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NOS CONFINS DA PATAGÓNIA

Verdadeira espinha dorsal, os Andes (com picos acima dos sete mil metros) fazem da Patagónia um território de extremos naturais: a Oeste, a faixa de montanhas chilenas densamente povoadas de florestas; a Este, a meseta semi-árida argentina.

Texto e fotos: Alexandre Coutinho
Texto originalmente publicado na Revista do Expresso

UM ESTRONDO ensurdecedor rasga subitamente o silêncio, vibrante e aterrador como um trovão. A pouco mais de 200 metros do glaciar, as atenções centram-se de imediato no último desprendimento de gelo que se abate sobre as águas dos lagos Brizo Rico e de Los Tampenos. A violência do desmoronamento desfaz a parede do glaciar num misto de estilhaços de gelo e de grandes blocos, que partem à deriva feitos icebergs, numa longa e inexorável transformação em água.

glaciar Perito Moreno O glaciar Perito Moreno, um dos últimos glaciares vivos do planeta, estende-se numa frente de cinco quilómetros que avança continuamente sobre o lago Argentino. Sob a pressão incalculável do glaciar, a falésia de gelo estala e não resiste ao estrangulamento das montanhas que formam as margens do lago, ao choque térmico e à fusão das suas moléculas em água. Ciclicamente (o último caso ocorreu em 1988), as tensões acumuladas nesta luta de titãs provocam um desprendimento geral de toda a parede, que atinge, em média os 50 a 60 metros de altura. Um dia, o degelo dos glaciares da Patagónia será um barómetro do aquecimento global do planeta.

lago GreyUm pouco mais a Sul, já do lado chileno, pontifica o glaciar Grey, no centro de um estonteante desfilar de vales, lagos, rios e montanhas que constituem o Parque Nacional de Torres Del Paine. Criado em 1959 e declarado «reserva da bioesfera» pela UNESCO, em 1978, é conhecido pelos seus penhascos («Cuernos del Paine») que se elevam a 2600 metros. É, provavelmente, o melhor parque natural de toda a América do Sul. Os seus 240 mil hectares abrigam mais de uma centena de espécies de aves e duas dezenas de mamíferos, entre os quais pumas, raposas, lebres, veados e guanacos. O Guanaco (da família dos lamas) é um dos animais mais emblemáticos da Patagónia. Desloca-se, geralmente, em manadas de 20 ou 30 indivíduos, mas não é díficil encontrar animais isolados. Nas montanhas e ao largo da costa, avista-se com frequência o rei dos Andes, o condor, com o seu voo majestoso e uma envergadura de asa que pode chegar aos três metros.

o gelo milenar do glaciar Dependendo das definições, a Patagónia é a região mais austral da América do Sul, rodeada pelos oceanos Pacífico e Atlântico e tendo por limites, a Norte, os rios Colorado e Bío-Bío. Esta enorme península com mais de um milhão de quilómetros quadrados corresponde a um terço do Chile e da Argentina, mas é habitada por apenas cinco por cento da população dos dois países. Verdadeira espinha dorsal, os Andes (com picos acima dos sete mil metros) fazem da Patagónia um território de extremos naturais: a Oeste, a faixa de montanhas chilenas densamente povoadas de florestas; a Este, a meseta semi-árida argentina.

«Em Puerto Montt, só temos duas estações: a do Inverno e a dos comboios», o comentário ouvido da boca de um guia turístico poderá, certamente, ter algo de exagerado. Mas o vento frio e a chuva que cai ininterruptamente naquela manhã de Agosto (Inverno, no Hemisfério Sul), faz temer o pior relativamente ao clima na Terra do Fogo. As próprias casas de madeira (a matéria-prima por excelência da região) são pintadas das mais variadas cores para contrastar com o tempo frio e cinzento. As temperaturas médias não ultrapassam os 10 graus centígrados, no Verão e os zero graus, no Inverno. Os ventos sopram com maior intensidade na Primavera e no Verão e as precipitações anuais são da ordem dos 600 milímetros.

Deixando para trás a civilização, é o regresso aos grandes espaços, às paisagens de abrir grande os olhos e deixar fluir os pensamentos sem que estes se fixem numa qualquer referência conhecida. Apesar de deslumbrante, a região nunca recuperou da catástrofe ecológica da queima da floresta nativa pelos pioneiros, no ínicio do século. O objectivo era o de desbravar o mato para abrir campos de pastagens e culturas, mas ninguém contava que o clima conservasse os troncos caídos ao longo de décadas. Ainda hoje, largas extensões da patagónia chilena são constituídas por vastos cemitérios de árvores centenárias. Estima-se que foram destruídos, desta forma, mais de dois milhões de hectares de floresta virgem.

