro e da rabadilha, costelas e picado.

As frutas alinham-se nas bancadas para mais um concurso de beleza. Misturam-se os aromas mais exóticos e as cores mais viçosas, num chamariz irresistível para quem sobre os pequenos lançes de escadas em busca de melhor luz. Os azulejos assinados por Frederico Ressano Garcia ainda constituem um dos melhores ex-libris deste mercado, um edifício inaugurado em 1882.

Na luz ainda difusa da manhã, outro vendedor alinha pacientemente os ovos de acordo com o seu tamanho. Neste jogo de luz e sombra, não repara que a sua careca reluzente ganha os contornos de ovo gigante, balançando para trás e para diante (foto 8 e foto 9).

Os telemóveis já foram totalmente adoptados como instrumentos de trabalho, a par da indispensável caneta e dos livros de deve-e-haver (foto 10).

Mas, as mais belas das belas, são as flores. Em largos ramos ou em simples molhos agrupados por famílias, a mistura de odores é inebriante e cada uma procura destacar-se sobre as demais. A escolha é difícil. As rosas defendem a sua postura de rainhas; os cravos unidos gritam pela sua liberdade; os gladíolos conservam o seu porte aristocrático; as gerberas lutam lado a lado com as margaridas e os malmequeres por um lugar ao sol; enquanto as camélias e as dálias conversam tranquilamente nas suas cestinhas.

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