Ao passar, de novo, a fronteira para a Argentina, a paisagem muda radicalmente. De um lado, a floresta e as encostas de montanha batidas pelo vento e pela neve, do outro, a paisagem sem fim de um deserto de pedras ou as pampas de vegetação rasteira, uma planície apenas entrecortada por rios e desfiladeiros. Ao longe, o cone e a cratera de um vulcão extinto.

As pistas são largas, com bom piso, mas traiçoeiras nas curvas e nos desníveis. Apesar das distâncias, estas pistas estão perfeitamente sinalizadas, ao contrário do que sucede no Perú e na Bolívia. No ar, o pó típico a toda a região andina, entra progressivamente no carro, nas roupas e, claro, no nariz.

À entrada do Parque Nacional de Pali-Aike, três jovens raposas Zorro Gris aguardam com muita curiosidade a azáfama dos fotógrafos para captar a sua imagem através das objectivas. Foram introduzidas pelos colonos com a missão específica de neutralizar a população excedentária de lebres, também elas, introduzidas pelos pioneiros uns anos antes. Este é, por excelência, o território dos nandús, primos das avestruzes africanas, mas bem mais pequenos.

«pampa» argentina Subitamente, as montanhas dos Andes desaparecem, dando lugar a uma «pampa» a toda a largura do horizonte e uma costa entrecortada por múltiplos riachos e estreitos que o mar envolve tranquilamente. Chegámos ao fim da América do Sul, enquanto continente e, finalmente, ao célebre Estreito de Magalhães. Do outro lado, a ilha da Terra do Fogo, baptizada com este nome por Fernão de Magalhães, dada a enorme quantidade de fogueiras acessas pelos índios Onas e Yamana nas suas margens. Os índios mantinham-nas acessas noite e dia, como forma de protecção contra o frio e para cozinhar os alimentos.

Atravessámos o estreito de «ferry boat» (cerca de 20 minutos) na sua zona mais estreita, para Punta Delgada. De Punta Arenas a Porvenir, a largura do estreito requer quase duas horas para ser transposta. «Las Malvinas son argentinas», pode ler-se em todos os postos fronteiriços e zonas militares. Nas principais localidades existem memoriais à guerra das Malvinas que opôs a Argentina ao Reino Unido em 1983, com palavras de ordem e de vingança de uma derrota mal digerida. Por outro lado, a definição da fronteira entre o Chile e a Argentina no labirinto de ilhas e estreitos da Patagónia, constitui um quebra cabeças que está longe de ser resolvido a contento de ambas as partes. Herança da guerra ou simples estratégia de intimidação do «inimigo», largas faixas da margem do Estreito de Magalhães estão minadas, mas devidamente sinalizadas para evitar acidentes com a população local. Curiosamente, a grande maioria nem sabe que Hernando de Magallanes era um navegador português.

A Terra do Fogo é uma ilha sensívelmente do tamanho da Irlanda, que constitui como que uma miniatura de toda a Patagónia. A fronteira foi traçada à régua, deixando a metade ocidental no Chile (região de Magallanes) e a metade oriental à Argentina (Provincia Tierra Del Fuego). O Norte é muito menos montanhoso do que o Sul, estendendo-se ao longo de muitas pastagens para gado ovino e bovino. A estrutura agrária está organizada em «estâncias» que adoptam designações inspiradas nos ranchos norte-americanos (Flórida, Califórnia, etc...). Aqui as pistas de terra são mais estreitas, mas rolantes, ondulando com a orografia do terreno. A ilha também foi cenário de uma corrida ao ouro, da qual ainda existem ferrenhos resistentes, apesar do filão ter acabado há muito. Marco histórico dessa época aúrea, a draga mineira construída no Reino Unido, em 1910 e despachada de barco para a Terra do Fogo, que jaz no leito seco de um rio outrora próspero.

Ushuaia Aparecem os primeiros lagos gelados e tudo indica que as montanhas vão regressar à paisagem. Finalmente, Ushuaia («baía que penetra até ao poente», na língua dos índios Yamana). A cidade mais meridional do planeta foi erigida numa belíssima baía do Canal Beagle e está rodeada por montanhas cobertas de neve (neva quatro a seis meses por ano e chove copiosamente durante todo o Inverno).O cenário ultrapassa tudo o que o visitante esperaria do fim do mundo, a escassos 130 quilómetros do Cabo Horn e a pouco mais de mil quilómetros da Antártida.

Fundada a partir de uma missão anglicana, em 1871, Ushuaia foi escolhida, no ínicio do século para a construção de uma colónia penal para condenados a penas pesadas ou a prisão perpétua. A história da Terra do Fogo esteve sempre ligada ao mar (até 1948, data do começo dos primeiros voos comerciais, a única ligação ao continente era feita de barco) e Ushuaia cedo ganhou galões como base naval da Marinha Argentina (1950). A cidade foi sempre crescendo ao ponto de ter duplicado a sua actividade nos últimos 12 anos. Hoje, vivem na cidade entre 42 e 45 mil pessoas e chegam continuamente novos habitantes. Como capital da Província da Terra do Fogo, alberga cerca de cinco mil funcionários públicos e, como zona livre de impostos, não tardou em atrair as mais variadas indústrias, com destaque para a electrónica (Aurora Grundig, Toshiba e Philco), a pesca e o turismo. É a província argentina que apresenta o maior índice de crescimento anual: 30 por cento, em 1997.


BLOCO NOTAS

Regiões: Patagónia e Terra do Fogo (Chile e Argentina)

Área: 1000000 km2

População: 2,5 milhões de habitantes

Cidades principais: Puerto Montt, Coihaique, Puerto Natales, Punta Arenas, Porvenir (Chile); S. Carlos de Bariloche, Esquel, Perito Moreno, Tres Lagos, El Calafate, Rio Gallegos, Rio Grande, Ushuaia (Argentina)

Moedas: Peso chileno (câmbio médio, em 1998: 1 escudo = 3 pesos), peso argentino (câmbio médio em 1998 idêntico ao dólar: 1 peso = 180 escudos) e dólar norte-americano

Idiomas: Castelhano

Vacinas: Nenhuma obrigatória

Documentos: Passaporte e seguro de viagem

Hora: GMT -5 (Argentina) e GMT -6 (Chile).

Mapas:

  • Bartholomew — Argentina, Chile, Paraguay e Uruguay (1:5000000)
  • Guias:

  • Lindenmayer, Clem — Trekking in the Patagonian Andes — Lonely Planet
  • Acessos: Por avião, a partir de Santiago do Chile para Puerto Montt, Puerto Natales ou Punta Arenas; a partir de Buenos Aires para S. Carlos de Bariloche e Ushuaia, com ligações para os pequenos aeródromos locais. Por estrada, ao longo dos 900 quilómetros da Ruta 40 (de Esquel a Calafate) e pistas de terra batida ou de montanha. De «ferry boat» para a Terra do Fogo, no Estreito de Magalhães, de Punta Arenas para Porvenir e em Punta Delgada.

    Clima: Frio e seco, com temperaturas médias de 10º centígrados no Verão e 0º centígrados no Inverno, mas com uma amplitude anual que pode variar entre os 30º e os -20º. O vento é uma constante na Patagónia, especialmente na Primavera e no Verão, com chuva e neve nos pontos mais altos. A influência marítima sobre a região torna o clima imprevisível, mas a melhor época para a visitar é seguramente o Verão (Dezembro a Março).

    Equipamento indispensável: Malas ou sacos de viagem com fechos, vestuário desportivo, agasalhos, blusão, impermeável, botas de «trekking» ou «randonnée», chapéu ou gorro de lã, óculos de sol, cantil, canivete suíço, lanterna, bolsa de primeiros socorros, protector solar, binóculos, máquina fotográfica e câmara de vídeo. No Inverno, a roupa térmica interior é indispensável, bem como os forros polares, uma «parka» impermeável, luvas e botas de montanha.

    Código de preservação: A Patagónia é uma das últimas reservas da bioesfera e cerca de dois terços da sua área são constituídos por duas dezenas de parques e reservas naturais. Não faça fogueiras. Não fume ou apague cuidadosamente todos os cigarros. Transporte todo o lixo até encontrar um recipiente próprio. Não alimente os animais.

    Endereços úteis:

  • CONAF (Corporación Nacional Forestal), administração dos parques chilenos, com sede em Santiago (Av. Bulnes, 285 - 7º — Tel.: 60783) e delegações nas principais vilas e cidades da Patagónia.
  • Servicio Nacional de Parques Nacionales, na Argentina, com sede em Buenos Aires (Santa Fé, 680) e delegações na Patagónia.
  • Dirección Municipal de Turismo de Ushuaia (San Martin, 674). Tel.: 54 (901) 32000
  • Instituto Fueguino de Turismo (Av. Maipú, 505 - Ushuaia). Tel.: 54 (901) 23340
  • Patagónia
  • www.lapatagonia.com/general.htm (mapa interactivo)
  • www.australis.com
  • www.patagonia-travel.com
  • www.pbs.org/edens/patagonia/links.htm
  • www.laguna.se/latincom/pat.htm
    Patagónia chilena
  • www.chileaustral.com
    Centro Patagónia
  • http://192.41.40.216/c-pat/cp-htm/cp-home.htm
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